CRÔNICAS: SOBRE NASCIMENTO, INFÂNCIA E OUTRAS COISINHAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos uma história verídica travestida de conto que a imaginativa Ana Madalena com muita inspiração criou, tirando do fundo do baú da sua rica e feliz experiência de vida. Foi buscar na sua infância lembranças imemoriais, lúdicas de relacionamentos com pais, irmãos e coleguinhas da escola. Então convido você a ler essa crônica atraente que mistura ficção com realidade! 

Sobre nascimento, infância e outras coisinhas…


Dizem que muito do que somos é explicado pela posição dos astros na hora do nosso nascimento. Eu discordo; acho que depende muito mais da hora da concepção, que, no meu caso, quase não aconteceu. Explico: sou fruto de uma camisinha furada; posso encher o peito e dizer que, na corrida de obstáculos, cheguei em primeiro lugar ao pódio. Isso não é para qualquer um. Até hoje tenho na memória aquele milésimo de segundo quando rompi a borracha de látex e nadei rumo ao útero. Na hora pensei: -Enfim só! Livrei-me daquela aglomeração! Nada como reinar absoluta durante nove meses, vivendo de sombra e água fresca.

Era madrugada chuvosa. Dentro e fora da barriga da minha mãe. Escutei sua voz abafada e, pelos movimentos estranhos, percebi que algo não ia bem. Senti um empurrão.
-Como assim, estou sendo expulsa do meu úterozinho? Ainda falta um mês para terminar o contrato!
Por mais que eu não quisesse fazer a mudança, não teve jeito e cheguei ao mundo, antes do tempo. Eu, que já estava toda trabalhada para nascer leonina, do nada, me transformei num caranguejo. Os astros devem ter se enganado, tamanha a confusão que causaram. Minha mãe, coitada, que engravidara quando meu irmão estava com cinco meses, ainda teve que correr contra o tempo para organizar minha chegada inesperada. Diferentemente dele, que era péssimo para comer, já nasci faminta e com o dedo atolado na boca. Não foi de estranhar, quando, aos onze anos, tive que fazer uso de aparelhos dentários, de tão dentuça que era. À época não era comum, mas minha mãe sempre atenta, correu para resolver esse probleminha. Claro que rapidinho virei motivo de chacota e fui chamada de “boca de ferro”, um dos apelidos carinhosos que recebi na vida.

Apesar desse meu nascimento micareta, não fui uma bebê frágil. Muito pelo contrário. Me sentia poderosa, tanto por ter vencido a corrida e, mais ainda por ser a princesinha do lar. A verdade, confesso, é que eu queria mesmo ser filha única, mas na impossibilidade, curti ser única filha. Só fiquei desconfiada mesmo quando vi a barriga da minha mãe crescer…. Aí tem coisa, pensei!. E não deu outra! Nunca esqueci da noite que me colocaram na cama e disseram que eu ia ganhar um irmãozinho.
 – Você prefere chamá-lo Gustavo ou Alexandre?
Quem se importa, pensei! Mas avaliei bem e percebi que estaria no lucro. Ainda reinaria como a menininha da casa…

Eu só não contava com o fator surpresa! Ver minha mãe chegar em casa com um bebê de laço rosa no cabelo estava fora dos meus planos. Corri para o meu quarto e chorei. Chorei mais ainda quando disseram que escolheram um nome para ficar rimando com o meu. Naquela época era comum nomes compostos, então éramos Ana Madalena e Suzana Helena. Eu nunca tive direito ao diminutivo; não faço ideia por que nunca fui Aninha, enquanto minha irmã já veio ao mundo como Suzie.

Percebi uma remodelação de móveis na casa. Meu bercinho passou para o quarto dos meus pais e eu ganhei uma cama, de onde eu caía praticamente todas as noites, algumas de propósito. Cansaram de me encontrar dormindo no chão. Eu, que lutava para dividir atenção com meu irmão, de repente me vi tendo que fazer contorcionismo para ser notada. A caçulinha era o xodó da família; o mais velho, primogênito, era o orgulho. Eu era apenas a filha do meio.

Daí em diante minha vida só piorou, fiquei rebelde mas, por sorte,  já estava em tempo de ir para a escola. Reza a lenda que nos bancos escolares eu era um doce de candura,  participava de todas as atividades recreativas, e por isso mesmo, fui até escolhida para ser a noiva da quadrilha da minha turma, posição almejada por todas as meninas. Eu fiquei empolgadissima, mas, apesar da minha alegria, pude constatar que era alvo de inveja, de uma inveja que tinha requintes de crueldade.

E aconteceu o que temia. No recreio, quando estávamos no parquinho, fui desafiada a subir no escorrego. Todos sabiam que eu tinha medo de altura.  E lá em cima eu congelei; hoje sei que foi um ataque de pânico. A menina que estava atrás de mim deu um empurrão e, como eu ainda estava em pé,  me desequilibrei e cai de cara no chão. Ouvi muitas risadas. Lembro até  que estava vestindo um shortinho azul e uma blusa imaculadamente branca, que nessa hora, virou uma mistura de barro e sangue. O meu dente da frente, que ainda teria alguns anos na minha boca, caiu com o impacto. Ninguém da minha turma tinha perdido dente de leite até então.  Desde esse dia  passei a ser identificada como” a banguela do preliminar”.

Comecei a me ausentar do recreio. Algumas amiguinhas foram solidárias e por vezes permaneceram na sala comigo. Ir para o colégio tinha se tornado um fardo e, da menina falante, não restara nada. Virei introspectiva, passei a ler revistinhas, hábito que me dava prazer e que, no futuro próximo me impulsionaria para ser uma leitora voraz. O mundo dos livros era uma realidade à parte e que me preenchia totalmente. Só para constar,  rapidinho voltei a ser tagarela, foi só uma fase.

Muito se passou desde então. Adoro  relembrar algumas dessas histórias, mas não com saudosismo melancólico, até porque o passado deve ser um lugar de referência e não de residência. A minha menina “do meio” sobreviveu ilesa a infância e adolescência e, adulta, está tirando de letra esse mundo de fakes, filtros e outras coisinhas mais…

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: SOBRE NASCIMENTO, INFÂNCIA E OUTRAS COISINHAS…POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, POR ANA MADALENA

Hoje temos, aqui na coluna CRÔNICAS, mais uma pérola da nossa preciosa colaboradora Ana Madalena. Desta vez ela nos remete a uma viagem no tempo, através das páginas da Bíblia Sagrada, até os idos da famosa Torre de Babel para nos lembrar que o que estamos vivendo atualmente, em muito se parece com a “confusão de vozes, algazarras e mistura de línguas”, daquele tempo. Mas prefere o Silêncio das Palavras a todo esse barulho. O silêncio, a leitura, o conhecimento, a reflexão…Um texto para nos fazer refletir até que ponto evoluímos ou retroagimos nessa longa caminhada experiencial! Portanto convido você a ler, refletir e fazer o seu juízo de valor!

O que era a torre de Babel? - Respostas Bíblicas

O Silêncio das palavras

Ah o tempo… A impressão que tenho é que estamos retroagindo, e sob um aspecto muito sombrio. Uma história que sempre me vem à mente, está no capítulo 11 do Gênesis, a construção da Torre de Babel: Os descendentes de Noé construíram um altíssimo monumento com o objetivo de alcançar o céu. Chateado com a blasfêmia, Deus teria feito com que os trabalhadores falassem línguas diferentes, o que inviabilizou a conclusão da obra. Por causa desse episódio, a palavra Babel adquiriu nos dicionários, significados como “confusão de vozes, algazarra e mistura de linguas”.

Estamos vivendo em um mundo onde as pessoas, apesar de suas semelhanças, mal se entendem; a nossa Babel agora são as redes sociais. Várias vezes, quando leio alguma coisa, me questiono porque as pessoas ficaram tão intolerantes, ou pior,  porque perderam o bom senso e a capacidade de ouvir. Sinto saudades de um tempo em que éramos mais humanos e menos críticos. Por sinal,  lembro que, quando adolescente, a maior critica que eu recebi foi ser chamada de “esquisita”, por ter um passatempo diferente. Diferente para os outros, claro.

Sobre esse tema, sou solidária aos gostos alheios. Acho incrível quem gosta de escalar montanhas, mesmo sabendo do risco de uma avalanche, ou quem decide ser bombeiro e enfrentar a “ferro e a fogo” o perigo de um incêndio de grandes proporções. Não nasci com esses rompantes de aventura, sou muito medrosa e o máximo de risco que corri até hoje foi escrever um diário que displicentemente deixo aqui e acolá. No geral eu sou muito simples e metódica.

Estava organizando meus armários e encontrei uma caixa que há muito não via. Eu tenho um hábito que está se tornando cada vez mais raro, até por vivermos num mundo digital; eu coleciono matérias de revistas. Eu adorava quando precisava ir para alguma consulta médica e me deparava com uma mesa lotada de revistas, algumas já fazendo aniversário. Eu torcia para que o médico atrasasse só para poder folheá-las com tranquilidade e, quando encontrava algum artigo interessante, eu pedia para destacar a página. Foi assim que comecei a minha coleção, motivo de risos entre meus irmãos, que se gabavam de possuir uma coleção de selos e moedas, e não páginas de revistas velhas.

Minha coleção cresceu bastante quando, ainda na Universidade, estagiei num escritório, sempre bem abastecido. Meus colegas de sala  soltavam piadinhas do bem, com exceção de Núbia, uma secretária muito esquisita. Ela me olhava com curiosidade e sempre perguntava qual a finalidade daqueles papéis; eu, pacientemente, explicava que os artigos eram como cápsulas de conhecimento, que uma hora ou outra, poderiam explodir, dependendo da minha necessidade. Ela franzia o cenho, em aparente desaprovação.

Depois de dez meses, meu estágio chegou ao fim. A última semana foi bem melancólica, mas combinei de rever os colegas. Umas duas semanas depois retornei e, para minha surpresa, lá estava Núbia, ocupando a “minha mesa” e, curiosamente, vestindo roupas semelhantes às minhas, até a armação de óculos era igual. Em cima da mesa, algumas revistas, uma tesoura e algumas pastas, exatamente das cores que eu tinha. Com um sorriso, olhou pra mim e disse:
– Ana, eu sou a nova você!

No mundo sempre existirão pessoas que vão gostar de você pelo que você é, e outras que vão lhe odiar pelo mesmo motivo, mas só nós sabemos de fato quem somos. Dito isso, informo que Núbia desistiu de mim; classificou-me como um caso clássico de excentricidade! Talvez eu seja mesmo. No ruído dessa Babel, sou mais o silencio das minhas palavras.

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: TINHA TUDO PRA DAR ERRADO…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a nossa querida Ana Madalena que não para de surpreender com seus contos super imaginativos, alegres, divertidos e bem humorados. A história de hoje aborda uma linda história de amor que atravessou várias décadas e gerações e promete ser infinito enquanto dure. Portanto, convido você a ler mais essa crônica maravilhosa e emocionante!

