CRÔNICAS: RELACIONAMENTO ABERTO, POR ANA MADALENA

É com muito orgulho e prazer que trago mais um texto inédito da nossa ex-colaboradora e fantástica cronista Ana Madalena para publicar, aqui na nossa coluna CRÔNICAS de todas as quartas-feiras do ano. Como sempre, é impossível não ter a curiosidade de ler do começo ao fim, não só pelo prazer, mas principalmente para ver até onde vai a sua imaginação. O título, Relacionamento Aberto não é, como sempre, o que imaginamos antes de começar a ler e sempre me surpreendo com o desenrolar de suas histórias. Por isso convido você a ler mais essa crônica maravilhosa dessa fenomenal escritora.

COMO FAZER INTERCÂMBIO

Relacionamento aberto


Que saudade das minhas viagens! Me orgulho em dizer que, quando planejo um passeio, sou disputada pelos amigos; dizem que na minha companhia não ficam entediados, nem sentem o tempo passar. Realmente, viajar, mesmo em pequenos grupos não é para qualquer um. Eu mesma me preparo alguns meses antes; estudo temas variados para entreter quem estiver por perto. Óbvio que sigo algumas regras, como não conversar assuntos delicados, muito menos pela manhã. Geralmente essa é a hora de conversar amenidades, contar algum sonho, eu mesma invento vários, embora na vida real não sonhe nunca. Ou se sonho, não lembro. O café da manhã tem que ser festivo, com sorrisos de bom dia. Claro que muitas vezes não são retribuídos; algumas pessoas só acordam depois das dez, mesmo que fisicamente já tenham feito várias coisas, desde as sete.  Não se brinca com o relógio biológico!

Gosto de dirigir,  fazer viagens onde possa conhecer caminhos e, sobretudo, ver paisagens (adoro a palavra “sobretudo”, dá um ar de sofisticação ao vocabulário, cada vez mais empobrecido). Viajar é uma oportunidade de aprender várias coisas e eu realmente me organizo para tirar o melhor proveito dessa experiencia; faço playlist, lanchinhos e meto o pé na estrada! A única coisa que me irrita é ter hora marcada. Geralmente viajo com hotel reservado somente na chegada e no meu destino final. O meio do caminho é sempre uma surpresa!

Não gosto de viajar de avião, principalmente voos longos. Quem gosta? Além de desconfortável, exige um grau de intimidade que me incomoda, principalmente quando meu assento é na fileira do meio, entre estranhos. Por mais que procure fazer as coisas com antecedência, selecionar meu lugar, as vezes acontece de grande parte dos passageiros terem me antecedido. E o percurso vira, no mínimo, um tédio. Geralmente levo um livro, o que me salva por algum tempo, e. rezo para que as pessoas ao meu redor não ronquem, o que invariavelmente acontece.

Nunca fiz um cruzeiro, embora seja um desejo antigo, mas fiquei com um pé atrás depois de ouvir sobre infecções alimentares e, mais recentemente, surtos de covid, etc. Acho que, tirando esses problemas, é uma viagem muito boa. Não ter que fazer e desfazer malas o tempo todo, além de ter uma estrutura que possibilite fazer mil coisas, é o melhor dos mundos.

O único meio de transporte que tenho fobia, ou melhor, claustrofobia, é o elevador. Sempre tive medo de entrar naquela cabine, desde quando, ainda criancinha, me mudei para um prédio, numa época quando ainda não era comum ter geradores residenciais.   Não, não foi na pré-história, se é o que está pensando. A verdade é que a sina de ficar presa em elevadores me acompanha desde então.

Na primeira vez , eu tinha sete anos de idade e vinha com minha irmã mais nova do colégio, no fim da tarde. Nós morávamos no terceiro andar, uma viagem até rápida, mas  mal entramos, faltou energia. Ficou tudo escuro e eu me desesperei. Ela, muito madura, segurou a minha mão e disse que não me preocupasse. Minha irmã sempre foi uma pessoa corajosa; nunca derramou uma lágrima por nervosismo, nem quando precisava  tomar injeção. Já eu, ao contrário, nasci com todos os medos! Dizem que os filhos mais velhos são um poço de insegurança, por causa da inexperiência dos pais, que depois do “estágio” do primeiro filho, tiram de letra os próximos. O primogênito que lute contra seus fantasmas, no meu caso, muitos!

E como exercício contra a timidez e medos bobos, meus pais me colocaram desde cedo para fazer um curso de música. Quer coisa mais aterrorizante do que se apresentar para uma plateia? Minha professora, percebendo que eu gostava de saber sobre a história por trás da música, aos poucos foi quebrando meu nervosismo, me incentivando a, antes da apresentação, comentar um pouco sobre a autoria da música a ser apresentada. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida! Eu discorria sobre tudo, desde a vida do músico, em um grau de intimidade como se fôssemos os melhores amigos, até sobre questões técnicas da partitura. Isso quebrava um pouco minha timidez e dali seguia com menos medo de errar.

Trouxe esse ensinamento para minha vida. No colégio, eu sempre pedia para apresentar trabalhos, mesmo que na véspera não conseguisse dormir e chorasse de nervoso. Sou canceriana e “chorar” é quase como respirar; os sentimentos vêm antes de mim, para o bem e para o mal. E foi assim que me tornei uma pessoa comunicativa, embora tímida. Só eu sei o deserto que tive que atravessar para me tornar quem sou hoje.

Fiz intercâmbio em uma época que não era  comum. Ali eu realmente quebrei barreiras! Ter que conviver com pessoas de uma realidade totalmente adversa da minha foi, em princípio, um susto, mas também uma libertação. Eu não só tive que superar medos, como também superá-los noutra língua. Minha família estrangeira era maravilhosa, conversava bastante comigo e eu, envergonhada e sem saber o que falar, comecei a inventar histórias. O café da manhã era a minha hora da mentira;  eles prestavam atenção a cada detalhe do que eu contava. Lembro que meu “pai americano” sempre perguntava se a história era em cores ( inventei uma vez de dizer que sonhava em preto e branco) e se em inglês. No dia que respondi “yes” para as duas perguntas, ele me deu parabéns e disse que eu estava totalmente adaptada à minha nova vida. Nova vida? Quer dizer que posso ter mais de uma? Que maravilha!

Como já disse antes, sou canceriana. Levo esse signo muito a sério, até porque explica grande parte das minhas ações. Esse ano, pelos astros, vai ser um grande ano para mim! Dizem que Júpiter me atrapalhou nos últimos onze anos e finalmente mercúrio, que aqui comparo com minha professora de música, vem com tudo para abrir meus caminhos. E pelo que li, vai ser uma guinada daquelas! Novas oportunidades, desafios e, sobretudo (olha minha palavrinha preferida), uma nova vida! Há a previsão de eu viajar, para outro país! Um novo intercâmbio se abre para mim, só que dessa vez não ficarei com uma família. Depois do Airbnb, a possibilidade de me hospedar em um lugar onde possa “participar” diretamente da vida de outra pessoa é muito instigante. É quase como um relacionamento, onde inicialmente trocamos algumas informações, depois conversamos um pouco sobre nossos interesses e finalizamos quando ocupamos o espaço daquela pessoa que aluga não só seu imóvel, como parte da sua vida. É o que chamo de  relacionamento aberto! Compartilhar uma casa, manusear objetos de outra pessoa, folhear seus livros, ver fotos de família na estante… O meu primeiro relacionamento aberto foi em um outono distante, quando aluguei um quarto numa casa linda, cercada de pinheiros e esquilos, o famoso “bed and breakfest”. Depois que selecionei o local, que entrei em contato com o proprietário e quando já estávamos quase amigos, ele precisou viajar na véspera da minha chegada. Para minha surpresa, ele deixou um bilhete de boas vindas, em cima do balcão da cozinha, junto com vários cupcakes que devo ter mencionado que gostava nas nossas conversas. A geladeira estava abastecida, e na porta, pregado com um imã, nome de vários mercadinhos e dicas de locais interessantes para conhecer.

E foi assim que vivi outra vida, de tantas que já tive oportunidade de viver. Raramente me hospedo em hotéis, gosto de conhecer novas pessoas e formas de viver. De comum, todos “Airbnbistas” que conheci, têm a cultura do desapego, de uma vida minimalista, além de uma lista de regras para boa convivência, que poderiam perfeitamente existir em todos os lugares, inclusive nas nossas próprias famílias. Sou muito a favor do que é dito, do não deixar  subentendido. Todas essas pessoas com quem pude partilhar um pouco, tornaram-se amigos, principalmente com a ajuda das redes sociais.

Alguém disse, certa vez, que não é a distância que separa as pessoas, mas o “tanto faz”… Tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo, de várias vidas que já vivi, para quem nunca fui “tanto faz” e com quem divido minha “camuflada” timidez. À eles, dedico meu patrimônio emocional.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: NO ANO NOVO CABE TUDO, INCLUSIVE UM BODE NA SALA, POR ANA MADALENA

Tivemos a sorte grande de receber mais uma das extraordinárias CRÔNICAS de Ana Madalena, que já foi nossa colunista de CRÔNICAS e justamente na virada do ano e sobre ano velho e ano novo. Essa foi, sem dúvida. uma das melhores que já li dessa autora. Por isso convido você a ler o texto completo a seguir, curtir, apreciar e admirar esse grande talento!

O bode na sala da família Mercosul - Autoescola Online - Ronaldo Cardoso

Hibernei os dois primeiros dias do ano. Precisava de descanso, resultado de excessos do ano que passou. Aliás, está difícil equalizar essa conta. Muita coisa vai ter que ser compensada em 2022, um número que acho até  simpático, mas não vou me animar muito; festejei a chegada de 2020 como nunca, me vesti toda de dourado, arrasei no carisma, cheguei em casa com o sol nascendo e…  Deu no que deu! Em 2021 ensaiei um brinde com amigos e família e a coisa também não foi boa. Desisti. Estou com pé atrás em relação a comemorações e começando a ter ranço dessa coisa de ter hora marcada para ser feliz. A impressão que tenho é que a “felicidade”  principalmente nas redes sociais, está virando um bem de consumo, com cursos e livros ensinando como alcançá-la, o que está dando um nó na cabeça de muita gente.
Cansei do jogo do “contente”, principalmente depois que conheci alguns coaches motivacionais; gastam tanta energia com os outros, que quando chegam em casa estão  esgotados! Um coach motivacional deveria ter seu personal coach para quando ele não está animando multidões. Realmente motivar pessoas é muito desgastante; eu poderia facilmente fazer o contrário: ser uma coach desmotivacional;  acho muito mais eficaz. A parábola do bode na sala é perfeita para isso! Reza a lenda que uma família vivia em um cômodo apertado e todos passavam o dia discutindo. O mais velho da família foi procurar o mestre e ele disse que colocasse um bode na sala. O bode rasgou sofá, derrubou cadeiras, foi aquela confusão. O homem voltou ao mestre e ele recomendou que agora tirasse o bode da sala. Como por milagre, a paz se instaurou. Moral da história: precisamos dar mais valor ao que temos.
Peguei no sono pouco antes da virada e deixei meus pedidos para esse ano por conta da minha cabeça. Transferi a responsabilidade para o inconsciente e, para tanto, passei o dia usando a “técnica cotonete”, uma das melhores coisas da vida. Limpo meus ouvidos e só escuto o que quero. Aprendi essa técnica em um curso gratuito na Internet;  estou outra pessoa! Limpei tanto minha mente que consegui  decorar “Faroeste caboclo”, do Legião urbana, um monólogo de oito minutos. Não, não comecei com essa música, mas essa foi meu apogeu! Sim, essa é uma das formas de “cotonetar”; a etapa seguinte é declamar poesia em frente ao espelho. Preferi esse curso ao de “empinar bum-bum” por R$ 29,90 mês; já pensou a fortuna que teria que gastar com cada pedaço do corpo?
Reforcei a terapia; agora serão duas vezes por semana. Minha psicóloga diz que meu fio condutor emocional não é claro; meus personagens internos são cheios de detalhes, o que me causa muita distração. E são muitos personagens antagônicos! Resumindo: há uma eterna briga interna na minha cabeça  e por isso que tem horas que faço uma coisa e no meio da atividade, resolvo fazer outra totalmente diferente. Finalmente alguém conseguiu explicar esse meu comportamento. Passei a vida escutando que sou inconstante, indecisa, além de “Maria vai com as outras”. Não é fácil ser eu.
Decidi que não farei mais bolões para a mega da virada. Cheguei a conclusão que não tenho sorte para jogos; na verdade, acho que gastei toda minha sorte em bingos que participei em hotéis fazenda, quando era criança. Ganhei cestas de palha e um jarro em cerâmica, que quebrou na viagem de volta. Nos jogos de tabuleiro sou expert em “voltar duas casas”. Quer recado melhor do que esse?
Estou entrando numas de assistir filmes em línguas desconhecidas. Sem legenda. Sabe aquela coisa de você cair em um país de costumes e língua totalmente diferente da sua? Pois é. Estou exercitando meu cérebro no sentido de captar a emoção. Tem muita coisa sendo feita extra Hollywood, com enredos fascinantes ( pelo menos do que posso apreender), um mundo de emoções, que dá até angústia. Nesse sentido, lembro que há muitos anos, estava assistindo a peça “Miss Saigon”, em inglês, com um amigo que não sabia mais que duas palavras nessa língua. De repente eu percebi que ele estava chorando e quando terminou o espetáculo ele comentou que tinha sido a coisa mais bonita que tinha visto. Eu, então, perguntei se ele tinha captado os diálogos, ao que ele respondeu, emocionado: -Ana, diálogos para quê?
Tenho visto séries, de virar noites. Para mim existem coisas na vida que daria prêmios aos inventores. Essa, de vermos filmes e séries a qualquer hora, com um cardápio tão variado, é mesmo genial. Coloco no mesmo patamar de quem inventou a colcha de matelasse, fralda descartável e sabonete líquido. Voltando às series, as que mais me pegaram “de jeito” foram “Maid”, uma das melhores coisas que assisti ano passado, e “Cenas de um casamento”, uma catarse com diálogos tão extensos, que ainda me pergunto como os atores decoraram. Acho que fizeram o mesmo curso que eu fiz! E antes que esqueça, as trilhas de abertura de algumas são sensacionais. Nesse aspecto, “The morning show” e  Sucession” estão reverberando nos meus ouvidos! Falando em música estou avançando no documentário sobre os Beatles, Get back. Incrível o processo de criação deles. Já os livros, estão em fila para serem devorados. Ganhei vários de presente de Natal! Mas antes deles, vou reler alguns que possuo de Lya Lyft, uma das escritoras que me deu o entusiasmo pela leitura.
O calor aumentou muito esse ano. Dizem que subiu mais dois graus. Passo os dias olhando para o horizonte na esperança que chova um pouquinho. Os pássaros, coitados, voam com uma asa e se abanam com a outra. Eu procuro me mexer o mínimo possível, mas uma gota de suor insiste em descer pela minha testa. Acho que a cabeça é o lugar mais quente do meu corpo; vive em constante ebulição. Morro de medo de fritar os meus neurônios e por isso estou sempre em busca de novas sinapses. Mas não pense que é fácil! É um exercício tão pesado quanto cross-fit. Dou especial atenção à área da  imaginação; o lúdico é uma das melhores coisas da vida! Pena que algumas pessoas não façam uso.
Hoje é o primeiro dia útil do ano; a responsabilidade bate à porta. No café vou comer as duas rabanadas que sobraram da ceia ( escondi na geladeira) e começar a trabalhar. Confesso que estou na maior preguiça, mas não tenho opção, não é questão de preferir agora ou depois. Diferentemente de mim, se perguntarmos a um pássaro se prefere asas ou gaiola, ele não pensará duas vezes. Acho que vou colocar um bode na sala, quem sabe assim…
Ana Madalena
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CRÔNICAS: EU SEI, MAS NÃO DEVIA, POR MARINA COLASANTI

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira trás um texto cujo título é “Eu sei, mas não devia”. 

A crônica de Marina Colasanti convida o leitor a refletir sobre a sociedade de consumo, sobre como lidamos com as injustiças presentes no mundo e sobre a velocidade do tempo em que vivemos, que nos obriga a avançar sem apreciar o que está ao nosso redor.

Ao longo dos parágrafos vamos nos dando conta de como nos acostumamos com situações adversas e, em determinado momento, passamos a operar no automático. O narrador dá exemplos de pequenas concessões progressivas que vamos fazendo até, afinal, ficarmos numa situação de tristeza e esterilidade sem sequer nos darmos conta.

Eu sei, mas não devia, de Marina Colasanti (texto completo e análise)

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A crônica Eu sei, mas não devia, publicada pela autora Marina Colasanti (1937) no Jornal do Brasil, em 1972, continua nos cativando até os dias de hoje.

Ela nos lembra de como, muitas vezes, deixamos as nossas vidas se esvaziarem acomodados numa rotina repetitiva e estéril que não nos permite admirar a beleza que está a nossa volta.

Eu sei, mas não devia – texto completo

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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CRÔNICAS: A FOTO, POR LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Apresentamos nesta terça-feira a última crônica da série de seis crônicas do renomado escritor Luis Fernando Veríssimo, intitulada “A foto”. Uma história maravilhosa sobre uma grande família e a pose de todos, desde os bisas até os bisnetos  para o retrato que irá ficar para a posteridade. Por isso convido você a ler essa crônica maravilhosa e apreciar o que há de melhor no estilo! 

6. A foto

Foi numa festa de família, dessas de fim de ano. Já que o bisavô estava morre não morre, decidiram tirar uma fotografia de toda a família reunida, talvez pela última vez.

A bisa e o bisa sentados, filhos, filhas, noras, genros e netos em volta, bisnetos na frente, esparramados pelo chão. Castelo, o dono da câmara, comandou a pose, depois tirou o olho do visor e ofereceu a câmara a quem ia tirar a fotografia. Mas quem ia tirar a fotografia? – Tira você mesmo, ué. – Ah, é? E eu não saio na foto?

O Castelo era o genro mais velho. O primeiro genro. O que sustentava os velhos. Tinha que estar na fotografia. – Tiro eu – disse o marido da Bitinha. – Você fica aqui – comandou a Bitinha. Havia uma certa resistência ao marido da Bitinha na família. A Bitinha, orgulhosa, insistia para que o marido reagisse. “Não deixa eles te humilharem, Mário Cesar”, dizia sempre. O Mário Cesar ficou firme onde estava, do lado da mulher.

A própria Bitinha fez a sugestão maldosa: – Acho que quem deve tirar é o Dudu… O Dudu era o filho mais novo de Andradina, uma das noras, casada com o Luiz Olavo. Havia a suspeita, nunca claramente anunciada, de que não fosse filho do Luiz Olavo. O Dudu se prontificou a tirar a fotografia, mas a Andradina segurou o filho. – Só faltava essa, o Dudu não sair.

E agora? – Pô, Castelo. Você disse que essa câmara só faltava falar. E não tem nem timer! O Castelo impávido. Tinham ciúmes dele. Porque ele tinha um Santana do ano. Porque comprara a câmara num duty free da Europa. Aliás, o apelido dele entre os outros era “Dutifri”, mas ele não sabia.

– Revezamento – sugeriu alguém. – Cada genro bate uma foto em que ele não aparece, e… A ideia foi sepultada em protestos. Tinha que ser toda a família reunida em volta da bisa. Foi quando o próprio bisa se ergueu, caminhou decididamente até o Castelo e arrancou a câmara da sua mão. – Dá aqui. – Mas seu Domício… – Vai pra lá e fica quieto. – Papai, o senhor tem que sair na foto. Senão não tem sentido! – Eu fico implícito – disse o velho, já com o olho no visor. E antes que houvesse mais protestos, acionou a câmara, tirou a foto e foi dormir.

O texto “A foto” exibe uma situação típica de uma família de classe média. Em um simples momento, o cronista consegue revelar diversas facetas de cada personagem, deixando evidente sentimentos como insegurança, inveja, orgulho, sarcasmo e ciúmes, fazendo uma crítica à falsidade nas relações familiares.

O motivo da fotografia na narrativa era claro: fazer um registro com todos em volta do casal idoso, sendo que o patriarca estava prestes a morrer. Portanto, a pessoa mais importante ali era o velho. Entretanto, vendo a confusão entre os parentes para saber quem tiraria a fotografia (e ficaria de fora do registro), o próprio bisavô se levanta e faz a foto.

O caráter humorístico da história se dá na medida em que, enquanto a família discutia e dissimulava suas diferenças, o senhorzinho só queria mesmo acabar com aquele momento desconfortável, não se importando de fato com o registro e dizendo que sua presença ficaria “implícita”, ou seja, ficaria oculta, mas subentendida na foto.

Quem é Luis Fernando Veríssimo?

Retrato de Luis Fernando Veríssimo exibe fotografia do escritor em perfil segurando microfone em fundo preto

Luis Fernando Veríssimo iniciou sua carreira como escritor no final dos anos 60 no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre. Foi quando começou a escrever crônicas curtas, que com o tempo passaram a chamar atenção pelo tom bem-humorado e marcado pela ironia.

Filho do importante romancista Érico Veríssimo, Luis Fernando se tornou um dos mais conhecidos escritores brasileiros, atuando ainda como cartunista e saxofonista.

Trabalhou ainda para vários jornais e revistas, como a “Veja” e o “O Estadão” e tem também algumas obras ficcionais.

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CRÔNICAS: DOIS MAIS DOIS, POR LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Continuando a série de 06 CRÔNICAS engraçadas do sensacional cronista brasileiro Luis Fernando Veríssimo, nesta edição estamos publicando a 5ª crônica “Dois mais dois”, uma história instigante, curiosa e perspicaz. Então convido você a ler esse conto maravilhoso que merece o nosso aplauso!

 

5. Dois mais dois

O Rodrigo não entendia por que precisava aprender matemática, já que a sua minicalculadora faria todas as contas por ele, pelo resto da vida, e então a professora resolveu contar uma história.

Contou a história do Supercomputador. Um dia disse a professora, todos os computadores do mundo serão unificados num único sistema, e o centro do sistema será em alguma cidade do Japão. Todas as casas do mundo, todos os lugares do mundo terão terminais do Supercomputador. As pessoas usarão o Supercomputador para compras, para recados, para reservas de avião, para consultas sentimentais. Para tudo. Ninguém mais precisará de relógios individuais, de livros ou de calculadoras portáteis. Não precisará mais nem estudar. Tudo que alguém quiser saber sobre qualquer coisa estará na memória do Supercomputador, ao alcance de qualquer um. Em milésimos de segundo a resposta à consulta estará na tela mais próxima. E haverá bilhões de telas espalhadas por onde o homem estiver, desde lavatórios públicos até estações espaciais. Bastará ao homem apertar um botão para ter a informação que quiser.

Um dia, um garoto perguntará ao pai:

– Pai, quanto é dois mais dois?
– Não pergunte a mim – dirá o pai -, pergunte a Ele.

E o garoto digitará os botões apropriados e num milésimo de segundo a resposta aparecerá na tela. E então o garoto dirá:

– Como é que sei que a resposta é certa?
– Porque Ele disse que é certa – responderá o pai.
– E se Ele estiver errado?
– Ele nunca erra.
– Mas se estiver?
– Sempre podemos contar nos dedos.
– O quê?
– Contar nos dedos, como faziam os antigos. Levante dois dedos. Agora mais dois. Viu? Um, dois, três, quatro. O computador está certo.
– Mas, pai, e 362 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. A não ser reunindo muita gente e usando os dedos das mãos e dos pés. Como saber se a resposta d’Ele está certa? Aí o pai suspirou e disse:
– Jamais saberemos…

O Rodrigo gostou da história, mas disse que, quando ninguém mais soubesse matemática e não pudesse pôr o Computador à prova, então não faria diferença se o Computador estava certo ou não, já que a sua resposta seria a única disponível e, portanto, a certa, mesmo que estivesse errada, e… Aí foi a vez da professora suspirar.

Nessa crônica curta, Veríssimo explora a inocência e sagacidade infantil.

Aqui, o escritor exibe uma situação na qual há toda uma narrativa imaginada por uma pessoa adulta – a professora, no caso – usada como recurso pedagógico para “convencer” seu aluno da importância de aprender a fazer contas.

Entretanto, a expectativa da professora é frustrada pela fala da criança, que chega a conclusões que fogem do esperado.

Assim, temos um texto com humor leve que nos leva a pensar em como as crianças muitas vezes são imprevisíveis e perspicazes.

Fonte: Cultura Geral

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CRÔNICAS: CUIA, POR FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira estamos apresentando a 3ª de uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. O pequeno texto a seguir faz parte do livro O analista de Bagé (1981), no qual o escritor apresenta como protagonista um psicanalista gaúcho que não leva jeito para cuidar da saúde mental das pessoas e se transformou no seu principal e mais famoso personagem. Então vamos curtir e apreciar Cuia, uma das obras primas desse gênio da literatura brasileira.

