CRÔNICAS: PAÍS RICO, POR LIMA BARRETO

Continuando com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 5ª crônica da série,  uma bela homenagem para o imortal Lima Barreto, com a crônica “País rico”, de sua autoria. Boa leitura!

5. País rico – Lima Barreto

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– — Não há verba; o governo não tem dinheiro
– — E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…

O texto em questão foi escrito por Lima Barreto em 1920 e pode ser lido em Crônicas Escolhidas, publicado em 1995, que reúne parte da produção do célebre escritor.

Lima Barreto foi um autor bastante atento e questionador, contribuindo significativamente para pensar o Brasil de um ponto de vista crítico, trazendo questões como a desigualdade e a pobreza.

O sociólogo e crítico literário Antônio Candido descreve Lima Barreto da seguinte forma:

“Mesmo nas páginas breves, entendia, sentia e amava as criaturas mais insignificantes e comuns, os esquecidos, os lesados e os evitados pelo establishment.”

Assim, nesse texto – infelizmente ainda atual – nos deparamos com uma crítica ácida ao governo brasileiro do início do século XX, em que as prioridades são para coisas superficiais, enquanto os serviços públicos que deveriam funcionar são deixados de lado.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: CAROLINA, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira trás mais uma incrível história da nossa ex-colaboradora e competentíssima escritora na Madalena, ainda inédita aqui no Blog do Saber. Trata-se de um triângulo amoroso extraordinariamente bem pensado pela autora difícil de qualquer afegão médio imaginar. Por isso convido você a ler essa crônica maravilhosa e se divertir a valer! 

Triângulos amorosos: quem nunca?

Carolina


Segundo uma lenda japonesa, as pessoas são unidas por um fio vermelho, um fio que nos liga a pessoa que estamos predestinadas, não apenas de forma romântica. Eu não acredito em destino; se assim fosse, nós seríamos passivos e inertes esperando pelo futuro. Nunca me imaginei carregando um fio, procurando a quem me amarrar…

– Eu posso ter dez minutinhos de sua atenção? Sei que o que tenho a dizer não interessa a nenhum de vocês, mas é por isso mesmo que quero sua ajuda. Eu me chamo Júlia, sou uma mulher independente, solteira e com muitas dúvidas. Sou filha única e, talvez por isso, tenha me acostumado com o silêncio da casa dos meus pais. Aos 25 anos resolvi morar  sozinha, ter meu cantinho e detesto que invadam minha privacidade. Já tive alguns relacionamentos, mas não prosperaram. Confesso que sou muito exigente, não dou atenção a qualquer um. O que espero de um homem é que ele tenha, pelo menos,  uma boa interlocução, algo raro nos ambientes que frequento, cheios de pessoas da geração “mimadium”, que, incapazes de passar por alguma rejeição, já ficam cheios de mimimi.  Mas, apesar de todo esse meu discurso, há dois anos eu quebrei a cara!

Conheci André e me encantei!  Ele parecia ser um homem maduro, muito familia, além de extremamente romântico. Nós nos dávamos super bem, ele sempre me elogiou muito, o tipo de homem que valoriza a mulher. Ele, apesar de ter seu apartamento, sempre preferia passar o fim de semana comigo, quando fazíamos programas bem caseiros.  Tudo estava indo bem até que há um ano ele foi dispensado do emprego, onde trabalhava com informática.

Ele me propôs morarmos juntos e eu, apesar de não achar o momento para isso, afinal ele estava desempregado, me iludi achando que ele estava fazendo planos para casarmos e aceitei na hora. Dormi com sonhos de Cinderela e acordei com pesadelos: muito cedo ele chegou com malas e cuias! Fiquei sem graça, mas ele veio com aquele papo de que poderíamos começar nossa vida ali no meu apartamento e depois partiríamos para um lugar maior. Tambem falou que seu contrato de aluguel estava expirando e, morando juntos, dividiríamos as despesas. Achei uma proposta razoável.

Mas, dois meses se passaram e ele não se movimentou para arranjar um emprego. Passamos a discutir por tudo, até porque ele não estava colaborando com despesa alguma. Como uma pessoa que acabou de receber a rescisão e estava no seguro desemprego, não tinha dinheiro nem para o cigarro? Resolvi ter uma conversa e ele, todo chateado e melindroso, disse o óbvio, que colaboraria mas, à partir daquele dia, coisas banais passaram a se tornar maiúsculas. Nessas alturas do campeonato, eu já estava cavando uma boa briga para ele ir embora.

Ele, percebendo algo no ar; disse que estava montando a própria empresa, que não estava inerte, como estava sendo “acusado”. Sugeriu colocar o escritório no segundo quarto do apartamento, onde era uma espécie de   closet. Mais uma vez fiquei sem graça em dizer não, mas diante da possibilidade dele conseguir clientes e resgatar sua auto estima, aceitei a proposta. Dois dias depois ele trouxe uma moça para ser sua secretária, alegando que ela trabalhara com ele e que era uma excelente pessoa e muito eficiente.  Falou também que ela tinha os dados dos clientes da empresa que fora dispensado e que iria propô-los o mesmo serviço, por um preço bem inferior. Tinha certeza que todos aceitariam. Ele faria as visitas aos clientes, abriria mercado e Carolina faria a parte burocrática. Apesar de eu ter várias ressalvas, reconheci, com o passar dos dias, que Carolina era um amor de pessoa,  além de extremamente organizada.

A empresa em pouco tempo começou a dar lucros; André, conseguiu captar uns 80% dos antigos clientes, além de ter aberto uma lista de novos contratos. Ele realmente era muito bom no que fazia. Carolina tambem se revelou uma profissional dedicada, além de ir além de sua funções; a gente quase não se encontrava: a hora que eu saía, ela estava chegando e vice versa. Ela se deixava presente em detalhes, como na louça que ficava na pia e ela sempre lavava ou quando eu chegava à noite e a mesa do jantar estava posta, às vezes com alguns mimos, tipo pães que ela comprava ou biscoitinhos.