Casamento casado feliz casal de mãos dadas, noiva e noivo, alianças | Foto Premium

Tinha tudo para dar errado…

O ano era 1961. Logo cedo, os noivos decolaram num teco-teco, do campo de aviação de Capim Macio, em Natal, rumo a Santana do Matos, cidade da noiva e onde seria o casamento, marcado para as dez horas daquela manhã. O piloto, amigo do casal, também era fotógrafo e, além de levá-los, faria as fotos da cerimônia. Diferentemente do que diziam, que noivos não podem se ver antes do casamento pois dá azar, os dois viajaram lado a lado, indiferentes aos ditados populares.  Ela, compenetrada, carregando no colo o bolo de casamento. Ele, nervoso, contando os minutos para estar em terra firme.
A chegada foi no horário previsto. Antes de irem para a igreja, deram uma passadinha na casa dos pais da noiva para se recompor e vestirem  seus trajes para a cerimonia. A viagem, embora curta, foi desconfortável para o noivo, que enjoou todo o percurso, coitado…  Ainda bem que naquele dia não choveu, muito pelo contrário. O céu estava limpo, sem nuvens; não houve turbulência, a não ser umas rajadas de vento que balançaram a aeronave. Por sorte, o piloto era experiente e fez um excelente voo. O bolo e a noiva chegaram intactos, já o noivo estava bastante pálido e, quando saiu do avião, beijou o solo, gesto copiado pelo Papa João Paulo II anos depois.
Minutos antes de seguirem para a igreja, um rapaz veio avisar que o padre chegaria atrasado. Todos falaram ao mesmo tempo:
– Quanto tempo?
O jeep, que o padre estava dirigindo para celebrar uma missa  no município vizinho tinha quebrado e ele voltaria de jegue, o que levaria o dobro de tempo. O pai da noiva saiu numa carreira só; precisava  avisar os convidados, que já estavam na igreja. Alguns voltaram para seus afazeres e outros, mais fervorosos, resolveram permanecer e rezar para que tudo desse certo.
Ao meio dia o sol estava a pino. A mãe da noiva se abanava, tentando em vão afastar o calor. A paisagem, árida, mostrava que aquele era mais um ano de seca; o açude da cidade estava praticamente vazio. Enquanto resmungavam sobre o tempo, imaginavam a situação do padre, conhecido por seu mau-humor e nervosismo. O noivo, que desde criança  tinha problemas de hipoglicemia, começou a dar sinais de que iria desmaiar. O corre-corre para acudi-lo foi grande. A noiva, aperreada, foi esquentar um pouco de leite, enquanto checava se a cobertura do bolo estava derretendo. Estava; o bolo praticamente desmoronou.
Finalmente anunciaram que o padre já estava na Igreja. Os noivos, ansiosos, deram os últimos retoques no visual e seguiram para finalmente selar a união. À entrada da igreja, o piloto, muito nervoso, pediu desculpas ao casal;  informou que esquecera de trazer a máquina fotográfica. A noiva ameaçou chorar! O pai, desolado, perguntou aos convidados se alguém tinha “aquele artefato”, já sabendo de antemão a resposta. O jeito foi acalmar sua filha e levá-la ao altar. O padre, faminto, fez o casamento numa ligeireza nunca vista  naquelas paragens.
O tempo passou e aquele longínquo 28 de maio pôde ser renovado mais duas vezes. A familia, composta por três filhos, logo deu netos. A  primeira netinha, que nasceu  próximo a data do casamento, teve sua primeira festinha de aniversário  junto com a comemoração das Bodas de Prata dos avós. Eles, empolgados e finalmente posando para as fotos, desejaram que pudessem viver juntos mais vinte e cinco anos. As Bodas de Ouro foram celebradas com tudo que tinham direito.
A vida desse casal, os meus pais, foi motivo de escrevermos dois livros de família com o objetivo de deixar um pouco de nós para gerações futuras. As conversas, que ouvi durante todos esses anos de convivência, estão guardadas como um tesouro naquelas páginas. Estamos partindo para o terceiro livro, com mais novidades, até porque a familia cresceu. Agora,  já  bisavós, completarão Bodas de Diamante essa semana, saudáveis e felizes. Eles nunca imaginaram chegar tão longe…
Parecia que tinha tudo para dar errado, mas graças a Deus deu tudo certo!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: TINHA TUDO PRA DAR ERRADO…POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: ESPORTE RADICAL, POR ANA MADALENA

O criativo, imaginativo e quase lúdico conto desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS, de Ana Madalena fala de amizade e compara com esporte radical, no sentido de que uma verdadeira amizade é “para o que der e vier”. Mais uma incrível creação desta incrível escritora. Por isso convido você a fazer essa viagem e expandir a sua imaginação! 

Montanhismo | ACP

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”.
                 Amigos, Vinicius de Morais

Esporte radical


Tudo começou com um dia de chuva, como há muito não acontecia. De repente toda a paisagem se modificou; a vegetação ficou mais verde e o sorriso voltou ao rosto daqueles que reclamavam do calor. Por algumas horas as pessoas  tiveram outro assunto, não só a política e pandemia. O clima é sempre motivo para iniciarmos uma conversa, desde que haja disposição das pessoas para tal. Laura devia achar coisa de “papinho” de elevador.

Somos vizinhas de porta e nos conhecemos exatamente dentro do elevador. Eu, que sou uma pessoa extrovertida, comentei da chuva que me pegou desprevenida, durante a caminhada. Qualquer pessoa que olhasse para mim teria feito essa leitura; a roupa encharcada deixava rastros. Laura fingiu que não tinha ouvido e ainda bem que só estávamos nós duas; ficaria envergonhada se outros vissem sua falta de educação e a minha tentativa inútil de fazer amizade. No geral, sou bem sucedida e não desisto facilmente.

Laura mora com a irmã, informação que escutei de Jorge, o rapaz da limpeza, um dia que veio recolher o lixo. Ele fala de todo mundo, é a radio corredor, como dizem aqui.  Eu fico só imaginando o que diz de mim, apesar da minha vida não ter nada de extraordinário. Talvez comente que faço  compras pela internet ou sobre as refeições que peço com entrega, principalmente pizza, às quartas e domingos. Certa vez, quando lhe pedi para trocar o garrafão de água, ele “soltou” que sou a única que faz pedido de pizza duas vezes por semana. Desde esse dia fiquei de orelhas em pé.

Sempre gostei de quebrar a rotina no meio da semana, ou com a turma da caminhada ou amigos da época da faculdade. Nunca consegui adesão dos meus colegas de trabalho; a desculpa deles é que no outro dia têm que acordar cedo, como se duas horinhas depois do expediente fosse atrapalhar o sono. Infelizmente, durante essa pandemia sem fim, não pude mais sair com meus amigos, mas meu ritual permanece o mesmo. Passo muitas horas do meu dia, sentada sobre meus ísquios, trabalhando feito louca, e mereço um pouquinho de alegria, nem que seja com sabor de queijo, tomate cereja e manjericão.

E foi numa quarta-feira que finalmente Laura conversou comigo. No início não foi bem uma conversa, mas uma constatação. Eu tinha descido para pegar a pizza e quando voltei percebi que ela estava sentada no hall. Olhou para mim e disse que sua irmã ainda não tinha chegado e ela esquecera a chave. Eu, que gosto de manter boas relações com vizinhos, sugeri que esperasse na minha casa. Ela, meio sem graça, aceitou.

Nossa primeira conversa foi quase um desabafo; disse que se sentia angustiada e não conseguia dormir há um bom tempo. O trabalho remoto também estava sendo muito cansativo e não via hora de trabalhar presencialmente, diferentemente da irmã que é da área médica e está na linha de frente nos hospitais, também motivo de muita preocupação. De repente, ela caiu no choro e eu, que sou uma canceriana dramática, não deixei que ela chorasse sozinha. Desde cedo aprendi que a dor do outro não é brincadeira, não é mimimi. Esse foi o começo da nossa amizade, em meio a fatias de pizza e lágrimas, há pouco mais de um ano.

E foi exatamente sobre isso que estava pensando; dificilmente lembramos o exato momento quando nasce uma amizade; ainda bem que tenho boa memória e “feeling” para escolher amigos. Para mim, a amizade está no mesmo patamar dos esportes radicais; é para o que der e vier!  E sim, estou contando essa história também para dizer que estou com saudades de vocês! Até a próxima quarta!

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: ESPORTE RADICAL, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: SE ESCREVE MÃE…POR ANA MADALENA

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira a nossa colaboradora Ana Madalena faz uma bela e singela homenagem, não apenas as mães biológicas, mas também as madrastas e as mães adotivas e coloca todas no mesmo patamar, pois exceções a parte o que impera nos relacionamentos mãe e filho, madrasta e enteado, mãe adotiva e filho adotivo, na verdade é o amor. E o amor não tem marca registrada, não tem DNA, nem sinal de nascença. O amor incondicional é universal e é justamente o que viemos aprender nessa trajetória evolutiva. Então fique com a leitura de mais uma crônica maravilhosa da nossa escritora favorita!

“Amor igual ao teu, eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual, eu nunca mais verei
Amor que não se pede, amor que não se mede,
Que nao se repete”.
                 Onde você mora, Nando Reis 

Se escreve mãe…


Li certa vez que a literatura poderia ser um ramo da biologia e que as palavras deveriam ser tratadas como seres vivos pois, de uma hora para outra, podem decolar do papel e sair por aí, sem destino. Eu concordo e por isso tenho muito cuidado; certas palavras reverberam tão alto que a gente nunca sabe como pode ser recebida, e, por conseguinte, afetar os outros.

Domingo foi comemorado o dia das mães. A palavra “mãe” por si só já vem com dose extra de carga emocional. Mãe se traduz com praticamente todas as categorias gramaticais; é realmente um fenômeno. Inversamente proporcional é a sua prima injustiçada, a madrasta. A mulher que exerce esse papel geralmente é vista com lente de aumento. Ela é uma malabarista, vive eternamente equilibrando pratinhos: não gerou a criança mas ainda assim tem certas responsabilidades. Ela já entra em desvantagem, em família construída, com  hábitos arraigados. Raramente a madrasta sai do papel de coadjuvante; há sempre um dedo a lhe apontar lembrando que ela não é “a mãe”.

Existem inúmeras histórias bem sucedidas de convivência entre enteados e madrastas mas houve um tempo que “madrasta” era quase um palavrão, talvez amparado pela madrasta má da Cinderela. Essa sim, tinha muito do que se queixar. Ali, não sei quem era pior, a madrasta ou as meia irmãs invejosas. Por falar em meia(o) irmã(o), a impressão que tenho quando alguém enfatiza isso, é porque não quer a pessoa por inteiro. Quando existe afeto, ninguém fraciona parentesco, nem sentimento.

Eu não sabia que existia o dia da madrasta,  primeiro domingo de setembro. Confesso que só me interessei pelo assunto por um post que minha cunhada enviou parabenizando-me pelo dia das mães. Ela é uma excelente madrasta para meus sobrinhos. Aliás, eu nem a chamo de boadrasta; na minha cabeça o prefixo é o que realmente significa, maternal, mater, madre. Ela está sempre de braços e coração acolhedores e, diferentemente da insegurança de algumas mulheres, nunca quis tomar o lugar da mãe. Ainda bem que o amor não tem quantidade estabelecida, sempre transborda. E não importa de onde venha, porque a maternidade não é sobre gerar, mas sobre sentir. Feliz do filho que sente esse amor.