3. Cuia

Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé ― segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noiva” ―, tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório.

― Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más.
O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou:
― Cuia mais linda.
― Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras banda de Lavras.
― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba.
― Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal.
― Oigalê.
― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa.
― A la putcha.
O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado.
― Curtida barbaridade. ― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor.
― Oigatê.
E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou:
― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho?
― É esta mania que eu tenho, doutor.
― Pos desembuche.
― Gosto de roubar as coisas.
― Sim.
Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais.
Estava de olho na sua cuia.
― Passa ― disse o analista.
― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá.
― Passa a cuia.
― O senhor pode me curar, doutor?
― Primeiro devolve a cuia.

O moço devolveu. Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão.

O pequeno texto faz parte do livro O analista de Bagé (1981), no qual o escritor apresenta como protagonista um psicanalista gaúcho que não leva jeito para cuidar da saúde mental das pessoas.

Isso porque o personagem é bastante rude e grosseiro, expondo em forma de caricatura algumas características e esteriótipos associados ao homem do sul do país. O que dá o tom surpreendente e risível da história é o contraste entre a personalidade e a profissão do homem, pois para ser um terapeuta deve-se ter tato e compreensão, o que definitivamente o analista de Bagé não tem.

No diálogo podemos observar algumas palavras típicas do vocabulário gaúcho, como “piá” (menino), “charlar” (conversar), “oigalê” e “oigatê” (que denotam espanto e surpresa). A “cuia”, que dá o nome ao texto, é o nome do recipiente usado para beber o chá mate, muito comum entre os gaúchos.

Esse personagem é o mais conhecido de Luis Fernando Veríssimo, contribuindo para tornar suas crônicas famosas.

Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: INCIDENTE NA CASA DO FERREIRO DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira estamos apresentando a 2ª de uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, no texto a seguir o autor se utiliza de jargões e ditados populares para construir histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas. Então vamos curtir e apreciar Incidente na casa do ferreiro, uma das obras primas desse gênio da literatura.

Incidente na casa do ferreiro - YouTube

2. Incidente na casa do Ferreiro

Pela janela vê-se uma floresta com macacos. Cada um no seu galho. Dois ou três olham o rabo do vizinho, mas a maioria cuida do seu. Há também um estranho moinho, movido por águas passadas. Pelo mato, aparentemente perdido – não tem cachorro – passa Maomé a caminho da montanha, para evitar um terremoto. Dentro da casa, o filho do enforcado e o ferreiro tomam chá.

Ferreiro – Nem só de pão vive o homem.
Filho do enforcado – Comigo é pão, pão, queijo, queijo.
Ferreiro – Um sanduíche! Você está com a faca e o queijo na mão. Cuidado.
Filho do enforcado – Por quê?
Ferreiro – É uma faca de dois gumes.
(Entra o cego).
Cego – Eu não quero ver! Eu não quero ver!
Ferreiro – Tirem esse cego daqui!
(Entra o guarda com o mentiroso).
Guarda (ofegante) – Peguei o mentiroso, mas o coxo fugiu.
Cego – Eu não quero ver!
(Entra o vendedor de pombas com uma pomba na mão e duas voando).
Filho do enforcado (interessado) – Quanto cada pomba?
Vendedor de pombas – Esta na mão é 50. As duas voando eu faço por 60 o par.
Cego (caminhando na direção do vendedor de pombas) – Não me mostra que eu não quero ver.
(O cego se choca com o vendedor de pombas, que larga a pomba que tinha na mão. Agora são três pombas voando sob o telhado de vidro da casa).
Ferreiro – Esse cego está cada vez pior!
Guarda – Eu vou atrás do coxo. Cuidem do mentiroso por mim. Amarrem com uma corda.
Filho do enforcado (com raiva) – Na minha casa você não diria isso!
(O guarda fica confuso, mas resolve não responder. Sai pela porta e volta em seguida).
Guarda (para o ferreiro) – Tem um pobre aí fora que quer falar com você. Algo sobre uma esmola muito grande. Parece desconfiado.
Ferreiro – É a história. Quem dá aos pobres empresta a Deus, mas acho que exagerei.
(Entra o pobre).
Pobre (para o ferreiro) – Olha aqui, doutor. Essa esmola que o senhor me deu. O que é que o senhor está querendo? Não sei não. Dá para desconfiar…
Ferreiro – Está bem. Deixa a esmola e pega uma pomba.
Cego – Essa eu nem quero ver…
(Entra o mercador).
Ferreiro (para o mercador) – Foi bom você chegar. Me ajuda a amarrar o mentiroso com uma… (Olha para o filho do enforcado). A amarrar o mentiroso.
Mercador (com a mão atrás da orelha) – Hein?
Cego – Eu não quero ver!
Mercador – O quê?
Pobre – Consegui! Peguei uma pomba!
Cego – Não me mostra.
Mercador – Como?
Pobre – Agora é só arranjar um espeto de ferro que eu faço um galeto.
Mercador – Hein?
Ferreiro (perdendo a paciência) – Me dêem uma corda. (O filho do enforcado vai embora, furioso).
Pobre (para o ferreiro) – Me arranja um espeto de ferro?
Ferreiro – Nesta casa só tem espeto de pau.
(Uma pedra fura o telhado de vidro, obviamente atirada pelo filho do enforcado, e pega na perna do mentiroso. O mentiroso sai mancando pela porta enquanto as duas pombas voam pelo buraco no telhado).
Mentiroso (antes de sair) – Agora quero ver aquele guarda me pegar!
(Entra o último, de tapa-olho, pela porta de trás).
Ferreiro – Como é que você entrou aqui?
Último – Arrombei a porta.
Ferreiro – Vou ter que arranjar uma tranca. De pau, claro.
Último – Vim avisar que já é verão. Vi não uma mas duas andorinhas voando aí fora.
Mercador – Hein?
Ferreiro – Não era andorinha, era pomba. E das baratas.
Pobre (para o último) – Ei, você aí de um olho só…
Cego (prostrando-se ao chão por engano na frente do mercador) – Meu rei.
Mercador – O quê?
Ferreiro – Chega! Chega! Todos para fora! A porta da rua é serventia da casa!

(Todos se precipitam para a porta, menos o cego, que vai de encontro à parede. Mas o último protesta).
Último – Parem! Eu serei o primeiro.
(Todos saem com o último na frente. O cego vai atrás).
Cego – Meu rei! Meu rei!

Incidente na casa do ferreiro traz uma história cheia de referências a ditados populares brasileiros. É por meio dos provérbios que Luis Fernando Veríssimo faz um texto marcado pelo absurdo e pelo cômico.

Logo no início percebemos um narrador-observador que nos descreve o cenário em que se passa a história. O espaço-tempo já nos revela um ambiente ilógico e atemporal, onde águas passadas movem um moinho e macacos cuidam do seu próprio rabo, cada um no seu galho.

Os personagens principais são o “ferreiro” (fazendo alusão à “em casa de ferreiro o espeto é de pau”) e o “filho do enforcado” (referência de “em casa de enforcado não se fala em corda”).

Outros personagens vão surgindo aos poucos, como um cego, um vendedor, um guarda, um mentiroso, um coxo, um pobre, um mercador e o “último”. Todos eles estão relacionados a ditos populares e juntos na mesma narrativa criam uma atmosfera teatral e satírica.

Para melhor compreensão do texto, é esperado que o leitor tenha conhecimento dos provérbios citados. Por isso, a crônica se torna também uma espécie de “piada interna” para o povo brasileiro.

Para conhecer mais sobre provérbios, leia: Ditados populares e seus significados.

Fonte: Cultura genial

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CRÔNICAS: A METAMORFOSE DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira vamos iniciar uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas. Então vamos curtir e apreciar A Metamorfose, uma das obras primas desse gênio da literatura.

Sobre a crônica como linguagem, o próprio autor define:

A crônica é um gênero literário indefinido, em que cabe tudo, do universo ao nosso umbigo, e a gente aproveita essa liberdade. Mas escrever alguma coisa que preste sobre o cotidiano é difícil. Aquela história que quem canta o seu quintal está cantando o mundo não se sustenta. Mas depende do quintal, claro.

1. A metamorfose

Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas…

Nessa obra, Veríssimo nos presenteia com uma narrativa envolvente, que associa o humor a um caráter filosófico e questionador.

Ele se referencia na obra Metamorfose de Franz Kafka, na qual um homem se transforma em uma barata.

Entretanto, aqui ocorre a transformação inversa, sendo uma barata que se humaniza, convertendo-se em mulher.

Veríssimo encontrou assim uma forma de trazer questionamentos importantes sobre a sociedade e o comportamento humano. Isso porque a todo momento ele evidencia o contraste entre o instinto versus o raciocínio.

Ele usa a barata como símbolo do irracional, mas ao descrever as complicações presentes na vida cotidiana dos seres humanos, nos faz pensar em como a própria existência e os nossos costumes são complexos. Isso é acentuado através da classe social humilde a que a mulher é inserida.

A barata, depois que vira humana, passa a se chamar Vandirene e encontra trabalho como faxineira, passa por problemas financeiros e cotidianos típicos de mulheres da classe baixa, mas por um golpe de sorte, ganha na loteria e enriquece.

Nessa passagem, o autor deixa subentendido como é improvável que uma pessoa pobre consiga ascender socialmente, colocando por terra a hipótese de que se alguém trabalhar muito conseguirá ficar rico, pois Vandirene havia batalhado, mas só teve dinheiro quando acertou na loteria.

Por fim, a mulher acorda um dia e percebe que havia se transformado novamente em inseto, era apenas impulso, não havia mais problemas, e, por isso a felicidade era completa.

Essa conclusão sugere que ao final da vida todas as pessoas vão igualmente perdendo a consciência, se transmutando em puro instinto, e que o dinheiro que ganharam ou não em vida já não faz o menor sentido.

Laura Aidar

Laura Aidar

Arte-educadora e artista visual
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CRÔNICAS: NOTÍCIA DE JORNAL DE FERNANDO SABINO, POR LAURA AIDAR

Hoje estamos finalizando a série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, nesta quarta-feira apresentamos a 8ª crônica da série,  que homenageia o notável e incrível Fernando Sabino, com a crônica “Notícia de Jornal”, de sua autoria. Mais uma crônica que traz um contexto jornalístico e integra o livro A mulher do vizinho, de 1997. Desejo uma boa leitura!

Notícia de jornal – Crônica de Fernando Sabino · Revista Arara Clássicos

8. Notícia de jornal – Fernando Sabino

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome.

Mais uma crônica que traz um contexto jornalístico é Notícia de Jornal, do escritor mineiro Fernando Sabino. O texto integra o livro A mulher do vizinho, de 1997.

Sabino expõe suas ideias e indignação sobre o problema da fome no Brasil. Ele relata de forma pertinente a insensibilidade de boa parte da sociedade frente à miséria e o desamparo das pessoas em situação de rua.

Assim, apresenta o absurdo que é a naturalização da morte em plena cidade movimentada, à luz do dia e diante do público, que não se comove.

Laura Aidar
Laura Aidar

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: FIZERAM A GENTE ACREDITAR DE MARTHA MEDEIROS

Continuado à nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 7ª crônica da série,  uma bela homenagem para a nossa grande escritora Martha Medeiros, com a crônica “Fizeram a gente acreditar”, de sua autoria.  Um dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização no amor romântico. Desejo uma boa leitura!

7. Fizeram a gente acreditar – Martha Medeiros

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, nem contaram que ninguém vai contar. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.

Martha Medeiros é um dos nomes conhecidos na literatura contemporânea brasileira. A escritora produz romances, poemas e crônicas e já teve obras adaptadas para peças de teatro e audiovisual.

Um dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização no amor romântico.

Martha apresenta seus pensamentos sobre o tema de maneira honesta, mostrando que a vida pode diversos caminhos, não existindo uma fórmula para vivenciar o amor. O que fica claro em suas palavras é a necessidade de auto-amor antes de mais nada.

Laura Aidar
Laura Aidar
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CRÔNICAS: O HOMEM TROCADO DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Retornado à nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 6ª crônica da série,  uma bela homenagem para o imortal Luis Fernando Veríssimo, com a crônica “O Homem Trocado”, de sua autoria. Desejo uma boa leitura!

6. O Homem Trocado – Luis Fernando Veríssimo

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.
– Eu estava com medo desta operação…
– Por quê? Não havia risco nenhum.
– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.
– Seu nome não é Lírio?
– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?
– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

O homem trocado, de Luis Fernando Veríssimo é um exemplo de crônica de humor, um tipo de texto bem presente na obra do autor. Nela vemos uma situação improvável em que um homem realiza uma cirurgia e fica impaciente para saber se correu tudo bem. O personagem conta que durante toda a sua vida ele foi vítima de muitos enganos.

Assim, à medida que o personagem relata para a enfermeira alguns desses episódios, a curiosidade dos leitores e leitoras é aguçada, ansiosos para saber o final.

E mais uma vez o homem é acometido por um engano médico, já que a operação deveria ter sido para a retirada do apêndice, mas é feita uma troca de sexo.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: DESACONTECIMENTOS, POR ANA MADALENA

É com muita satisfação que publicamos mais um dos criativos e inteligentes contos da nossa querida Ana Madalena, que resolveu nos dar uma canja e me enviou essa pérola com o título de “Desacontecimentos”, aqui na nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira. Uma história mirabolante e futurista, que se passa algumas décadas adiante, que ela relata com muita imaginação. Então aproveite a oportunidade e se delicie com essa crônica maravilhosa.

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Desacontecimentos


Estava triste e por isso resolveu escrever; dessa forma teria tempo para refletir sobre o que deixar registrado. Cada palavra seria medida e pesada, inventaria até algumas para explicar suas emoções. Depois do apagão, que dizimou uma boa parte do mundo, tudo que restou ficara definitivo, para sempre. O futuro já era realidade, mas ela continuava com os mesmos dilemas de antes.


Lembrava com saudade do ano 2025, o único que pôde escolher para salvar na memória, sem dúvidas, o melhor da sua vida. Finalmente conseguira engravidar, depois de muitas tentativas. Seu sonho se concretizara com as gêmeas, Sara e Sofia. Infelizmente, seu companheiro não suportou cuidar das crianças, nem lidar com seu complicado puerpério, a nova rotina… Ele sumiu, para nunca mais. Se ainda estivesse vivo, deveria estar gostando desse novo modelo de vida, de pessoas com aspecto encerado e sem sentimentos. Um bando de máquinas!


De lá para cá, burlava as regras, escrevendo tudo o que achava importante. Tinha que ter memórias, mas sabia o risco que corria. Sentia falta do velho mundo, das cores, principalmente o amarelo. O mundo cinza era profundamente triste, até o sol sumira do céu, ou o que restou dele, agora mais distante ainda. Não suportava viver numa pré-história high-tech, com pessoas robóticas e para lá de estranhas. Gostaria de ter sumido, como tantos outros.  Não lhe agradava a ideia da não finitude da vida; o “não morrer” era um tédio, mas uma vez ali tinha que ser renovada a cada década. A aplicação do chip, além de dolorosa, era obrigatória. Não sabia se tivera sorte ou azar quando o primeiro, que fora implantado, na base da sua nuca, não funcionou. Por algum motivo, a instalação não foi concluída com sucesso, motivo pelo qual tinha lampejos de outra realidade, outra vida. Vivia unicamente em função de descobrir alguém que também tivesse essa falha, mas não era fácil. Quem em sã consciência se entregaria?


Sua rotina incluía uma busca incessante por sua família, mas tinha que ser cautelosa.  Como os sentimentos e laços familiares tinham sido extintos, as famílias foram separadas de forma aleatória, para garantir que a “experiência” não tivesse falhas. Ser eterno e viver em um mundo sem pragas era o objetivo dos cientistas no poder. Ela sonhava com o fim, porque o fim era a solução; detestava o meio, mas ela estava presa nele para sempre. E o para sempre, era muito assustador. Não suportava viver numa eterna ficção-científica.


Uma ideia fixa tomou conta do seu pensamento.  Se daria mais uns meses para procurar sua família e, depois, se não encontrasse ninguém… Teria que ser cuidadosa, burlar sentimentos, sonhos e o que mais eles pudessem farejar. Ouviu dizer que “eles” sabiam cada emoção, pois o portador exalava um odor apenas detectado pelo grande mestre. Tinha que se manter indiferente para não sentirem seu cheiro de tensão, medo e ansiedade, embora não soubesse que punição maior poderia ultrapassar o castigo de não morrer. As paredes de espelhos pareciam refletir seu olhar de angústia. Precisava urgentemente tirar aquele olhar do seu rosto; qualquer um perceberia que ela não estava bem.


Olhou a rua pela janela, daquilo que chamavam de bloco; o seu, de quatro pavimentos, parecia uma mínima parte de um lego gigantesco. Vivia a dor do cárcere. Não fazia ideia de como era nos andares mais altos. Não era permitida interação com outros subgrupos. Se sentia no fundo do poço, ou melhor, uns cinco metros abaixo dele. Todo dia rezava para ter de volta sua vida de antes; sofria só em pensar que reclamara tanto por coisas tão pequenas, como as calçadas esburacadas que quase a faziam cair quando enganchava seus saltos, ou as rodinhas do carrinho das gêmeas. Queria seu passado, até as coisas que detestava…  A dor de não ver crianças brincando ao sol, casais enamorados, cachorros abanando os rabos, a lua no céu, o vai e vem das ondas do mar, pessoas sorrindo, era um peso muito alto para carregar. Em pensar que todos escolheram o tempo, ou melhor, a falta dele, para ser a principal meta de trabalho do século. E depois, de várias tentativas, finalmente descobriram como fazê-lo parar. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Sentiu algo salgado na boca. Depois de uns segundos se deu conta que era uma lágrima. Abriu os olhos assustada! A luz que invadia seu quarto, também entrava nos seus olhos. Lentamente olhou ao redor, como que não acreditando no que via.  Suas filhas dormiam nos bercinhos ao lado da sua cama. Adorava ouvi-las sugando as chupetas; sabia que quando faziam tão fortemente, era porque estava perto de acordarem para mamar. Sentou na beira da cama, tentando colocar seus pensamentos em ordem. Olhou o calendário; precisava saber se voltara para 2025.  De repente, viu as flores murchas no vaso em cima da mesinha de cabeceira. Abriu um enorme sorriso; finalmente tudo voltara a ser como antes!


Ana Madalena

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CRÔNICAS: PAÍS RICO, POR LIMA BARRETO

Continuando com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 5ª crônica da série,  uma bela homenagem para o imortal Lima Barreto, com a crônica “País rico”, de sua autoria. Boa leitura!

5. País rico – Lima Barreto

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– — Não há verba; o governo não tem dinheiro
– — E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…

O texto em questão foi escrito por Lima Barreto em 1920 e pode ser lido em Crônicas Escolhidas, publicado em 1995, que reúne parte da produção do célebre escritor.

Lima Barreto foi um autor bastante atento e questionador, contribuindo significativamente para pensar o Brasil de um ponto de vista crítico, trazendo questões como a desigualdade e a pobreza.

O sociólogo e crítico literário Antônio Candido descreve Lima Barreto da seguinte forma:

“Mesmo nas páginas breves, entendia, sentia e amava as criaturas mais insignificantes e comuns, os esquecidos, os lesados e os evitados pelo establishment.”

Assim, nesse texto – infelizmente ainda atual – nos deparamos com uma crítica ácida ao governo brasileiro do início do século XX, em que as prioridades são para coisas superficiais, enquanto os serviços públicos que deveriam funcionar são deixados de lado.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: O FIM DO MUNDO, POR CECÍLIA MEIRELES

Nesta quarta-feira voltamos com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Cecília Meireles, com a crônica “O fim do mundo”. Boa leitura!

 

4. O fim do mundo – Cecília Meireles

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês…

A crônica Fim do mundo, de Cecília Meireles pode ser lida em Quatro Vozes, obra publicada em 1998. Aqui a autora descreve um acontecimento de sua infância, em que a passagem de um cometa deixou as mulheres de sua família apavoradas.

Cecília, criança, ao testemunhar a passagem do cometa não se assustou, pelo contrário, ela ficou maravilhada. Assim, esse episódio marcou a vida da escritora, que expõe de maneira clara e precisa suas considerações acerca da vida, do tempo e da finitude, fazendo um paralelo com os mistérios do universo.

Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: CAROLINA, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira trás mais uma incrível história da nossa ex-colaboradora e competentíssima escritora na Madalena, ainda inédita aqui no Blog do Saber. Trata-se de um triângulo amoroso extraordinariamente bem pensado pela autora difícil de qualquer afegão médio imaginar. Por isso convido você a ler essa crônica maravilhosa e se divertir a valer! 

Triângulos amorosos: quem nunca?

Carolina


Segundo uma lenda japonesa, as pessoas são unidas por um fio vermelho, um fio que nos liga a pessoa que estamos predestinadas, não apenas de forma romântica. Eu não acredito em destino; se assim fosse, nós seríamos passivos e inertes esperando pelo futuro. Nunca me imaginei carregando um fio, procurando a quem me amarrar…

– Eu posso ter dez minutinhos de sua atenção? Sei que o que tenho a dizer não interessa a nenhum de vocês, mas é por isso mesmo que quero sua ajuda. Eu me chamo Júlia, sou uma mulher independente, solteira e com muitas dúvidas. Sou filha única e, talvez por isso, tenha me acostumado com o silêncio da casa dos meus pais. Aos 25 anos resolvi morar  sozinha, ter meu cantinho e detesto que invadam minha privacidade. Já tive alguns relacionamentos, mas não prosperaram. Confesso que sou muito exigente, não dou atenção a qualquer um. O que espero de um homem é que ele tenha, pelo menos,  uma boa interlocução, algo raro nos ambientes que frequento, cheios de pessoas da geração “mimadium”, que, incapazes de passar por alguma rejeição, já ficam cheios de mimimi.  Mas, apesar de todo esse meu discurso, há dois anos eu quebrei a cara!

Conheci André e me encantei!  Ele parecia ser um homem maduro, muito familia, além de extremamente romântico. Nós nos dávamos super bem, ele sempre me elogiou muito, o tipo de homem que valoriza a mulher. Ele, apesar de ter seu apartamento, sempre preferia passar o fim de semana comigo, quando fazíamos programas bem caseiros.  Tudo estava indo bem até que há um ano ele foi dispensado do emprego, onde trabalhava com informática.

Ele me propôs morarmos juntos e eu, apesar de não achar o momento para isso, afinal ele estava desempregado, me iludi achando que ele estava fazendo planos para casarmos e aceitei na hora. Dormi com sonhos de Cinderela e acordei com pesadelos: muito cedo ele chegou com malas e cuias! Fiquei sem graça, mas ele veio com aquele papo de que poderíamos começar nossa vida ali no meu apartamento e depois partiríamos para um lugar maior. Tambem falou que seu contrato de aluguel estava expirando e, morando juntos, dividiríamos as despesas. Achei uma proposta razoável.

Mas, dois meses se passaram e ele não se movimentou para arranjar um emprego. Passamos a discutir por tudo, até porque ele não estava colaborando com despesa alguma. Como uma pessoa que acabou de receber a rescisão e estava no seguro desemprego, não tinha dinheiro nem para o cigarro? Resolvi ter uma conversa e ele, todo chateado e melindroso, disse o óbvio, que colaboraria mas, à partir daquele dia, coisas banais passaram a se tornar maiúsculas. Nessas alturas do campeonato, eu já estava cavando uma boa briga para ele ir embora.

Ele, percebendo algo no ar; disse que estava montando a própria empresa, que não estava inerte, como estava sendo “acusado”. Sugeriu colocar o escritório no segundo quarto do apartamento, onde era uma espécie de   closet. Mais uma vez fiquei sem graça em dizer não, mas diante da possibilidade dele conseguir clientes e resgatar sua auto estima, aceitei a proposta. Dois dias depois ele trouxe uma moça para ser sua secretária, alegando que ela trabalhara com ele e que era uma excelente pessoa e muito eficiente.  Falou também que ela tinha os dados dos clientes da empresa que fora dispensado e que iria propô-los o mesmo serviço, por um preço bem inferior. Tinha certeza que todos aceitariam. Ele faria as visitas aos clientes, abriria mercado e Carolina faria a parte burocrática. Apesar de eu ter várias ressalvas, reconheci, com o passar dos dias, que Carolina era um amor de pessoa,  além de extremamente organizada.