Tudo parecia caminhar bem, até que um dia, precisei voltar mais cedo para casa e peguei meu namorado jogando videogame em pleno expediente. Carolina confidenciou  que ele jogava o dia todo e ela que fazia todo o trabalho, mal tirava meia hora para almoçar. Também disse-me que esse foi o motivo dele ter sido dispensado; várias vezes foi pego jogando. Fiquei indignada, mas aguardei um momento propicio para tocar no assunto.

Uma manhã ele veio com um papo que Carlolina tinha sido expulsa da casa dos pais porque estava grávida e que não tinha para onde ir. O namorado dela tinha sumido e ele, solidário ao problema, convidou para ela passar uns dias conosco, até arranjar um lugar para ficar. Na hora me senti duplamente chateada, afinal a casa era minha e eu tinha que ser consultada. Também não me agradava ter minha intimidade dividida com outra pessoa; como já disse, sou filha única e me acostumei a viver só. Mas, minha natureza de canceriana, com ascendente em todos os signos, fez eu aceitá-la como hóspede temporária.

O convívio com Carolina foi, para meu espanto, muito bom. Ela é uma pessoa leve, bem-humorada, que nunca pesa no ambiente. Por termos muito em comum, viramos amigas, tão amigas ao ponto de André ficar incomodado e terminar o nosso namoro. Confesso que estranhei, mas não achei ruim, foi até um alívio. Mas, com isso, ele também tirou a “empresa” e Carolina foi demitida. Achei isso de um mau-caratismo, afinal ela estava grávida… De certa forma, me senti responsável por ela.

Carolina agora está com oito meses de gravidez e decidiu saber o sexo do bebê: uma menina! Disse-me que vai se chamar Júlia, em minha homenagem. Fiquei emocionada! Mas, (sempre tem um mas…) Carolina resolveu ir embora; vai morar no sítio de uma tia, num vilarejo muito pobre. Confessou- me, para meu desespero,  que essa criança é filha de André e que ela não aguentava mais mentir para mim. Ela disse que quando ele soube da gravidez pediu que abortasse, que não queria filhos. Eu, depois de todo o relato, me senti novamente traída.

Confesso que não me agrada saber que Carolina, uma moça tão inteligente, terá que viver em um sítio, sem a menor possibilidade de um crescimento profissional, além de Julinha crescer num ambiente limitado. Por outro lado, meu coração já está tão apegado a Carolina e a essa menininha, que até pensei em considerar delas morarem comigo. Meu receio é que, caso ela aceite o convite, quando a criança nascer, André resolva assumí-la e tirar-me desse convívio. Fico triste só em imaginar…O que faço?  Será que esse é o tal fio vermelho do meu destino? Aguardo respostas!

Ana Madalena
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CIÊNCIAS: EXPERIÊNCIAS DE SUBMERSÃO DE TERRAS MANTIVERAM AS MEMÓRIAS VIVAS DE GERAÇÃO A GERAÇÃO

A ciência começa a levar mais a sério as histórias e lendas sobre civilizações que desapareceram sob as águas dos mares. Baseado em experiências de submersão e memórias vivas de histórias que passaram de geração a geração pesquisadores acreditam que no final da última grande era do gelo, há cerca de 18 mil anos, o nível médio do oceano estava 120 metros ou mais abaixo do que é hoje. Hoje, a superfície do oceano ao longo da maior parte das costas do mundo está subindo mais rapidamente do que há vários milhares de anos. A ansiedade está crescendo, especialmente diante das projeções científicas que envolvem a elevação do nível do mar em pelo menos 70 centímetros até o final deste século. Então convido você a ler o artigo completo a seguir e entender como foram transmitidas essas crenças  de geração para geração.

Crença em cidades submersas pode lançar luz em época de subida do mar

Experiências de submersão de terras foram tão impactantes que seus sobreviventes mantiveram as memórias vivas enquanto as histórias passavam de geração a geração

Baía de de Douarnenez, na costa da Bretanha, onde estaria a cidade submersa de Ys. Crédito: Ollamh/Wikimedia Commons

O pequeno barco abriu caminho através do oceano sem ondas. O ar de Fiji estava quente e parado, as silhuetas de ilhas distantes como sentinelas observando nosso progresso. Parecia um dia perfeito para visitar o Farol Solo e a “terra afogada” que supostamente o cercava.

Quando entramos na fenda através do recife de coral que margeia a Lagoa Solo, todos nós removemos nosso capacete e nos curvamos, batendo palmas gentilmente com as mãos em concha para mostrar nosso respeito às pessoas que os habitantes locais dizem que vivem na terra sob o mar.

A Lagoa Solo fica na extremidade norte do grupo de ilhas Kadavu, no sul de Fiji. No dialeto local, solo significa rocha, que é tudo o que resta de um terreno mais extenso que já existiu aqui. Contos antigos lembram que essa terra foi submersa abruptamente durante um terremoto e tsunami, talvez centenas ou mesmo milhares de anos atrás.

O Farol Solo fica em uma rocha no sul de Fiji. Crédito: Vasemaca Setariki

Protocolos estritos

Nosso barco seguiu em disparada, em direção ao farol construído na rocha remanescente em 1888. As pessoas comigo, das ilhas Dravuni e Buliya, contaram que, em uma noite tranquila, quando vêm aqui para pescar, às vezes ouvem sob a lagoa sons de zumbidos de mosquitos, galos cantando e pessoas falando.

Cada residente local aprende protocolos estritos ao entrar no reino acima desse mundo subaquático… e os perigos de ignorá-los. Acredita-se que se você deixar de reduzir a velocidade e fazer a reverência ao entrar na Lagoa Solo, seu barco nunca sairá dela. Se você tirar mais peixes da lagoa do que o necessário, nunca levará o pescado para casa.