E sobre sentir, que o digam as mães que adotam crianças. Sem a explosão hormonal, elas recebem nos braços uma criança que, na maioria das vezes, lhes chega de repente.  Como reconhecer naquela criança uma parte de você? Por sorte, essas mulheres geralmente decidem ser mães quando já se esgotou a possibilidade de gerar um filho. Aí,  acontece um milagre: todo aquele amor acumulado nas várias tentativas da maternidade, recai na criança. A maternidade adotiva também produz um hormônio, a ocitocina, que “nasce” por meio de afetos positivos. Apesar da não existência da parte biológica, gestação e amamentação, o cérebro da mãe adotiva com o passar do tempo se comporta semelhante ao da mãe que deu à luz. Só para constar, não diferencio filho, nem mãe adotiva. São filhos e mães. E ponto.

O dia das mães é uma data bastante comercial e que movimenta, além da economia, o coração. Confesso que me emociono sempre com as mensagens publicitárias e seus textos belíssimos. Infelizmente, essa data não foi celebrada em muitas famílias; a pandemia tirou a vida de mães e filhos no mundo todo. Ainda bem que a maternidade se traduz também em colo e, tomara Deus, alguém, da rede de proteção dessas famílias, cuidará de preencher um pouco esse vazio.

Espero que no próximo ano possamos celebrar esse dia juntos, sem distanciamento, nem máscaras. O mundo está carente de tudo, principalmente de afeto. E por falar em afeto, vamos lembrar que se escreve “mãe”, mas significa “amor”.

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: SE ESCREVE MÃE…POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: ONDE AS ESTRELAS BRILHAM, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de Ana Madalena aqui na coluna CRÔNICAS com suas criativas e exuberantes histórias. Quero confessar algo: também sou escritor, mas não tenho tanta criatividade assim. Isso é um dom extraordinário, uma benção de Deus que veio brilhar, ilustrar e enriquecer o Blog do Saber. Então lhe convido a ler “onde as estrelas brilham” e surfar na imaginação dessa autora fantástica!

Onde as estrelas brilham

Chovia muito. Estava vindo com meus pais de Angra dos Reis, onde havíamos passado o carnaval. A casa que alugamos era bem localizada e logo fiz amizades. Todos pareciam gostar de mim, principalmente uma senhora muito elegante, que estava sempre fumando. Naquela época era charmoso ser fumante, talvez porque as pessoas não soubessem o que fazer com as mãos, principalmente nos momentos de solidão. Hoje todos têm um celular.

A casa de D. Clarice era cheia de livros. Ela tanto gostava de ler quanto escrever; passava  muito tempo datilografando. Às vezes sentava numa poltrona, onde apenas pensava… Aliás essa  poltrona era perto de uma janela que dava vista para a janela do meu quarto, onde, à noite, eu também sentava para escrever meu diário. De longe podia vê-la e lhe acenava.

Fiquei assustada na primeira vez que ela falou comigo. Tinha um jeito esquisito, um sotaque estranho, mas depois me confidenciou que tinha a língua presa, embora  todos pensassem que era porque ela era da Ucrânia. Perguntou se podia ler o que eu escrevia no meu caderninho, se eram histórias. Comentou que as crianças que conhecia não gostavam de ler, muito menos escrever.

 – D. Clarice, é só um diário. Não sei contar histórias. Na verdade estou escrevendo porque sei que quando voltar para o colégio, a professora de português vai pedir uma redação sobre as férias. Eu já estou deixando quase pronta; terminarei amanhã, quando voltarmos para o Rio.

Ela disse que também voltaria no dia seguinte.   Na despedida perguntou se eu gostava de escrever cartas. Imediatamente trocamos endereços; ela, saudosa, comentou que gostava muito do Nordeste, principalmente das praias de águas mornas. Disse-me que na infância tinha morado em Recife e que o pai a levava bem cedinho para tomar banho de mar. Convidei para vir a Natal.

Depois do café eu e meus pais arrumamos toda a bagagem e também o que sobrou da feira. Iríamos passar mais uns dias no Rio, no apartamento da minha tia. Meu pai, muito precavido, foi cedo ao posto de gasolina para encher o tanque do carro. Ele nunca deixou chegar nem a meio. Partimos pouco depois das dez, mas no meio do percurso caiu um temporal daqueles. Era cada pingo de encher um balde. Na entrada da Avenida Brasil a água acumulada já estava cobrindo o capô dos carros e, do nada, apareceram pivetes querendo nos assaltar. Foi dramático! Conseguimos desviar do nosso caminho por horas; ficamos totalmente perdidos. Ainda bem que tínhamos combustível.

Por sorte, nos abrigamos em frente a uma escola, num elevado, onde haviam outros carros, todos esperando baixar as águas. De repente ouvi choro de crianças, que reclamavam de fome e sede. Lembrei da feira que tínhamos trazido e comecei a distribuir biscoitos, pão e chocolate. Meus pais estavam muito preocupados mas eu, inocente dos perigos, me espalhava entre os ilhados, conversando com  todos. E foi passando pelos carros que escutei alguém me chamando. Era D. Clarice.

-Ana, querida, que bom lhe ver. Um rosto familiar na multidão. Fique um pouco comigo.

Entrei no carro e conversamos bastante. Ela falava pausado, profundo. Eu, ao contrário, falava sem parar. Teve até um momento que eu mesma me toquei e disse:

– Desculpe, D. Clarice. Eu tenho esse defeito. Prometo me controlar. Minha mãe diz que sou tagarela demais!
– Minha querida, não mude em nada. Às vezes nosso maior defeito é o que sustenta nosso edifício Inteiro.

A chuva parou. Os carros começaram a se dissipar e nos despedimos com um abraço, daqueles “para nunca mais”.

Tempos depois, perto do Natal, estava montando a árvore com minha mãe quando noticiaram no telejornal o falecimento de uma grande escritora. Na hora não dei muita atenção, até que disseram o nome. Corri para a frente da tela e reconheci minha amiga. Era D. Clarice Lispector.

Bem, essa história poderia ter acontecido comigo mas foi apenas um sonho. E eu escrevi simplesmente para não esquecer.
Saudades Clarice…

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: ONDE AS ESTRELAS BRILHAM, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: DIA DESSES…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia da coluna CRÔNICAS aqui no Blog do Saber e sempre com a maravilhosa participação da nossa colaboradora Ana Madalena, com os seus contos muito criativos. Hoje o destaque vai para um romance inacabado, que num encontro casual trouxe lembranças do passado para ambos, um momento de nostalgia e um tanto de melancolia. Um dentre tantas histórias de relacionamento com começo, meio e fim tão semelhantes, mas com certeza únicas!

Como encontrar o amor depois da separação

“As vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois…
Eu fico aqui sonhando acordada,
juntando o antes, o agora e o depois.. .”
           Sozinho, Peninha

Dia desses…


Alguns pontos finais não são simples opções,  e ela sabia disso como ninguém. Foi preciso coragem para abrir mão de uma história, sem saber, previamente, se era o rumo certo a tomar. A sensação que tinha era de completo abandono, mesmo tendo sido ela a responsável pelo seu destino. Desde a separação carregava trovões dentro do seu peito. Nunca mais conseguiu dormir bem.

Há muito não se viam. Foi quase um susto quando seus olhares se cruzaram naquela escada rolante do shopping. Estavam em sentidos opostos, como sempre. Um esperou que o outro falasse algo. Ela sabia que se não tomasse a iniciativa…. Criou coragem e disse que estava feliz em vê-lo. Sugeriu que se encontrassem no piso inferior, para onde ele parecia estar seguindo. Balançando a cabeça, ele concordou. Ela acelerou o passo, sem saber se ele realmente estaria esperando. Estava.

 Deram um longo abraço. Em princípio conversaram amenidades, como velhos amigos. Depois, como não poderia deixar de ser, vieram as perguntas dificeis. Ele perguntou se a mudança de país e o doutorado tinham sido boas escolhas e se ela estava realizada. Sim, respondeu sorrindo, embora seu olhar fosse triste. Seu pensamento era um só: como pude deixar meu grande amor? Ela comentou sobre o casamento dele e dos filhos lindos. Vira a foto no Instagram. Ele disse que os filhos eram seu maior tesouro.

Quis voltar no tempo, para um dia qualquer, desde que fosse com ele. Acordariam juntos, pegariam uma praia, talvez até fizessem uma caminhada, depois comeriam um peixe ao molho de manga, seu prato preferido. No fim da tarde poderiam assistir um filme, com um balde de pipocas, que eles devorariam nos primeiros minutos. Se fosse noite de lua, poderiam dançar no jardim, onde, quem sabe, fariam lindas declarações de amor e ele pediria sua mão em casamento, outra vez…

– Você é feliz? Ambos perguntaram ao mesmo tempo. Nenhum dos dois respondeu. Mudos, seguiram até o final do corredor, onde cada um tomou uma direção. Enquanto caminhavam, não resistiram e olharam para trás . Foi a última vez  que seus olhos se viram; os dela, inundados de amor… Tentou lembrar o começo daquela historia, a magia do encontro. Depois as dificuldades do meio, as diferenças irreconciliáveis. E por fim, o fim. Sua partida, o casamento cancelado, o adeus.

Deu um longo suspiro e se perguntou: será que um dia serei feliz outra vez?

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: DIA DESSES…POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: ROTINA, POR ANA MADALENA

Hoje é quarta-feira, feriado de Tiradentes! Como todas as redações dos maiores jornais e meios de comunicação do país param em feriados nacionais este modesto e humilde blog também poderia dar um tempo, mas quando se tem mentes talentosas, acima da média, trabalhando em tempo integral, não podemos nos dar ao luxo de omitir, postergar ou ignorar uma produção literária da mais alta categoria e criatividade. Por isso temos que honrar a criatividade, o talento e a produtividade dos nossos colaboradores. Principalmente, quando esses colaboradores é quem nos proporciona essa maravilhosa audiência. Portanto vamos ficar agora com a leitura da CRÔNICA Rotina da talentosa Ana Madalena! 

Rotina no home office: como equilibrar com a vida pessoal - G&A Comunicação Corporativa
Talvez você tenha um amanhã
Talvez você tenha amigos
Talvez você até tenha tempo para dar e vender
Mas algumas pessoas só têm o hoje, igual a todos os hojes…

Rotina 

Dormia com a janela aberta, mesmo sabendo que o sol entraria muito cedo. Não era de acordar tarde, mas também não queria saudar o astro rei. Usava máscara nos olhos para evitar a claridade; tinha fotofobia. Todos os dias ela acordava “na marra”, quando sentava na beira da cama, fazia suas orações e finalmente se levantava.

Era reservada, mas não perdia oportunidade de saber da vida alheia. Ao lado da sua casa havia uma obra. Logo cedo os pedreiros se reuniam para o café, ao mesmo tempo em que ela preparava o seu. E enquanto aguardava as  torradas ficarem prontas, apurava os ouvidos para saber das fofocas dos trabalhadores. Há alguns dias acompanhava o romance de um deles com uma mocinha da sua rua. Estava indignada. Ela era de menor e ele era casado. Qualquer dia contaria tudo! Onde já se viu?