A empresa em pouco tempo começou a dar lucros; André, conseguiu captar uns 80% dos antigos clientes, além de ter aberto uma lista de novos contratos. Ele realmente era muito bom no que fazia. Carolina tambem se revelou uma profissional dedicada, além de ir além de sua funções; a gente quase não se encontrava: a hora que eu saía, ela estava chegando e vice versa. Ela se deixava presente em detalhes, como na louça que ficava na pia e ela sempre lavava ou quando eu chegava à noite e a mesa do jantar estava posta, às vezes com alguns mimos, tipo pães que ela comprava ou biscoitinhos.

Tudo parecia caminhar bem, até que um dia, precisei voltar mais cedo para casa e peguei meu namorado jogando videogame em pleno expediente. Carolina confidenciou  que ele jogava o dia todo e ela que fazia todo o trabalho, mal tirava meia hora para almoçar. Também disse-me que esse foi o motivo dele ter sido dispensado; várias vezes foi pego jogando. Fiquei indignada, mas aguardei um momento propicio para tocar no assunto.

Uma manhã ele veio com um papo que Carlolina tinha sido expulsa da casa dos pais porque estava grávida e que não tinha para onde ir. O namorado dela tinha sumido e ele, solidário ao problema, convidou para ela passar uns dias conosco, até arranjar um lugar para ficar. Na hora me senti duplamente chateada, afinal a casa era minha e eu tinha que ser consultada. Também não me agradava ter minha intimidade dividida com outra pessoa; como já disse, sou filha única e me acostumei a viver só. Mas, minha natureza de canceriana, com ascendente em todos os signos, fez eu aceitá-la como hóspede temporária.

O convívio com Carolina foi, para meu espanto, muito bom. Ela é uma pessoa leve, bem-humorada, que nunca pesa no ambiente. Por termos muito em comum, viramos amigas, tão amigas ao ponto de André ficar incomodado e terminar o nosso namoro. Confesso que estranhei, mas não achei ruim, foi até um alívio. Mas, com isso, ele também tirou a “empresa” e Carolina foi demitida. Achei isso de um mau-caratismo, afinal ela estava grávida… De certa forma, me senti responsável por ela.

Carolina agora está com oito meses de gravidez e decidiu saber o sexo do bebê: uma menina! Disse-me que vai se chamar Júlia, em minha homenagem. Fiquei emocionada! Mas, (sempre tem um mas…) Carolina resolveu ir embora; vai morar no sítio de uma tia, num vilarejo muito pobre. Confessou- me, para meu desespero,  que essa criança é filha de André e que ela não aguentava mais mentir para mim. Ela disse que quando ele soube da gravidez pediu que abortasse, que não queria filhos. Eu, depois de todo o relato, me senti novamente traída.

Confesso que não me agrada saber que Carolina, uma moça tão inteligente, terá que viver em um sítio, sem a menor possibilidade de um crescimento profissional, além de Julinha crescer num ambiente limitado. Por outro lado, meu coração já está tão apegado a Carolina e a essa menininha, que até pensei em considerar delas morarem comigo. Meu receio é que, caso ela aceite o convite, quando a criança nascer, André resolva assumí-la e tirar-me desse convívio. Fico triste só em imaginar…O que faço?  Será que esse é o tal fio vermelho do meu destino? Aguardo respostas!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: INSÔNIA INFELIZ E FELIZ DE CLARICE LISPECTOR, POR LAURA AIDAR

Nesta quarta-feira vamos seguindo com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Clarice Lispector, com a crônica “Insônia infeliz e feliz”. Boa leitura!

3. Insônia infeliz e feliz – Clarice Lispector

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

Clarice Lispector teve muitas crônicas publicadas no Jornal do Brasil nos anos 60 e 70. Boa parte desses textos está no livro A descoberta do mundo, de 1984.

Um deles é essa pequena crônica que discorre sobre a insônia. Clarice consegue trazer os dois lados de uma mesma situação, em que às vezes ela se sente solitária, desamparada e angustiada; outras vezes consegue acessar toda a potência e liberdade do isolamento, vivenciando o que se costuma chamar de “solitude“.

Para ler mais textos de Clarice, acesse: Clarice Lispector: textos poéticos comentados.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: CAFEZINHO DE RUBEM BRAGA, POR LAURA AIDAR

Seguindo com a nossa série de 8 crônicas famosas comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Rubem Braga, com a crônica “Cafezinho”. Boa leitura!

2. Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

– Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

– Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

– Ele está?

– alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

– Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.

Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: CIAO DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, POR LAURA AIDAR

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira inicia uma série de 8 crônicas famosas comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design. Uma forma de homenagear, aqui na coluna os maiores cronistas brasileiros de todos os tempos. Na nossa primeira leitura temos Ciao, a última crônica do monstro Carlos Drummond de Andrade, Publicado no Jornal do Brasil em 29 de setembro de 1984, o texto aborda a trajetória do escritor como cronista.  Boa leitura!

Os 10 melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade - Revista Bula

Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar

1. Ciao – Carlos Drummond de Andrade

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

– Sobre o que pretende escrever?

– Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

A última crônica de Carlos Drummond de Andrade impressa em jornal foi Ciao. Publicado no Jornal do Brasil em 29 de setembro de 1984, o texto aborda a trajetória do escritor como cronista.

Drummond revela ao leitor sua paixão pela notícia e também pela escrita das coisas simples, corriqueiras e, ao mesmo tempo, filosóficas. É com transparência e entusiasmo que o autor refaz seu percurso como cronista aliado aos acontecimentos do mundo.

Assim, sua despedida dos jornais se tornou também um relato de sua história e de suas ideias sobre o gênero da crônica.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: FRED, POR ANA MADALENA

Caro(a) leitor(a),

Nesta quarta-feira tenho o enorme prazer de publicar, aqui na coluna CRÔNICAS mais um dos maravilhosos contos da nossa ex-colaboradora Ana Madalena, que se chama simplesmente “Fred”, um personagem que povoa o seu criativo imaginário que mais parece a sua cara metade. Convido você a ler essa incrível e empolgante história!

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Fred


Dizem que o amanhecer é para padeiros e amantes. Eu não sou nem uma coisa nem outra! O amanhecer para mim é resultado de uma crise de insônia daquelas… A lua é meu sol, se é que me entende. Já fiz de tudo para tentar regularizar meu sono, até simpatias! De nada adiantou. Alguns dizem que agora é  porque o sol entrou em Virgem; outros falaram da Lua, de Saturno. A verdade é que pode ser por qualquer coisa, inclusive nada. Os amigos me presentearam livros de auto-ajuda; já li tudo sobre a higiene do sono e mudança de hábitos, mas nada funcionou. A lembrança que tenho do meu melhor sono, foi quando operei as amidalas, aquele soninho profundo de anestesia. Já cheguei ao ponto de anotar num caderninho meu top 10 do sono, mas nem cheguei ao item 8. Agora resolvi deixar para lá, talvez porque exista Fred na minha vida.

Pois é, Fred é um amigo daqueles para toda hora, principalmente quando a vaca está indo para o brejo. Ele tem uma forma de falar tão calma que dá até quentinho no coração. Com Fred libero as minhas constipações emocionais; ele sempre diz que é péssimo reter alguns sentimentos. Ele é quase meu Freud, do tanto que me ajuda.

Eu e Fred tivemos um breve namoro na adolescência; o fim não foi trágico nem cômico, foi apenas um fim. Percebemos que éramos mais amigos do que um casalzinho apaixonado. Por sorte, continuamos amigos, coisa rara depois de um término.  Eu sou dessas, de manter as amizades, telefonar para ouvir a voz, apesar de hoje em dia ser até invasão de privacidade telefonar para alguém.

Voltando a Fred, ele passou por uma separação há algum tempo: um casamento de vinte e tantos anos, dois filhos, três gatos, um cachorro e duas tartarugas. Ah, e cinco peixinhos. Tudo isso dentro de uma casa linda, com um jardim digno de campeonato inglês. A ex esposa, minha amiga, uma mulher maravilhosa, me ligou certo dia, pedindo para eu ir ao seu consultório. Ela, então, abriu seu coração e disse que eles estavam se separando. Eu fiquei chocada! Eles eram aquele tipo de casal que catalogaria como “perfeito”, mas entendi suas razões. Realmente não faz sentido viver com alguém só por causa dos filhos, principalmente por não serem mais crianças.

Coincidentemente, Fred ligou no mesmo dia. Marcamos um almoço, que emendamos com jantar. Eu dei meu ombro amigo e depois de muito ouvi-lo, concordei com sua explicação. Os dois tinham razões diferentes para não quererem estar mais juntos e entendi que minha presença ao ouví-los foi uma espécie de validação da decisão. É muita inteligência emocional conseguir se separar sem culpas ou remorsos. Eles tinham inteligência de sobra! Ela mudou de cidade; os filhos, já adultos, deram muita força aos pais, um deles seguiu com a mãe e o outro, o mais velho e financeiramente independente, aproveitou o momento para dar seu grito de independência. Fred continuou morando na mesma casa; tinha um apego emocional àquele lugar.

Com a separação, ficamos muito próximos. Sabe a corda e a caçamba? Bem isso. Fred tem uma história de vida linda, mas vou descrever a versão curta: ele sempre foi um “gato”, transbordando testosterona! Hoje, com cabelos grisalhos, está dando de mil a zero no jovenzinho engenheiro que conheci. Ele trabalha coletando dados nos oceanos, tipo salinidade, niveis de carbono, ou qualquer outra coisa que não seja criptonita. O melhor dessa versão de Fred é que agora ele virou notívago como eu, chega até a filosofar dizendo que é melhor lidar com pessoas noturnas do que diurnas. Perguntei certa vez quem eram as pessoas noturnas que ele estava conversando além de mim. Não, não é ciúme, apenas senti uma certa ameaça à minha exclusividade, afinal eu fui quem apresentou a vantagem das altas horas.

Fred gosta de citações, disse que aprendeu comigo, embora ele reescreva em cima da original. Algumas, cá pra nós, ele muda totalmente o sentido, motivo de algumas discussões . Hoje recebi a seguinte mensagem:
– Hoje o dia está maravilhoso. Nunca houve um dia assim!
Perguntei de quem era a citação e ele respondeu que “poderia” ser dele. Rimos! Ele sabe que eu sei que não é,  mas isso não tira o brilho da mensagem, em tão poucas palavras. Admiro quem tem concisão, coisa que jamais, repito, jamais terei.

Falando em dia, hoje ele está tímido, nem sol nem chuva, mas nublado. Para alguns, o melhor dos mundos, eu mesma adoro dias assim. Para outros, uma espera de que algo aconteça, ou que o sol vença as nuvens ou que elas deságuem. Para mim, agradecimento! E para não fugir das citações, ” Se eu não tivesse visto o sol, a sombra eu suportaria. Mas essa luz fez do meu deserto, um deserto que antes não existia”. Adoro Emily Dickinson!
Fred, obrigada por fazer parte do meu deserto…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: A LÓGICA DO MALUCO DE LIMA BARRETO, EM CRÔNICAS BRASILEIRAS

Hoje, continuamos com a série CRÔNICAS BRASILEIRAS com uma criativa história do imortal Lima Barreto, “A lógica do maluco”, que você precisa ler e apreciar esta obra prima de um dos maiores ícones da literatura brasileira. 

lima-barreto

A lógica do maluco


Lima Barreto

Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o
chapéu. Contou-me o caso o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente – o que farei
sem nenhuma discrepância.
Havia na seção que esse ilustre médico dirige um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples
mania, sem aspectos notáveis; mas pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia
parte até da Academia de Letras da Vitória, estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre cousas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos.
Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, às pressas…
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos
mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.


O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à
Constituição
, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais
Comentários e a
mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e
deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas brando e passageiro. Tinha
pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa cousa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora
própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe
é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – cousa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras cousas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado,
respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é
que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou
militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro?
Logo…
– Mas você…
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas?

Olhe, doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças. Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade, que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.

Fonte: Toda crônica. Apresentação e notas de Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro, Agir, 2004, vol. II, p.450. Publicada, originalmente, na revista Careta, de 8/10/1921 e, posteriormente, no livro Vida urbana, Brasiliense, 1956, p.266.

Fonte: Crônica Brasileira

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CRÔNICAS: NOS DOIS LADOS DO BALCÃO, POR HUMBERTO WERNECK

A partir desta quarta-feira a coluna CRÔNICAS, infelizmente não terá mais os maravilhosos contos da escritora e colaboradora deste Blog, Ana Madalena. Ela agora vai alçar voos bem mais altos e ambiciosos e nós ficamos aqui torcendo para que brilhe muito mais do que brilhou nessa audiência. Mas a vida continua e a coluna CRÔNIOCAS também. Hoje você vai ler a crônica das crônicas. O autor Humberto Werneck faz uma homenagem aos maiores cronistas da literatura brasileira, como: Rubem Braga, Lima Barreto, Raquel de Queiroz e Paulo Mendes Campos. Nos dois lados do Balcão o autor conta passagens inusitadas de crônicas desses ícones da literatura brasileira. Leia e se divirta!

Nos dois lados do balcão

Humberto Werneck

Alfaiataria Americana, de João Antônio Ribeiro, Rua do Bonfim, Diamantina-MG, 1920 década. Foto de Chichico Alkmim/ Acervo Instituto Moreira Salles.


Jamais se saberá se Lima Barreto comprou alguma coisa naquela manhã de 1921 em que saiu de casa, no Méier, rumo a uma feira livre,
novidade que um burocrata do Ministério da Agricultura, Dulfe Pinheiro Machado, futuro ministro de Getúlio Vargas, implantara no Rio de
Janeiro. Cronicamente desmonetizado que era, o mais provável é que nosso escriba não tenha comprado nada – muito menos umas bruxas
de pano, recheadas de serragem, que lhe pareceu destoarem num território supostamente exclusivo de verduras e legumes.



Até então encantado com a “lindeza de moças e senhoras”, relata Lima Barreto em
Feiras livres ficou muito irritado – e bem mais que ele o
Barreto em Feiras livres, ficou muito irritado e, bem mais que ele, o vendedor das tais bruxas, deflagrando um bafafá que requereu a
presença da Lei, na pessoa de um tenente e um capitão. De repente, o que era crônica pode dar a impressão de haver-se convertido em
notícia policial, quando o Lima, brandindo linguagem figurada, conta que o comerciante, de nome Bragalhães, “foi pelos ares”. Curiosamente, também em outro escrito seu,
No “mafuá”dos padres, haverá agentes da ordem – no caso, um soldado e um alferes que, num leilão, brigam por um carneiro. Qualquer que seja o resultado, a disputa terá como ganhadora uma terceira pessoa, a Candinha, que nem está ali – e dois perdedores, adivinhe quem…



Mas voltemos às feiras livres, inspiração também de Rachel de Queiroz, moradora do Rio em visita a São Paulo em 1946 – e, ali, à
feira do
Arouche
, onde o que mais a interessou pode ter sido não exatamente algo à venda, e sim a beleza de vendedoras de origem japonesa e
italiana, tipos pouco encontradiços nas feiras cariocas. Nas quais, aliás, Paulo Mendes Campos haverá de denunciar, no início dos anos 1950, a existência de
um golpe de feira, aplicado por vendedores desonestos, dados a entregar ao comprador, dissimuladamente, algo inferior ao que ele havia escolhido. Panorama bem diverso daquele a que Paulo se acostumara em sua infância belo-horizontina, tema da bela e delicada As horas antigas: o universo de uma gente simples que, do portão da rua, batia palmas ou gritava “ô de casa” (campainha era luxo de umas poucas residências), oferecendo de tudo – de lenha para o fogão, frutas, hortaliças, leite, carne, a uma dobradinha pronta para ir à mesa. Ao time dos feirantes desonestos, o cronista poderia acrescentar o personagem de As duas faces de um caixeiro: um convincente
vendedor de aparelhos de televisão que, quando isso lhe convenha, não hesita em desqualificar, diante do mesmo possível comprador, o artigo cujas virtudes louvara, enfaticamente, apenas um minuto atrás.



Assim como seu confrade mineiro, Rachel de Queiroz, num momento ao menos teve um pé-atrás com o pessoal por detrás do
balcão das
lojas em geral. Foi no final dos anos 1940, quando lhe pareceu que algo mudara nos usos e costumes do comércio varejista. “Antigamente”
,
rememorou ela, “qualquer freguês, dentro de uma loja, tinha a sensação de que era um rei.” E eis que então, por fatores vários, como “o
aumento dos ordenados” e “as economias de pessoal por parte dos patrões”, o quadro mudou radicalmente: “Razão, quem a tem, hoje e
sempre, é o caixeiro”.



O novo figurino das relações comerciais talvez não se aplicasse ao
armarinho, a julgar pela enorme simpatia com que Rachel, na mesma
época, escreveu sobre as lojas de linhas e agulhas. Tratava-se (e se trata ainda, sete décadas depois) de território feminino, pelo menos na
Ilha do Governador, onde a cronista tinha a sua casa: “Podem os cavalheiros cantar na sua lira as delícias do botequim e da cerveja
gelada”, contrapôs a escritora cearense; “nós, as mulheres da ilha, damos preferência ao armarinho.”



Paulo Mendes Campos haveria com certeza de confirmar o que disse Rachel. Já cinquentão, na década de 1970, ele amava o sossego de
sua casa na serra de Petrópolis, onde passava os fins de semana, simples mas provida “de todos os luxos da quietude rural”. Nem por isso dispensava “um supérfluo essencial”: a alma de “uma venda de beira de estrada”, em especial aquela de que fala em
O homem que
calculava.
A criatura que dá título à crônica vem a ser o dono do estabelecimento, e o fato de que utilize ruidosa modernidade – uma
calculadora – não compromete, aos olhos do cronista e poeta, o encanto do lugar, onde tudo se harmoniza.



Em
Confissões de um jovem editor, quem está do outro lado do balcão, ainda que sem calculadora, é Rubem Braga, que registra na crônica
assim intitulada a sua perplexidade ante o fato de se ver, aos 47 anos, pela primeira vez metido na inesperada pele de empresário, pois vinha de criar a Editora do Autor, em sociedade com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta. “Que fazer”, suspira o Sabiá da Crônica, “se virei homem de negócios?” Por feitio e temperamento, seu lado do balcão é outro, até para que possa, na condição de consumidor,
reclamar das perebas que vê no comportamento de maus negociantes.
Em Camelôs, investe furiosamente contra os vendedores de aves que, no afã de tornar mais atraente a mercadoria que oferecem, não hesitam em cegá-las, para que assim deixem de voar e cantem mais.



O Braga não poupa, igualmente, na mesma crônica, aqueles que chama de “camelôs cívicos”: os políticos que, em tempo de eleição,
atormentam o cidadão com seus alto-falantes e maculam os muros com cartazes, anunciando-se como “produtos de primeira classe”. A dois
dias do Natal, o cronista não chega a tomar as dores do
Menino cujo nascimento será uma vez mais comemorado, mas faz saber o
desconforto que lhe causa o alarido açucarado dos anunciantes em busca de cifrões. “A publicidade faz sua grande farra de fim de ano, e
nós é que devemos pagá-la”, protesta Rubem Braga, e despeja seu justo sarcasmo: “Não é o homem da empresa que nos saúda alegremente, de cristão para cristão, é a própria sociedade anônima que se faz afetuosa, que exprime os bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatuto ou sua alma de balancete.” Na mão oposta, em
Negócio de menino o cronista não esconde a ternura pelo garoto que, num diálogo memorável, esgota seu arsenal de convencimento, na esperança de que o adulto à sua frente lhe venda um passarinho, o coleiro, o melro ou o curió, um dos três, não lhe importa qual, e pinga no final, em desespero, o que pode ser sua melhor cartada.

24/08/2021 Nos dois lados do balcão | Rés do Chão | Portal da Crônica Brasileira
https://cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/15987/nos-dois-lados-do-balcao 2/4
Portal da Crônica Brasileira

Fonte: Crônica Brasileira

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CRÔNICAS: MANUAL DE INSTRUÇÕES, POR ANA MADALENA

O texto abaixo eu escrevi como exercício do curso Escrita Curativa, ministrado pelo escritor Fabrício Carpinejar. O objetivo era fazermos um manual de instruções sobre nós mesmos, facilitando as relações interpessoais. Convido-lhes a fazer o mesmo!

Imagem principal do produto Manual de Instruções Pessoal


MANUAL DE INSTRUÇÕES


CARO CONSUMIDOR

Nossos agradecimentos pela compra do ANA PREMIUM 5.8.
Recomendamos a leitura do manual de instruções antes de operar seu aparelho.

INFORMAÇÃO: Ana Premium 5.8

Você acaba de adquirir esse novíssimo  produto, um dos mais solicitados entre nossos  clientes. Como você já deve ter percebido, esse produto contém um componente “humano”, o que modifica totalmente a forma como você deve usá-lo. Para facilitar seu entendimento, seguem  dicas e regras para sua melhor utilização.

MANUAL DE INSTRUÇÕES 

A versão 5.8 do “Ana premium” é a mais moderna e fácil de manusear. Essa facilidade é decorrente de muito estudo no seu desenvolvimento, desde o seu lançamento, há quase seis décadas. Cada versão é melhor que a anterior; essa, no entanto, facilitará a compreensão do usuário por ser auto explicável. Tudo o que se precisa saber é só perguntar para Ana Premium 5.8, que estará sempre pronta para ajudar. Esse produto não possui botão liga/ desliga e é extremamente econômico.

PRECAUÇÃO: 

Ana Premium 5.8 não advinha pensamentos portanto, para um boa relação, o cliente não deve ter a expectativa que ela subentenda algo. O usuário também não deve fazer perguntas capciosas, nem tentar confundi-la mentindo, omitindo ou tentando reverter uma programação.

MODO DE USAR

Esse produto funciona melhor durante as noites e madrugadas. Existe um chip denominado “notívago” que, quando acionado, entra na função turbo. Ao amanhecer você deve colocá-lo no modo “desacelerar”, durante quatro horas; depois desse período ele volta a trabalhar com carga total.  No período da tarde, as baterias devem ser recarregadas.

PRECAUÇÕES 

Caso o usuário queira fazer uso em horários diferentes do que vem programado, recomendamos fazer a reprogramação indicada no topo do produto, acionando a tecla “cérebro”. O ideal é que essa mudança seja ajustada com três dias de antecedência. Não recomendamos fazer a reprogramação num espaço de tempo maior, pois o efeito será o oposto. Por conter muitas informações, a máquina humana pode simplesmente deletar a informação mas, uma vez reprogramada, passará a funcionar normalmente, sem prejuízo nas suas funções.

FUNÇÕES:
Operações básicas

Esse produto é apto a fazer todas as atividades descritas na página 2 desse manual mas, caso o usuário queira acrescentar novas funções, terá que acionar um especialista em “acrescentar dados”. Cada nova função requer um especialista diferente. O tempo de adequação dependerá única e exclusivamente da capacidade da máquina entender a nova solicitação.

AVISO:
Existem funções que são incompatíveis com o modelo Ana Premium 5.8. A melhor maneira de obter total satisfação é fazer uma consulta prévia ao fornecedor. Esse produto, por exemplo, diferentemente de outros similares, não possue dupla voltagem, mas pode ser utilizado tanto em português, inglês e espanhol.

GARANTIA 

A garantia do produto é do tipo “extendida infinito”. Em caso de mau uso, vícios e outros tipos degenerativos, a garantia pode ser extinta no modo “imediato”, sem direito a reposição.

CUIDADOS COM O PRODUTO 

Ana premium 5.8 é totalmente adaptável ao seu usuário. Da nossa linha, essa é sem dúvida a que resulta na melhor satisfação do cliente. Esse modelo tem como slogan “menos é mais”, por isso é simples e sofisticado ao mesmo tempo. O único cuidado que necessita é não expô-lo ao sol por mais de uma hora e, no restante do tempo, é necessário mantê-lo em local arejado.

VIDA ÚTIL 

Se bem cuidado, terá em torno de vinte anos de bom uso.

CUIDADOS NO MANUSEIO 

Apesar de ser extremamente fácil de manuseá-lo, esse produto é incompatível com  usuários preconceituosos. A tecla “percepção”,  é acionada cada vez que é detectada essa característica. A função dela é informar ao usuário sobre o preconceito vigente e analisar as razões para tal. Ana Premium 5.8 é excelente ouvinte e extremamente didática. Ensinar é uma das suas principais funções.

TECLA EXTRA 

Ana premium 5.8 possue uma tecla extra, que fica do lado esquerdo do aparelho. A tecla “emoção” está sempre ligada e, toda vez que o usuário faça ou fale algo que o produto considere emocionante, é derramado internamente um líquido transparente e salgado chamado “lágrima” que lubrifica suas fiações. Quanto mais a tecla “emoção ” é ativada, maior é a ligação do produto com seu usuário.