É extremamente fácil ridicularizar essas crenças em mundos subaquáticos, mas elas provavelmente representam memórias de lugares que realmente estiveram submersos. Vários grupos de pessoas que vivem em Fiji hoje traçam sua linhagem até Lomanikoro, o nome da terra submersa na Lagoa Solo. Embora não haja nenhum registro escrito do evento, acredita-se que a submersão reconfigurou as estruturas de poder da sociedade de Fiji de uma forma que as pessoas ainda se lembram. Tradições semelhantes são encontradas em outros lugares.

No norte da Austrália, muitos grupos aborígines traçam sua linhagem em terras agora subaquáticas. Uma história contada décadas atrás por Mangurug, um ancião gunwinggu de Djamalingi ou Cabo Don, no Território do Norte, explicou como seu povo veio de uma ilha chamada Aragaládi no meio do mar que mais tarde foi submersa. “Árvores e solo, criaturas, cangurus, todos se afogaram quando o mar os cobriu”, afirmou.

Correspondentes na Europa

Outros grupos que vivem ao redor do Golfo de Carpentaria [norte da Austrália] afirmam que seus ancestrais fugiram da terra submersa de Baralku, possivelmente uma memória antiga da submersão da ponte de terra que conectava a Austrália e a Nova Guiné durante a última era do gelo.

Enquanto isso, no noroeste da Europa, há inúmeras histórias de terras subaquáticas ao largo da costa, onde sinos tocam assustadoramente em torres de igrejas afundadas. Essas histórias abundam na Baía de Cardigan, no País de Gales, onde dizem que várias “cidades submersas” estão. Na Bretanha medieval, na França, os pescadores da Baía de Douarnenez costumavam ver as “ruas e monumentos” da cidade submersa chamada Ys sob a superfície da água, histórias que abundam nas tradições locais.

Baía de Cardigan, no País de Gales, que conteria várias cidades submersas. Crédito: Heikki Immonen/Panoramio/Wikimedia Common

De fato, em muitas culturas em todo o mundo, existem histórias sobre mundos subaquáticos habitados por pessoas incrivelmente semelhantes a nós, cidades onde monarcas barbudos benevolentes e bruxas do mar com vários tentáculos organizam a vida de tritões mais jovens, muitos dos quais aspiram a se tornar parte da sociedade humana. Fantasia? Sem dúvida. Invenções arbitrárias? Talvez não.

Essas ideias podem derivar de memórias antigas sobre terras submersas e os povos que as habitaram.

E se permitirmos que algumas dessas histórias possam realmente ser baseadas em memórias milenares da submersão costeira, então elas também podem ter alguma aplicação prática para o futuro humano. Pois as terras costeiras estão sendo submersas hoje; lugares de nascimento na memória viva agora debaixo d’água.

Contexto

Nos cerca de 200 mil anos em que nós – humanos modernos – vagamos pela Terra, o nível do oceano, que atualmente ocupa mais de 70% da superfície terrestre, subiu e desceu dezenas de metros. No final da última grande era do gelo, há cerca de 18 mil anos, o nível médio do oceano estava 120 metros ou mais abaixo do que é hoje.

À medida que o gelo terrestre derreteu após a era do gelo, o nível do mar subiu. Os povos costeiros em todas as partes do mundo não tiveram escolha a não ser se adaptar. A maioria mudou-se para o interior, alguns para o mar. Sendo incapazes de ler ou escrever, eles codificaram suas experiências em suas tradições orais.

Sabemos que as observações de eventos memoráveis ​​podem perdurar nas culturas orais por milhares de anos, plausivelmente mais de sete milênios no caso das histórias indígenas australianas de erupções vulcânicas e submersão costeira. Então, como as memórias das pessoas de terras outrora povoadas evoluíram em tradições orais para chegar até nós hoje?

Inicialmente, eles teriam lembrado os lugares precisos onde existiam terras submersas e as histórias das pessoas que as ocuparam. Talvez, com o passar do tempo, à medida que esses contos orais se tornaram menos convincentes, as ligações com o presente foram feitas. Ouça com atenção. Você pode ouvir os cachorros latindo embaixo d’água, os sinos dobrando, as pessoas conversando. Você pode até, como no caso de Solo, incorporar essas histórias aos protocolos culturais para garantir que a história não desapareça.

Mosaico representando Tritão. Crédito: Wikimedia Commons

Pessoas sob o mar

As tradições envolvendo pessoas da terra interagindo com suas contrapartes submarinas são bastante antigas; a história grega de uma sereia masculina de nome Tritão é mencionada na Teogonia de Hesíodo, escrita há quase 3 mil anos. Na Irlanda, há histórias com centenas, talvez milhares de anos que falam de homens de alto escalão que se casam com sereias, gerando famílias notáveis ​​e até mesmo criando tabus sobre matar focas, que essas sereias consideravam parentes.

Histórias de pessoas ocupando terras submarinas também abundam na Austrália indígena. Elas incluem relatos sobre a yawkyawk (ou “jovem espiritual” na língua kundjeyhmi, do oeste da Terra de Arnhem), que passou a ser representada de forma semelhante a uma sereia.

Como as sereias na Europa, as yawkyawk australianas têm cabelos longos, que às vezes flutuam na superfície do oceano como algas marinhas, e caudas de peixe.

Representações contemporâneas de sereias australianas (yawkyawk) pelos artistas kunwinjku Marina Murdilnga, à esquerda, e Lulu Laradjbi. Esses seres míticos têm cauda de peixe e cabelos que lembram flores de algas. Crédito: Dragi Markovic, NGA

Ilhas que se moviam

Enquanto isso, nas ilhas de Kiribati, no Pacífico central, acreditava-se que existiam mundos paralelos ao tangível em que habitamos. Ilhas inteiras se moviam entre elas, vagando no tempo e no espaço, desaparecendo um dia apenas para reaparecer algum tempo depois em um lugar diferente. Os humanos também se moviam entre esses mundos – e suspeito que essa já foi uma crença generalizada de pessoas que ocupavam ilhas e arquipélagos.

Às vezes, acreditava-se que os habitantes desses mundos eram equipados com caudas de peixe, substituídas por pernas quando se moviam para a costa. Uma antiga balada das Ilhas Órcadas (Escócia), onde esses tritões são frequentemente chamados de silkies, diz:

Sou um homem na terra

Sou um sedutor no mar.

