CRÔNICAS: CAFEZINHO DE RUBEM BRAGA, POR LAURA AIDAR

Seguindo com a nossa série de 8 crônicas famosas comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Rubem Braga, com a crônica “Cafezinho”. Boa leitura!

2. Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

– Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

– Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

– Ele está?

– alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

– Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.

Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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POESIA: MATUTO NO FUTEBOL, POR JESSIER QUIRINO

Nesta terça-feira, aqui na coluna POESIA você vai assistir o grande poeta, prosador e contador de causos Jessier Quirino declamar “Matuto no Futebol”, uma narrativa humorística do poeta José Laurentino, natural de Puxinanã-PB. Jessier conta que conheceu a história no princípio dos anos 1970 na voz do próprio Zé e passou a declamar com alegria e gosto. Zé Laurentino é considerado pelo poeta um dos grandes influenciadores do seu trabalho e acabaram se tornando amigos de palco. Hoje o poeta descansa no trono eterno. Então, o que está esperando para se divertir até umas horas?

Fonte:

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POESIA: ENTENDIMENTO DO BRASIL, POR JESSIER QUIRINO

A nossa coluna POEMA desta sexta-feira está pra lá de boa com o incrível Jessier Quirino recitando duas poesias. Uma do nosso não menos incrível Patativa do Assaré ´fazendo um paralelo com outro exuberante poema de sua autoria que se chama “Entendimento do Brasil”. Portanto não saia dai e assista ao vídeo completo a seguir!

Fonte:

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CRÔNICAS: FRED, POR ANA MADALENA

Caro(a) leitor(a),

Nesta quarta-feira tenho o enorme prazer de publicar, aqui na coluna CRÔNICAS mais um dos maravilhosos contos da nossa ex-colaboradora Ana Madalena, que se chama simplesmente “Fred”, um personagem que povoa o seu criativo imaginário que mais parece a sua cara metade. Convido você a ler essa incrível e empolgante história!

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Fred


Dizem que o amanhecer é para padeiros e amantes. Eu não sou nem uma coisa nem outra! O amanhecer para mim é resultado de uma crise de insônia daquelas… A lua é meu sol, se é que me entende. Já fiz de tudo para tentar regularizar meu sono, até simpatias! De nada adiantou. Alguns dizem que agora é  porque o sol entrou em Virgem; outros falaram da Lua, de Saturno. A verdade é que pode ser por qualquer coisa, inclusive nada. Os amigos me presentearam livros de auto-ajuda; já li tudo sobre a higiene do sono e mudança de hábitos, mas nada funcionou. A lembrança que tenho do meu melhor sono, foi quando operei as amidalas, aquele soninho profundo de anestesia. Já cheguei ao ponto de anotar num caderninho meu top 10 do sono, mas nem cheguei ao item 8. Agora resolvi deixar para lá, talvez porque exista Fred na minha vida.

Pois é, Fred é um amigo daqueles para toda hora, principalmente quando a vaca está indo para o brejo. Ele tem uma forma de falar tão calma que dá até quentinho no coração. Com Fred libero as minhas constipações emocionais; ele sempre diz que é péssimo reter alguns sentimentos. Ele é quase meu Freud, do tanto que me ajuda.

Eu e Fred tivemos um breve namoro na adolescência; o fim não foi trágico nem cômico, foi apenas um fim. Percebemos que éramos mais amigos do que um casalzinho apaixonado. Por sorte, continuamos amigos, coisa rara depois de um término.  Eu sou dessas, de manter as amizades, telefonar para ouvir a voz, apesar de hoje em dia ser até invasão de privacidade telefonar para alguém.

Voltando a Fred, ele passou por uma separação há algum tempo: um casamento de vinte e tantos anos, dois filhos, três gatos, um cachorro e duas tartarugas. Ah, e cinco peixinhos. Tudo isso dentro de uma casa linda, com um jardim digno de campeonato inglês. A ex esposa, minha amiga, uma mulher maravilhosa, me ligou certo dia, pedindo para eu ir ao seu consultório. Ela, então, abriu seu coração e disse que eles estavam se separando. Eu fiquei chocada! Eles eram aquele tipo de casal que catalogaria como “perfeito”, mas entendi suas razões. Realmente não faz sentido viver com alguém só por causa dos filhos, principalmente por não serem mais crianças.