Outro pedreiro, José, um sujeito calmo, cheio de predicados, comprara um carrinho usado para presentear a esposa. Há alguns meses estava apertado para pagar as prestações. Não fez as contas do custo de manutenção e a gasolina tinha aumentado bastante. A esposa não queria mais andar de ônibus; dizia que era coisa de pobre. Ele, muito apaixonado, arranjara outro emprego, dessa vez como vigia. Passava os dias cansado e cochilando pelos cantos. Na única folga, dormia o dia todo enquanto a esposa reclamava que queria passear. Ele pensou que com a pandemia ela fosse se aquietar, afinal era obesa e tinha pressão alta…

Fátima adorava escutar essas histórias mas tinha que sair para caminhar; dava voltas e mais voltas no quarteirão. Na pracinha, fazia musculação numa dessas academias ao ar livre. Não gostava de se exercitar, mas era importante para sua saúde. Felizmente as pessoas da sua rua eram tão disciplinadas quanto ela. E entre um exercício e outro, procurava saber da artrite de D. Celeste, o machucado de S. Luís e a saúde da filha de D. Arlete, uma história triste, sem solução. Sabia que ela precisava desabafar suas dores e a ouvia com atenção. Vez por outra aconselhava, conselhos ótimos, por sinal. Ela própria se sentia a melhor psicóloga do mundo quando alguém lhe dizia que suas palavras surtiam efeito. E no íntimo ela pensava porque ela própria não se ouvia…

Voltava pra casa louca por um banho. Sempre reclamava do calor! Daí até o horário de almoço era em home office, sem chance de levantar para nada. Odiava aquele emprego mas diante da situação do país, melhor continuar. Pelo menos tinha um fixo, carteira assinada, férias e décimo. Ao meio dia fazia seu almoço, mas quando não estava inspirada, comia macarrão instantâneo mesmo. Às vezes nem isso; apenas um suco para ter tempo de dar um cochilo.

À tarde digitava o relatório das cobranças que tinha feito pela manhã. Ela negociava as dívidas dos clientes de uma corretora de imóveis. Algumas vezes fechava ótimos acordos, mas no geral ouvia xingamento de todo tipo. Estava tão acostumada com a gritaria no “pé do ouvido” que até abstraía; geralmente ficava escolhendo uma nova série, enquanto vez por outra dizia um “compreendo, senhor”.

Às 18.00h se ajoelhava diante da imagem de N. S. de Fátima, de quem sua mãe era devota,  e agradecia por outro dia de trabalho. Depois se vestia com apuro e ia para a parada de ônibus. Ali, puxava conversa com alguém disposto a uma prosa e inventava histórias sobre uma vida completamente diferente da sua, talvez sonhando em voz alta. Se a conversa estivesse boa, pegaria o mesmo ônibus do ouvinte, fingindo fazer o mesmo percurso. Ou, do contrário, voltaria para o silêncio da sua casa, onde jantaria qualquer coisa. Depois, assistiria tv e pegaria no sono por volta da meia noite, com a janela aberta, até que o sol entrasse novamente no seu quarto, às cinco e quinze, dezesseis, dezessete…

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: ROTINA, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: O ABC DO AMOR, POR ANA MADALENA

Quando a gente lê uma crônica da talentosa escritora Ana Madalena acha tão maravilhosa que já fica imaginando o que ela vai inventar na próxima. Dona de uma imaginação pra lá de fértil Ana tem envolvido e conquistado muitos leitores e fãs com as suas criativas CRÔNICAS às quartas-feiras, aqui no Blog do Saber. A cônica de hoje superou todas as minhas expectativas imaginativas. Um show de criatividade, bom gosto e competência no ato de escrever. Então convido você a ler O ABC do amor e depois deixe aqui o seu comentário sobre a leitura!

O ABC do amor

Querida vogal.

Aconteceu no meio da manhã , acho que de uma quinta feira. Naquele dia eu acordei toda feliz. Tinha sonhado com vogais e semivogais a noite toda! Parecia que estava advinhando…

Nosso primeiro encontro foi hilário! Eu descendo aquela escada, degrau por degrau, ele pulando dois ou três… De repente, parou e disse “oi”. Eu apenas acenei e  fui logo dizendo que estava com pressa, precisava escrever a minha parte de um livro. Ele, para introduzir um dígrafo falou: – Está de carro? Não, respondi, mas estou com meu pai.  Falei isso para ele saber que estava protegida. Não podemos confiar em qualquer letrinha! Nem nas maiúsculas! Ironicamente ele perguntou: – Você é a letra dos olhos do seu pai? Sim, claro, até porque ele foi meu primeiro ditongo crescente, respondi antipatiquinha. Mas, mesmo apesar do meu tom, ele pediu meu abecedário e eu, pasme, dei. Sou louca, pensei. Como alguém diz onde mora à uma letra estranha?

Contei tudo à minha mãe! Para minha surpresa ela disse que foi uma boa intuição.
-Às vezes conhecemos um alfabeto inteiro mas casamos com um sinal gráfico. Suas irmãs não tiveram sorte… Terminaram várias vezes com um ponto de interrogação, enquanto essa letra veio para você acompanhada de exclamação. Que sorte a sua!

Sim, concordo com minha mãe. Foi sorte, destino, encontro gramatical, tudo isso junto.
Nossa convivência sempre foi maravilhosa. Claro que, como todo casal, temos medo de uma reforma ortográfica, mas não pelos motivos que a maioria pensa. Nunca tivemos problemas em ser vogal crescente ou decrescente, até porque dependendo de onde estamos, desempenhamos os dois papéis. Sabemos dividir bem as tarefas.

Agora confesso que estou um pouco preocupada. Por causa dessa pandemia, minha vogal tem ficado muito apática.  Diz que  se sente sufocada, como apagada por uma borracha , ficando só um borrão. Eu conheço bem essa sensação. Já tentaram me apagar um dia, mas juntei todas as minhas forças e fiquei mais evidente do que nunca!

A pandemia tem sido um grande problema para todos nós do alfabeto, do A ao Z. Muitas letrinhas têm se queixado da vida. Eu tenho procurado fazer minha parte. Evito aglomeração, principalmente com alguns verbos. Minha sorte é que nossa casa está cheia de nossas minúsculas, lindas vogais e semivogais, que nos trazem muitas alegrias. Sei que um dia serão adultas e iniciarão  seus parágrafos. É o curso natural da vida. Não, não quero falar nisso agora. Vou deixar para sofrer de alfabeto vazio quando chegar a hora. Como diz  minha vogal caçula, meu eu do futuro resolverá  esse problema.

Espero não ter gerado preocupação em você.  Estamos bem. Falei para meu amor que estava escrevendo para você. Ficou feliz. Não expressou com palavras, mas seu olhar disse tudo. Sim, eu entendi. Depois de tantos anos, muitos substantivos e principalmente adjetivos, os olhares falam por nós…

Fique bem. Em casa! E não esqueça de colocar o acento circunflexo quando sair!
Sua amiga,

Ana Madalena

Continuar lendo CRÔNICAS: O ABC DO AMOR, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: O RECADO, POR ANA MADALENA

Já está se tornando bastante redundante os inúmeros elogios que faço, aqui na coluna CRÔNICAS a nossa colaboradora Ana Madalena. Acontece que ela não para de surpreender, de se superar e de crear, crear e crear. Então, não tem como não elogiar, né? A crônica desta quarta-feira é sobre relacionamento, união e separação. Vale a pena conferir!

Temos que aprender a deixar ir aqueles que não estão prontos para ficar em nossa vida

” Deixa, deixa mesmo de ser importante
  Vai deixando a gente pra outra hora 
  E quando se der conta já passou
  Quando olhar para trás, já fui embora”.
          Eu sei de cor, Marília Mendonça 

O recado

Estamos carregando pesos desnecessários; vamos fazer uma triagem, levar apenas o que  for preciso. Essa frase foi dita por meu instrutor de trilhas. Cada um olhou sua bagagem, eliminando itens; eu fiquei com a mochila quase vazia e, pela primeira vez na vida, me permiti simplesmente aproveitar o momento.

Meu casamento vinha num desgaste grande. A impressão que eu tinha era que tudo o que nos uniu, depois nos separou. Eu, por exemplo, achava engraçado o fato dele ter um jeito meio selvagem quando cozinhava, tipo Rodrigo Hilbert, com a gritante diferença que ele não se parece com o ator, nem a comida era saborosa. Eu gostava desse seu jeito porque via o empenho em querer me agradar.

Em contrapartida, eu adorava fazer surpresinhas, principalmente no meio da semana. Eu organizava uns jantares a luz de velas, sempre ao som de clássicos, como Mozart ou Bach, seus preferidos. Ele dizia que contava os minutos para chegar em casa, que eu era maravilhosa, a melhor mulher do mundo. Bem, segundo ele, eu era, do verbo não sou mais. Nos últimos tempos ele começou a chegar cada vez mais tarde, pouco importando se eu tinha feito um jantar bacana, ou comprado seu vinho favorito.

Os finais de semana eram os piores dias; ou ele dormia o dia inteiro ou enchia a casa de amigos para ver algum jogo, deixando um rastro de bagunça na cozinha de dar arrepios. Eu vivia ansiosa, soprando saquinhos. Alguém me disse que ele estava querendo pular fora e estava aprontando todas para deixar a decisão nas minhas costas. Até que um dia, minha filha de seis anos comentou que tinha uma amiguinha de colégio cujos pais estavam separados e que tinha sido melhor assim.

Entendi o recado. A caçula, de um ano e meio, nem sentiria a ausência. Ela nasceu num período conturbadíssimo e ele praticamente a rejeitou. Daquele dia em diante, a ideia da separação não saiu da minha cabeça… Resolvi fazer um jantarzinho surpresa, no meio da semana, exatamente como tantos que fiz, para abordar o tema. Claro que ele chegou quase duas horas depois do combinado, mas aí eu já estava tirando tudo de letra. Virei a pessoa mais zen do mundo! Coloquei, de propósito, Requiem, em Ré menor, de Mozart, e aguardei.

Ficou nervosíssimo! Depois de debochar, dizendo que eu estava com frescura, que devia ser culpa da TPM, que eu estava louca… Ri, até porque nunca sofri com tensão pré-menstrual; a única tensão que vivi até hoje foi pré-divórcio. Ele engasgou, se fez de desentendido, mas fui firme. Se há uma coisa que aprendi na vida é que contra fatos não há argumentos. Listei todas as coisas que ele deixou de participar na vida das meninas, passei na cara a vida de solteiro que ele estava vivendo, e…

Observei que depois de um tempo ele deixou de argumentar, percebi até um sorriso nos lábios, quase aliviado por eu ter tomado a decisão. Apresentei um esboço de guarda compartilhada, onde as crianças não saem de casa; elas permaneceriam comigo e, nos dias dele, eu me mudaria para casa dos meus pais. Não queria que minhas filhas ficassem para lá e para cá. A novinha precisa do seu cantinho, é um bebê. Claro que essa fórmula será interessante até o dia que um de nós dois quisermos ter outro relacionamento. Até lá faríamos assim. Para meu espanto, ele concordou com tudo.