Houve uma época em que o povo das Ilhas de Aran (Galway, Irlanda) acreditava ter avistado a ilha de Hy-Brasail bem a oeste; e lutaram para alcançá-la em seus barcos. Ninguém nunca o fez. Do outro lado do mundo, a fabulosa ilha chamada Burotukula, que “vagueia” pelas águas de Fiji, é periodicamente considerada avistada na costa da Ilha Matuku.

Ilhas de Aran, na costa oeste da Irlanda: dali se veria a ilha de Hy-Brasail. Crédito: Robert Linsdell/Wikimedia Commons

Ansiedade e soluções

Nas sociedades orais, como as que existiam em quase toda parte há mil anos, o conhecimento era acumulado e comunicado sistematicamente pelos mais velhos aos mais jovens, porque era considerado essencial para sua sobrevivência. Muito desse conhecimento foi comunicado como narrativa, alguns por meio de poesia e música, dança, performance e arte.

Em ambientes hostis, onde água e alimentos costumavam ser escassos, era vital comunicar o conhecimento de maneira completa e precisa. A Austrália oferece exemplos excelentes, onde a lei indígena foi verificada quanto à integridade e precisão quando transmitida de pai para filho.

Parte da lei considerada essencial para a sobrevivência eram as experiências das pessoas em eventos que alteraram suas vidas. Isso incluiu explosões de atividade vulcânica e a perda de terras por várias gerações que afetou toda a franja australiana na esteira da última era do gelo, reduzindo a massa de terra em cerca de 23%.

Pesquisas recentes mostraram que algumas antigas “histórias de submersão” dos indígenas australianos contêm mais do que simplesmente descrições do aumento do nível do mar e da perda de terra associada. Eles também incluem expressões de ansiedade das pessoas.

Respostas práticas

Por exemplo, uma história contada em 1941 por Sugar Billy Rindjana, Jimmy Moore e Win-gari (povo andingari) e por Tommy Nedabi (wiranggu-kokatato) relembrou como, milênios antes, seus antepassados ​​que viviam ao longo da costa de Fowlers Bay, no sul da Austrália, “temiam que a enchente do mar se espalhasse por todo o país”.

Essas histórias também falam sobre as respostas práticas das pessoas para tentar impedir a subida das águas. Os povos wati nyiinyii da Planície de Nullarbor, na Austrália Ocidental, uma vez “embalaram milhares de lanças [de madeira] para impedir a invasão do oceano” nas terras que existiam abaixo dos penhascos de Bunda.

Em uma história contada pelo povo gungganyji, do distrito de Cairns, no nordeste da Austrália, eles aqueceram pedras em um incêndio no topo de uma montanha, e então as rolaram contra o oceano invasor para impedir sua ascensão.

Hoje, a superfície do oceano ao longo da maior parte das costas do mundo está subindo mais rapidamente do que há vários milhares de anos. Está colocando uma pressão crescente nas sociedades costeiras e nas paisagens e infraestruturas das quais elas dependem. A ansiedade está crescendo, especialmente diante das projeções científicas que envolvem a elevação do nível do mar em pelo menos 70 centímetros até o final deste século.

Parte das linhas de pedra de Carnac, consideradas uma resposta espiritual das pessoas dessa parte da costa da Bretanha, há mais de seis milênios, ao aumento do nível do mar. Crédito: Patrick Nunn

Ansiedade e impotência

Estamos respondendo com soluções práticas, construindo estruturas duras como paredes e paliçadas de madeira ao longo da costa. Contamos com a ciência para conter as mudanças climáticas, mas muitas pessoas ainda se sentem ansiosas e impotentes.

Nossos ancestrais, confrontados com uma ascensão aparentemente incessante na superfície do oceano – e com a perda associada de terras costeiras – também sentiram ansiedade e construíram estruturas. E, como algumas pessoas fazem hoje, muitos quase certamente buscaram remédios espirituais também. É claro que sabemos pouco sobre o último, mas há pistas.

Em muitos lugares ao longo das costas da Austrália e do noroeste da Europa, existem arranjos de pedra, que variam de simples círculos de pedra às extraordinárias “linhas de pedra” paralelas em Carnac, na França, com quilômetros de extensão.

Essas linhas de pedra, construídas há mais de 6 mil anos, foram interpretadas pelos arqueólogos franceses como uma “barreira cognitiva” destinada a impedir que os deuses interferissem nos assuntos humanos, especificamente para impedir o rápido e duradouro aumento do nível do mar nessa parte da costa da Bretanha. Enterros rituais de pessoas e objetos de valor ao longo da costa no noroeste da Europa podem ter servido a um propósito semelhante.

Tradições orais duradouras

Podemos tirar esperança das experiências de nossos ancestrais com a elevação do nível do mar. A maioria das pessoas sobreviveu, nós também. Mas a experiência foi tão profunda, tão fisicamente e psicologicamente desafiadora, que os sobreviventes mantiveram suas memórias vivas enquanto as histórias passavam de uma geração para a seguinte. Suas histórias se tornaram tradições orais duradouras – destinadas a informar e capacitar as gerações futuras. E para nos mostrar que o passado não é sem sentido; não é irrelevante para o nosso futuro.

* Patrick D. Nunn é professor de geografia na Faculdade de Direito e Sociedade na University of Sunshine Coast (Austrália). Seu novo livro, “Worlds in Shadow: Submerged Lands in Science, Memory and Myth”, é publicado pela Bloomsbury Sigma.

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative CommonsLeia o artigo original aqui.

Fonte: Revista Planeta

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CRÔNICAS: FAZ DE CONTA…POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICA desta quarta-feira tem mais um show de talento da nossa colaboradora Ana Madalena. Se normalmente já tem nos presenteado com histórias maravilhosas e inspiradoras, imagine só no dia do niver da sua netinha de dois anos, que por acaso é o dia do seu próprio aniversário. Então sai de baixo, senta ai e comece logo a ler mais um ‘Faz de conta’ da nossa cronista!