Coincidentemente, Fred ligou no mesmo dia. Marcamos um almoço, que emendamos com jantar. Eu dei meu ombro amigo e depois de muito ouvi-lo, concordei com sua explicação. Os dois tinham razões diferentes para não quererem estar mais juntos e entendi que minha presença ao ouví-los foi uma espécie de validação da decisão. É muita inteligência emocional conseguir se separar sem culpas ou remorsos. Eles tinham inteligência de sobra! Ela mudou de cidade; os filhos, já adultos, deram muita força aos pais, um deles seguiu com a mãe e o outro, o mais velho e financeiramente independente, aproveitou o momento para dar seu grito de independência. Fred continuou morando na mesma casa; tinha um apego emocional àquele lugar.

Com a separação, ficamos muito próximos. Sabe a corda e a caçamba? Bem isso. Fred tem uma história de vida linda, mas vou descrever a versão curta: ele sempre foi um “gato”, transbordando testosterona! Hoje, com cabelos grisalhos, está dando de mil a zero no jovenzinho engenheiro que conheci. Ele trabalha coletando dados nos oceanos, tipo salinidade, niveis de carbono, ou qualquer outra coisa que não seja criptonita. O melhor dessa versão de Fred é que agora ele virou notívago como eu, chega até a filosofar dizendo que é melhor lidar com pessoas noturnas do que diurnas. Perguntei certa vez quem eram as pessoas noturnas que ele estava conversando além de mim. Não, não é ciúme, apenas senti uma certa ameaça à minha exclusividade, afinal eu fui quem apresentou a vantagem das altas horas.

Fred gosta de citações, disse que aprendeu comigo, embora ele reescreva em cima da original. Algumas, cá pra nós, ele muda totalmente o sentido, motivo de algumas discussões . Hoje recebi a seguinte mensagem:
– Hoje o dia está maravilhoso. Nunca houve um dia assim!
Perguntei de quem era a citação e ele respondeu que “poderia” ser dele. Rimos! Ele sabe que eu sei que não é,  mas isso não tira o brilho da mensagem, em tão poucas palavras. Admiro quem tem concisão, coisa que jamais, repito, jamais terei.

Falando em dia, hoje ele está tímido, nem sol nem chuva, mas nublado. Para alguns, o melhor dos mundos, eu mesma adoro dias assim. Para outros, uma espera de que algo aconteça, ou que o sol vença as nuvens ou que elas deságuem. Para mim, agradecimento! E para não fugir das citações, ” Se eu não tivesse visto o sol, a sombra eu suportaria. Mas essa luz fez do meu deserto, um deserto que antes não existia”. Adoro Emily Dickinson!
Fred, obrigada por fazer parte do meu deserto…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: A LÓGICA DO MALUCO DE LIMA BARRETO, EM CRÔNICAS BRASILEIRAS

Hoje, continuamos com a série CRÔNICAS BRASILEIRAS com uma criativa história do imortal Lima Barreto, “A lógica do maluco”, que você precisa ler e apreciar esta obra prima de um dos maiores ícones da literatura brasileira. 

lima-barreto

A lógica do maluco


Lima Barreto

Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o
chapéu. Contou-me o caso o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente – o que farei
sem nenhuma discrepância.
Havia na seção que esse ilustre médico dirige um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples
mania, sem aspectos notáveis; mas pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia
parte até da Academia de Letras da Vitória, estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre cousas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos.
Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, às pressas…
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos
mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.


O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à
Constituição
, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais
Comentários e a
mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e
deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas brando e passageiro. Tinha
pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa cousa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora
própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe
é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – cousa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras cousas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado,
respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é
que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou
militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro?
Logo…
– Mas você…
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas?

Olhe, doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças. Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade, que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.