FUNÇÕES: 
Operações avançadas

É  normal o lay out do produto modificar com o passar dos anos. Quanto mais listrinhas aparecer na embalagem, mais inteligente ele se torna. Nesse estágio, a tecla “recordar” ficará ininterruptamente ativada. A memória do produto é acumulativa, sendo capaz de discorrer, nos mínimos detalhes o dia que foi adquirido pelo usuário. Essa é uma das funções mais admiradas pelos clientes, principalmente crianças e idosos.

ASSISTÊNCIA TÉCNICA 

Se o usuário cuidar bem do produto, ele nunca precisará de reparos. Em caso de danos fisicos, será automaticamente devolvido ao seu fornecedor.
Questões de cunho emocional, como pequenas  discussões, Ana Premium 5.8  aciona automaticamente a tecla “perdoar”. Diferentemente de alguns humanos, o produto prefere ser feliz a ter razão.

SAC
O email e telefone para tirar dúvidas sobre o produto, estão no verso da embalagem.

Aprecie seu Ana premium 5.8 sem moderação!
Bem vindo ao melhor dos mundos!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: SOBRE HERÓIS, FADINHAS E FANTASMAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos a penúltima das fantásticas histórias de Ana Madalena, fechando uma série de 30 incríveis contos maravilhosos que vão ficar na minha memória. Infelizmente a nossa querida colaboradora vai ter que se dedicar a uma nova empreitada. Uma experiência de vida inédita para ela e não vai mais poder escrever suas belíssimas e cativantes crônicas em nossa coluna. Então aproveite para desfrutar dessa experiência sobre Heróis, fadinhas e fantasmas. Uma singela homenagem aos nossos heróis olímpicos!

Sobre heróis, fadinhas e fantasmas…


Estava ontem no intervalo do trabalho, num daqueles cantinhos do café,  quando escutei um comentário sobre as olimpíadas, o ouro de Rebeca na ginástica olímpica e outros tantos orgulhos, como nosso garoto de Baía Formosa, Ítalo e a menina Rayssa, do skate. Meu comentário foi exatamente sobre ela, que, segundo li, recusou-se a tirar fotos com políticos, por não ter recebido apoio algum.  Rayssa, chamada de fadinha, do alto dos seus 13 anos, não quis desfile em carro de bombeiro, muito menos festa, consciente da pandemia e da carona que queriam pegar no seu nome; Ítalo também seguiu essa linha e, discretamente, desembarcou em Natal, onde seguiu direto para as águas conhecidas de sua praia, onde começou a surfar com uma tampa de isopor.

Já estávamos voltando para nossas salas, quando um colega soltou uma frase que me chocou; o tema era a ginasta Simone Biles, que, “do nada”, desistiu de várias competições, alegando preservar sua saúde mental. Ele sugeriu que ela tinha amarelado por ser coisa de mulher, de estar com Tpm. Alguns riram, o que estranhamente não me impressionou, assim como não me impressionou o nome da ginasta virar chacota, tipo ” não vá dar uma de Biles”! Sim, tenham pena de mim; conviver com algumas pessoas é uma luta diária! Se houve uma coisa “boa” nessa pandemia foi não ter que estar com certos tipos, principalmente Eduardo, a quem eu escrevo essas breves linhas.

“Do nada” não existe. Tire isso da sua cabeça! Basta olhar para você, para sua história; tudo que você é tem um porquê. E se você está nesse lugar, é graças a uma série de fatores. Para o bem ou para o mal ( estou sendo cínica). Dito isso vou tecer algumas considerações, mas adianto que se você não quiser ler algumas coisas, pare por aqui. Hoje não estou para brincadeira, e não é coisa de mulher, de feminista recalcada, como você adora se referir às mulheres. Minha “praia” é um bom debate e nesse esporte, sou faixa preta.

Não sei se você já viveu ou conviveu com alguém que teve depressão, ansiedade ou pânico. Se teve a sorte de passar ileso à isso, que bom pra você porém, com tanta informação, me espanta você não ter lido sobre o assunto. Talvez você não dê a mínima para o tema ou, por outro lado, o excesso de informação lhe provoque repulsa. Sei que lê apenas comentários curtos e não se aprofunda nos assuntos; detesto sua síndrome de Dunning-Kruger, mas isso  é o de menos em se tratando de você. Chego até a rir internamente do tanto de bobagem que você diz!. Qualquer dia, quando você tiver tempo, quem sabe a gente senta para ter uma conversa de homem pra homem, como você mesmo gosta de dizer! Que ridículo!

Com certeza você não faz ideia da rotina de atletas olímpicos, nem eu, mas como gosto de ler, sei que no geral, eles começam muito novinhos, saídos das fraldas. Na folha corrida, eles têm uma vida difícil, pobre, treinando em condições impensáveis, com dezenas de lesões, ossos quebrados, mas muita vontade de vencer. E não tem essa que o importante é competir; vivem a pressão de ter que ganhar mesmo, a qualquer custo.

Então vamos ligar os pontos: depois de viver anos a fio, repetindo movimentos por horas seguidas, sem sábado, domingo ou feriado, não podendo ir à festinhas, tendo que fazer dieta, distante da família e amigos, sem poder ter uma vida dita normal, é claro que uma pessoa pode ficar com muitas questões. E até onde você aguenta que a corda estique?

Simone sofreu de um tudo para se tornar o que é hoje; dê um Google que você vai entender como é a vida das meninas que você resume em “corpos estranhos, cheios de brilhinhos na roupa e fitinhas no cabelo”. O problema dela tem um nome: twisties, que seria uma falta de orientação espacial e por consequência uma inabilidade de fazer giros, o que pode ser muito perigoso, uma vez que o atleta pode cair gravemente. Isso talvez explique o porquê dela somente ter competido na trave, ganhando bronze, que você debochou, dizendo ter sido prêmio consolação.

Eu acompanho o esporte à distância; para falar a verdade, gosto muito mais das histórias de vida dos atletas do que mesmo dos seus feitos. Uma coisa que muito me espanta no atletismo é a velocidade com que a tecnologia avança para ajudá-los fisicamente e, inversamente proporcional, é o cuidado com o emocional deles. Se eu fosse atleta de ponta, andaria com um psicólogo comigo. Viver sob pressão 24 horas por dia é insuportável. Talvez por isso eles tenham que arranjar fórmulas para desestressar, e não pode ser comida e álcool. À proposito, Thomas Daley não é um esquisito fazendo tricot; cada um desestressa como pode. O seu modus operandi todos sabemos qual é. Pulemos essa parte!.

Do pouco que vi nas madrugadas olímpicas, me pareceu que esse ano a empatia chegou mais perto desse universo, com gestos dignos de medalha de ouro. Sim, há uma riqueza humana por trás de todo esse show.  Infelizmente para alguns atletas, a Internet todo dia elege um para Cristo; Simone trouxe a discussão para a saúde mental no esporte; talvez essa questão tenha sido mais importante do que se tivesse conquistado medalhas de ouro. O tempo dirá.  A mesma sorte não teve Diego Hipólito, que foi achincalhado como o atleta do solo, que caiu de cara e de bunda. Sim, meu caro Eduardo, os atletas ainda têm que lidar com a frustração de, no próprio país, ser piada recorrente. Barrichelo que o diga!

Mas enfim, era isso que eu tinha para lhe dizer e, se eu pudesse resumir em uma palavra, essa seria LEITURA, um bom começo para você deixar de falar tanta besteira. No mais, saiba que conto as horas para sua transferência!

Só para acrescentar, segue uma listinha de heróis, fadinhas e fantasmas, que como o nome diz, são fantasmas. Estão dentro da cabeça de alguns desses atletas. Com sorte, a maioria consegue conviver bem com eles!

Rebeca Andrade – ouro  e prata na ginástica artística
Italo Ferreira – ouro no surf
Laura e Luisa – bronze no tênis feminino
Rayssa Leal – prata no skate street
Kelvin Hoefler – prata no skate street
Fernando Scheffer – bronze na natação
Bruno Fratus – bronze na natação
Mayra Aguiar – bronze no judô
Daniel  Cargnin – bronze no judô
Martine e Khaena – ouro na vela
Abner Teixeira – bronze no boxe
Alison dos Santos – bronze nos 400 mts com barreiras
Thiago Braz – bronze no salto com vara

Agora, em algum lugar em Tóquio, essa lista já deve ter aumentado! Parabéns aos medalhistas e aos não medalhistas. Vocês são incriveis!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: FECHANDO GAVETAS, POR ANA MADALENA

Aqui na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira a nossa querida amiga e colaboradora Ana Madalena nos presenteia com mais uma de suas pérola, onde homenageia de forma lúdica e carinhosa seus “amigos”, contando uma história sobre “fechar gavetas”. As gavetas que são como páginas ou episódios da nossa vida. Então eu te convido para ler esse maravilhoso conto e se deliciar com mais essa criativa e instigantes história!  

Fechando gavetas


Detesto pessoas que preferem falar da devastação em vez da jardinagem. Tão melhor focarmos no lado positivo da vida… Meus amigos, guardadas suas peculiaridades, são bons jardineiros. E para nós, a amizade é uma coisa sagrada; se a gramática permitisse, gostaria que a palavra amigo fosse sempre adjetivo, independente do lugar na frase, afinal ser amigo é “apesar de”!

Nunca entendi porque desfilar em carro de bombeiro é sinônimo de sucesso, não desmerecendo os bombeiros, claro. Mauricio sonha com isso! Inventou até um concurso culinário para a TV local, talvez por não ter sido selecionado para um reality gastronômico, onde os três primeiros colocados farão um passeio no “vermelhinho”. Mauricio cozinha super bem e é excelente anfitrião, além de muito família!  E se tem uma coisa que admiro nele é que, de um jeito ou outro,  ele faz acontecer! Além de ser comicamente hiperbólico!

Olivia é, de longe, uma  das pessoas mais inteligentes que conheço. Tem Phd, Phe, Phi e todo o resto do alfabeto em Economia. Seu grave defeito, para outros, é ser extremamente culta e demonstrar conhecimento. Ela adora dar dicas, fazer citações e contar histórias interessantes, algumas de morrer de rir, mas ganhou a pecha de ser metida a besta e não tem argumento que faça com que sejam mais tolerantes com ela. Coitados, não sabem quanto perdem… Muito do que sei devo a ela e me sinto uma privilegiada por ter sua amizade.

Camille, com dois “L” é unanimidade em aceitação. Desde o colégio  transitava bem em todos os grupos. Realmente ela é dessas raridades  que o tempo não modificou. Casou muito jovem, com o namoradinho de escola e formou uma família linda. Seus três filhos são meninos muito bons e companheiros. Camille é a minha amiga de todas as horas, sempre pronta para uma conversa e é de longe a mais sensata das pessoas. Na régua de alguns, ela é classificada como  “boazinha”, a que está sempre procurando agradar todos.

Eu, assim como todos os meus amigos, temos em comum o fato de termos sido, em algum momento das nossas vidas, submetidos a uma classificação, um rótulo. Eu não sei de onde surgiu essa coisa de resumir uma pessoa a uma única coisa, mas acho muito desagradável e extremamente prejudicial em todos os níveis da vida, principalmente no emocional, quando você deixa de “estar” para “ser” e a fama chega antes da pessoa. Haja gaveta para tantos rótulos!

Lembro que, há muitos anos, resolvi mudar a cor do meu cabelo, originalmente preto, para um  tom acobreado. Não quis descolorir para não enfraquecer a fibra, então passei um bom tempo pintando até chegar na cor desejada. Nunca esqueci quando virei fofoca numa mesa de restaurante, onde, coincidentemente, estavam esses três amigos reunidos, planejando a primeira comunhão do caçula de Camille. Mauricio seria o responsável pelo cardápio e Olivia organizaria um livrinho com orações e escreveria um textinho sobre o significado da data.

Eu estava em Búzios, meio que de férias, na casa de tia Lúcia, que levara uma queda e machucara gravemente o ombro. Na família, eu faço o papel de “cuidadora”;  não tenho problemas em dormir em sofás estreitos de hospitais ou em qualquer lugar,  e gosto mesmo de cuidar dos meus, principalmente se eles gostam de conversar ou que eu leia para eles.

Minha rotina em Búzios incluía desde ajuda na hora das refeições até escovar os cabelos da minha tia. Com o passar dos dias acrescentamos caminhadas na praia, onde depois sentávamos nas cadeiras que tio José prontamente trazia e ali, embaixo de um guarda sol, eu deixava os dois enquanto aproveitava para tomar banho de mar.

Após um mês, retornei para casa. O sol de Búzios me conferiu um bronze bonito, um aspecto saudável, mas a junção de sol e mar destruiu a cor do meu cabelo. Ficou quase um laranja! Minha cabeleireira, que tinha viajado para fazer um curso, só chegaria três dias depois e eu resolvi esperá-la, ao invés  de ir para outro salão.

– Vocês souberam de Ana? Parece que arranjou um namorado surfista em Búzios e agora deu até para fumar um cigarrinho batizado!
-E aquele cabelo ridículo? Deve ter passado parafina!
-É muito sonsa… Fica posando de certinha mas por trás, é só quem apronta!

Esses foram alguns dos diálogos que meus amigos ouviram antes da confusão! Sim, amigo que é amigo defende o outro até o fim. Olivia, educadamente, pediu licença àquelas pessoas e começou, do seu jeitinho, a falar que era feio inventar histórias, que calúnias podem destruir a reputação de uma pessoa, etc. Camille, muito maternal, tentou contar o que de fato tinha acontecido, o porquê da minha ida à Búzios, mas foi debalde.  Mauricio, bufando, levantou-se e sem o menor constrangimento, pegou os copos de cada um dos meus detratores e derramou o líquido sobre suas cabeças. E o tempo fechou! Todos foram expulsos do restaurante e nós rimos dessa história até hoje! Ainda bem que à época não existiam redes sociais, nem o  tribunal da Internet!

Os rótulos, ou etiquetagem de pessoas, são geralmente colocados em uma determinada época da vida que, com sorte, vai sendo esquecido com o passar do tempo. Não faz sentido continuar sendo chamado de irresponsável quando hoje você é o oposto. Se o mundo mudou tanto em vinte anos, o que dizer de nós?

Li em algum lugar que na viagem da vida, todo peso inútil atrasa a caminhada. Confesso que essa frase virou um mantra para mim e já descartei várias gavetas, sem nenhum remorso.
Convido vocês para fecharem algumas gavetas também!

Ana Madalena

 

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CRÔNICAS: BEM-ME-QUERO, POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICAS do Blog do Saber desta quarta-feira trás um dos contos mais interessantes já publicado pela nossa talentosíssima Ana Madalena. Nessa história ela relata, com muita perspicácia, bom humor e irreverência o cotidiano de uma personagem hilária e única, qu você não pode deixar de conhecer. Portanto, não perca tempo e comece logo a ler o hilariante conto “Bem-me-quero”.

Bem-me-quero

É  F.O.D.A, Fear of dating again, ou em bom português, medo de um novo relacionamento, disse-me Alice, que chegou revelando alívio por descobrir o nome do que estava sentindo. Eu estava num momento culinário, mexendo uma panela de doce de leite que requer 3 ingredientes: leite, açúcar e parcimônia, coisa que eu não tinha há dias. Entreguei a colher de pau para Alice e escutei o que tinha a dizer.

Alice é minha amiga de infância e somos vizinhas há oito anos.  Nossa convivência é diária, motivo pelo qual os amigos nunca entenderam o porquê de não dividirmos apartamento. A verdade é que gosto do meu cantinho sem interferências; Alice é muito bagunceira e eu sou o oposto.

Ela é dessas de “pegar emprestado”, desde roupas até objetos. Eu já emprestei vários itens para ela fazer “estilo”, para os outros. Muitos de seus namorados foram escolhidos através de matchs em apps, outros por pesquisas em redes sociais, embora nunca tenha emplacado um  relacionamento sério. Muito pelo contrário! Talvez, se ela fosse mais ela mesma, as coisas fluissem. De toda forma, eu nunca me preocupei com esse seu modo de viver, pois estava aparentemente feliz.

De uns tempos para cá, ela mudou totalmente; aquela pessoa solar e divertida, passou a ficar só e introspectiva. O primeiro alerta de que algo não estava bem se deu quando ela me fez a seguinte pergunta:

-Ana, como posso sentir falta de uma coisa que nunca tive? Uma saudade de viver algo, como ter familia, marido e filhos…

Em se tratando de Alice, aquilo soou estranho. Ela sempre falou que casamento era uma roubada e por isso se restringia a duas coisas: beleza e paciência. Se desse certo, beleza; se não, paciência. Também não pretendia ter filhos; dizia que era muito trabalhoso e roubava a melhor época da vida. Lembro de ter comentado que essa mudança fosse devido a virada da idade, dos trinta anos, que mexe um pouco com a cabeça. De toda forma, fiquei de orelhas em pé!

O segundo alerta foi quando ela deixou de pedir coisas emprestadas. Em um mês, inteirinho, ela não me pediu absolutamente nada…  E o terceiro, e mais grave de todos, foi deixar de vir à minha casa. Vivia trancada e passamos a nos comunicar exclusivamente por wa, pois não queria falar ao celular. Até os longos áudios de cinco minutos deixou de me enviar.

Tanto eu quanto Alice já tomamos a primeira dose da vacina. Eu postei minha foto no Instagram, assim como todo mundo faz, mas Alice sequer quis tirar a foto. Comentei que seus “fãs”, sabendo que já estaria parcialmente imune, poderiam, quem sabe, convidá-la para um café. Ela me fuzilou com o olhar e disse que a última coisa que queria era namorar novamente.

Só Freud poderia entender tal mudança de comportamento, pensei. E, muito a contragosto, consegui levá-la a uma psicóloga que diagnosticou um medo do desconfinamento, associado a depressão. Enquanto eu, que nem sou tão sociável quanto Alice, estava louca para sair por aí abraçando os amigos, e até os que não são, Alice tremia só em pensar nessa possibilidade, principalmente em voltar a ter um envolvimento emocional.

Alice está bem melhor; faz terapia duas vezes por semana, agora presencialmente, e já parece disposta a voltar a se relacionar com os amigos e a um certo Pedro, que conheceu na sala de espera do consultório.  Ela também está cuidando de outros aspectos, principalmente da sua auto-estima que era baixíssima. Cansei de vê-la destruindo minhas margaridas, fazendo bem-me-quer, mal-me-quer, cada vez que se interessava por alguém. Hoje, ela finalmente diz bem-me-quero! Minhas plantinhas agradecem! Por falar nisso, vou pedir a Alice que compre alguns jarrinhos de margarida para repor os meus e também um potinho de doce de leite;  o que ela fez ficou pedrado. Também pudera..  Falava mais do que mexia a panela! Muito bom ter Alice de volta!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: O LADO B, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira está sensacional, com mais uma história quase verdadeira da fenomenal Ana Madalena, que conta a saga de uma amiga que passou a vida inteira enganada quanto as suas origens e finalmente, ao descobrir toda a verdade virou pelo avesso e desencavou o lado B. Vale a pena ler esse conto hilariante. Boa diversão! 

Bom demais para ser verdade? O Japão provavelmente não vai pagar por metade da sua próxima viagem - Passageiro de Primeira

O lado B


Essa é uma história quase verdadeira. Ela é baseada numa mentira, que só foi descoberta há poucos dias. O sentimento de frustração da minha amiga foi enorme e sua reação foi… Bem, não vou julgar. Não sei o que faria no seu lugar. Aliás, ultimamente tenho como meta de vida não julgar ninguém, coisa que fazia inconscientemente. Que desperdício de tempo!

Nos conhecemos há alguns anos quando fizemos um curso de ikebana. Ela era tímida, tinha uma fala suave e gestos calmos. Confesso que sempre admirei sua postura corporal, talvez por eu ser estabanada e gesticular demais. Akine também era muito disciplinada, principalmente na hora das refeições; eu até tentei incorporar seu estilo, comer mais grãos integrais,  beber chá depois do almoço, mastigar bastante, mas isso não durou nem um mês. Em todos esses aspectos estou cada dia pior; faço as refeições diante da TV  e não quero ver chá pela frente!

Ela tentou me ensinar meditação, mas não deu certo. Eu não me concentrava e abria meus olhos o tempo todo, só para checar se ela estava “zen”  mesmo. Uma vez me pegou no flagra e gentilmente disse que eu tentasse focar noutra técnica, pois sou dispersa. Eu tenho esse “problema” de foco mesmo… No colégio, eu não conseguia me concentrar nas aulas. Havia sempre alguém com um fio de cabelo solto na roupa ou um colarinho manchado na minha mira. Meu pensamento estava sempre noutro lugar. Bem, mas essa história não é sobre mim…

Akine tinha uma beleza rara; cabelos pretos e brilhantes, olhinhos puxados e uma pele maravilhosa. Filha única, ela manteve as tradições; sua descendência asiática vem dos  “ancestrais”, como se refere aos tataravós. Ela era encantada com a sabedoria milenar; o apartamento de Akine, por exemplo, tem uma sapateira na entrada, motivo de estranhamento  para quem a visitara antes da pandemia. Nunca permitiu que entrassem em sua casa com sapatos; além de serem sujos, trazem más energias. A decoração, minimalista, era totalmente temática e as únicas músicas que escutava eram aquelas que têm som de água e pássaros.  Seu sonho de vida sempre foi ir para o Japão mas, somente ano passado, conseguiu se organizar financeiramente para fazer uma viagem mais longa. Ela tinha muitos planos…

Lembro quando me ligou chorando; seu voo fora cancelado por tempo indeterminado. Pediu para eu ir até sua casa, precisava conversar com alguém; queria entender como seria o “tal” isolamento. O anúncio da quarentena inicial nos pareceu uma eternidade… Convenci-a que não tínhamos muito o que fazer; era torcer para que o tal vírus fosse abatido!  Esperançosas, resolvemos fazer um brinde para a descoberta da cura e… Ah! Tenho uma coisa para dizer sobre brinde. A primeira vez que brindamos, eu, por óbvio, disse “tim-tim; ela, envergonhada, explicou que em japonês isso significava o nome do órgão sexual masculino. Desde esse dia só digo “Kambai”, mesmo estando com outros amigos; impossível não fazer a “tradução”!

Aproveitamos o cancelamento da viagem para aprofundarmos os estudos sobre o Japão. Sim, eu também gosto de muitos aspectos daquele povo, mesmo sabendo que nunca, n-u-n-ca, irei por lá. Meus pais já foram umas três vezes, são encantados por tudo, acham lindas as cerejeiras, mas eu só registro a informação de que é muito longe, argumento infalível para eu desistir de qualquer viagem.

Akine resolveu fazer a árvore genealógica, na esperança de encontrar algum parente por lá e, à partir dessa informação, entrar em contato para combinar uma visita. Animada,  contratou uma profissional para fazer esse estudo.

Era um fim de tarde, eu estava saindo do trabalho quando Akine ligou. Falava intempestivamente e eu, sem conseguir entender, resolvi ir à sua casa. Levei um susto; uma Akine loiríssima atendeu a porta, bebendo cerveja, bebida que detestava, e me entregando um copo, disse:
-Tim-tim, Ana.  ( Eu falei kambai, juro!)

-Estamos celebrando o quê mesmo? Perguntei desconfiada.
– A grande farsa! A farsa que é a minha vida!

Akine recebera o estudo familiar e descobriu que nunca existiu descendente asiático na família. Houve, sim, um erro no cartório;  em vez de registrá-la como Aline, trocaram a letra. O fato de ter um olhinho puxado ajudou a criar uma mentira para salvá-la do bullying de ter um nome esquisito aos nossos padrões. A “japinha”, alcunha desde o ensino fundamental, foi considerada exótica por um bom tempo, principalmente no interior da Paraiba, onde nasceu.

O desenrolar dessa mentira vai mais longe. Sua mãe, venerada por ela, passou a ser vilã. Ela não morreu no parto, mas fugiu com o seu pai biológico, que soube depois ser um sujeito atarracado, de olhos puxados e cabelos pretos como o dos índios. Ao seu pai, o que lhe criou, coube inventar essa mentira para não manchar a honra materna. E, sendo funcionário de um banco, pediu transferência logo que o escândalo tomou conta da cidade. Eles moraram em vários lugares, até quando seu pai se aposentou aqui, em Natal. E foi ele quem deu os detalhes dessa história; tirou um peso dos ombros, coitado!

A nova Akine em nada se parece com a pessoa que conheci. Ultimamente escuta  pagode, funk e até sertanejo. Deixou de lado suas roupas sóbrias e destruiu, repito, destruiu, toda a decoração do apartamento. A sapateira, na entrada, permaneceu intacta, mas apenas por causa do covid. A viagem para o Japão foi trocada por Paris, Roma e Lisboa para quando a pandemia ceder.  E, na primeira oportunidade, irá para o Carnaval no Rio. Está louca para se esbaldar na avenida!