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Faz de conta…

Dois anos. Hoje uma menininha levanta dois dedinhos para dizer quantos anos está comemorando. Foi dificil convencê-la da mudança de idade; acostumou-se a responder “um” toda vez que eu fazia a pergunta. Eu também poderia  fazer essa mesma contagem para mim, uma vez que  nascemos no mesmo dia, sete de julho. Sim, poderia, mas não vou. São anos demais e ela só sabe contar, ainda, até vinte e três. Em inglês conta até “ten” e adora dizer as cores “blue” e “green”. Adoro comentar essas coisinhas da minha neta!
Maria Cecília nasceu numa madrugada de domingo, antecipando em algumas semanas a sua chegada. Eu, desde que minha filha ficara grávida e sabendo que nasceria em julho, comecei intimamente a torcer que ela nascesse no mesmo dia da “avó”, mas desisti da idéia; minha torcida iria contra a natureza, e eu não tinha  esse poder. Será?
Era um sábado, quase meia noite da virada do dia seis para o dia sete, quando cheguei à casa dos meus pais. Eles estavam sob minha “responsabilidade”, uma vez que minha irmã, o anjo da guarda deles, estava viajando e só retornaria na data provável para o nascimento da primeira sobrinha neta. Eu estava vindo de um jantar oferecido por amigas, disposta a dormir até tarde. No outro dia almoçaríamos todos juntos para comemorarmos.
À meia noite meu celular começou a tocar, eram meus filhos. Leo, que mora em São Paulo, estava reunido com amigos e, numa vídeo chamada, cantou parabéns. Mariana que chegara há pouco de uma festinha, fez também aquela folia! Aconselhei-a que tentasse descansar; há dias estava sem posição para dormir. A barriga, enorme, já pesava bastante. Nos despedimos, coloquei meu celular no silencioso, uma máscara nos olhos e dormi profundamente até umas duas da manhã quando acordei sem motivo e, por acaso, olhei o celular, que somava várias chamadas não atendidas de Mariana. Nessa hora, o telefone residencial tocou; sim, meus pais ainda têm um telefone fixo!
Meu genro ligou informando que já estavam no hospital e que minha neta estava para nascer. Como assim? A bolsa havia estourado! Por sorte, as malas estavam prontas e o hospital ficava a dois minutos de casa. Meus pais acordaram assustados, temendo algo grave, mas quando souberam da novidade ficaram com aquelas carinhas bobas de “nossa, somos bisavós”! Deixei o mais novo bisavô em casa ( os homens da família são fracos para hospitais) e segui com minha mãe; às 3:37h minha netinha nasceu, saudável, espertinha e linda, claro!
O hospital estava lotado. Sem acomodações, passamos o dia todo na sala de recuperação, com outras mães e seus bebês. Naquela madrugada nasceram seis! Alguém  comentou que a data era cabalística, que o dia sete, de todos os números, é o que mais vibra perfeição e quem nasce nesse dia tem grande espiritualidade, além de…Não escutei o restante da explicação; naquela hora, em meio às parturientes, em um ambiente gelado, foi que me dei conta que era meu aniversário e que eu ganhara de presente uma neta!
Maria Cecília, ou simplesmente Maria, como a chamamos, é uma menina maravilhosa. Como toda canceriana, é bastante emotiva. Adora ouvir música e “ler” seus livros, de longe sua diversão preferida. É vaidosa, ao ponto de, quando gosta de uma roupa, quer vestir sempre. Atualmente está encantada com seu vestido de São João! Há dois anos, quando nasceu, estava havendo um surto de sarampo na cidade e ela passou os primeiros meses em casa. Depois, quando as coisas acalmaram, ela pôde começar a ter uma “vida social”, frequentando escolinhas de natação e musicalização. Infelizmente, pouco depois chegou a pandemia e ela entrou noutro ciclo de isolamento.
Minha netinha ainda estranha o uso de máscara e, muitas vezes, ela puxa a do meu rosto, dizendo:
-Nāo, vovó! Axim não! Tira, tira!
Nossas brincadeiras exigem muitas “caras e bocas” e os olhos não dão conta de expressar tudo.
Estou encantada com a “voternidade”.  É uma delícia voltar a entrar no mundo do faz de conta!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: GERÚNDIO, POR ANA MADALENA

A imaginação da criativa Ana Madalena continua a mil no conto desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS. Desta vez ela nos apresenta uma crônica urbana, que envolve mais uma vez, um casal, um romance das antigas que, muito por acaso, se renova nos dias atuais, mas de uma forma, como sempre, bem original. Vale a pena conferir!

Como usar balanco na decoração? - Minha Casa, Minha Cara

Gerúndio


A vida aos poucos voltará ao normal, disseram. Qual normal? Sim, porque depois de tantas mudanças de hábitos e por tanto tempo, normal para ela era continuar do jeito que se acostumara a viver. Nunca se sentiu tão em paz, trabalhando em casa sem ter que se preocupar em sair, vestir essa ou aquela roupa, arrumar cabelo ou fazer unhas. Ela se acostumou com o pouco contato social e foi um choque quando recebeu o comunicado da empresa, informando que começariam a fazer o trabalho de forma híbrida.

Só em pensar que encontraria novamente seus colegas de trabalho já lhe dava um enjoo. Trabalhava distante da cidade, ainda bem que iria sozinha no seu carro; preferia assim, mesmo que tivesse um custo maior. Não suportaria ir no ônibus da empresa e ter que jogar conversa fora durante todo o percurso. Se tivesse que pagar passagem, seria uma para ela e outra para a culpa que carregava. Não, não tinha feito nada errado, mas sentia como se tivesse feito. Todos seus amigos reclamavam da sua falta de interesse e diziam que ela não estava bem, que não era saudável passar tanto tempo isolada de tudo e de todos. Ela era consciente que tinha perdido um certo interesse em conviver com outras pessoas, mas em contrapartida percebeu que gostava do silêncio na sua vida. Desde quando isso era um problema?