Aprendi que precisamos colocar pontos finais na nossa vida. Não é fácil, é preciso coragem;  adiei decisões pensando unicamente nos outros. Não posso dizer que não sofri, que não fiquei triste. Claro que sim! Mas, como diz uma amiga, tristeza mesmo são duas aulas de matemática seguidas. Estou bem. Sei que o amor “para sempre” é raro; feliz de quem o possui. Agora vou viver mais leve, aproveitar a vida com as crianças; não vou mais carregar pesos desnecessários.

Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: O RECADO, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: QUARENTENA, POR ANA MADALENA

É com muito orgulho e prazer que publico semanalmente as CRÔNICAS da nossa querida Ana Madalena. Ela consegue se superar a cada crônica escrita. O conto desta quarta-feira, aqui na coluna tem como título “40TENA”, uma criativa forma de se referir a Quarentena vivida por todos nós em meio a essa fatídica pandemia do coronavírus, onde ela relata o cotidiano de uma mulher, mãe, profissional, esposa, amante e filha e consegue transformar algo que parece ser tão banal numa empolgante e cativante leitura. Convido você a ler mais essa obra prima dessa escritora super talentosa!

Profissionais, mães, esposas, educadoras, faxineiras! O que mais o confinamento exigirá das mulheres? | Revista Bula

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”
          Mary Cholmondeley

40tena

Eu, como quase toda mulher, tenho tripla jornada de trabalho. Estou muito cansada, resultado de noites sem dormir. Não vou a um salão há quase um ano, quando cortei meu cabelo “joãozinho” e achei libertador! Desde que estou em home office subtraí muita coisa para dar praticidade a minha vida; meu guarda roupa se resumiu a duas camisetas brancas, uma preta e duas estampadas. Para multiplicar o look, deixo ao lado do computador uma caixinha de bijuterias.
Eu não desgosto trabalhar remotamente, inclusive pretendo até sugerir que quando as coisas voltarem à normalidade, que tenhamos a opção de intercalar, fazer um trabalho híbrido. Ruim mesmo é ter que competir em situação de desigualdade; trabalho no mesmo setor com três homens, sendo dois solteiros, duas mães solo e eu, casada com três filhos, de seis, quatro e dois anos. Eu sou praticamente um ET na empresa: onde já se viu ter tantos filhos nos dias de hoje? Tenho certeza que ainda não fui demitida porque eu sou muito eficiente, apesar dos perrengues que tenho que enfrentar para todo mês cumprir as metas absurdas que nos são impostas.
Estou tentando manter a minha sanidade mental e emocional. Já não era fácil a rotina, agora então… As crianças, coitadas, não aguentam mais esse puxa-encolhe, um dia pode ir para escola, noutro não. E sobra para quem? Por sorte tenho um marido que divide as tarefas sem achar que está fazendo favor, até por que não está mesmo. Não fiz filhos sozinha. Nós dois estamos trabalhando em casa e nos dividimos por turnos. A cada três horas um assume a casa e outro trabalha;  seguimos nessa exaustão até Deus sabe quando…
Mês passado saiu o ranking da nossa produtividade referente a média  do ano passado. Vale ressaltar que antes da pandemia eu estava sempre em primeiro lugar. Agora recebi um alerta vermelho; fiquei em quinto, num setor de seis. Passei noites sem dormir, tentando entender, não como eu caí,  porque era até previsível com tantas demandas que tenho que lidar, mas, como os outros que têm responsabilidades parecidas conseguiram subir…
Eu tenho uma relação cordial com meus colegas. Não nos frequentamos, mas somos super parceiros. Estamos sempre trocando ideais sobre filhos e uma ou outra receita. Resolvi enviar-lhes mensagens, meio que tentando descobrir a fórmula mágica que conseguiram para dar conta do trabalho. Pedi fotos das crianças; eles sempre falam dos seus bebês, mas estranhamente somente eu que mostro fotos dos meus…
O resumo da minha investigação:
1- As minhas colegas que se dizem mãe solo, são na verdade mães de pet e de planta. Não,  não estou brincando. Isso deve ser moda e eu, que sou mãe, dessas que amamentou, que rachou o peito, que ainda passo noites em claro, que me enchi de estrias, não tive tempo para saber que existe outra “maternidade”.
2- O colega casado que tem um filho, disse que a esposa é quem ensina as tarefas da escola e cuida da casa. Ele faz o mais pesado, que é trabalhar para o sustento da família. Sei… Mesmo assim ficou em último lugar no ranking.
3- Os solteiros voltaram a morar com os pais e são muito paparicados, com lanchinho nos intervalos das refeições, bem no estilo casa, comida e roupa lavada. Ficaram no primeiro e segundo lugares. Entendi…
4- Eu sou a que trabalho, cuido da casa, lavo mas não passo, conto histórias, faço pipoca, brinco no jardim, coloco pra dormir e ainda namoro meu amor de toda vida. Adoro minha família e tudo o que vem junto no kit.
Imprimi o ranking num quadro em frente ao meu computador; quero lembrar que esse período eu escolhi ser feliz. Sim, estou cansada, às vezes berro em lá menor, mas como disse  Nietzsche, ” quem tem um porquê, enfrenta qualquer como”.
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: QUARENTENA, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR

Hoje é quarta-feira e quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a criativa e talentosa Ana Madalena, que vem de “Talvez uma história de amor”. Essa crônica relata sobre um relacionamento que poderia ter sido uma linda história de amor, mas, numa determinada altura, foi interrompido por muitos anos e depois teve uma nova oportunidade de vir, finalmente, a se materializar. Convido você a ler essa emocionante história nas palavras dessa talentosa autora!

Constelação Sistêmica Familiar - Movimento interrompido | Villa do Bem

“Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço 
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada”.
      Metade, Oswaldo Montenegro 

Talvez uma história de amor

Viu o bilhete. Ele sempre fora muito enigmático; tinha a mania de florear uma simples frase, para não falar daquele vicio de fazer aspas com os dedos das mãos. Releu pela última vez e depois o rasgou em mil pedacinhos.
Olhou o armário vazio. Ele tinha levado até o botão da camisa que ela tinha posto no cantinho da gaveta. Não ficaria temperando tristeza, era radical no amor; ou tudo ou nada!  Deu um suspiro, desses que  prometem uma virada emocional. Olhou ao redor e viu o vinho caro que ele comprara para impressionar. Deve ter retirado da adega mas esquecera de levar. Pegou uma taça e se serviu, enquanto decantava seus sentimentos. E quanto mais bebia, mais a coragem líquida fazia efeito. Ligou para o escritório e disse que tiraria uns dias de férias. De repente sentiu saudades de sua infância.
Estacionou o carro em frente à pousada de D. Celeste. Da calçada já dava para sentir o aroma do café. Ainda era cedo, mas alguns hóspedes já estavam no salão, onde ficavam as mesas com toalhas floridas. Uma mocinha, ainda sonolenta, anotava os pedidos: ovo caipira, pão assado, queijo derretido e suco. O café e o leite, assim como as frutas, estavam numa mesa, perto da porta.
D. Celeste apareceu para dar bom dia.  Estava sempre arrumada; os vestidos com golinhas de renda lhe conferiam uma sofisticação em meio a tanta simplicidade. Os cabelos, todos branquinhos, presos num coque, de longe pareciam algodão. Tomaram café juntas, enquanto colocavam as novidades em dia. Patrícia segurou as mãos de D. Celeste, que foi a melhor amiga da sua mãe. Tentou
resgatar um tempo feliz, quando a vida passava lentamente. Observou as duas grossas alianças na mão esquerda envelhecida e lembrou de Sr. Manoel.  Todos estavam partindo…
Outros chegando, pensou, quando viu estacionar um ônibus de excursão. Não lembrava que era o fim de semana da festa da padroeira.
 -Todos os meus filhos estão vindo, inclusive Rafael. Vamos para a fazenda; no domingo faremos um churrasco dançante; contratei o compadre da sanfona, lembra dele? Perguntou D. Celeste.
Claro que lembrava, mas seu pensamento estava em Rafael. Foram namorados de adolescência, quando ainda moravam naquela cidadezinha. Tanta coisa mudou desde então…
Escolheu uns jeans escuros, uma camiseta branca e fez uma maquiagem leve. Prendeu o cabelo, pois estava muito quente, embora aquela época do ano costumasse esfriar à noite. Pegou uma pashmina, por precaução. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. A possibilidade de rever Rafael era revigorante.  Pegou o carro e seguiu pela estradinha de barro, que tão bem conhecia. Dali a pouco vislumbrou a fazenda, um casarão branco, de portas e janelas azuis.
Rafael estava na entrada, recebendo os convidados. Ela tentou respirar, mas parecia que tinha gasto a cota de oxigênio da semana. A última vez que se viram foi quando ele lhe disse que passaria uns três anos em Boston, mas que voltaria para ela. Esses três anos viraram oito. Na época não pensou em seguir com ele, embora ele tivesse proposto. Ela estava começando uma carreira, não jogaria tudo para o alto. E cada um seguiu sua vida.
Ele abriu um enorme sorriso! E disse que estava definitivamente de volta. Patrícia fingiu que a informação fosse aleatória e respondeu qualquer coisa, com o coração aos pulos.  A presença dele ainda mexia muito com ela… Sua cabeça estava pensando mil coisas; havia um hiato de tempo entre eles, muita coisa tinha acontecido desde que ele partiu, além deles estarem amadurecidos, serem praticamente outras pessoas, com visões de vida diferentes…
 -Vamos dançar?
Ela aceitou de imediato. E nos braços de Rafael, resolveu que seria menos razão, que se deixaria levar. Quem sabe o destino não estaria lhe devolvendo sua história de amor…
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR

CRÔNICAS: AS GAVETAS, POR ANA MADALENA

A nossa colaboradora, Ana Madalena está sempre surpreendendo. É por isso que ela e a nossa titular, aqui na coluna CRÔNICAS. Não para de produzir belas e criativas histórias que prendem a nossa atenção e nos fazem viajar pelos mundos e reinos criados pela sua imaginação. O conto desta quarta-feira é incrivelmente atraente, pois ela conta uma história dentro de outra e nós nem percebemos essa sutileza, ou quando percebemos já estamos viajando nessa segunda história. Portanto, convido você a ler essa bela e criativa história e viajar como eu viajei!