Sabe aquela pessoa de gestos contidos e fala mansa? Essa agora sou eu, na frente do que Akine se transformou. Imagine você que, enquanto lhe escrevo, estou na sala dela, esperando que termine uma aula on line de street dance. O pior é que agora eu estou com um problemão: não estou gostando desse lado B, dessa nova personalidade, cheia de novidades e zero bom senso. Como faço para dizer isso sem magoá-la? Aceito sugestões.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: FAZ DE CONTA…POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICA desta quarta-feira tem mais um show de talento da nossa colaboradora Ana Madalena. Se normalmente já tem nos presenteado com histórias maravilhosas e inspiradoras, imagine só no dia do niver da sua netinha de dois anos, que por acaso é o dia do seu próprio aniversário. Então sai de baixo, senta ai e comece logo a ler mais um ‘Faz de conta’ da nossa cronista!

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Faz de conta…

Dois anos. Hoje uma menininha levanta dois dedinhos para dizer quantos anos está comemorando. Foi dificil convencê-la da mudança de idade; acostumou-se a responder “um” toda vez que eu fazia a pergunta. Eu também poderia  fazer essa mesma contagem para mim, uma vez que  nascemos no mesmo dia, sete de julho. Sim, poderia, mas não vou. São anos demais e ela só sabe contar, ainda, até vinte e três. Em inglês conta até “ten” e adora dizer as cores “blue” e “green”. Adoro comentar essas coisinhas da minha neta!
Maria Cecília nasceu numa madrugada de domingo, antecipando em algumas semanas a sua chegada. Eu, desde que minha filha ficara grávida e sabendo que nasceria em julho, comecei intimamente a torcer que ela nascesse no mesmo dia da “avó”, mas desisti da idéia; minha torcida iria contra a natureza, e eu não tinha  esse poder. Será?
Era um sábado, quase meia noite da virada do dia seis para o dia sete, quando cheguei à casa dos meus pais. Eles estavam sob minha “responsabilidade”, uma vez que minha irmã, o anjo da guarda deles, estava viajando e só retornaria na data provável para o nascimento da primeira sobrinha neta. Eu estava vindo de um jantar oferecido por amigas, disposta a dormir até tarde. No outro dia almoçaríamos todos juntos para comemorarmos.
À meia noite meu celular começou a tocar, eram meus filhos. Leo, que mora em São Paulo, estava reunido com amigos e, numa vídeo chamada, cantou parabéns. Mariana que chegara há pouco de uma festinha, fez também aquela folia! Aconselhei-a que tentasse descansar; há dias estava sem posição para dormir. A barriga, enorme, já pesava bastante. Nos despedimos, coloquei meu celular no silencioso, uma máscara nos olhos e dormi profundamente até umas duas da manhã quando acordei sem motivo e, por acaso, olhei o celular, que somava várias chamadas não atendidas de Mariana. Nessa hora, o telefone residencial tocou; sim, meus pais ainda têm um telefone fixo!
Meu genro ligou informando que já estavam no hospital e que minha neta estava para nascer. Como assim? A bolsa havia estourado! Por sorte, as malas estavam prontas e o hospital ficava a dois minutos de casa. Meus pais acordaram assustados, temendo algo grave, mas quando souberam da novidade ficaram com aquelas carinhas bobas de “nossa, somos bisavós”! Deixei o mais novo bisavô em casa ( os homens da família são fracos para hospitais) e segui com minha mãe; às 3:37h minha netinha nasceu, saudável, espertinha e linda, claro!
O hospital estava lotado. Sem acomodações, passamos o dia todo na sala de recuperação, com outras mães e seus bebês. Naquela madrugada nasceram seis! Alguém  comentou que a data era cabalística, que o dia sete, de todos os números, é o que mais vibra perfeição e quem nasce nesse dia tem grande espiritualidade, além de…Não escutei o restante da explicação; naquela hora, em meio às parturientes, em um ambiente gelado, foi que me dei conta que era meu aniversário e que eu ganhara de presente uma neta!
Maria Cecília, ou simplesmente Maria, como a chamamos, é uma menina maravilhosa. Como toda canceriana, é bastante emotiva. Adora ouvir música e “ler” seus livros, de longe sua diversão preferida. É vaidosa, ao ponto de, quando gosta de uma roupa, quer vestir sempre. Atualmente está encantada com seu vestido de São João! Há dois anos, quando nasceu, estava havendo um surto de sarampo na cidade e ela passou os primeiros meses em casa. Depois, quando as coisas acalmaram, ela pôde começar a ter uma “vida social”, frequentando escolinhas de natação e musicalização. Infelizmente, pouco depois chegou a pandemia e ela entrou noutro ciclo de isolamento.
Minha netinha ainda estranha o uso de máscara e, muitas vezes, ela puxa a do meu rosto, dizendo:
-Nāo, vovó! Axim não! Tira, tira!
Nossas brincadeiras exigem muitas “caras e bocas” e os olhos não dão conta de expressar tudo.
Estou encantada com a “voternidade”.  É uma delícia voltar a entrar no mundo do faz de conta!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: SENTIMENTOS, POR ANA MADALENA

Uma história comovente e inspiradora, que pode acontecer com qualquer um, mas que nunca achamos que seja possível  conosco e por isso mesmo nem conseguimos imaginar. Mas a nossa cronista, Ana Madalena conseguiu e transcreveu de forma brilhante no texto a seguir que você terá a oportunidade de ler, refletir e se imaginar nessa situação, onde os SENTIMENTOS afloram como nunca. Então comece logo essa viagem!

Filha Que Visita A Mãe Superior No Hospital Foto de Stock - Imagem de amor, doente: 103154072

Sentimentos


Essa história começa em preto e branco. A  ausência de cores vibrantes no início da vida de Fernanda fez parte do seu crescimento. Não tinha sido fácil superar tanta coisa, mas no fundo ela sempre soube que algo de bom aconteceria. E quando tinha problemas, ela recorria ao exemplo dos bebês, que quando nascem enxergam apenas os contrastes, e somente por uma distância de até 30cm, mais ou menos a medida entre o colo da mãe e seus olhos. Essa, para ela, era a distância do afeto, do amor. Saberia aguardar e enxergar as coisas no tempo certo.

Há muito não se viam. Preferia dizer assim quando alguém perguntava por seus pais;  de nada adiantaria revelar a verdade, dizer que sua mãe abandonou a família para viver uma paixão. O bilhete de despedida deixado em cima da mesa da cozinha fora a única coisa que restou como lembrança. Nunca  esqueceu a cena de seu pai esmurrando a parede, gritando coisas que ela não entendia. Isso foi há exatos vinte e oito anos, numa noite fria de inverno, quando ela era uma menina de pouco mais de cinco anos de idade.

A infância foi difícil; seu pai, que começou a beber logo após aquele fatídico dia, pouco tempo depois faleceu, vítima de um atropelamento. O motorista atestou que foi ele quem atropelou seu carro e algumas testemunhas confirmaram essa versão. De toda forma isso pouco importava, seu pai não estaria mais ao seu lado. Por sorte, sua tia, irmã da sua mãe, assumiu sua criação e aos poucos ela voltou a ser uma criança feliz.

Estudou em bons colégios; era inteligente e muito disciplinada. Não foi surpresa quando  foi aprovada no primeiro vestibular para medicina. A universidade lhe abriu  possibilidades e logo no início do curso fez boas amizades; gostava de estar com pessoas intelectualmente estimulantes. Estava realizada em muitos aspectos, mas a falta de notícias da mãe era um assunto sempre pendente. Por muito tempo procurou por ela, não com o objetivo de fazer cobranças, apenas entendê-la, ou até ajudá-la, se fosse o caso. A lacuna deixada por ela já tinha sido preenchida por sua tia.

Como médica, optou por fazer pediatria. Gostava de crianças, principalmente de bebês; se emocionava cada vez que assistia um parto. Lembrava que nas brincadeiras de infância, pedia sempre para ser a mãe, sonho que foi adiado, desde que surgira uma excelente oportunidade de trabalho noutra cidade. Seu noivo, médico também, estava se organizando para transferir o consultório.

Há dias vinha num pique grande de trabalho. Estava saindo do plantão quando escutou alguém falando um nome familiar, porém raro. A não ser por sua mãe, não conhecia outra pessoa que tivesse aquele nome. Voltou seu olhar e viu um casal de meia idade, ela, numa cadeira de rodas, aparentemente alheia a tudo ao seu redor.

O quadro de Alzheimer estava numa fase avançada, informou seu colega, desconhecendo o parentesco. Ela procurou saber quais as providências que seriam tomadas e, sabedora disso, resolveu ir ao quarto da mãe. Ela dormia um sono tranquilo, assim como o senhor que a acompanhava. Procurou não fazer barulho, apenas se aproximar para olhar de perto aquele rosto, agora tão marcado pelo tempo e sofrimento. Não conseguiu evitar que a saudade transbordasse dos seus olhos. Enquanto enxugava as lágrimas, sua mãe de repente acordou; Fernanda percebeu que seus olhos se encontraram por alguns segundos, quando ela esboçou um discreto sorriso. Fernanda se aproximou do rosto da sua mãe  e, na distância do afeto, disse em silêncio os sentimentos que guardara todos esses anos.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: GERÚNDIO, POR ANA MADALENA

A imaginação da criativa Ana Madalena continua a mil no conto desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS. Desta vez ela nos apresenta uma crônica urbana, que envolve mais uma vez, um casal, um romance das antigas que, muito por acaso, se renova nos dias atuais, mas de uma forma, como sempre, bem original. Vale a pena conferir!

Como usar balanco na decoração? - Minha Casa, Minha Cara

Gerúndio


A vida aos poucos voltará ao normal, disseram. Qual normal? Sim, porque depois de tantas mudanças de hábitos e por tanto tempo, normal para ela era continuar do jeito que se acostumara a viver. Nunca se sentiu tão em paz, trabalhando em casa sem ter que se preocupar em sair, vestir essa ou aquela roupa, arrumar cabelo ou fazer unhas. Ela se acostumou com o pouco contato social e foi um choque quando recebeu o comunicado da empresa, informando que começariam a fazer o trabalho de forma híbrida.

Só em pensar que encontraria novamente seus colegas de trabalho já lhe dava um enjoo. Trabalhava distante da cidade, ainda bem que iria sozinha no seu carro; preferia assim, mesmo que tivesse um custo maior. Não suportaria ir no ônibus da empresa e ter que jogar conversa fora durante todo o percurso. Se tivesse que pagar passagem, seria uma para ela e outra para a culpa que carregava. Não, não tinha feito nada errado, mas sentia como se tivesse feito. Todos seus amigos reclamavam da sua falta de interesse e diziam que ela não estava bem, que não era saudável passar tanto tempo isolada de tudo e de todos. Ela era consciente que tinha perdido um certo interesse em conviver com outras pessoas, mas em contrapartida percebeu que gostava do silêncio na sua vida. Desde quando isso era um problema?

Adquiriu uma mania; cada vez que se locomovia, contava mentalmente os passos; eram seis, do sofá até a televisão, e treze da cozinha até seu quarto. Ainda bem que seus amigos não sabiam disso, nem de outras coisas, como o fato de ter instalado um balanço no lugar da mesa de jantar, onde a cada duas horas se balançava, deixando no teto as marcas dos seus pés. Gostava de ver suas “impressões ” no teto branco.

Também comprou uns quadros novos, mas a pouca habilidade com o uso da furadeira deixou um buraco enorme na parede da sala. Customizou-o, descascando um pouco ao redor e, com um pincel escreveu numa seta “olhe aqui”. Aos poucos começou a dar personalidade à sua casa; gostava do cenário que estava montando. Encheu a varanda de plantas; descobriu que era bom  elas ouvirem Mozart, para crescerem, e Bach para dormirem. E foi exatamente quando estava trocando a trilha sonora que ouviu alguém colocando uma correspondência por baixo da porta.

Olhou por alguns minutos para aquele envelope pardo. Não sabia o porquê  de ter receio em abri-lo, mas respirou fundo, deu quatro passos em sua direção e abriu. Era um bilhete do vizinho do andar de cima, querendo saber que ruído era aquele na sala de jantar. Disse que tentou interfonar mas ela não atendeu. Ele finalizava pedindo seu contato para conversar com ela, pois o ruído incomodava bastante.

Sentiu o suor escorrer pela testa… O que fazer? Não queria falar por telefone, principalmente com desconhecidos. Criou coragem e resolveu falar pessoalmente, resolver logo esse assunto. Contou vinte e sete passos até o apartamento dele. Ouviu uma música suave e alguém se aproximando. Prendeu a respiração.

O vizinho era, para sua surpresa, um amigo de infância. Na verdade ele foi mais que amigo, fora um namoradinho, por assim dizer. Melhor assim, a conversa seria mais fácil. Ela explicou que o som era do balanço e ele, impressionado, achou a ideia genial. Perguntou se poderia se balançar por lá, de vez em quando. Ela observou que ele tinha muitas plantas e quando se deram conta, estavam conversando sobre orquídeas, violetas, lirios e bromélias há horas.

Algo de mágico aconteceu ali… De repente todas as suas angústias sumiram e ela percebeu que tinha deixado de fazer a contagem dos seus passos. Será que aquele sentimento do passado estava acontecendo outra vez?  Por via das dúvidas, sentou no balanço e feliz, ficou se balançando até cansar. Ela finalmente entendera que a vida é conjugada no gerúndio!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: E FOI ASSIM…POR ANA MADALENA

Na crônica desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS, Ana Madalena, mais uma vez, aguçou a sua imaginação e, como sempre escreveu uma história que vai prender a sua atenção do começo ao fim, pois foi assim comigo. Não consegui parar de ler, olhos grudados na tela do computador até o fim. Então lhe convido a ler e se entreter sem querer!

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E foi assim…

Ela mergulhou seu olhar aos pouquinhos;  tinha necessidade de captar cada milímetro daquela foto, tirada em plena fila da vacina. Se reconheceram pelos olhos; os dela, cor de mel com alguns risquinhos quase amarelos; os dele, um oceano azul. É incrível como o olhar é algo que não esquecemos, pensou. Por sorte ele tomou a iniciativa de falar; ela era insegura e tinha medo que ele não lembrasse dela, afinal estavam com máscaras e já faziam mais de vinte anos desde que se viram naquela loja…

A torneira já estava pingando há dias; qualquer um que passasse meia hora ali se sentiria incomodado, mas ela não parecia perceber absolutamente nada ao seu redor. Estava  triste com os rumos da sua vida… Uma noite finalmente escutou, não só o pinga-pinga, mas também seu coração. Precisava urgente sair daquele estado de letargia. Pegou um bloquinho de notas e escreveu uma lista de coisas para fazer no dia seguinte; a primeira seria comprar uma torneira nova.

Nunca imaginou que existissem tantos modelos! Ficou parada em frente ao mostruário, totalmente indecisa, enquanto que o cliente ao lado parecia ter feito curso de torneiras. Foi até muito gentil em tirar algumas dúvidas, uma vez que o vendedor sumira. Detestava essas lojas self service, comentou. Ele, rindo, disse que para quem não era familiarizado, era realmente difícil. Foi nesse exato momento que seus olhos se encontraram pela primeira vez. Não sabia se tinha sido impressão, mas sentiu que ele teve algum interesse por ela. Será que ele olha assim para todo mundo? Imediatamente levou sua mão ao colar, procurando sua medalhinha de N. Sra. Aparecida, gesto que repetia sempre que ficava tímida ou nervosa. Ela não soube identificar qual dos dois sentimentos. Talvez ambos.

-Tem alguma pessoa para instalar a torneira?
-Não, respondeu desanimada. Você indica alguém?
-Eu mesmo posso fazer isso para você. Tenho algum tempo disponível depois daqui. Só preciso passar na obra para deixar algumas coisas.
–  Eu não tenho coragem de pedir isso, principalmente a alguém que não conheço.
– Isso não é mais problema. Prazer, Arthur.

E ali, contra todos os seus princípios, Isabella escreveu seu endereço na caixa de uma torneira de jardim que ele estava comprando. Combinaram que ela seguiria na frente; Arthur ainda tinha uma lista de compras para finalizar. Enquanto estava no caixa, ficou pensando se torcia para ele ir, ou não. Por via das dúvidas, assim que chegou em casa organizou algumas coisas que estavam pelos cantos. Resolveu fazer um café, afinal teria que servir alguma coisa. Fez também um suco, caso ele não gostasse de café. Ainda bem que tinha um bolo feito na véspera.  Colocou um cd, abriu as janelas, escolheu uma toalha de mesa, separou umas xícaras. Olhou em volta e riu sozinha! Que loucura! Fazer tudo aquilo por uma pessoa que só sabia o primeiro nome…

As horas foram passando e ela começou a se sentir boba. Claro que ele não viria! Seu ânimo foi baixando de nível com o passar do dia. Ao anoitecer teve uma crise de choro, mas não um choro de tristeza, mas de dados de realidade. Constatou que tinha organizado a casa para agradar um estranho enquanto que negligenciara a si própria. Deu um suspiro profundo e, finalmente entendeu que se havia uma pessoa importante naquela casa, com certeza era ela!

Há dias estava ansiosa para tomar a vacina. Praticamente todos seus amigos já estavam vacinados, até seu ex marido, que se gabava de ter porte atlético, mas que de repente virou hipertenso. Não estava julgando, mas achou esquisito. Chegou bem cedo ao posto de vacinação, antes do horário de abertura. Ficou um tempo no carro ouvindo música, até que outras pessoas foram chegando e resolveu interagir, mesmo a distância. Todos estavam, no mínimo, eufóricos. De repente Isabella ouviu um rapaz chamando por Arthur. Ela, de canto de olho, conferiu se era o mesmo que tinha conhecido.
Os olhos azuis e o cabelo, agora um pouco grisalhos não deixavam dúvidas. Era ele, com certeza. Segurou sua medalhinha, nervosa. Será que deveria se dirigir à ele? Enquanto pensava, ouviu ele pronunciando seu nome.

-Isabella?
– Sim… Me desculpe, mas não estou reconhecendo; essas máscaras não ajudam, não é mesmo?
– Com certeza você não lembra de mim, mas nunca lhe esqueci. Nos conhecemos comprando torneiras há muitos anos. Você até escreveu seu endereço numa caixa, mas quando cheguei na obra percebi que nenhuma delas era a que você havia escrito. Ainda voltei para a loja, mas o vendedor … Enfim, são muitos detalhes, mas quero que saiba que fiz de tudo para lhe encontrar.
– Como me reconheceu?
– Você não mudou muito. E seus olhos são muito marcantes, mas ainda bem que continua usando o mesmo colar, com essa medalhinha. Não tive dúvidas. O que vai fazer depois da vacina? Podemos tomar um café…
– Sim, podemos. Eu moro perto daqui.
– Dessa vez eu vou seguindo seu carro.

Cada um fotografou o outro na hora da vacina e depois fizeram uma foto juntos. No caminho para casa, Isabella sentiu o coração aos pulos. Conferiu pelo retrovisor se Arthur estava lhe seguindo. Estava. No sinal, olhou novamente a foto. Feliz,  notou que seus olhos sorriam.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: SOBRE NASCIMENTO, INFÂNCIA E OUTRAS COISINHAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos uma história verídica travestida de conto que a imaginativa Ana Madalena com muita inspiração criou, tirando do fundo do baú da sua rica e feliz experiência de vida. Foi buscar na sua infância lembranças imemoriais, lúdicas de relacionamentos com pais, irmãos e coleguinhas da escola. Então convido você a ler essa crônica atraente que mistura ficção com realidade! 

Sobre nascimento, infância e outras coisinhas…


Dizem que muito do que somos é explicado pela posição dos astros na hora do nosso nascimento. Eu discordo; acho que depende muito mais da hora da concepção, que, no meu caso, quase não aconteceu. Explico: sou fruto de uma camisinha furada; posso encher o peito e dizer que, na corrida de obstáculos, cheguei em primeiro lugar ao pódio. Isso não é para qualquer um. Até hoje tenho na memória aquele milésimo de segundo quando rompi a borracha de látex e nadei rumo ao útero. Na hora pensei: -Enfim só! Livrei-me daquela aglomeração! Nada como reinar absoluta durante nove meses, vivendo de sombra e água fresca.

Era madrugada chuvosa. Dentro e fora da barriga da minha mãe. Escutei sua voz abafada e, pelos movimentos estranhos, percebi que algo não ia bem. Senti um empurrão.
-Como assim, estou sendo expulsa do meu úterozinho? Ainda falta um mês para terminar o contrato!
Por mais que eu não quisesse fazer a mudança, não teve jeito e cheguei ao mundo, antes do tempo. Eu, que já estava toda trabalhada para nascer leonina, do nada, me transformei num caranguejo. Os astros devem ter se enganado, tamanha a confusão que causaram. Minha mãe, coitada, que engravidara quando meu irmão estava com cinco meses, ainda teve que correr contra o tempo para organizar minha chegada inesperada. Diferentemente dele, que era péssimo para comer, já nasci faminta e com o dedo atolado na boca. Não foi de estranhar, quando, aos onze anos, tive que fazer uso de aparelhos dentários, de tão dentuça que era. À época não era comum, mas minha mãe sempre atenta, correu para resolver esse probleminha. Claro que rapidinho virei motivo de chacota e fui chamada de “boca de ferro”, um dos apelidos carinhosos que recebi na vida.

Apesar desse meu nascimento micareta, não fui uma bebê frágil. Muito pelo contrário. Me sentia poderosa, tanto por ter vencido a corrida e, mais ainda por ser a princesinha do lar. A verdade, confesso, é que eu queria mesmo ser filha única, mas na impossibilidade, curti ser única filha. Só fiquei desconfiada mesmo quando vi a barriga da minha mãe crescer…. Aí tem coisa, pensei!. E não deu outra! Nunca esqueci da noite que me colocaram na cama e disseram que eu ia ganhar um irmãozinho.
 – Você prefere chamá-lo Gustavo ou Alexandre?
Quem se importa, pensei! Mas avaliei bem e percebi que estaria no lucro. Ainda reinaria como a menininha da casa…

Eu só não contava com o fator surpresa! Ver minha mãe chegar em casa com um bebê de laço rosa no cabelo estava fora dos meus planos. Corri para o meu quarto e chorei. Chorei mais ainda quando disseram que escolheram um nome para ficar rimando com o meu. Naquela época era comum nomes compostos, então éramos Ana Madalena e Suzana Helena. Eu nunca tive direito ao diminutivo; não faço ideia por que nunca fui Aninha, enquanto minha irmã já veio ao mundo como Suzie.

Percebi uma remodelação de móveis na casa. Meu bercinho passou para o quarto dos meus pais e eu ganhei uma cama, de onde eu caía praticamente todas as noites, algumas de propósito. Cansaram de me encontrar dormindo no chão. Eu, que lutava para dividir atenção com meu irmão, de repente me vi tendo que fazer contorcionismo para ser notada. A caçulinha era o xodó da família; o mais velho, primogênito, era o orgulho. Eu era apenas a filha do meio.

Daí em diante minha vida só piorou, fiquei rebelde mas, por sorte,  já estava em tempo de ir para a escola. Reza a lenda que nos bancos escolares eu era um doce de candura,  participava de todas as atividades recreativas, e por isso mesmo, fui até escolhida para ser a noiva da quadrilha da minha turma, posição almejada por todas as meninas. Eu fiquei empolgadissima, mas, apesar da minha alegria, pude constatar que era alvo de inveja, de uma inveja que tinha requintes de crueldade.

E aconteceu o que temia. No recreio, quando estávamos no parquinho, fui desafiada a subir no escorrego. Todos sabiam que eu tinha medo de altura.  E lá em cima eu congelei; hoje sei que foi um ataque de pânico. A menina que estava atrás de mim deu um empurrão e, como eu ainda estava em pé,  me desequilibrei e cai de cara no chão. Ouvi muitas risadas. Lembro até  que estava vestindo um shortinho azul e uma blusa imaculadamente branca, que nessa hora, virou uma mistura de barro e sangue. O meu dente da frente, que ainda teria alguns anos na minha boca, caiu com o impacto. Ninguém da minha turma tinha perdido dente de leite até então.  Desde esse dia  passei a ser identificada como” a banguela do preliminar”.

Comecei a me ausentar do recreio. Algumas amiguinhas foram solidárias e por vezes permaneceram na sala comigo. Ir para o colégio tinha se tornado um fardo e, da menina falante, não restara nada. Virei introspectiva, passei a ler revistinhas, hábito que me dava prazer e que, no futuro próximo me impulsionaria para ser uma leitora voraz. O mundo dos livros era uma realidade à parte e que me preenchia totalmente. Só para constar,  rapidinho voltei a ser tagarela, foi só uma fase.