Adquiriu uma mania; cada vez que se locomovia, contava mentalmente os passos; eram seis, do sofá até a televisão, e treze da cozinha até seu quarto. Ainda bem que seus amigos não sabiam disso, nem de outras coisas, como o fato de ter instalado um balanço no lugar da mesa de jantar, onde a cada duas horas se balançava, deixando no teto as marcas dos seus pés. Gostava de ver suas “impressões ” no teto branco.

Também comprou uns quadros novos, mas a pouca habilidade com o uso da furadeira deixou um buraco enorme na parede da sala. Customizou-o, descascando um pouco ao redor e, com um pincel escreveu numa seta “olhe aqui”. Aos poucos começou a dar personalidade à sua casa; gostava do cenário que estava montando. Encheu a varanda de plantas; descobriu que era bom  elas ouvirem Mozart, para crescerem, e Bach para dormirem. E foi exatamente quando estava trocando a trilha sonora que ouviu alguém colocando uma correspondência por baixo da porta.

Olhou por alguns minutos para aquele envelope pardo. Não sabia o porquê  de ter receio em abri-lo, mas respirou fundo, deu quatro passos em sua direção e abriu. Era um bilhete do vizinho do andar de cima, querendo saber que ruído era aquele na sala de jantar. Disse que tentou interfonar mas ela não atendeu. Ele finalizava pedindo seu contato para conversar com ela, pois o ruído incomodava bastante.

Sentiu o suor escorrer pela testa… O que fazer? Não queria falar por telefone, principalmente com desconhecidos. Criou coragem e resolveu falar pessoalmente, resolver logo esse assunto. Contou vinte e sete passos até o apartamento dele. Ouviu uma música suave e alguém se aproximando. Prendeu a respiração.

O vizinho era, para sua surpresa, um amigo de infância. Na verdade ele foi mais que amigo, fora um namoradinho, por assim dizer. Melhor assim, a conversa seria mais fácil. Ela explicou que o som era do balanço e ele, impressionado, achou a ideia genial. Perguntou se poderia se balançar por lá, de vez em quando. Ela observou que ele tinha muitas plantas e quando se deram conta, estavam conversando sobre orquídeas, violetas, lirios e bromélias há horas.

Algo de mágico aconteceu ali… De repente todas as suas angústias sumiram e ela percebeu que tinha deixado de fazer a contagem dos seus passos. Será que aquele sentimento do passado estava acontecendo outra vez?  Por via das dúvidas, sentou no balanço e feliz, ficou se balançando até cansar. Ela finalmente entendera que a vida é conjugada no gerúndio!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: TINHA TUDO PRA DAR ERRADO…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a nossa querida Ana Madalena que não para de surpreender com seus contos super imaginativos, alegres, divertidos e bem humorados. A história de hoje aborda uma linda história de amor que atravessou várias décadas e gerações e promete ser infinito enquanto dure. Portanto, convido você a ler mais essa crônica maravilhosa e emocionante!

Casamento casado feliz casal de mãos dadas, noiva e noivo, alianças | Foto Premium

Tinha tudo para dar errado…

O ano era 1961. Logo cedo, os noivos decolaram num teco-teco, do campo de aviação de Capim Macio, em Natal, rumo a Santana do Matos, cidade da noiva e onde seria o casamento, marcado para as dez horas daquela manhã. O piloto, amigo do casal, também era fotógrafo e, além de levá-los, faria as fotos da cerimônia. Diferentemente do que diziam, que noivos não podem se ver antes do casamento pois dá azar, os dois viajaram lado a lado, indiferentes aos ditados populares.  Ela, compenetrada, carregando no colo o bolo de casamento. Ele, nervoso, contando os minutos para estar em terra firme.
A chegada foi no horário previsto. Antes de irem para a igreja, deram uma passadinha na casa dos pais da noiva para se recompor e vestirem  seus trajes para a cerimonia. A viagem, embora curta, foi desconfortável para o noivo, que enjoou todo o percurso, coitado…  Ainda bem que naquele dia não choveu, muito pelo contrário. O céu estava limpo, sem nuvens; não houve turbulência, a não ser umas rajadas de vento que balançaram a aeronave. Por sorte, o piloto era experiente e fez um excelente voo. O bolo e a noiva chegaram intactos, já o noivo estava bastante pálido e, quando saiu do avião, beijou o solo, gesto copiado pelo Papa João Paulo II anos depois.
Minutos antes de seguirem para a igreja, um rapaz veio avisar que o padre chegaria atrasado. Todos falaram ao mesmo tempo:
– Quanto tempo?
O jeep, que o padre estava dirigindo para celebrar uma missa  no município vizinho tinha quebrado e ele voltaria de jegue, o que levaria o dobro de tempo. O pai da noiva saiu numa carreira só; precisava  avisar os convidados, que já estavam na igreja. Alguns voltaram para seus afazeres e outros, mais fervorosos, resolveram permanecer e rezar para que tudo desse certo.
Ao meio dia o sol estava a pino. A mãe da noiva se abanava, tentando em vão afastar o calor. A paisagem, árida, mostrava que aquele era mais um ano de seca; o açude da cidade estava praticamente vazio. Enquanto resmungavam sobre o tempo, imaginavam a situação do padre, conhecido por seu mau-humor e nervosismo. O noivo, que desde criança  tinha problemas de hipoglicemia, começou a dar sinais de que iria desmaiar. O corre-corre para acudi-lo foi grande. A noiva, aperreada, foi esquentar um pouco de leite, enquanto checava se a cobertura do bolo estava derretendo. Estava; o bolo praticamente desmoronou.
Finalmente anunciaram que o padre já estava na Igreja. Os noivos, ansiosos, deram os últimos retoques no visual e seguiram para finalmente selar a união. À entrada da igreja, o piloto, muito nervoso, pediu desculpas ao casal;  informou que esquecera de trazer a máquina fotográfica. A noiva ameaçou chorar! O pai, desolado, perguntou aos convidados se alguém tinha “aquele artefato”, já sabendo de antemão a resposta. O jeito foi acalmar sua filha e levá-la ao altar. O padre, faminto, fez o casamento numa ligeireza nunca vista  naquelas paragens.
O tempo passou e aquele longínquo 28 de maio pôde ser renovado mais duas vezes. A familia, composta por três filhos, logo deu netos. A  primeira netinha, que nasceu  próximo a data do casamento, teve sua primeira festinha de aniversário  junto com a comemoração das Bodas de Prata dos avós. Eles, empolgados e finalmente posando para as fotos, desejaram que pudessem viver juntos mais vinte e cinco anos. As Bodas de Ouro foram celebradas com tudo que tinham direito.
A vida desse casal, os meus pais, foi motivo de escrevermos dois livros de família com o objetivo de deixar um pouco de nós para gerações futuras. As conversas, que ouvi durante todos esses anos de convivência, estão guardadas como um tesouro naquelas páginas. Estamos partindo para o terceiro livro, com mais novidades, até porque a familia cresceu. Agora,  já  bisavós, completarão Bodas de Diamante essa semana, saudáveis e felizes. Eles nunca imaginaram chegar tão longe…
Parecia que tinha tudo para dar errado, mas graças a Deus deu tudo certo!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: ONDE AS ESTRELAS BRILHAM, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de Ana Madalena aqui na coluna CRÔNICAS com suas criativas e exuberantes histórias. Quero confessar algo: também sou escritor, mas não tenho tanta criatividade assim. Isso é um dom extraordinário, uma benção de Deus que veio brilhar, ilustrar e enriquecer o Blog do Saber. Então lhe convido a ler “onde as estrelas brilham” e surfar na imaginação dessa autora fantástica!