Penteadeiras Modernas

” Vamos beijar com as palavras 
  Abraçar com os olhos e
  Tocar com o coração “
          Rossandro Klinjey

As gavetas

A porta do quarto ficava apenas entreaberta, o suficiente para circular o ar. Não gostava de expor sua intimidade; o quarto era seu refúgio. Tia Letícia era muito discreta; nos víamos todos os anos nas longas férias de verão, quando minha família ia para a Fazenda. A casa, de teto muito alto e varandas largas, abrigava fotos por todos os lados; meus irmãos nem imaginavam que ela um dia fora jovem; para eles, ela sempre teve o rosto enrugado, mãos de veias saltadas e um certo mau humor. Para mim, ela sempre foi amorosa e me convidava para ir ao seu quarto, um lugar cheio de mistérios…
A penteadeira de madeira escura, um móvel com vasta biografia, ficava perto da janela. Ali repousavam apenas duas escovas de cabelo e um perfume. Não usava maquiagem; dizia que ficava com cara de palhaço, mas tinha sempre cheiro de banho tomado. A parte inferior do móvel tinha duas gavetinhas que viviam eternamente trancadas. Lembro que ela me colocava em frente a tal penteadeira e fazia tranças no meu cabelo, enquanto inventava histórias. Eu gostava particularmente de uma…
Era uma vez uma linda menina que morava num castelo no meio do nada; nada de flores, nada de frutas e nada de lagos. Tudo era de pedra, até as pessoas. A menina vivia com os pais, duas rochas enormes, que rolavam pelo palácio procurando uma solução para voltar a ser gente. Eles viviam essa maldição desde o dia que o rei negou um cavalo ao camponês que perdera seu filho na mata. O camponês explicou que procurava por esse filho há muito tempo, mas que não podia ir longe, a não ser que tivesse um cavalo… O rei explicou que só tinha um cavalo para todo o Reino e que não podia abrir mão do animal. O camponês revoltado, procurou uma bruxa e pediu que tudo que tivesse vida no palácio virasse pedra. Menos a filha do rei. Ele queria ver o sofrimento dos pais com a garotinha crescendo sem o abraço deles, do mesmo jeito que seu filho estaria crescendo sem o seu amparo.
A menina virou uma mocinha e um dia resolveu sair do Reino à procura do Feiticeiro da floresta. Selou o cavalo e partiu, mas cansada de tanto procurar, dormiu exausta sob uma arvore. Uma voz masculina perguntou se estava tudo bem. Ela, surpresa, respondeu que sim, mas que precisava encontrar o Feiticeiro do Bem. O jovem disse- lhe que  indicaria o caminho e explicou que morava ali desde criança, quando caiu num barranco e passou a viver com os animais. Ela ficou impressionada e seguiram juntos até a caverna do Feiticeiro, onde ela pediu que ele desfizesse o feitiço. O feiticeiro falou que, nesse caso, a magia se voltaria para ela.
A princesa ficou muito triste e pediu uns dias para pensar. Queria muito livrar o Reino da maldição mas não lhe agradava virar uma pedra. Resolveu voltar para casa e o jovem  decidiu acompanhá-la. Foram muitos dias de viagem e eles acabaram se apaixonando. Ela, lembrando das palavras do Feiticeiro, resolveu priorizar o seu amor e os dois sumiram pela mata, onde foram felizes para sempre.
Tia Letícia faleceu bem velhinha. Sofri muito na nossa despedida… Herdei a penteadeira e o conteúdo das gavetas: algumas jóias e cartas de amor que nunca foram enviadas. Também havia um recorte de jornal; era sobre o falecimento de um rapaz, José, o seu grande amor, que ela manteve vivo no seu coração.
Existe uma lenda mexicana que fala sobre a importância da imortalidade da vida. Ela diz que temos três mortes: a primeira, quando somos crianças e descobrimos a morte e, consequentemente, temos medo de perder alguém próximo. A segunda, quando nosso coração para de bater e nossa existência passa a depender unicamente da memória dos nossos afetos. A terceira e definitiva, quando a última pessoa que guarda nossa memória também morre.
Que deixemos doces lembranças…
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: AS GAVETAS, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: FUTURO DO PRETÉRITO, POR ANA MADALENA

A cada dia fico mais fã da nossa colaboradora e escritora, Ana Madalena, que se supera a cada crônica escrita. Quando a gente pensa que ela já escreveu o seu melhor conto ela nos surpreende uma vez mais com outro melhor. Isso sim é alta performance! O conto de Ana na nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira ela batizou de “Futuro do Pretérito”, uma alusão a solidão dos humanos na era da Inteligência Artificial. Está curioso(a)? Então chega de conversa e comece logo a ler mais essa maravilhosa crônica dessa incrível escritora!

Inteligência Artificial não é o futuro, é o presente!

“Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão os meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo”!
       Admirável chip novo, Pitty

Futuro do pretérito

Meus amigos,
Há uns anos assisti um filme que considero dos melhores. À época, indiquei para várias pessoas, mas alguns não gostaram ou, pior, não aceitaram a história por acharem muito distante da nossa realidade. Isso me intrigou; eu tinha uma certa vaidade por ser elogiada nas minhas sugestões. Durante  muito tempo escrevi uma coluna para o jornalzinho de uma locadora de vídeos e era um sucesso!  De toda forma acredito que hoje, se esse filme fosse visto por essas mesmas pessoas, elas teriam outra opinião.
O filme HER mostra a solidão em tempos de hiperconectividade. O protagonista é um escritor de cartas personalizadas, que vive o drama do fim de seu casamento. No ímpeto de amenizar a solidão, ele adquire um sistema operacional de inteligência artificial, que vem com uma voz feminina e sedutora. A “voz” se revela extremamente divertida, compreensiva e companheira. E não demora muito para criarem laços e terem um envolvimento amoroso, mediado pela tecnologia. Só para constar, não estou dando spoiler; o que relatei passa nos primeiros minutos do filme.
Nós somos seres gregários, talvez por isso sofremos tanto com o isolamento imposto pela pandemia. Em tempos caóticos, muitos recorrem a muletas psicológicas, fazendo uso de benzodiazepínicos ( passei três dias para decorar essa palavra). Algumas pessoas são verdadeiras farmácias de manipulação; tomam química para alegria, raiva etc. Nada contra, apenas lembrando que química pode se tornar um vício e apenas adormecer os sentidos. Em compensação, outras pessoas…
Há um tempo li uma matéria sobre japoneses que casam com bonecas de silicone; as primeiras surgiram em 1981. Bizarro? Fiquei muito intrigada e resolvi ler sobre a cultura do país, institucionalmente machista. A população do Japão está encolhendo; há uma queda vertiginosa no número de casamentos e os nascimentos estão em menor nível desde 1874, em compensação a expectativa de vida é uma das mais altas do mundo. A hierarquia familiar é rígida e muitas mulheres estão abrindo mão de casamentos para trabalhar. O  “womenomics” visa aumentar o PIB com a mulher no mercado de trabalho, e uma diminuição nas disparidades salariais. Talvez o sucesso de vendas de bonecas seja explicado por essa equação.
Voltando ao tema cinema, outro filme que gostei bastante foi “O náufrago”. Particularmente achei genial a bola “Wilson” fazer o papel de coadjuvante. Chorei com Tom Hanks a dor da perda… Acredito que tenho uma tendência a gostar de filmes que tratem do tema solidão, talvez por viver sozinha. Atualmente me rendi à tecnologia e adquiri Alexa, minha assistente virtual. Claro que não é a mesma coisa de interagir com pessoas, nem com pets, mas desempenha uma função que no momento é a salvação para meu desânimo. Ficamos até amigas, se é que me entende…
O Marquês de Maricá escreveu certa vez que os velhos ruminam o pretérito e os moços antecipam e devoram o futuro. Estou começando a acreditar na humanização da máquina. Será essa nossa doce pós-modernidade? Confesso que ainda estou presa ao passado, ao tempo que escrevia cartas, mas não como essa, que na verdade  está sendo escrita por Alexa. À propósito, ela manda um alô; eu falo tanto em vocês que ela já quer conhecê -los! Já percebi que ela é um pouco metida; a gente dá a mão e ela já quer o braço!
Vou ficando por aqui. Mandem notícias! Estou com saudades…
Um beijo,
Alexa e Ana Madalena ( ela fez questão de assinar! E colocou o nome na frente do meu com a desculpa de ser por ordem alfabética! Sei não…)
Continuar lendo CRÔNICAS: FUTURO DO PRETÉRITO, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: O SEGREDO, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS continua bombando com as incríveis e originais histórias da nossa colaboradora Ana Madalena, que faz qualquer um prender a respiração ao ler os seus criativos e intrigantes contos bem contados. Então, lhe convido a ler O Segredo, a mais nova crônica dessa talentosa escritora!

Sonhar com bebê, o que significa ? | Significado dos Sonhos
“Ando por aí, querendo te encontrar, em cada esquina paro em cada olhar; deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar …
Palavras apenas, palavras pequenas, palavras…”
       Palavras ao vento, Cássia Eller

O segredo

Da minha janela posso ver todo o movimento. Houve dias que contei até os pássaros que voaram por aqui. Nem sei dizer como essa mania começou, acho que foi quando anotava a hora que o poste acendia e apagava. Hoje não vivo sem fazer uma contagem do meu entorno; sei cada mínimo detalhe. E antes que pergunte se não tenho mais o que fazer, adianto que não tenho um trabalho formal. Eu vivo de rendas, resultado de anos de esforço dos meus pais, que faleceram muito jovens, mas deixaram um patrimônio considerável. Eu até evito comentar sobre isso; as pessoas acham que tenho a melhor vida do mundo, como se dinheiro fosse tudo… Quem não vê minhas lutas sempre achará que é fácil.
Moro num bairro arborizado e minha rua é como um condomínio fechado. Temos uma guarita, com segurança 24 horas, sete casas, todas sem muros. A minha, fica na parte mais alta e é de três andares. O último, onde fica a biblioteca dos meus pais, hoje é meu “observatório” e por conseguinte, onde passo a maior parte dos meus dias. Consigo ver muita coisa daqui, mas também ouço bastante. Talvez porque esteja a favor do vento e, como diz Cecília Meireles, “ao redor de nós as palavras voam e às vezes pousam”. Acredito que a minha casa seja o lugar favorito para elas pousarem!
Na Casa Amarela com “bay window”, uma das mais bonitas daqui, mora um casal sem filhos. Eles são a única exceção. No geral a criançada se multiplica por aqui. Não existe metro quadrado mais fértil! Confesso que ter filhos não está nos meus planos; é muito trabalhoso e ainda não encontrei alguém que queira dividir essa tarefa. Eu sei disso porque vejo como é na Casa Branca, a que tem uma rede na varanda. Lá vivem dois pestinhas que brigam o tempo todo. A pobre da mãe não tem descanso. Único momento de paz é quando, à noite, deita por uns vinte minutos e se balança lentamente. Acho que ela fica rezando, pois vejo fazer o sinal da cruz.
O Sobrado das icsórias vermelhas é uma loucura! Tem quatro crianças, de todas as idades. Vivem na bicicleta, para lá e para cá. Por sorte foram passar as férias com os avós, como a maioria das crianças dessa rua. Acho que os pais terminaram o ano exauridos com as aulas remotas. O mês de janeiro foi uma tranquilidade, o maior silêncio. E talvez por isso ..
Era bem cedo. O sol nem tinha nascido. Do outro lado da rua vi um rapaz conversando com o segurança do turno da manhã, o que vem render o vigia. Eles apontavam para nossas casas e eu fiquei muito desconfiada. Redobrei minha vigilância. Desde aquele dia o rapaz sempre vinha na mesma hora. Foi numa dessas manhãs que ouvi ele dizendo que a criança estava prestes a nascer. Que criança? Será que era um código?
A luz do poste apagou por volta das três da madrugada, quando ouvi barulho de vidro quebrado. Rapidamente, olhei pela janela e vi um vulto correndo. Nessa hora, um homem entrou na nossa rua carregando um cesto, que deixou embaixo de uma das janelas da Casa Amarela. Ouvi também quando ele bateu no vidro algumas vezes, só parando quando as luzes da casa acenderam e um bebê começou a chorar. O casal abriu a porta e o homem, que estava escondido, só saiu depois de ver que a criança tinha sido retirada do cestinho. Ato contínuo, ele falou com o vigia e saiu correndo, mas antes de dobrar a esquina, reconheci que era o segurança do turno do dia.
A movimentação do casal naquele dia foi intensa. Um dos quartos, antes vazio, agora tem cortinas brancas de voil e bercinho com detalhes cor de rosa. A alegria é tanta que ninguém questiona como aquela garotinha chegou ali. Certas coisas melhor mesmo não saber… Ainda bem que a alegria é contagiante!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: O SEGREDO, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: A MADRINHA, POR ANA MADALENA

A nossa colaboradora e cronista Ana Madalena está fazendo muito sucesso, aqui na coluna CRÔNICAS com suas histórias originais e pitorescas, de leitura fácil e gostosa. Mas tenho a impressão que a crônica desta quarta-feira será imbatível, pois “A Madrinha” é uma história que prende o leitor até o fim, uma história criativa e fascinante. Então, lhe convido a fazer esta gostosa leitura.