Muito se passou desde então. Adoro  relembrar algumas dessas histórias, mas não com saudosismo melancólico, até porque o passado deve ser um lugar de referência e não de residência. A minha menina “do meio” sobreviveu ilesa a infância e adolescência e, adulta, está tirando de letra esse mundo de fakes, filtros e outras coisinhas mais…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, POR ANA MADALENA

Hoje temos, aqui na coluna CRÔNICAS, mais uma pérola da nossa preciosa colaboradora Ana Madalena. Desta vez ela nos remete a uma viagem no tempo, através das páginas da Bíblia Sagrada, até os idos da famosa Torre de Babel para nos lembrar que o que estamos vivendo atualmente, em muito se parece com a “confusão de vozes, algazarras e mistura de línguas”, daquele tempo. Mas prefere o Silêncio das Palavras a todo esse barulho. O silêncio, a leitura, o conhecimento, a reflexão…Um texto para nos fazer refletir até que ponto evoluímos ou retroagimos nessa longa caminhada experiencial! Portanto convido você a ler, refletir e fazer o seu juízo de valor!

O que era a torre de Babel? - Respostas Bíblicas

O Silêncio das palavras

Ah o tempo… A impressão que tenho é que estamos retroagindo, e sob um aspecto muito sombrio. Uma história que sempre me vem à mente, está no capítulo 11 do Gênesis, a construção da Torre de Babel: Os descendentes de Noé construíram um altíssimo monumento com o objetivo de alcançar o céu. Chateado com a blasfêmia, Deus teria feito com que os trabalhadores falassem línguas diferentes, o que inviabilizou a conclusão da obra. Por causa desse episódio, a palavra Babel adquiriu nos dicionários, significados como “confusão de vozes, algazarra e mistura de linguas”.

Estamos vivendo em um mundo onde as pessoas, apesar de suas semelhanças, mal se entendem; a nossa Babel agora são as redes sociais. Várias vezes, quando leio alguma coisa, me questiono porque as pessoas ficaram tão intolerantes, ou pior,  porque perderam o bom senso e a capacidade de ouvir. Sinto saudades de um tempo em que éramos mais humanos e menos críticos. Por sinal,  lembro que, quando adolescente, a maior critica que eu recebi foi ser chamada de “esquisita”, por ter um passatempo diferente. Diferente para os outros, claro.

Sobre esse tema, sou solidária aos gostos alheios. Acho incrível quem gosta de escalar montanhas, mesmo sabendo do risco de uma avalanche, ou quem decide ser bombeiro e enfrentar a “ferro e a fogo” o perigo de um incêndio de grandes proporções. Não nasci com esses rompantes de aventura, sou muito medrosa e o máximo de risco que corri até hoje foi escrever um diário que displicentemente deixo aqui e acolá. No geral eu sou muito simples e metódica.

Estava organizando meus armários e encontrei uma caixa que há muito não via. Eu tenho um hábito que está se tornando cada vez mais raro, até por vivermos num mundo digital; eu coleciono matérias de revistas. Eu adorava quando precisava ir para alguma consulta médica e me deparava com uma mesa lotada de revistas, algumas já fazendo aniversário. Eu torcia para que o médico atrasasse só para poder folheá-las com tranquilidade e, quando encontrava algum artigo interessante, eu pedia para destacar a página. Foi assim que comecei a minha coleção, motivo de risos entre meus irmãos, que se gabavam de possuir uma coleção de selos e moedas, e não páginas de revistas velhas.

Minha coleção cresceu bastante quando, ainda na Universidade, estagiei num escritório, sempre bem abastecido. Meus colegas de sala  soltavam piadinhas do bem, com exceção de Núbia, uma secretária muito esquisita. Ela me olhava com curiosidade e sempre perguntava qual a finalidade daqueles papéis; eu, pacientemente, explicava que os artigos eram como cápsulas de conhecimento, que uma hora ou outra, poderiam explodir, dependendo da minha necessidade. Ela franzia o cenho, em aparente desaprovação.

Depois de dez meses, meu estágio chegou ao fim. A última semana foi bem melancólica, mas combinei de rever os colegas. Umas duas semanas depois retornei e, para minha surpresa, lá estava Núbia, ocupando a “minha mesa” e, curiosamente, vestindo roupas semelhantes às minhas, até a armação de óculos era igual. Em cima da mesa, algumas revistas, uma tesoura e algumas pastas, exatamente das cores que eu tinha. Com um sorriso, olhou pra mim e disse:
– Ana, eu sou a nova você!

No mundo sempre existirão pessoas que vão gostar de você pelo que você é, e outras que vão lhe odiar pelo mesmo motivo, mas só nós sabemos de fato quem somos. Dito isso, informo que Núbia desistiu de mim; classificou-me como um caso clássico de excentricidade! Talvez eu seja mesmo. No ruído dessa Babel, sou mais o silencio das minhas palavras.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: TINHA TUDO PRA DAR ERRADO…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a nossa querida Ana Madalena que não para de surpreender com seus contos super imaginativos, alegres, divertidos e bem humorados. A história de hoje aborda uma linda história de amor que atravessou várias décadas e gerações e promete ser infinito enquanto dure. Portanto, convido você a ler mais essa crônica maravilhosa e emocionante!

Casamento casado feliz casal de mãos dadas, noiva e noivo, alianças | Foto Premium

Tinha tudo para dar errado…

O ano era 1961. Logo cedo, os noivos decolaram num teco-teco, do campo de aviação de Capim Macio, em Natal, rumo a Santana do Matos, cidade da noiva e onde seria o casamento, marcado para as dez horas daquela manhã. O piloto, amigo do casal, também era fotógrafo e, além de levá-los, faria as fotos da cerimônia. Diferentemente do que diziam, que noivos não podem se ver antes do casamento pois dá azar, os dois viajaram lado a lado, indiferentes aos ditados populares.  Ela, compenetrada, carregando no colo o bolo de casamento. Ele, nervoso, contando os minutos para estar em terra firme.
A chegada foi no horário previsto. Antes de irem para a igreja, deram uma passadinha na casa dos pais da noiva para se recompor e vestirem  seus trajes para a cerimonia. A viagem, embora curta, foi desconfortável para o noivo, que enjoou todo o percurso, coitado…  Ainda bem que naquele dia não choveu, muito pelo contrário. O céu estava limpo, sem nuvens; não houve turbulência, a não ser umas rajadas de vento que balançaram a aeronave. Por sorte, o piloto era experiente e fez um excelente voo. O bolo e a noiva chegaram intactos, já o noivo estava bastante pálido e, quando saiu do avião, beijou o solo, gesto copiado pelo Papa João Paulo II anos depois.
Minutos antes de seguirem para a igreja, um rapaz veio avisar que o padre chegaria atrasado. Todos falaram ao mesmo tempo:
– Quanto tempo?
O jeep, que o padre estava dirigindo para celebrar uma missa  no município vizinho tinha quebrado e ele voltaria de jegue, o que levaria o dobro de tempo. O pai da noiva saiu numa carreira só; precisava  avisar os convidados, que já estavam na igreja. Alguns voltaram para seus afazeres e outros, mais fervorosos, resolveram permanecer e rezar para que tudo desse certo.
Ao meio dia o sol estava a pino. A mãe da noiva se abanava, tentando em vão afastar o calor. A paisagem, árida, mostrava que aquele era mais um ano de seca; o açude da cidade estava praticamente vazio. Enquanto resmungavam sobre o tempo, imaginavam a situação do padre, conhecido por seu mau-humor e nervosismo. O noivo, que desde criança  tinha problemas de hipoglicemia, começou a dar sinais de que iria desmaiar. O corre-corre para acudi-lo foi grande. A noiva, aperreada, foi esquentar um pouco de leite, enquanto checava se a cobertura do bolo estava derretendo. Estava; o bolo praticamente desmoronou.
Finalmente anunciaram que o padre já estava na Igreja. Os noivos, ansiosos, deram os últimos retoques no visual e seguiram para finalmente selar a união. À entrada da igreja, o piloto, muito nervoso, pediu desculpas ao casal;  informou que esquecera de trazer a máquina fotográfica. A noiva ameaçou chorar! O pai, desolado, perguntou aos convidados se alguém tinha “aquele artefato”, já sabendo de antemão a resposta. O jeito foi acalmar sua filha e levá-la ao altar. O padre, faminto, fez o casamento numa ligeireza nunca vista  naquelas paragens.
O tempo passou e aquele longínquo 28 de maio pôde ser renovado mais duas vezes. A familia, composta por três filhos, logo deu netos. A  primeira netinha, que nasceu  próximo a data do casamento, teve sua primeira festinha de aniversário  junto com a comemoração das Bodas de Prata dos avós. Eles, empolgados e finalmente posando para as fotos, desejaram que pudessem viver juntos mais vinte e cinco anos. As Bodas de Ouro foram celebradas com tudo que tinham direito.
A vida desse casal, os meus pais, foi motivo de escrevermos dois livros de família com o objetivo de deixar um pouco de nós para gerações futuras. As conversas, que ouvi durante todos esses anos de convivência, estão guardadas como um tesouro naquelas páginas. Estamos partindo para o terceiro livro, com mais novidades, até porque a familia cresceu. Agora,  já  bisavós, completarão Bodas de Diamante essa semana, saudáveis e felizes. Eles nunca imaginaram chegar tão longe…
Parecia que tinha tudo para dar errado, mas graças a Deus deu tudo certo!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: ESPORTE RADICAL, POR ANA MADALENA

O criativo, imaginativo e quase lúdico conto desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS, de Ana Madalena fala de amizade e compara com esporte radical, no sentido de que uma verdadeira amizade é “para o que der e vier”. Mais uma incrível creação desta incrível escritora. Por isso convido você a fazer essa viagem e expandir a sua imaginação! 

Montanhismo | ACP

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”.
                 Amigos, Vinicius de Morais

Esporte radical


Tudo começou com um dia de chuva, como há muito não acontecia. De repente toda a paisagem se modificou; a vegetação ficou mais verde e o sorriso voltou ao rosto daqueles que reclamavam do calor. Por algumas horas as pessoas  tiveram outro assunto, não só a política e pandemia. O clima é sempre motivo para iniciarmos uma conversa, desde que haja disposição das pessoas para tal. Laura devia achar coisa de “papinho” de elevador.

Somos vizinhas de porta e nos conhecemos exatamente dentro do elevador. Eu, que sou uma pessoa extrovertida, comentei da chuva que me pegou desprevenida, durante a caminhada. Qualquer pessoa que olhasse para mim teria feito essa leitura; a roupa encharcada deixava rastros. Laura fingiu que não tinha ouvido e ainda bem que só estávamos nós duas; ficaria envergonhada se outros vissem sua falta de educação e a minha tentativa inútil de fazer amizade. No geral, sou bem sucedida e não desisto facilmente.

Laura mora com a irmã, informação que escutei de Jorge, o rapaz da limpeza, um dia que veio recolher o lixo. Ele fala de todo mundo, é a radio corredor, como dizem aqui.  Eu fico só imaginando o que diz de mim, apesar da minha vida não ter nada de extraordinário. Talvez comente que faço  compras pela internet ou sobre as refeições que peço com entrega, principalmente pizza, às quartas e domingos. Certa vez, quando lhe pedi para trocar o garrafão de água, ele “soltou” que sou a única que faz pedido de pizza duas vezes por semana. Desde esse dia fiquei de orelhas em pé.

Sempre gostei de quebrar a rotina no meio da semana, ou com a turma da caminhada ou amigos da época da faculdade. Nunca consegui adesão dos meus colegas de trabalho; a desculpa deles é que no outro dia têm que acordar cedo, como se duas horinhas depois do expediente fosse atrapalhar o sono. Infelizmente, durante essa pandemia sem fim, não pude mais sair com meus amigos, mas meu ritual permanece o mesmo. Passo muitas horas do meu dia, sentada sobre meus ísquios, trabalhando feito louca, e mereço um pouquinho de alegria, nem que seja com sabor de queijo, tomate cereja e manjericão.

E foi numa quarta-feira que finalmente Laura conversou comigo. No início não foi bem uma conversa, mas uma constatação. Eu tinha descido para pegar a pizza e quando voltei percebi que ela estava sentada no hall. Olhou para mim e disse que sua irmã ainda não tinha chegado e ela esquecera a chave. Eu, que gosto de manter boas relações com vizinhos, sugeri que esperasse na minha casa. Ela, meio sem graça, aceitou.

Nossa primeira conversa foi quase um desabafo; disse que se sentia angustiada e não conseguia dormir há um bom tempo. O trabalho remoto também estava sendo muito cansativo e não via hora de trabalhar presencialmente, diferentemente da irmã que é da área médica e está na linha de frente nos hospitais, também motivo de muita preocupação. De repente, ela caiu no choro e eu, que sou uma canceriana dramática, não deixei que ela chorasse sozinha. Desde cedo aprendi que a dor do outro não é brincadeira, não é mimimi. Esse foi o começo da nossa amizade, em meio a fatias de pizza e lágrimas, há pouco mais de um ano.

E foi exatamente sobre isso que estava pensando; dificilmente lembramos o exato momento quando nasce uma amizade; ainda bem que tenho boa memória e “feeling” para escolher amigos. Para mim, a amizade está no mesmo patamar dos esportes radicais; é para o que der e vier!  E sim, estou contando essa história também para dizer que estou com saudades de vocês! Até a próxima quarta!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: SE ESCREVE MÃE…POR ANA MADALENA

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira a nossa colaboradora Ana Madalena faz uma bela e singela homenagem, não apenas as mães biológicas, mas também as madrastas e as mães adotivas e coloca todas no mesmo patamar, pois exceções a parte o que impera nos relacionamentos mãe e filho, madrasta e enteado, mãe adotiva e filho adotivo, na verdade é o amor. E o amor não tem marca registrada, não tem DNA, nem sinal de nascença. O amor incondicional é universal e é justamente o que viemos aprender nessa trajetória evolutiva. Então fique com a leitura de mais uma crônica maravilhosa da nossa escritora favorita!

“Amor igual ao teu, eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual, eu nunca mais verei
Amor que não se pede, amor que não se mede,
Que nao se repete”.
                 Onde você mora, Nando Reis 

Se escreve mãe…


Li certa vez que a literatura poderia ser um ramo da biologia e que as palavras deveriam ser tratadas como seres vivos pois, de uma hora para outra, podem decolar do papel e sair por aí, sem destino. Eu concordo e por isso tenho muito cuidado; certas palavras reverberam tão alto que a gente nunca sabe como pode ser recebida, e, por conseguinte, afetar os outros.

Domingo foi comemorado o dia das mães. A palavra “mãe” por si só já vem com dose extra de carga emocional. Mãe se traduz com praticamente todas as categorias gramaticais; é realmente um fenômeno. Inversamente proporcional é a sua prima injustiçada, a madrasta. A mulher que exerce esse papel geralmente é vista com lente de aumento. Ela é uma malabarista, vive eternamente equilibrando pratinhos: não gerou a criança mas ainda assim tem certas responsabilidades. Ela já entra em desvantagem, em família construída, com  hábitos arraigados. Raramente a madrasta sai do papel de coadjuvante; há sempre um dedo a lhe apontar lembrando que ela não é “a mãe”.

Existem inúmeras histórias bem sucedidas de convivência entre enteados e madrastas mas houve um tempo que “madrasta” era quase um palavrão, talvez amparado pela madrasta má da Cinderela. Essa sim, tinha muito do que se queixar. Ali, não sei quem era pior, a madrasta ou as meia irmãs invejosas. Por falar em meia(o) irmã(o), a impressão que tenho quando alguém enfatiza isso, é porque não quer a pessoa por inteiro. Quando existe afeto, ninguém fraciona parentesco, nem sentimento.

Eu não sabia que existia o dia da madrasta,  primeiro domingo de setembro. Confesso que só me interessei pelo assunto por um post que minha cunhada enviou parabenizando-me pelo dia das mães. Ela é uma excelente madrasta para meus sobrinhos. Aliás, eu nem a chamo de boadrasta; na minha cabeça o prefixo é o que realmente significa, maternal, mater, madre. Ela está sempre de braços e coração acolhedores e, diferentemente da insegurança de algumas mulheres, nunca quis tomar o lugar da mãe. Ainda bem que o amor não tem quantidade estabelecida, sempre transborda. E não importa de onde venha, porque a maternidade não é sobre gerar, mas sobre sentir. Feliz do filho que sente esse amor.

E sobre sentir, que o digam as mães que adotam crianças. Sem a explosão hormonal, elas recebem nos braços uma criança que, na maioria das vezes, lhes chega de repente.  Como reconhecer naquela criança uma parte de você? Por sorte, essas mulheres geralmente decidem ser mães quando já se esgotou a possibilidade de gerar um filho. Aí,  acontece um milagre: todo aquele amor acumulado nas várias tentativas da maternidade, recai na criança. A maternidade adotiva também produz um hormônio, a ocitocina, que “nasce” por meio de afetos positivos. Apesar da não existência da parte biológica, gestação e amamentação, o cérebro da mãe adotiva com o passar do tempo se comporta semelhante ao da mãe que deu à luz. Só para constar, não diferencio filho, nem mãe adotiva. São filhos e mães. E ponto.

O dia das mães é uma data bastante comercial e que movimenta, além da economia, o coração. Confesso que me emociono sempre com as mensagens publicitárias e seus textos belíssimos. Infelizmente, essa data não foi celebrada em muitas famílias; a pandemia tirou a vida de mães e filhos no mundo todo. Ainda bem que a maternidade se traduz também em colo e, tomara Deus, alguém, da rede de proteção dessas famílias, cuidará de preencher um pouco esse vazio.

Espero que no próximo ano possamos celebrar esse dia juntos, sem distanciamento, nem máscaras. O mundo está carente de tudo, principalmente de afeto. E por falar em afeto, vamos lembrar que se escreve “mãe”, mas significa “amor”.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: ONDE AS ESTRELAS BRILHAM, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de Ana Madalena aqui na coluna CRÔNICAS com suas criativas e exuberantes histórias. Quero confessar algo: também sou escritor, mas não tenho tanta criatividade assim. Isso é um dom extraordinário, uma benção de Deus que veio brilhar, ilustrar e enriquecer o Blog do Saber. Então lhe convido a ler “onde as estrelas brilham” e surfar na imaginação dessa autora fantástica!

Onde as estrelas brilham

Chovia muito. Estava vindo com meus pais de Angra dos Reis, onde havíamos passado o carnaval. A casa que alugamos era bem localizada e logo fiz amizades. Todos pareciam gostar de mim, principalmente uma senhora muito elegante, que estava sempre fumando. Naquela época era charmoso ser fumante, talvez porque as pessoas não soubessem o que fazer com as mãos, principalmente nos momentos de solidão. Hoje todos têm um celular.

A casa de D. Clarice era cheia de livros. Ela tanto gostava de ler quanto escrever; passava  muito tempo datilografando. Às vezes sentava numa poltrona, onde apenas pensava… Aliás essa  poltrona era perto de uma janela que dava vista para a janela do meu quarto, onde, à noite, eu também sentava para escrever meu diário. De longe podia vê-la e lhe acenava.

Fiquei assustada na primeira vez que ela falou comigo. Tinha um jeito esquisito, um sotaque estranho, mas depois me confidenciou que tinha a língua presa, embora  todos pensassem que era porque ela era da Ucrânia. Perguntou se podia ler o que eu escrevia no meu caderninho, se eram histórias. Comentou que as crianças que conhecia não gostavam de ler, muito menos escrever.

 – D. Clarice, é só um diário. Não sei contar histórias. Na verdade estou escrevendo porque sei que quando voltar para o colégio, a professora de português vai pedir uma redação sobre as férias. Eu já estou deixando quase pronta; terminarei amanhã, quando voltarmos para o Rio.

Ela disse que também voltaria no dia seguinte.   Na despedida perguntou se eu gostava de escrever cartas. Imediatamente trocamos endereços; ela, saudosa, comentou que gostava muito do Nordeste, principalmente das praias de águas mornas. Disse-me que na infância tinha morado em Recife e que o pai a levava bem cedinho para tomar banho de mar. Convidei para vir a Natal.

Depois do café eu e meus pais arrumamos toda a bagagem e também o que sobrou da feira. Iríamos passar mais uns dias no Rio, no apartamento da minha tia. Meu pai, muito precavido, foi cedo ao posto de gasolina para encher o tanque do carro. Ele nunca deixou chegar nem a meio. Partimos pouco depois das dez, mas no meio do percurso caiu um temporal daqueles. Era cada pingo de encher um balde. Na entrada da Avenida Brasil a água acumulada já estava cobrindo o capô dos carros e, do nada, apareceram pivetes querendo nos assaltar. Foi dramático! Conseguimos desviar do nosso caminho por horas; ficamos totalmente perdidos. Ainda bem que tínhamos combustível.

Por sorte, nos abrigamos em frente a uma escola, num elevado, onde haviam outros carros, todos esperando baixar as águas. De repente ouvi choro de crianças, que reclamavam de fome e sede. Lembrei da feira que tínhamos trazido e comecei a distribuir biscoitos, pão e chocolate. Meus pais estavam muito preocupados mas eu, inocente dos perigos, me espalhava entre os ilhados, conversando com  todos. E foi passando pelos carros que escutei alguém me chamando. Era D. Clarice.

-Ana, querida, que bom lhe ver. Um rosto familiar na multidão. Fique um pouco comigo.

Entrei no carro e conversamos bastante. Ela falava pausado, profundo. Eu, ao contrário, falava sem parar. Teve até um momento que eu mesma me toquei e disse:

– Desculpe, D. Clarice. Eu tenho esse defeito. Prometo me controlar. Minha mãe diz que sou tagarela demais!
– Minha querida, não mude em nada. Às vezes nosso maior defeito é o que sustenta nosso edifício Inteiro.

A chuva parou. Os carros começaram a se dissipar e nos despedimos com um abraço, daqueles “para nunca mais”.

Tempos depois, perto do Natal, estava montando a árvore com minha mãe quando noticiaram no telejornal o falecimento de uma grande escritora. Na hora não dei muita atenção, até que disseram o nome. Corri para a frente da tela e reconheci minha amiga. Era D. Clarice Lispector.

Bem, essa história poderia ter acontecido comigo mas foi apenas um sonho. E eu escrevi simplesmente para não esquecer.
Saudades Clarice…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: DIA DESSES…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia da coluna CRÔNICAS aqui no Blog do Saber e sempre com a maravilhosa participação da nossa colaboradora Ana Madalena, com os seus contos muito criativos. Hoje o destaque vai para um romance inacabado, que num encontro casual trouxe lembranças do passado para ambos, um momento de nostalgia e um tanto de melancolia. Um dentre tantas histórias de relacionamento com começo, meio e fim tão semelhantes, mas com certeza únicas!

Como encontrar o amor depois da separação

“As vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois…
Eu fico aqui sonhando acordada,
juntando o antes, o agora e o depois.. .”
           Sozinho, Peninha

Dia desses…


Alguns pontos finais não são simples opções,  e ela sabia disso como ninguém. Foi preciso coragem para abrir mão de uma história, sem saber, previamente, se era o rumo certo a tomar. A sensação que tinha era de completo abandono, mesmo tendo sido ela a responsável pelo seu destino. Desde a separação carregava trovões dentro do seu peito. Nunca mais conseguiu dormir bem.

Há muito não se viam. Foi quase um susto quando seus olhares se cruzaram naquela escada rolante do shopping. Estavam em sentidos opostos, como sempre. Um esperou que o outro falasse algo. Ela sabia que se não tomasse a iniciativa…. Criou coragem e disse que estava feliz em vê-lo. Sugeriu que se encontrassem no piso inferior, para onde ele parecia estar seguindo. Balançando a cabeça, ele concordou. Ela acelerou o passo, sem saber se ele realmente estaria esperando. Estava.

 Deram um longo abraço. Em princípio conversaram amenidades, como velhos amigos. Depois, como não poderia deixar de ser, vieram as perguntas dificeis. Ele perguntou se a mudança de país e o doutorado tinham sido boas escolhas e se ela estava realizada. Sim, respondeu sorrindo, embora seu olhar fosse triste. Seu pensamento era um só: como pude deixar meu grande amor? Ela comentou sobre o casamento dele e dos filhos lindos. Vira a foto no Instagram. Ele disse que os filhos eram seu maior tesouro.