Onde as estrelas brilham

Chovia muito. Estava vindo com meus pais de Angra dos Reis, onde havíamos passado o carnaval. A casa que alugamos era bem localizada e logo fiz amizades. Todos pareciam gostar de mim, principalmente uma senhora muito elegante, que estava sempre fumando. Naquela época era charmoso ser fumante, talvez porque as pessoas não soubessem o que fazer com as mãos, principalmente nos momentos de solidão. Hoje todos têm um celular.

A casa de D. Clarice era cheia de livros. Ela tanto gostava de ler quanto escrever; passava  muito tempo datilografando. Às vezes sentava numa poltrona, onde apenas pensava… Aliás essa  poltrona era perto de uma janela que dava vista para a janela do meu quarto, onde, à noite, eu também sentava para escrever meu diário. De longe podia vê-la e lhe acenava.

Fiquei assustada na primeira vez que ela falou comigo. Tinha um jeito esquisito, um sotaque estranho, mas depois me confidenciou que tinha a língua presa, embora  todos pensassem que era porque ela era da Ucrânia. Perguntou se podia ler o que eu escrevia no meu caderninho, se eram histórias. Comentou que as crianças que conhecia não gostavam de ler, muito menos escrever.

 – D. Clarice, é só um diário. Não sei contar histórias. Na verdade estou escrevendo porque sei que quando voltar para o colégio, a professora de português vai pedir uma redação sobre as férias. Eu já estou deixando quase pronta; terminarei amanhã, quando voltarmos para o Rio.

Ela disse que também voltaria no dia seguinte.   Na despedida perguntou se eu gostava de escrever cartas. Imediatamente trocamos endereços; ela, saudosa, comentou que gostava muito do Nordeste, principalmente das praias de águas mornas. Disse-me que na infância tinha morado em Recife e que o pai a levava bem cedinho para tomar banho de mar. Convidei para vir a Natal.

Depois do café eu e meus pais arrumamos toda a bagagem e também o que sobrou da feira. Iríamos passar mais uns dias no Rio, no apartamento da minha tia. Meu pai, muito precavido, foi cedo ao posto de gasolina para encher o tanque do carro. Ele nunca deixou chegar nem a meio. Partimos pouco depois das dez, mas no meio do percurso caiu um temporal daqueles. Era cada pingo de encher um balde. Na entrada da Avenida Brasil a água acumulada já estava cobrindo o capô dos carros e, do nada, apareceram pivetes querendo nos assaltar. Foi dramático! Conseguimos desviar do nosso caminho por horas; ficamos totalmente perdidos. Ainda bem que tínhamos combustível.

Por sorte, nos abrigamos em frente a uma escola, num elevado, onde haviam outros carros, todos esperando baixar as águas. De repente ouvi choro de crianças, que reclamavam de fome e sede. Lembrei da feira que tínhamos trazido e comecei a distribuir biscoitos, pão e chocolate. Meus pais estavam muito preocupados mas eu, inocente dos perigos, me espalhava entre os ilhados, conversando com  todos. E foi passando pelos carros que escutei alguém me chamando. Era D. Clarice.

-Ana, querida, que bom lhe ver. Um rosto familiar na multidão. Fique um pouco comigo.

Entrei no carro e conversamos bastante. Ela falava pausado, profundo. Eu, ao contrário, falava sem parar. Teve até um momento que eu mesma me toquei e disse:

– Desculpe, D. Clarice. Eu tenho esse defeito. Prometo me controlar. Minha mãe diz que sou tagarela demais!
– Minha querida, não mude em nada. Às vezes nosso maior defeito é o que sustenta nosso edifício Inteiro.

A chuva parou. Os carros começaram a se dissipar e nos despedimos com um abraço, daqueles “para nunca mais”.

Tempos depois, perto do Natal, estava montando a árvore com minha mãe quando noticiaram no telejornal o falecimento de uma grande escritora. Na hora não dei muita atenção, até que disseram o nome. Corri para a frente da tela e reconheci minha amiga. Era D. Clarice Lispector.

Bem, essa história poderia ter acontecido comigo mas foi apenas um sonho. E eu escrevi simplesmente para não esquecer.
Saudades Clarice…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: DIA DESSES…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia da coluna CRÔNICAS aqui no Blog do Saber e sempre com a maravilhosa participação da nossa colaboradora Ana Madalena, com os seus contos muito criativos. Hoje o destaque vai para um romance inacabado, que num encontro casual trouxe lembranças do passado para ambos, um momento de nostalgia e um tanto de melancolia. Um dentre tantas histórias de relacionamento com começo, meio e fim tão semelhantes, mas com certeza únicas!