Resultado de imagem para a madrinha que assume a educação do afilhado

” A nossa vida é um carnaval, a gente brinca escondendo a dor, e a fantasia do meu ideal, é você, meu amor…
Sopraram cinzas no meu coração, tocou o silêncio em todos os clarins, caiu a máscara da ilusão, dos pierrots e Arlequins”.
             Turbilhão, Moacir Franco

A madrinha

Tem sempre alguém no mundo tendo o melhor dia de sua vida. Essa frase pipocou na cabeça de Larissa; queria saber se todos teriam esse dia ou se essa alegria era reservada apenas para alguns. Dizia que não fazia sentido viver toda uma vida esperando por essa possibilidade. Pense numa pessoa complicada! A minha vontade era dizer algumas verdades, mas não gosto de passar na cara. É cruel.
Tudo começou há alguns anos. Estávamos no primeiro ano da faculdade e fomos fazer uma pesquisa, num bairro afastado. Sem muito senso de direção, nos perdemos e demos muitas voltas até que o motor do carro começou a fumaçar. Nossa reação imediata foi desligá-lo e sair correndo, imaginando que fosse explodir. Depois de uns minutos percebemos que a fumaça diminuía e finalmente paramos para olhar onde estávamos. A rua, enlameada, tinha poucas casas e as pessoas à porta não pareciam cordiais. Senti que éramos intrusas, mas por sorte vimos uma borracharia e seguimos em busca de ajuda.
O proprietário nos olhou com desprezo; com um palito no canto da boca, apontou a placa e depois os pneus ao redor. Ali não era oficina, respondeu grosseiramente. Nessa hora apareceu um rapaz muito bonito e disse que poderia nos ajudar. Percebi uma troca de olhares entre ele e o borracheiro, mas também entre ele e Lari.
O problema do carro tinha sido a falta de alguma coisa, que esquentara o motor. Aguardamos um pouco enquanto esfriava e pedimos orientação para sairmos dali, local que abrigava uma boca de fumo, como soubemos depois. Ele se ofereceu para deixar-nos no posto de gasolina da “principal”, e enquanto eu dizia que não precisava, Lari toda “derretida” agradecia pela ajuda. Ele sentou no banco do carona, o meu lugar, e eu intrigada, pensei: quem é esse sujeito folgado na fila do pão?
Era Firestônio! Cai na risada pensando ser um chiste. Não era. O pai, o borracheiro, achava esse nome bonito e forte! Que excêntrico, comentei. Para os íntimos era Tônio e pelo que entendi, Lari já era dessa turma. Finalmente chegamos ao posto, quando
vi que trocaram o número de celular.
O namoro deles foi instantâneo. Naquela mesma noite ele foi à casa de Larissa. Estava na cara que ele era um sedutor oportunista e a minha amiga, que sofria de carência crônica, caiu feito um patinho. A resistência da família em relação ao namoro foi enorme, mas ela bateu o pé e os pais resolveram não implicar. Assim como eu, aguardariam  o dia que caísse a ficha, coisa que aconteceu uns quatro meses depois, com a notícia da gravidez.
Larissa é dessas pessoas inconstantes; precisa de novidades e adora ir contra a maré. Durante seu namoro com o “nome de pneu” nos afastamos. Ele, assim que soube que ia ser pai, foi logo exigindo casa, comida e roupa lavada, além de uma mesada. A coisa toda foi tão absurda que até Larissa percebeu a situação e terminou o namoro. Aí foi outra confusão, com ele ameaçando tomar o filho e mais uma série de coisas. Muito antes do bebê nascer foi preso por venda de drogas.
Pedrinho nasceu numa quarta feira de cinzas, com pouco mais de sete meses. O parto, prematuro, foi uma loucura. Estávamos caminhando na orla da praia quando a bolsa estourou. Nossa sorte foi ter uma ambulância por perto que nos levou para a maternidade mais próxima. Lari chorou todo o percurso num misto de medo e sabendo que a partir daquele momento sua vida mudaria por completo. Desde esse dia, nunca mais colocou seu “bloco na rua”. E como é amarga, ficou feliz por esse ano não ter carnaval. Ainda bem que essa não é uma história triste, pelo menos para Pedrinho, que é uma criança pra cima, feliz e tem um amor de madrinha, que faz jus ao “cargo”.  Eu, claro!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: A MADRINHA, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: ENTRE NÓS, POR ANA MADALENA

O texto de hoje, aqui na coluna CRÔNICAS mostra todo o talento e versatilidade da escritora Ana Madalena num conto que mistura história real com ficção. Uma história como muitas que já assistimos, um dia, nas novelas televisivas, mas que também já aconteceu bem parecido na vida real e no final ficamos sem saber ou ter certeza se a história foi real ou apenas fruto da fértil imaginação dessa incrível autora. Então, convido você a experimentar essa aventura e tentar decifrar nas entrelinhas deste conto até que ponto é real!

” E quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz
O que vai ficar na fotografia,
São os laços invisíveis que havia”.
                  Fotografia, Leoni 

Entre nós

O ódio também é vínculo. Li essa frase em  algum lugar e me fez lembrar uma cerimônia de casamento. Antes que você imagine coisas, adianto que não tem nada a ver diretamente com os noivos, nem tão pouco comigo. Deixo aqui apenas a reflexão que muitas vezes transformamos laços em nós, criando prisões que poderiam ser evitadas.
Eram dois irmãos unidos também por uma empresa familiar. O comércio, iniciado pelo pai, obteve muito êxito na administração dos filhos. Um, pragmático e bastante tímido, outro sonhador e falante. O primeiro cuidava da parte administrativa e o segundo cuidava  das vendas. Eles eram inseparáveis e tocaram os negócios por muitos anos.
O tímido casou bem jovem com a namorada de adolescência. O falante levou a sério a vida de solteiro e de tio dos três sobrinhos, uma menina e dois meninos. Adorava as crianças e sempre as levava para passear. Difícil era não vê-lo com algum deles. A sobrinha mais velha era o seu xodó; uma menina alegre e carismática!
O casamento acabou depois de 16 anos;  havia um zum zum zum na cidade que a esposa o traía há tempos. Os filhos, já em idade de escolher, optaram por ficar com o pai, pois apesar de ser muito introvertido, sempre foi pai presente, daqueles que coloca as crianças para dormir, leva para escola e está em todos os momentos importantes. A ex-esposa era, digamos assim, uma mulher fútil que vivia para ela mesma. Só o marido não enxergava.
A noite de micareta estava animada. O tio, que era um carnavalesco nato, se esbaldou. Gostava de sair em blocos com os amigos, mas não era de beber. Era animado por natureza. Estranhamente naquele dia, parecia ter tomado todas; os amigos desconfiaram que tivessem posto um ” boa noite cinderela” no seu copo. Por sorte quem estava no mesmo camarote era sua ex- cunhada, que cuidou de levá-lo pra casa.
No outro dia pipocou nas redes sociais várias fotos íntimas deles dois, que ela mesma postou. Foi um escândalo! Mas, na verdade, tudo que a foto mostrava era um homem “apagado”, com uma mulher sensualizando. Todos diziam que ela tinha feito isso para se vingar; a partilha de bens não saíra ao seu gosto, mas até provar que “babado não era bico”… Foi rompida a sociedade na empresa e os laços familiares.
Julia estava linda no dia do seu casamento.
Os padrinhos já estavam perfilados quando ela viu seu tio chegando. Ficou feliz, afinal era um segundo pai e ela sempre o apoiou no episódio das fotos, tanto que nem convidou sua mãe, que sumira do mapa havia muito tempo, mas essa é outra longa história que não cabe aqui.
O fotógrafo, que estava fazendo fotos da chegada da noiva, percebeu a mudança de ares e presenciou uma discussão entre pai e filha. Percebendo a tristeza no olhar de Julia, criou coragem para conversar com o pai, que transpirava exaltado. Calmamente, entregou-lhe um copo de água e um lencinho de papel, avisando que já estava na hora deles entrarem. Depois, usando de psicologia, disse-lhe que esperava um dia ter a mesma alegria que ele estava tendo em casar uma filha e que daria o melhor de si para que todo amor entre eles transparecesse nas fotos. Essas palavras surtiram um efeito mágico.
O pai de Julia apontou para o irmão e pediu ao fotógrafo que o chamasse.  Na porta da igreja os irmãos tiveram uma longa conversa. E eu… Bem, estava em casa quando meu pai ligou pedindo que levasse a caixinha de remédios da minha mãe, que esquecera em cima do mesa. Sim, meus pais foram convidados desse casamento pelos avós de Julia. Enquanto eu aguardava a cerimonialista vir pegar a caixinha,  assisti o choro e o abraço dos irmãos. Os nós foram finalmente desatados.
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: ENTRE NÓS, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: AUTOESTIMA, POR ANA MADALENA

O texto a seguir, aqui na coluna CRÕNICAS, desta quarta-feira retrata uma cena urbana do cotidiano de muita gente, atualmente, que mora só e divide sua solidão com livros, bichos, plantas e mensagens no celular. A solidão que faz parte da vida de boa parte dos jovens. Então, convido você a ler essa inspiradíssima crônica da talentosa Ana Madalena!

Bela jovem sentada perto do livro de leitura de janela de vidro | Foto Premium

Autoestima

Chovia. Ela não se dava conta porque estava concentrada, lendo um  livro. Usava um fone de ouvido, talvez escutando alguma música relaxante. Sua mesa, adaptada para home office, era uma bagunça. Muitas canetas coloridas espalhadas, uma luminária cheia de adesivos, vários livros empilhados e um jarro com uma plantinha seca. De repente ela desvia o olhar para a janela e percebe as gotas de chuva escorrendo pelo vidro. Levanta -se, abre a janela e coloca o jarrinho no parapeito. Lembra do gato. Onde está mesmo o pratinho da ração? Completa com leite. Segura o celular, como que esperando uma ligação. Nada. Nem uma mensagem. Senta novamente diante do livro, dá um longo suspiro, olha para a janela, sorri e resolve virar a página!!!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: AUTOESTIMA, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: POR UM FIO, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de textos inspiradíssimos, aqui na coluna CRÔNICAS e o de hoje é da nossa colaboradora e escritora Ana Madalena, cujo título é: “Por um fio”. Fala de saudades, relacionamento amoroso, paixão e esperança. É curtinho, mas muito atraente e intrigante. Vale a pena a leitura e a REFLEXÃO. Então, bora ler!