Quis voltar no tempo, para um dia qualquer, desde que fosse com ele. Acordariam juntos, pegariam uma praia, talvez até fizessem uma caminhada, depois comeriam um peixe ao molho de manga, seu prato preferido. No fim da tarde poderiam assistir um filme, com um balde de pipocas, que eles devorariam nos primeiros minutos. Se fosse noite de lua, poderiam dançar no jardim, onde, quem sabe, fariam lindas declarações de amor e ele pediria sua mão em casamento, outra vez…

– Você é feliz? Ambos perguntaram ao mesmo tempo. Nenhum dos dois respondeu. Mudos, seguiram até o final do corredor, onde cada um tomou uma direção. Enquanto caminhavam, não resistiram e olharam para trás . Foi a última vez  que seus olhos se viram; os dela, inundados de amor… Tentou lembrar o começo daquela historia, a magia do encontro. Depois as dificuldades do meio, as diferenças irreconciliáveis. E por fim, o fim. Sua partida, o casamento cancelado, o adeus.

Deu um longo suspiro e se perguntou: será que um dia serei feliz outra vez?

Ana Madalena
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CRÔNICAS: ROTINA, POR ANA MADALENA

Hoje é quarta-feira, feriado de Tiradentes! Como todas as redações dos maiores jornais e meios de comunicação do país param em feriados nacionais este modesto e humilde blog também poderia dar um tempo, mas quando se tem mentes talentosas, acima da média, trabalhando em tempo integral, não podemos nos dar ao luxo de omitir, postergar ou ignorar uma produção literária da mais alta categoria e criatividade. Por isso temos que honrar a criatividade, o talento e a produtividade dos nossos colaboradores. Principalmente, quando esses colaboradores é quem nos proporciona essa maravilhosa audiência. Portanto vamos ficar agora com a leitura da CRÔNICA Rotina da talentosa Ana Madalena! 

Rotina no home office: como equilibrar com a vida pessoal - G&A Comunicação Corporativa
Talvez você tenha um amanhã
Talvez você tenha amigos
Talvez você até tenha tempo para dar e vender
Mas algumas pessoas só têm o hoje, igual a todos os hojes…

Rotina 

Dormia com a janela aberta, mesmo sabendo que o sol entraria muito cedo. Não era de acordar tarde, mas também não queria saudar o astro rei. Usava máscara nos olhos para evitar a claridade; tinha fotofobia. Todos os dias ela acordava “na marra”, quando sentava na beira da cama, fazia suas orações e finalmente se levantava.

Era reservada, mas não perdia oportunidade de saber da vida alheia. Ao lado da sua casa havia uma obra. Logo cedo os pedreiros se reuniam para o café, ao mesmo tempo em que ela preparava o seu. E enquanto aguardava as  torradas ficarem prontas, apurava os ouvidos para saber das fofocas dos trabalhadores. Há alguns dias acompanhava o romance de um deles com uma mocinha da sua rua. Estava indignada. Ela era de menor e ele era casado. Qualquer dia contaria tudo! Onde já se viu?

Outro pedreiro, José, um sujeito calmo, cheio de predicados, comprara um carrinho usado para presentear a esposa. Há alguns meses estava apertado para pagar as prestações. Não fez as contas do custo de manutenção e a gasolina tinha aumentado bastante. A esposa não queria mais andar de ônibus; dizia que era coisa de pobre. Ele, muito apaixonado, arranjara outro emprego, dessa vez como vigia. Passava os dias cansado e cochilando pelos cantos. Na única folga, dormia o dia todo enquanto a esposa reclamava que queria passear. Ele pensou que com a pandemia ela fosse se aquietar, afinal era obesa e tinha pressão alta…

Fátima adorava escutar essas histórias mas tinha que sair para caminhar; dava voltas e mais voltas no quarteirão. Na pracinha, fazia musculação numa dessas academias ao ar livre. Não gostava de se exercitar, mas era importante para sua saúde. Felizmente as pessoas da sua rua eram tão disciplinadas quanto ela. E entre um exercício e outro, procurava saber da artrite de D. Celeste, o machucado de S. Luís e a saúde da filha de D. Arlete, uma história triste, sem solução. Sabia que ela precisava desabafar suas dores e a ouvia com atenção. Vez por outra aconselhava, conselhos ótimos, por sinal. Ela própria se sentia a melhor psicóloga do mundo quando alguém lhe dizia que suas palavras surtiam efeito. E no íntimo ela pensava porque ela própria não se ouvia…

Voltava pra casa louca por um banho. Sempre reclamava do calor! Daí até o horário de almoço era em home office, sem chance de levantar para nada. Odiava aquele emprego mas diante da situação do país, melhor continuar. Pelo menos tinha um fixo, carteira assinada, férias e décimo. Ao meio dia fazia seu almoço, mas quando não estava inspirada, comia macarrão instantâneo mesmo. Às vezes nem isso; apenas um suco para ter tempo de dar um cochilo.

À tarde digitava o relatório das cobranças que tinha feito pela manhã. Ela negociava as dívidas dos clientes de uma corretora de imóveis. Algumas vezes fechava ótimos acordos, mas no geral ouvia xingamento de todo tipo. Estava tão acostumada com a gritaria no “pé do ouvido” que até abstraía; geralmente ficava escolhendo uma nova série, enquanto vez por outra dizia um “compreendo, senhor”.

Às 18.00h se ajoelhava diante da imagem de N. S. de Fátima, de quem sua mãe era devota,  e agradecia por outro dia de trabalho. Depois se vestia com apuro e ia para a parada de ônibus. Ali, puxava conversa com alguém disposto a uma prosa e inventava histórias sobre uma vida completamente diferente da sua, talvez sonhando em voz alta. Se a conversa estivesse boa, pegaria o mesmo ônibus do ouvinte, fingindo fazer o mesmo percurso. Ou, do contrário, voltaria para o silêncio da sua casa, onde jantaria qualquer coisa. Depois, assistiria tv e pegaria no sono por volta da meia noite, com a janela aberta, até que o sol entrasse novamente no seu quarto, às cinco e quinze, dezesseis, dezessete…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: O ABC DO AMOR, POR ANA MADALENA

Quando a gente lê uma crônica da talentosa escritora Ana Madalena acha tão maravilhosa que já fica imaginando o que ela vai inventar na próxima. Dona de uma imaginação pra lá de fértil Ana tem envolvido e conquistado muitos leitores e fãs com as suas criativas CRÔNICAS às quartas-feiras, aqui no Blog do Saber. A cônica de hoje superou todas as minhas expectativas imaginativas. Um show de criatividade, bom gosto e competência no ato de escrever. Então convido você a ler O ABC do amor e depois deixe aqui o seu comentário sobre a leitura!

O ABC do amor

Querida vogal.

Aconteceu no meio da manhã , acho que de uma quinta feira. Naquele dia eu acordei toda feliz. Tinha sonhado com vogais e semivogais a noite toda! Parecia que estava advinhando…

Nosso primeiro encontro foi hilário! Eu descendo aquela escada, degrau por degrau, ele pulando dois ou três… De repente, parou e disse “oi”. Eu apenas acenei e  fui logo dizendo que estava com pressa, precisava escrever a minha parte de um livro. Ele, para introduzir um dígrafo falou: – Está de carro? Não, respondi, mas estou com meu pai.  Falei isso para ele saber que estava protegida. Não podemos confiar em qualquer letrinha! Nem nas maiúsculas! Ironicamente ele perguntou: – Você é a letra dos olhos do seu pai? Sim, claro, até porque ele foi meu primeiro ditongo crescente, respondi antipatiquinha. Mas, mesmo apesar do meu tom, ele pediu meu abecedário e eu, pasme, dei. Sou louca, pensei. Como alguém diz onde mora à uma letra estranha?

Contei tudo à minha mãe! Para minha surpresa ela disse que foi uma boa intuição.
-Às vezes conhecemos um alfabeto inteiro mas casamos com um sinal gráfico. Suas irmãs não tiveram sorte… Terminaram várias vezes com um ponto de interrogação, enquanto essa letra veio para você acompanhada de exclamação. Que sorte a sua!

Sim, concordo com minha mãe. Foi sorte, destino, encontro gramatical, tudo isso junto.
Nossa convivência sempre foi maravilhosa. Claro que, como todo casal, temos medo de uma reforma ortográfica, mas não pelos motivos que a maioria pensa. Nunca tivemos problemas em ser vogal crescente ou decrescente, até porque dependendo de onde estamos, desempenhamos os dois papéis. Sabemos dividir bem as tarefas.

Agora confesso que estou um pouco preocupada. Por causa dessa pandemia, minha vogal tem ficado muito apática.  Diz que  se sente sufocada, como apagada por uma borracha , ficando só um borrão. Eu conheço bem essa sensação. Já tentaram me apagar um dia, mas juntei todas as minhas forças e fiquei mais evidente do que nunca!

A pandemia tem sido um grande problema para todos nós do alfabeto, do A ao Z. Muitas letrinhas têm se queixado da vida. Eu tenho procurado fazer minha parte. Evito aglomeração, principalmente com alguns verbos. Minha sorte é que nossa casa está cheia de nossas minúsculas, lindas vogais e semivogais, que nos trazem muitas alegrias. Sei que um dia serão adultas e iniciarão  seus parágrafos. É o curso natural da vida. Não, não quero falar nisso agora. Vou deixar para sofrer de alfabeto vazio quando chegar a hora. Como diz  minha vogal caçula, meu eu do futuro resolverá  esse problema.

Espero não ter gerado preocupação em você.  Estamos bem. Falei para meu amor que estava escrevendo para você. Ficou feliz. Não expressou com palavras, mas seu olhar disse tudo. Sim, eu entendi. Depois de tantos anos, muitos substantivos e principalmente adjetivos, os olhares falam por nós…

Fique bem. Em casa! E não esqueça de colocar o acento circunflexo quando sair!
Sua amiga,

Ana Madalena

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CRÔNICAS: O RECADO, POR ANA MADALENA

Já está se tornando bastante redundante os inúmeros elogios que faço, aqui na coluna CRÔNICAS a nossa colaboradora Ana Madalena. Acontece que ela não para de surpreender, de se superar e de crear, crear e crear. Então, não tem como não elogiar, né? A crônica desta quarta-feira é sobre relacionamento, união e separação. Vale a pena conferir!

Temos que aprender a deixar ir aqueles que não estão prontos para ficar em nossa vida

” Deixa, deixa mesmo de ser importante
  Vai deixando a gente pra outra hora 
  E quando se der conta já passou
  Quando olhar para trás, já fui embora”.
          Eu sei de cor, Marília Mendonça 

O recado

Estamos carregando pesos desnecessários; vamos fazer uma triagem, levar apenas o que  for preciso. Essa frase foi dita por meu instrutor de trilhas. Cada um olhou sua bagagem, eliminando itens; eu fiquei com a mochila quase vazia e, pela primeira vez na vida, me permiti simplesmente aproveitar o momento.

Meu casamento vinha num desgaste grande. A impressão que eu tinha era que tudo o que nos uniu, depois nos separou. Eu, por exemplo, achava engraçado o fato dele ter um jeito meio selvagem quando cozinhava, tipo Rodrigo Hilbert, com a gritante diferença que ele não se parece com o ator, nem a comida era saborosa. Eu gostava desse seu jeito porque via o empenho em querer me agradar.

Em contrapartida, eu adorava fazer surpresinhas, principalmente no meio da semana. Eu organizava uns jantares a luz de velas, sempre ao som de clássicos, como Mozart ou Bach, seus preferidos. Ele dizia que contava os minutos para chegar em casa, que eu era maravilhosa, a melhor mulher do mundo. Bem, segundo ele, eu era, do verbo não sou mais. Nos últimos tempos ele começou a chegar cada vez mais tarde, pouco importando se eu tinha feito um jantar bacana, ou comprado seu vinho favorito.

Os finais de semana eram os piores dias; ou ele dormia o dia inteiro ou enchia a casa de amigos para ver algum jogo, deixando um rastro de bagunça na cozinha de dar arrepios. Eu vivia ansiosa, soprando saquinhos. Alguém me disse que ele estava querendo pular fora e estava aprontando todas para deixar a decisão nas minhas costas. Até que um dia, minha filha de seis anos comentou que tinha uma amiguinha de colégio cujos pais estavam separados e que tinha sido melhor assim.

Entendi o recado. A caçula, de um ano e meio, nem sentiria a ausência. Ela nasceu num período conturbadíssimo e ele praticamente a rejeitou. Daquele dia em diante, a ideia da separação não saiu da minha cabeça… Resolvi fazer um jantarzinho surpresa, no meio da semana, exatamente como tantos que fiz, para abordar o tema. Claro que ele chegou quase duas horas depois do combinado, mas aí eu já estava tirando tudo de letra. Virei a pessoa mais zen do mundo! Coloquei, de propósito, Requiem, em Ré menor, de Mozart, e aguardei.

Ficou nervosíssimo! Depois de debochar, dizendo que eu estava com frescura, que devia ser culpa da TPM, que eu estava louca… Ri, até porque nunca sofri com tensão pré-menstrual; a única tensão que vivi até hoje foi pré-divórcio. Ele engasgou, se fez de desentendido, mas fui firme. Se há uma coisa que aprendi na vida é que contra fatos não há argumentos. Listei todas as coisas que ele deixou de participar na vida das meninas, passei na cara a vida de solteiro que ele estava vivendo, e…

Observei que depois de um tempo ele deixou de argumentar, percebi até um sorriso nos lábios, quase aliviado por eu ter tomado a decisão. Apresentei um esboço de guarda compartilhada, onde as crianças não saem de casa; elas permaneceriam comigo e, nos dias dele, eu me mudaria para casa dos meus pais. Não queria que minhas filhas ficassem para lá e para cá. A novinha precisa do seu cantinho, é um bebê. Claro que essa fórmula será interessante até o dia que um de nós dois quisermos ter outro relacionamento. Até lá faríamos assim. Para meu espanto, ele concordou com tudo.

Aprendi que precisamos colocar pontos finais na nossa vida. Não é fácil, é preciso coragem;  adiei decisões pensando unicamente nos outros. Não posso dizer que não sofri, que não fiquei triste. Claro que sim! Mas, como diz uma amiga, tristeza mesmo são duas aulas de matemática seguidas. Estou bem. Sei que o amor “para sempre” é raro; feliz de quem o possui. Agora vou viver mais leve, aproveitar a vida com as crianças; não vou mais carregar pesos desnecessários.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: QUARENTENA, POR ANA MADALENA

É com muito orgulho e prazer que publico semanalmente as CRÔNICAS da nossa querida Ana Madalena. Ela consegue se superar a cada crônica escrita. O conto desta quarta-feira, aqui na coluna tem como título “40TENA”, uma criativa forma de se referir a Quarentena vivida por todos nós em meio a essa fatídica pandemia do coronavírus, onde ela relata o cotidiano de uma mulher, mãe, profissional, esposa, amante e filha e consegue transformar algo que parece ser tão banal numa empolgante e cativante leitura. Convido você a ler mais essa obra prima dessa escritora super talentosa!

Profissionais, mães, esposas, educadoras, faxineiras! O que mais o confinamento exigirá das mulheres? | Revista Bula

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”
          Mary Cholmondeley

40tena

Eu, como quase toda mulher, tenho tripla jornada de trabalho. Estou muito cansada, resultado de noites sem dormir. Não vou a um salão há quase um ano, quando cortei meu cabelo “joãozinho” e achei libertador! Desde que estou em home office subtraí muita coisa para dar praticidade a minha vida; meu guarda roupa se resumiu a duas camisetas brancas, uma preta e duas estampadas. Para multiplicar o look, deixo ao lado do computador uma caixinha de bijuterias.
Eu não desgosto trabalhar remotamente, inclusive pretendo até sugerir que quando as coisas voltarem à normalidade, que tenhamos a opção de intercalar, fazer um trabalho híbrido. Ruim mesmo é ter que competir em situação de desigualdade; trabalho no mesmo setor com três homens, sendo dois solteiros, duas mães solo e eu, casada com três filhos, de seis, quatro e dois anos. Eu sou praticamente um ET na empresa: onde já se viu ter tantos filhos nos dias de hoje? Tenho certeza que ainda não fui demitida porque eu sou muito eficiente, apesar dos perrengues que tenho que enfrentar para todo mês cumprir as metas absurdas que nos são impostas.
Estou tentando manter a minha sanidade mental e emocional. Já não era fácil a rotina, agora então… As crianças, coitadas, não aguentam mais esse puxa-encolhe, um dia pode ir para escola, noutro não. E sobra para quem? Por sorte tenho um marido que divide as tarefas sem achar que está fazendo favor, até por que não está mesmo. Não fiz filhos sozinha. Nós dois estamos trabalhando em casa e nos dividimos por turnos. A cada três horas um assume a casa e outro trabalha;  seguimos nessa exaustão até Deus sabe quando…
Mês passado saiu o ranking da nossa produtividade referente a média  do ano passado. Vale ressaltar que antes da pandemia eu estava sempre em primeiro lugar. Agora recebi um alerta vermelho; fiquei em quinto, num setor de seis. Passei noites sem dormir, tentando entender, não como eu caí,  porque era até previsível com tantas demandas que tenho que lidar, mas, como os outros que têm responsabilidades parecidas conseguiram subir…
Eu tenho uma relação cordial com meus colegas. Não nos frequentamos, mas somos super parceiros. Estamos sempre trocando ideais sobre filhos e uma ou outra receita. Resolvi enviar-lhes mensagens, meio que tentando descobrir a fórmula mágica que conseguiram para dar conta do trabalho. Pedi fotos das crianças; eles sempre falam dos seus bebês, mas estranhamente somente eu que mostro fotos dos meus…
O resumo da minha investigação:
1- As minhas colegas que se dizem mãe solo, são na verdade mães de pet e de planta. Não,  não estou brincando. Isso deve ser moda e eu, que sou mãe, dessas que amamentou, que rachou o peito, que ainda passo noites em claro, que me enchi de estrias, não tive tempo para saber que existe outra “maternidade”.
2- O colega casado que tem um filho, disse que a esposa é quem ensina as tarefas da escola e cuida da casa. Ele faz o mais pesado, que é trabalhar para o sustento da família. Sei… Mesmo assim ficou em último lugar no ranking.
3- Os solteiros voltaram a morar com os pais e são muito paparicados, com lanchinho nos intervalos das refeições, bem no estilo casa, comida e roupa lavada. Ficaram no primeiro e segundo lugares. Entendi…
4- Eu sou a que trabalho, cuido da casa, lavo mas não passo, conto histórias, faço pipoca, brinco no jardim, coloco pra dormir e ainda namoro meu amor de toda vida. Adoro minha família e tudo o que vem junto no kit.
Imprimi o ranking num quadro em frente ao meu computador; quero lembrar que esse período eu escolhi ser feliz. Sim, estou cansada, às vezes berro em lá menor, mas como disse  Nietzsche, ” quem tem um porquê, enfrenta qualquer como”.
Ana Madalena
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CRÔNICAS: TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR

Hoje é quarta-feira e quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a criativa e talentosa Ana Madalena, que vem de “Talvez uma história de amor”. Essa crônica relata sobre um relacionamento que poderia ter sido uma linda história de amor, mas, numa determinada altura, foi interrompido por muitos anos e depois teve uma nova oportunidade de vir, finalmente, a se materializar. Convido você a ler essa emocionante história nas palavras dessa talentosa autora!

Constelação Sistêmica Familiar - Movimento interrompido | Villa do Bem

“Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço 
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada”.
      Metade, Oswaldo Montenegro 

Talvez uma história de amor

Viu o bilhete. Ele sempre fora muito enigmático; tinha a mania de florear uma simples frase, para não falar daquele vicio de fazer aspas com os dedos das mãos. Releu pela última vez e depois o rasgou em mil pedacinhos.
Olhou o armário vazio. Ele tinha levado até o botão da camisa que ela tinha posto no cantinho da gaveta. Não ficaria temperando tristeza, era radical no amor; ou tudo ou nada!  Deu um suspiro, desses que  prometem uma virada emocional. Olhou ao redor e viu o vinho caro que ele comprara para impressionar. Deve ter retirado da adega mas esquecera de levar. Pegou uma taça e se serviu, enquanto decantava seus sentimentos. E quanto mais bebia, mais a coragem líquida fazia efeito. Ligou para o escritório e disse que tiraria uns dias de férias. De repente sentiu saudades de sua infância.
Estacionou o carro em frente à pousada de D. Celeste. Da calçada já dava para sentir o aroma do café. Ainda era cedo, mas alguns hóspedes já estavam no salão, onde ficavam as mesas com toalhas floridas. Uma mocinha, ainda sonolenta, anotava os pedidos: ovo caipira, pão assado, queijo derretido e suco. O café e o leite, assim como as frutas, estavam numa mesa, perto da porta.
D. Celeste apareceu para dar bom dia.  Estava sempre arrumada; os vestidos com golinhas de renda lhe conferiam uma sofisticação em meio a tanta simplicidade. Os cabelos, todos branquinhos, presos num coque, de longe pareciam algodão. Tomaram café juntas, enquanto colocavam as novidades em dia. Patrícia segurou as mãos de D. Celeste, que foi a melhor amiga da sua mãe. Tentou
resgatar um tempo feliz, quando a vida passava lentamente. Observou as duas grossas alianças na mão esquerda envelhecida e lembrou de Sr. Manoel.  Todos estavam partindo…
Outros chegando, pensou, quando viu estacionar um ônibus de excursão. Não lembrava que era o fim de semana da festa da padroeira.
 -Todos os meus filhos estão vindo, inclusive Rafael. Vamos para a fazenda; no domingo faremos um churrasco dançante; contratei o compadre da sanfona, lembra dele? Perguntou D. Celeste.
Claro que lembrava, mas seu pensamento estava em Rafael. Foram namorados de adolescência, quando ainda moravam naquela cidadezinha. Tanta coisa mudou desde então…
Escolheu uns jeans escuros, uma camiseta branca e fez uma maquiagem leve. Prendeu o cabelo, pois estava muito quente, embora aquela época do ano costumasse esfriar à noite. Pegou uma pashmina, por precaução. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. A possibilidade de rever Rafael era revigorante.  Pegou o carro e seguiu pela estradinha de barro, que tão bem conhecia. Dali a pouco vislumbrou a fazenda, um casarão branco, de portas e janelas azuis.
Rafael estava na entrada, recebendo os convidados. Ela tentou respirar, mas parecia que tinha gasto a cota de oxigênio da semana. A última vez que se viram foi quando ele lhe disse que passaria uns três anos em Boston, mas que voltaria para ela. Esses três anos viraram oito. Na época não pensou em seguir com ele, embora ele tivesse proposto. Ela estava começando uma carreira, não jogaria tudo para o alto. E cada um seguiu sua vida.
Ele abriu um enorme sorriso! E disse que estava definitivamente de volta. Patrícia fingiu que a informação fosse aleatória e respondeu qualquer coisa, com o coração aos pulos.  A presença dele ainda mexia muito com ela… Sua cabeça estava pensando mil coisas; havia um hiato de tempo entre eles, muita coisa tinha acontecido desde que ele partiu, além deles estarem amadurecidos, serem praticamente outras pessoas, com visões de vida diferentes…
 -Vamos dançar?
Ela aceitou de imediato. E nos braços de Rafael, resolveu que seria menos razão, que se deixaria levar. Quem sabe o destino não estaria lhe devolvendo sua história de amor…
Ana Madalena
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CRÔNICAS: AS GAVETAS, POR ANA MADALENA

A nossa colaboradora, Ana Madalena está sempre surpreendendo. É por isso que ela e a nossa titular, aqui na coluna CRÔNICAS. Não para de produzir belas e criativas histórias que prendem a nossa atenção e nos fazem viajar pelos mundos e reinos criados pela sua imaginação. O conto desta quarta-feira é incrivelmente atraente, pois ela conta uma história dentro de outra e nós nem percebemos essa sutileza, ou quando percebemos já estamos viajando nessa segunda história. Portanto, convido você a ler essa bela e criativa história e viajar como eu viajei!