Como encontrar o amor depois da separação

“As vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois…
Eu fico aqui sonhando acordada,
juntando o antes, o agora e o depois.. .”
           Sozinho, Peninha

Dia desses…


Alguns pontos finais não são simples opções,  e ela sabia disso como ninguém. Foi preciso coragem para abrir mão de uma história, sem saber, previamente, se era o rumo certo a tomar. A sensação que tinha era de completo abandono, mesmo tendo sido ela a responsável pelo seu destino. Desde a separação carregava trovões dentro do seu peito. Nunca mais conseguiu dormir bem.

Há muito não se viam. Foi quase um susto quando seus olhares se cruzaram naquela escada rolante do shopping. Estavam em sentidos opostos, como sempre. Um esperou que o outro falasse algo. Ela sabia que se não tomasse a iniciativa…. Criou coragem e disse que estava feliz em vê-lo. Sugeriu que se encontrassem no piso inferior, para onde ele parecia estar seguindo. Balançando a cabeça, ele concordou. Ela acelerou o passo, sem saber se ele realmente estaria esperando. Estava.

 Deram um longo abraço. Em princípio conversaram amenidades, como velhos amigos. Depois, como não poderia deixar de ser, vieram as perguntas dificeis. Ele perguntou se a mudança de país e o doutorado tinham sido boas escolhas e se ela estava realizada. Sim, respondeu sorrindo, embora seu olhar fosse triste. Seu pensamento era um só: como pude deixar meu grande amor? Ela comentou sobre o casamento dele e dos filhos lindos. Vira a foto no Instagram. Ele disse que os filhos eram seu maior tesouro.

Quis voltar no tempo, para um dia qualquer, desde que fosse com ele. Acordariam juntos, pegariam uma praia, talvez até fizessem uma caminhada, depois comeriam um peixe ao molho de manga, seu prato preferido. No fim da tarde poderiam assistir um filme, com um balde de pipocas, que eles devorariam nos primeiros minutos. Se fosse noite de lua, poderiam dançar no jardim, onde, quem sabe, fariam lindas declarações de amor e ele pediria sua mão em casamento, outra vez…

– Você é feliz? Ambos perguntaram ao mesmo tempo. Nenhum dos dois respondeu. Mudos, seguiram até o final do corredor, onde cada um tomou uma direção. Enquanto caminhavam, não resistiram e olharam para trás . Foi a última vez  que seus olhos se viram; os dela, inundados de amor… Tentou lembrar o começo daquela historia, a magia do encontro. Depois as dificuldades do meio, as diferenças irreconciliáveis. E por fim, o fim. Sua partida, o casamento cancelado, o adeus.

Deu um longo suspiro e se perguntou: será que um dia serei feliz outra vez?

Ana Madalena
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CONTINUAM ABERTAS AS INCRIÇÕES PARA O 2º CONCURSO DE REDAÇÃO SOBRE HISTÓRIA DE NATAL

2º Concurso de Redação sobre História de Natal continua com inscrições abertas

31 jan 2021

INSCRIÇÕES PARA O 2º CONCURSO DE REDAÇÃO HISTÓRICA DA CIDADE DO NATAL JÁ ESTÃO ABERTAS – Hilneth Correia

“Os desafios da relação entre o homem e a preservação do patrimônio histórico”. Esse é o tema do 2º Concurso de Redação Sobre a História de Natal, promovido pela Viva Entretenimento em parceria com a  Escola da Assembleia Legislativa do RN, em parceria com outros órgãos públicos e instituições privadas do Estado. A iniciativa, que está com inscrições abertas até o dia 2 de março, é voltada para os estudantes do Ensino Fundamental da Rede Pública e Privada do Rio Grande do Norte.

Segundo o diretor da Escola da Assembleia, professor João Maria de Lima, “esse concurso é de extrema importância, na medida em que valoriza a parte histórica e cultural da nossa cidade. Além disso, é uma maneira de incentivar os nossos jovens a ler e a escrever mais e melhor”. Essa é a segunda edição do concurso, idealizado pelo empresário Jarbas Filho, que também conduz o resgate da história e cultura de Natal através da Caminhada Histórica.

Para se inscrever, o aluno deve baixar o formulário de inscrição através do site www.al.rn.gov.br/portal/escola e, após redigir sua redação à mão, de forma legível, enviar o trabalho digitalizado, em formato PDF, para o e-mail caminhadahistoricadenatal@gmail.com, até o dia 2 de março. Será aceito apenas 1 (um) texto, de 20 a 30 linhas, por estudante. A inscrição é gratuita.

No concurso deste ano, o primeiro lugar ganhará 1 (um) Notebook, além de um certificado de premiação e reconhecimento, emitido pela Escola da Assembleia Legislativa. Já o segundo e o terceiro lugares receberão 1 (um) Smartphone e 1 (um) Tablet, respectivamente, juntamente com seus certificados.

Além disso, todos os professores orientadores também ganharão um Tablet e um certificado de premiação e reconhecimento. As escolas dos alunos autores dos 3 melhores trabalhos receberão também os seus certificados de reconhecimento pela Escola da Assembleia.

O resultado do concurso será divulgado no site www.al.rn.gov.br/portal/escola até o dia 15 de março. Acesse o regulamento completo em linklist.bio/vivaentretenimento.

Fonte: Política em Foco
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FILOSOFIA: FILOSOFANDO COM ARIANO SUASSUNA E LEANDRO KARNAL

Na nossa coluna FILOSOFIA desta segunda-feira temos dois destaques de peso. Num primeiro momento com o incomparável Leandro Karnal e em seguida o inalcançável Ariano Suassuna. Ambos contam histórias hilariantes para emocionar, rir e chorar. Portanto não perca o show!

Fonte:

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