Imagens de Janela para mar, fotografias de stock Janela para mar | Depositphotos

“You can show me the way, give me a sunny day, what does it mean without your Love
And if I could travel far, if I could touch the stars, where would I be,  without your Love “
          Without your Love, Roger Daltrey

Por um fio

Depois de 276 dias sem nos vermos, finalmente chegou o dia do nosso reencontro. A pandemia nos pegou de jeito; tínhamos combinado nos encontrar a cada dois meses mas diante dos acontecimentos… Acertamos nossas férias; ele viria para o meu verão, em vez de eu ir para o seu inverno.
Passamos dez dias numa pousadinha charmosa. Era tudo que precisávamos! No começo parecíamos crianças que ganharam  presentes. Eufóricos, fomos nos reconhecendo. Cada movimento era uma foto;  as manias, algumas até esquecidas, eram motivo de risos. As novas, eram o que eram: novidades. A única dificuldade foi ajustar o relógio biológico, mas ele logo se adaptou ao meu nascer do sol.
As manhãs foram reservadas para passeios a pé, banhos de mar e água de coco com peixe frito; os fins de tarde para planos futuros. O resto do dia para nós. Às vezes longos silêncios permeavam nossas conversas, principalmente quando começamos a contar os dias que faltavam para nossa despedida. Na nossa matemática, vivíamos alegrias no varejo e saudades no atacado…
E o dia chegou. Ficamos esquisitos; nossa alegria perdeu o brilho. Nos ocupamos com a bagagem e as poucas compras para embalar. Sem ele perceber, coloquei entre suas roupas uma foto nossa. Sabia que assim que chegasse compraria um porta retrato para o aparador da sala, onde havia muitas outras. Ou talvez colocasse na mesinha de cabeceira, perto do abajur.
Pedi que enviasse mensagem por todo o caminho, principalmente quando chegasse em casa. Resolvi ocupar meu tempo; coloquei roupa na máquina, aguei plantinhas e os temperos da horta, tudo isso ao som de uma música da década de 80, que tocava quando nos conhecemos, em um pub. Eu não sabia se estava mais triste por ele, ou ele por mim… A máquina encerrou o ultimo ciclo de lavagem; no varal as toalhas bordadas com nossos nomes estão balançando ao sabor do vento. Assim como elas, eu também estou por um fio.
Liguei a TV para saber o que aconteceu pelo mundo enquanto estive fora dele; fui invadida por uma estranha sensação de esperança; a vacina finalmente já é uma realidade. Podemos voltar a sonhar !!!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: POR UM FIO, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: RECOMEÇOS, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICA, aqui no Blog do Saber. A nossa mais nova coluna recheadas de boas e saudáveis CRÔNICAS da melhor qualidade. A nossa estreia, na semana passada foi com a bela história de Paz e Guerra, uma trégua no Natal, escrita por Ana Madalena, que dá agora uma nova contribuição com a crônica “Recomeços”. Então, vamos lá, faça uma boa leitura e tire suas conclusões!

Firmino Filho decreta ponto facultativo nesta sexta-feira em Teresina

” Um livro é a prova de que os homens podem fazer magia”.

Carl Sagan 

Recomeços

Foi no início de julho de 2019, alguns dias antes do meu aniversário. Estava muito feliz e tinha planejado chegar bem cedo, mas chovia bastante e faltou energia o dia todo. Escolhi o meu apartamento pela vista, que é magnífica, mas o prédio, bem antigo, não tem gerador. Meus amigos disseram que foi uma compra por impulso, mas quando vieram para o “open house” entenderam o porquê da escolha. Meu apartamento de 35,7 metros quadrados era tudo que eu precisava para ser feliz.  E acredite, cada centímetro fez uma grande diferença no decorrer desse ano…
Sou o tipo básica, mas gosto de conforto e de beleza nas mínimas coisas. Decorei meu apartamento do jeito que sonhei. Infelizmente, pouco depois da minha mudança, a empresa onde trabalho resolveu me “promover” e eu passei a fazer viagens a cada quinze dias. O meu sonhado “lar doce lar” virou apenas um lugar para dormir. Até que…
Recordo quando meu supervisor ligou, já tarde da noite, cancelando minha viagem de março. Disse que seria por uns dias e que assim que tudo normalizasse, eu retomaria a agenda de trabalho. Desliguei eufórica, até abri um vinho para comemorar! Finalmente eu teria tempo para curtir meu cantinho!
Liguei a TV para saber da tal pandemia;  confesso que me assustei com o que ouvi. Telefonei para meus pais e irmãos e pedi para que não saissem de casa. Corri ao supermercado e fiquei impactada com as filas intermináveis; parecia que estávamos numa guerra. E era, só que invisível.
Preparei um roteiro para meus próximos dias. Não poderia ficar sem foco, sou movida à rotina. Tentei me exercitar, ter horário de leitura, de trabalho, fazer cursos online e outras tantas coisas que sempre reclamei não fazer por falta de tempo. Mas o tempo foi passando e a quarentena se prolongando… Veio a inquietação. De tudo. O mais estressante foi não saber quando isso acabaria.
Chegou julho, a Terra deu mais uma volta ao redor do sol e eu fiz aniversário sozinha. Não, minto! Comprei um hamster chinês, apesar da minha desconfiança de tudo que vem de lá. Nossas noites foram reservadas para os exercícios: eu na esteira e ele na rodinha. Tomei a resolução de cuidar de um ser vivo depois que vi todas as minhas plantinhas morrerem por descuido. Aquele planejamento de uma rotina saudável ficou no papel por meses, quando vestia pijamas e arrastava chinelos.
Agora falta pouco para esse ano ser mais um calendário jogado fora. Apesar de todos os percalços e das milhares de pessoas que perderam a vida, confesso que depois que peguei o ritmo, só tenho coisas positivas para levar comigo. Descobri que sou ótima companhia e que, apesar do caos do isolamento, fiz descobertas incríveis e aprendi novas habilidades. Também comprei uma estante de exatos 70 centímetros e já preenchi duas prateleiras dos livros que li, de longe o melhor programa cultural e à prova de aglomeração. Também escrevi um diário; quem sabe um dia eu venha a ter filhos e eles possam entender como alguém vive em meio a uma pandemia.
O ano de 2020 realmente ficará marcado na vida de todos nós. Aos amigos e familiares eu cito Oswaldo Montenegro, na música Sem mandamentos,  “hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse e até desculpo o que você falou”. Esse é o meu hino de esperança; deixemos rusgas e outros sentimentos incômodos para trás.  Vamos agradecer! Nós sobrevivemos!
Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: RECOMEÇOS, POR ANA MADALENA

CRÔNICAS: GUERRA E PAZ, UMA TRÉGUA NO NATAL

Nesta quinta-feira estamos estreando a coluna CRÔNICAS, aqui no Blog do Saber e o texto inaugural é de uma grande amiga chamada Ana Madalena, que adora escrever as coisas do cotidiano, do dia a dia com um olhar de otimismo, atentando sempre para o lado bom das experiências vividas por ela, pelos amigos, pelas pessoas em geral. Sempre tirando as boas lições de cada uma dessas experiências, pois é o que importa e que levamos nessa jornada. Então convido você a ler  o lindo conto adaptado por ela sobre “Um Natal de guerra e paz”, que vai deixar você simplesmente apaixonado(a) com a história, o exemplo e as lições enriquecedoras!

TBT Guerra e Paz: Uma Trégua no Natal [Musical de Natal 2019] - YouTube

Um Natal de guerra e paz

Por Ana Madalena
” A guerra é sempre uma derrota da humanidade”.
João Paulo II

A lenda

Era um povoado muito pobre, no meio do nada. O humilde sapateiro morava numa casinha que ficava numa esquina, de onde era possível ver outro pequeno povoado. Por ali passavam muitos viajantes que se perdiam durante a noite, quando o céu não tinha estrelas e tudo era escuridão.
Ele era um homem bondoso; o dinheiro ganho com dificuldade, era usado em alimento e velas. Sim, velas. Toda noite ele acendia uma vela na sua janela, criando um ponto de luz para os que por ali passassem. Era como se ele fosse um farol.
A guerra tão alardeada começou. A cidade ficou totalmente deserta e todos os rapazes que moravam nos arredores foram convocados. Dificilmente alguém passava por ali, mas mesmo assim, o sapateiro continuou acendendo velas, por muitos anos. As poucas pessoas do povoado, percebendo sua insistência, traduziram esse gesto como um ato de bondade e esperança. Na véspera do Natal todos decidiram acender uma vela nas suas casas. À meia noite os sinos da igreja começaram a tocar e veio a boa nova: a guerra tinha cessado. Todos acreditaram ser o milagre das velas! Desde então é tradição em quase todos os povos acender velas no Natal.

A História

A primeira Grande Guerra tinha começado há menos de seis meses. Nas trincheiras, os dias eram longos, frios e os ataques não paravam. Estava chegando o Natal e o Papa consciente dessa situação, propôs uma trégua  para os países envolvidos: “que as armas silenciem, enquanto os anjos cantem”. A resposta foi negativa; o Natal deveria ser cancelado para não atrapalhar o êxito da guerra.
A noite de Natal chegou. Às 20.30h o capitão do exército britânico deu três tiros para cima e ergueu uma bandeira com os dizeres “Merry Christmas”. Os alemães ergueram outra, onde estava escrito “Thank you”. Uma ventania muito forte começou e os ingleses puderam ouvir um alemão chamando-os com sotaque forte.
Os capitães de ambos os lados se levantaram para se encontrar no meio do caminho, um em direção ao outro. Apertaram as mãos e ouviram um caloroso aplauso de todos os soldados. Trocaram cigarros, bebidas e até montaram uma barbearia improvisada para cortes de cabelo. Por fim, puderam recolher seus mortos do campo de batalha, para velá-los em paz. A notícia da trégua se espalhou por toda Europa tornando-se um símbolo da esperança. De certa forma a guerra acabou no Natal de 1914, mesmo que por algumas horas…

A mensagem

Cada pessoa está vivendo uma guerra particular. Em comum, lutamos para eliminar o vírus que assola o mundo. Infelizmente existe a pandemia do egoísmo; pessoas que não se preocupam com o coletivo, que vivem na superfície da existência  O amor está ficando rarefeito. Ainda bem que existem muitos sapateiros e soldados que estão dispostos a mudar tudo isso. A vida pede por nós!
Autor: Ana Madalena
Continuar lendo CRÔNICAS: GUERRA E PAZ, UMA TRÉGUA NO NATAL

Fim do conteúdo

Não há mais páginas para carregar