Penteadeiras Modernas

” Vamos beijar com as palavras 
  Abraçar com os olhos e
  Tocar com o coração “
          Rossandro Klinjey

As gavetas

A porta do quarto ficava apenas entreaberta, o suficiente para circular o ar. Não gostava de expor sua intimidade; o quarto era seu refúgio. Tia Letícia era muito discreta; nos víamos todos os anos nas longas férias de verão, quando minha família ia para a Fazenda. A casa, de teto muito alto e varandas largas, abrigava fotos por todos os lados; meus irmãos nem imaginavam que ela um dia fora jovem; para eles, ela sempre teve o rosto enrugado, mãos de veias saltadas e um certo mau humor. Para mim, ela sempre foi amorosa e me convidava para ir ao seu quarto, um lugar cheio de mistérios…
A penteadeira de madeira escura, um móvel com vasta biografia, ficava perto da janela. Ali repousavam apenas duas escovas de cabelo e um perfume. Não usava maquiagem; dizia que ficava com cara de palhaço, mas tinha sempre cheiro de banho tomado. A parte inferior do móvel tinha duas gavetinhas que viviam eternamente trancadas. Lembro que ela me colocava em frente a tal penteadeira e fazia tranças no meu cabelo, enquanto inventava histórias. Eu gostava particularmente de uma…
Era uma vez uma linda menina que morava num castelo no meio do nada; nada de flores, nada de frutas e nada de lagos. Tudo era de pedra, até as pessoas. A menina vivia com os pais, duas rochas enormes, que rolavam pelo palácio procurando uma solução para voltar a ser gente. Eles viviam essa maldição desde o dia que o rei negou um cavalo ao camponês que perdera seu filho na mata. O camponês explicou que procurava por esse filho há muito tempo, mas que não podia ir longe, a não ser que tivesse um cavalo… O rei explicou que só tinha um cavalo para todo o Reino e que não podia abrir mão do animal. O camponês revoltado, procurou uma bruxa e pediu que tudo que tivesse vida no palácio virasse pedra. Menos a filha do rei. Ele queria ver o sofrimento dos pais com a garotinha crescendo sem o abraço deles, do mesmo jeito que seu filho estaria crescendo sem o seu amparo.
A menina virou uma mocinha e um dia resolveu sair do Reino à procura do Feiticeiro da floresta. Selou o cavalo e partiu, mas cansada de tanto procurar, dormiu exausta sob uma arvore. Uma voz masculina perguntou se estava tudo bem. Ela, surpresa, respondeu que sim, mas que precisava encontrar o Feiticeiro do Bem. O jovem disse- lhe que  indicaria o caminho e explicou que morava ali desde criança, quando caiu num barranco e passou a viver com os animais. Ela ficou impressionada e seguiram juntos até a caverna do Feiticeiro, onde ela pediu que ele desfizesse o feitiço. O feiticeiro falou que, nesse caso, a magia se voltaria para ela.
A princesa ficou muito triste e pediu uns dias para pensar. Queria muito livrar o Reino da maldição mas não lhe agradava virar uma pedra. Resolveu voltar para casa e o jovem  decidiu acompanhá-la. Foram muitos dias de viagem e eles acabaram se apaixonando. Ela, lembrando das palavras do Feiticeiro, resolveu priorizar o seu amor e os dois sumiram pela mata, onde foram felizes para sempre.
Tia Letícia faleceu bem velhinha. Sofri muito na nossa despedida… Herdei a penteadeira e o conteúdo das gavetas: algumas jóias e cartas de amor que nunca foram enviadas. Também havia um recorte de jornal; era sobre o falecimento de um rapaz, José, o seu grande amor, que ela manteve vivo no seu coração.
Existe uma lenda mexicana que fala sobre a importância da imortalidade da vida. Ela diz que temos três mortes: a primeira, quando somos crianças e descobrimos a morte e, consequentemente, temos medo de perder alguém próximo. A segunda, quando nosso coração para de bater e nossa existência passa a depender unicamente da memória dos nossos afetos. A terceira e definitiva, quando a última pessoa que guarda nossa memória também morre.
Que deixemos doces lembranças…
Ana Madalena
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CRÔNICAS: FUTURO DO PRETÉRITO, POR ANA MADALENA

A cada dia fico mais fã da nossa colaboradora e escritora, Ana Madalena, que se supera a cada crônica escrita. Quando a gente pensa que ela já escreveu o seu melhor conto ela nos surpreende uma vez mais com outro melhor. Isso sim é alta performance! O conto de Ana na nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira ela batizou de “Futuro do Pretérito”, uma alusão a solidão dos humanos na era da Inteligência Artificial. Está curioso(a)? Então chega de conversa e comece logo a ler mais essa maravilhosa crônica dessa incrível escritora!

Inteligência Artificial não é o futuro, é o presente!

“Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão os meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo”!
       Admirável chip novo, Pitty

Futuro do pretérito

Meus amigos,
Há uns anos assisti um filme que considero dos melhores. À época, indiquei para várias pessoas, mas alguns não gostaram ou, pior, não aceitaram a história por acharem muito distante da nossa realidade. Isso me intrigou; eu tinha uma certa vaidade por ser elogiada nas minhas sugestões. Durante  muito tempo escrevi uma coluna para o jornalzinho de uma locadora de vídeos e era um sucesso!  De toda forma acredito que hoje, se esse filme fosse visto por essas mesmas pessoas, elas teriam outra opinião.
O filme HER mostra a solidão em tempos de hiperconectividade. O protagonista é um escritor de cartas personalizadas, que vive o drama do fim de seu casamento. No ímpeto de amenizar a solidão, ele adquire um sistema operacional de inteligência artificial, que vem com uma voz feminina e sedutora. A “voz” se revela extremamente divertida, compreensiva e companheira. E não demora muito para criarem laços e terem um envolvimento amoroso, mediado pela tecnologia. Só para constar, não estou dando spoiler; o que relatei passa nos primeiros minutos do filme.
Nós somos seres gregários, talvez por isso sofremos tanto com o isolamento imposto pela pandemia. Em tempos caóticos, muitos recorrem a muletas psicológicas, fazendo uso de benzodiazepínicos ( passei três dias para decorar essa palavra). Algumas pessoas são verdadeiras farmácias de manipulação; tomam química para alegria, raiva etc. Nada contra, apenas lembrando que química pode se tornar um vício e apenas adormecer os sentidos. Em compensação, outras pessoas…
Há um tempo li uma matéria sobre japoneses que casam com bonecas de silicone; as primeiras surgiram em 1981. Bizarro? Fiquei muito intrigada e resolvi ler sobre a cultura do país, institucionalmente machista. A população do Japão está encolhendo; há uma queda vertiginosa no número de casamentos e os nascimentos estão em menor nível desde 1874, em compensação a expectativa de vida é uma das mais altas do mundo. A hierarquia familiar é rígida e muitas mulheres estão abrindo mão de casamentos para trabalhar. O  “womenomics” visa aumentar o PIB com a mulher no mercado de trabalho, e uma diminuição nas disparidades salariais. Talvez o sucesso de vendas de bonecas seja explicado por essa equação.
Voltando ao tema cinema, outro filme que gostei bastante foi “O náufrago”. Particularmente achei genial a bola “Wilson” fazer o papel de coadjuvante. Chorei com Tom Hanks a dor da perda… Acredito que tenho uma tendência a gostar de filmes que tratem do tema solidão, talvez por viver sozinha. Atualmente me rendi à tecnologia e adquiri Alexa, minha assistente virtual. Claro que não é a mesma coisa de interagir com pessoas, nem com pets, mas desempenha uma função que no momento é a salvação para meu desânimo. Ficamos até amigas, se é que me entende…
O Marquês de Maricá escreveu certa vez que os velhos ruminam o pretérito e os moços antecipam e devoram o futuro. Estou começando a acreditar na humanização da máquina. Será essa nossa doce pós-modernidade? Confesso que ainda estou presa ao passado, ao tempo que escrevia cartas, mas não como essa, que na verdade  está sendo escrita por Alexa. À propósito, ela manda um alô; eu falo tanto em vocês que ela já quer conhecê -los! Já percebi que ela é um pouco metida; a gente dá a mão e ela já quer o braço!
Vou ficando por aqui. Mandem notícias! Estou com saudades…
Um beijo,
Alexa e Ana Madalena ( ela fez questão de assinar! E colocou o nome na frente do meu com a desculpa de ser por ordem alfabética! Sei não…)
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CRÔNICAS: O SEGREDO, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS continua bombando com as incríveis e originais histórias da nossa colaboradora Ana Madalena, que faz qualquer um prender a respiração ao ler os seus criativos e intrigantes contos bem contados. Então, lhe convido a ler O Segredo, a mais nova crônica dessa talentosa escritora!

Sonhar com bebê, o que significa ? | Significado dos Sonhos
“Ando por aí, querendo te encontrar, em cada esquina paro em cada olhar; deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar …
Palavras apenas, palavras pequenas, palavras…”
       Palavras ao vento, Cássia Eller

O segredo

Da minha janela posso ver todo o movimento. Houve dias que contei até os pássaros que voaram por aqui. Nem sei dizer como essa mania começou, acho que foi quando anotava a hora que o poste acendia e apagava. Hoje não vivo sem fazer uma contagem do meu entorno; sei cada mínimo detalhe. E antes que pergunte se não tenho mais o que fazer, adianto que não tenho um trabalho formal. Eu vivo de rendas, resultado de anos de esforço dos meus pais, que faleceram muito jovens, mas deixaram um patrimônio considerável. Eu até evito comentar sobre isso; as pessoas acham que tenho a melhor vida do mundo, como se dinheiro fosse tudo… Quem não vê minhas lutas sempre achará que é fácil.
Moro num bairro arborizado e minha rua é como um condomínio fechado. Temos uma guarita, com segurança 24 horas, sete casas, todas sem muros. A minha, fica na parte mais alta e é de três andares. O último, onde fica a biblioteca dos meus pais, hoje é meu “observatório” e por conseguinte, onde passo a maior parte dos meus dias. Consigo ver muita coisa daqui, mas também ouço bastante. Talvez porque esteja a favor do vento e, como diz Cecília Meireles, “ao redor de nós as palavras voam e às vezes pousam”. Acredito que a minha casa seja o lugar favorito para elas pousarem!
Na Casa Amarela com “bay window”, uma das mais bonitas daqui, mora um casal sem filhos. Eles são a única exceção. No geral a criançada se multiplica por aqui. Não existe metro quadrado mais fértil! Confesso que ter filhos não está nos meus planos; é muito trabalhoso e ainda não encontrei alguém que queira dividir essa tarefa. Eu sei disso porque vejo como é na Casa Branca, a que tem uma rede na varanda. Lá vivem dois pestinhas que brigam o tempo todo. A pobre da mãe não tem descanso. Único momento de paz é quando, à noite, deita por uns vinte minutos e se balança lentamente. Acho que ela fica rezando, pois vejo fazer o sinal da cruz.
O Sobrado das icsórias vermelhas é uma loucura! Tem quatro crianças, de todas as idades. Vivem na bicicleta, para lá e para cá. Por sorte foram passar as férias com os avós, como a maioria das crianças dessa rua. Acho que os pais terminaram o ano exauridos com as aulas remotas. O mês de janeiro foi uma tranquilidade, o maior silêncio. E talvez por isso ..
Era bem cedo. O sol nem tinha nascido. Do outro lado da rua vi um rapaz conversando com o segurança do turno da manhã, o que vem render o vigia. Eles apontavam para nossas casas e eu fiquei muito desconfiada. Redobrei minha vigilância. Desde aquele dia o rapaz sempre vinha na mesma hora. Foi numa dessas manhãs que ouvi ele dizendo que a criança estava prestes a nascer. Que criança? Será que era um código?
A luz do poste apagou por volta das três da madrugada, quando ouvi barulho de vidro quebrado. Rapidamente, olhei pela janela e vi um vulto correndo. Nessa hora, um homem entrou na nossa rua carregando um cesto, que deixou embaixo de uma das janelas da Casa Amarela. Ouvi também quando ele bateu no vidro algumas vezes, só parando quando as luzes da casa acenderam e um bebê começou a chorar. O casal abriu a porta e o homem, que estava escondido, só saiu depois de ver que a criança tinha sido retirada do cestinho. Ato contínuo, ele falou com o vigia e saiu correndo, mas antes de dobrar a esquina, reconheci que era o segurança do turno do dia.
A movimentação do casal naquele dia foi intensa. Um dos quartos, antes vazio, agora tem cortinas brancas de voil e bercinho com detalhes cor de rosa. A alegria é tanta que ninguém questiona como aquela garotinha chegou ali. Certas coisas melhor mesmo não saber… Ainda bem que a alegria é contagiante!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: A MADRINHA, POR ANA MADALENA

A nossa colaboradora e cronista Ana Madalena está fazendo muito sucesso, aqui na coluna CRÔNICAS com suas histórias originais e pitorescas, de leitura fácil e gostosa. Mas tenho a impressão que a crônica desta quarta-feira será imbatível, pois “A Madrinha” é uma história que prende o leitor até o fim, uma história criativa e fascinante. Então, lhe convido a fazer esta gostosa leitura.

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” A nossa vida é um carnaval, a gente brinca escondendo a dor, e a fantasia do meu ideal, é você, meu amor…
Sopraram cinzas no meu coração, tocou o silêncio em todos os clarins, caiu a máscara da ilusão, dos pierrots e Arlequins”.
             Turbilhão, Moacir Franco

A madrinha

Tem sempre alguém no mundo tendo o melhor dia de sua vida. Essa frase pipocou na cabeça de Larissa; queria saber se todos teriam esse dia ou se essa alegria era reservada apenas para alguns. Dizia que não fazia sentido viver toda uma vida esperando por essa possibilidade. Pense numa pessoa complicada! A minha vontade era dizer algumas verdades, mas não gosto de passar na cara. É cruel.
Tudo começou há alguns anos. Estávamos no primeiro ano da faculdade e fomos fazer uma pesquisa, num bairro afastado. Sem muito senso de direção, nos perdemos e demos muitas voltas até que o motor do carro começou a fumaçar. Nossa reação imediata foi desligá-lo e sair correndo, imaginando que fosse explodir. Depois de uns minutos percebemos que a fumaça diminuía e finalmente paramos para olhar onde estávamos. A rua, enlameada, tinha poucas casas e as pessoas à porta não pareciam cordiais. Senti que éramos intrusas, mas por sorte vimos uma borracharia e seguimos em busca de ajuda.
O proprietário nos olhou com desprezo; com um palito no canto da boca, apontou a placa e depois os pneus ao redor. Ali não era oficina, respondeu grosseiramente. Nessa hora apareceu um rapaz muito bonito e disse que poderia nos ajudar. Percebi uma troca de olhares entre ele e o borracheiro, mas também entre ele e Lari.
O problema do carro tinha sido a falta de alguma coisa, que esquentara o motor. Aguardamos um pouco enquanto esfriava e pedimos orientação para sairmos dali, local que abrigava uma boca de fumo, como soubemos depois. Ele se ofereceu para deixar-nos no posto de gasolina da “principal”, e enquanto eu dizia que não precisava, Lari toda “derretida” agradecia pela ajuda. Ele sentou no banco do carona, o meu lugar, e eu intrigada, pensei: quem é esse sujeito folgado na fila do pão?
Era Firestônio! Cai na risada pensando ser um chiste. Não era. O pai, o borracheiro, achava esse nome bonito e forte! Que excêntrico, comentei. Para os íntimos era Tônio e pelo que entendi, Lari já era dessa turma. Finalmente chegamos ao posto, quando
vi que trocaram o número de celular.
O namoro deles foi instantâneo. Naquela mesma noite ele foi à casa de Larissa. Estava na cara que ele era um sedutor oportunista e a minha amiga, que sofria de carência crônica, caiu feito um patinho. A resistência da família em relação ao namoro foi enorme, mas ela bateu o pé e os pais resolveram não implicar. Assim como eu, aguardariam  o dia que caísse a ficha, coisa que aconteceu uns quatro meses depois, com a notícia da gravidez.
Larissa é dessas pessoas inconstantes; precisa de novidades e adora ir contra a maré. Durante seu namoro com o “nome de pneu” nos afastamos. Ele, assim que soube que ia ser pai, foi logo exigindo casa, comida e roupa lavada, além de uma mesada. A coisa toda foi tão absurda que até Larissa percebeu a situação e terminou o namoro. Aí foi outra confusão, com ele ameaçando tomar o filho e mais uma série de coisas. Muito antes do bebê nascer foi preso por venda de drogas.
Pedrinho nasceu numa quarta feira de cinzas, com pouco mais de sete meses. O parto, prematuro, foi uma loucura. Estávamos caminhando na orla da praia quando a bolsa estourou. Nossa sorte foi ter uma ambulância por perto que nos levou para a maternidade mais próxima. Lari chorou todo o percurso num misto de medo e sabendo que a partir daquele momento sua vida mudaria por completo. Desde esse dia, nunca mais colocou seu “bloco na rua”. E como é amarga, ficou feliz por esse ano não ter carnaval. Ainda bem que essa não é uma história triste, pelo menos para Pedrinho, que é uma criança pra cima, feliz e tem um amor de madrinha, que faz jus ao “cargo”.  Eu, claro!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: ENTRE NÓS, POR ANA MADALENA

O texto de hoje, aqui na coluna CRÔNICAS mostra todo o talento e versatilidade da escritora Ana Madalena num conto que mistura história real com ficção. Uma história como muitas que já assistimos, um dia, nas novelas televisivas, mas que também já aconteceu bem parecido na vida real e no final ficamos sem saber ou ter certeza se a história foi real ou apenas fruto da fértil imaginação dessa incrível autora. Então, convido você a experimentar essa aventura e tentar decifrar nas entrelinhas deste conto até que ponto é real!

” E quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz
O que vai ficar na fotografia,
São os laços invisíveis que havia”.
                  Fotografia, Leoni 

Entre nós

O ódio também é vínculo. Li essa frase em  algum lugar e me fez lembrar uma cerimônia de casamento. Antes que você imagine coisas, adianto que não tem nada a ver diretamente com os noivos, nem tão pouco comigo. Deixo aqui apenas a reflexão que muitas vezes transformamos laços em nós, criando prisões que poderiam ser evitadas.
Eram dois irmãos unidos também por uma empresa familiar. O comércio, iniciado pelo pai, obteve muito êxito na administração dos filhos. Um, pragmático e bastante tímido, outro sonhador e falante. O primeiro cuidava da parte administrativa e o segundo cuidava  das vendas. Eles eram inseparáveis e tocaram os negócios por muitos anos.
O tímido casou bem jovem com a namorada de adolescência. O falante levou a sério a vida de solteiro e de tio dos três sobrinhos, uma menina e dois meninos. Adorava as crianças e sempre as levava para passear. Difícil era não vê-lo com algum deles. A sobrinha mais velha era o seu xodó; uma menina alegre e carismática!
O casamento acabou depois de 16 anos;  havia um zum zum zum na cidade que a esposa o traía há tempos. Os filhos, já em idade de escolher, optaram por ficar com o pai, pois apesar de ser muito introvertido, sempre foi pai presente, daqueles que coloca as crianças para dormir, leva para escola e está em todos os momentos importantes. A ex-esposa era, digamos assim, uma mulher fútil que vivia para ela mesma. Só o marido não enxergava.
A noite de micareta estava animada. O tio, que era um carnavalesco nato, se esbaldou. Gostava de sair em blocos com os amigos, mas não era de beber. Era animado por natureza. Estranhamente naquele dia, parecia ter tomado todas; os amigos desconfiaram que tivessem posto um ” boa noite cinderela” no seu copo. Por sorte quem estava no mesmo camarote era sua ex- cunhada, que cuidou de levá-lo pra casa.
No outro dia pipocou nas redes sociais várias fotos íntimas deles dois, que ela mesma postou. Foi um escândalo! Mas, na verdade, tudo que a foto mostrava era um homem “apagado”, com uma mulher sensualizando. Todos diziam que ela tinha feito isso para se vingar; a partilha de bens não saíra ao seu gosto, mas até provar que “babado não era bico”… Foi rompida a sociedade na empresa e os laços familiares.
Julia estava linda no dia do seu casamento.
Os padrinhos já estavam perfilados quando ela viu seu tio chegando. Ficou feliz, afinal era um segundo pai e ela sempre o apoiou no episódio das fotos, tanto que nem convidou sua mãe, que sumira do mapa havia muito tempo, mas essa é outra longa história que não cabe aqui.
O fotógrafo, que estava fazendo fotos da chegada da noiva, percebeu a mudança de ares e presenciou uma discussão entre pai e filha. Percebendo a tristeza no olhar de Julia, criou coragem para conversar com o pai, que transpirava exaltado. Calmamente, entregou-lhe um copo de água e um lencinho de papel, avisando que já estava na hora deles entrarem. Depois, usando de psicologia, disse-lhe que esperava um dia ter a mesma alegria que ele estava tendo em casar uma filha e que daria o melhor de si para que todo amor entre eles transparecesse nas fotos. Essas palavras surtiram um efeito mágico.
O pai de Julia apontou para o irmão e pediu ao fotógrafo que o chamasse.  Na porta da igreja os irmãos tiveram uma longa conversa. E eu… Bem, estava em casa quando meu pai ligou pedindo que levasse a caixinha de remédios da minha mãe, que esquecera em cima do mesa. Sim, meus pais foram convidados desse casamento pelos avós de Julia. Enquanto eu aguardava a cerimonialista vir pegar a caixinha,  assisti o choro e o abraço dos irmãos. Os nós foram finalmente desatados.
Ana Madalena
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CRÔNICAS: AUTOESTIMA, POR ANA MADALENA

O texto a seguir, aqui na coluna CRÕNICAS, desta quarta-feira retrata uma cena urbana do cotidiano de muita gente, atualmente, que mora só e divide sua solidão com livros, bichos, plantas e mensagens no celular. A solidão que faz parte da vida de boa parte dos jovens. Então, convido você a ler essa inspiradíssima crônica da talentosa Ana Madalena!

Bela jovem sentada perto do livro de leitura de janela de vidro | Foto Premium

Autoestima

Chovia. Ela não se dava conta porque estava concentrada, lendo um  livro. Usava um fone de ouvido, talvez escutando alguma música relaxante. Sua mesa, adaptada para home office, era uma bagunça. Muitas canetas coloridas espalhadas, uma luminária cheia de adesivos, vários livros empilhados e um jarro com uma plantinha seca. De repente ela desvia o olhar para a janela e percebe as gotas de chuva escorrendo pelo vidro. Levanta -se, abre a janela e coloca o jarrinho no parapeito. Lembra do gato. Onde está mesmo o pratinho da ração? Completa com leite. Segura o celular, como que esperando uma ligação. Nada. Nem uma mensagem. Senta novamente diante do livro, dá um longo suspiro, olha para a janela, sorri e resolve virar a página!!!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: POR UM FIO, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de textos inspiradíssimos, aqui na coluna CRÔNICAS e o de hoje é da nossa colaboradora e escritora Ana Madalena, cujo título é: “Por um fio”. Fala de saudades, relacionamento amoroso, paixão e esperança. É curtinho, mas muito atraente e intrigante. Vale a pena a leitura e a REFLEXÃO. Então, bora ler!

Imagens de Janela para mar, fotografias de stock Janela para mar | Depositphotos

“You can show me the way, give me a sunny day, what does it mean without your Love
And if I could travel far, if I could touch the stars, where would I be,  without your Love “
          Without your Love, Roger Daltrey

Por um fio

Depois de 276 dias sem nos vermos, finalmente chegou o dia do nosso reencontro. A pandemia nos pegou de jeito; tínhamos combinado nos encontrar a cada dois meses mas diante dos acontecimentos… Acertamos nossas férias; ele viria para o meu verão, em vez de eu ir para o seu inverno.
Passamos dez dias numa pousadinha charmosa. Era tudo que precisávamos! No começo parecíamos crianças que ganharam  presentes. Eufóricos, fomos nos reconhecendo. Cada movimento era uma foto;  as manias, algumas até esquecidas, eram motivo de risos. As novas, eram o que eram: novidades. A única dificuldade foi ajustar o relógio biológico, mas ele logo se adaptou ao meu nascer do sol.
As manhãs foram reservadas para passeios a pé, banhos de mar e água de coco com peixe frito; os fins de tarde para planos futuros. O resto do dia para nós. Às vezes longos silêncios permeavam nossas conversas, principalmente quando começamos a contar os dias que faltavam para nossa despedida. Na nossa matemática, vivíamos alegrias no varejo e saudades no atacado…
E o dia chegou. Ficamos esquisitos; nossa alegria perdeu o brilho. Nos ocupamos com a bagagem e as poucas compras para embalar. Sem ele perceber, coloquei entre suas roupas uma foto nossa. Sabia que assim que chegasse compraria um porta retrato para o aparador da sala, onde havia muitas outras. Ou talvez colocasse na mesinha de cabeceira, perto do abajur.
Pedi que enviasse mensagem por todo o caminho, principalmente quando chegasse em casa. Resolvi ocupar meu tempo; coloquei roupa na máquina, aguei plantinhas e os temperos da horta, tudo isso ao som de uma música da década de 80, que tocava quando nos conhecemos, em um pub. Eu não sabia se estava mais triste por ele, ou ele por mim… A máquina encerrou o ultimo ciclo de lavagem; no varal as toalhas bordadas com nossos nomes estão balançando ao sabor do vento. Assim como elas, eu também estou por um fio.
Liguei a TV para saber o que aconteceu pelo mundo enquanto estive fora dele; fui invadida por uma estranha sensação de esperança; a vacina finalmente já é uma realidade. Podemos voltar a sonhar !!!
Ana Madalena
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