Fonte: Toda crônica. Apresentação e notas de Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro, Agir, 2004, vol. II, p.450. Publicada, originalmente, na revista Careta, de 8/10/1921 e, posteriormente, no livro Vida urbana, Brasiliense, 1956, p.266.

Fonte: Crônica Brasileira

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CRÔNICAS: NOS DOIS LADOS DO BALCÃO, POR HUMBERTO WERNECK

A partir desta quarta-feira a coluna CRÔNICAS, infelizmente não terá mais os maravilhosos contos da escritora e colaboradora deste Blog, Ana Madalena. Ela agora vai alçar voos bem mais altos e ambiciosos e nós ficamos aqui torcendo para que brilhe muito mais do que brilhou nessa audiência. Mas a vida continua e a coluna CRÔNIOCAS também. Hoje você vai ler a crônica das crônicas. O autor Humberto Werneck faz uma homenagem aos maiores cronistas da literatura brasileira, como: Rubem Braga, Lima Barreto, Raquel de Queiroz e Paulo Mendes Campos. Nos dois lados do Balcão o autor conta passagens inusitadas de crônicas desses ícones da literatura brasileira. Leia e se divirta!

Nos dois lados do balcão

Humberto Werneck

Alfaiataria Americana, de João Antônio Ribeiro, Rua do Bonfim, Diamantina-MG, 1920 década. Foto de Chichico Alkmim/ Acervo Instituto Moreira Salles.


Jamais se saberá se Lima Barreto comprou alguma coisa naquela manhã de 1921 em que saiu de casa, no Méier, rumo a uma feira livre,
novidade que um burocrata do Ministério da Agricultura, Dulfe Pinheiro Machado, futuro ministro de Getúlio Vargas, implantara no Rio de
Janeiro. Cronicamente desmonetizado que era, o mais provável é que nosso escriba não tenha comprado nada – muito menos umas bruxas
de pano, recheadas de serragem, que lhe pareceu destoarem num território supostamente exclusivo de verduras e legumes.



Até então encantado com a “lindeza de moças e senhoras”, relata Lima Barreto em
Feiras livres ficou muito irritado – e bem mais que ele o
Barreto em Feiras livres, ficou muito irritado e, bem mais que ele, o vendedor das tais bruxas, deflagrando um bafafá que requereu a
presença da Lei, na pessoa de um tenente e um capitão. De repente, o que era crônica pode dar a impressão de haver-se convertido em
notícia policial, quando o Lima, brandindo linguagem figurada, conta que o comerciante, de nome Bragalhães, “foi pelos ares”. Curiosamente, também em outro escrito seu,
No “mafuá”dos padres, haverá agentes da ordem – no caso, um soldado e um alferes que, num leilão, brigam por um carneiro. Qualquer que seja o resultado, a disputa terá como ganhadora uma terceira pessoa, a Candinha, que nem está ali – e dois perdedores, adivinhe quem…



Mas voltemos às feiras livres, inspiração também de Rachel de Queiroz, moradora do Rio em visita a São Paulo em 1946 – e, ali, à
feira do
Arouche
, onde o que mais a interessou pode ter sido não exatamente algo à venda, e sim a beleza de vendedoras de origem japonesa e
italiana, tipos pouco encontradiços nas feiras cariocas. Nas quais, aliás, Paulo Mendes Campos haverá de denunciar, no início dos anos 1950, a existência de
um golpe de feira, aplicado por vendedores desonestos, dados a entregar ao comprador, dissimuladamente, algo inferior ao que ele havia escolhido. Panorama bem diverso daquele a que Paulo se acostumara em sua infância belo-horizontina, tema da bela e delicada As horas antigas: o universo de uma gente simples que, do portão da rua, batia palmas ou gritava “ô de casa” (campainha era luxo de umas poucas residências), oferecendo de tudo – de lenha para o fogão, frutas, hortaliças, leite, carne, a uma dobradinha pronta para ir à mesa. Ao time dos feirantes desonestos, o cronista poderia acrescentar o personagem de As duas faces de um caixeiro: um convincente
vendedor de aparelhos de televisão que, quando isso lhe convenha, não hesita em desqualificar, diante do mesmo possível comprador, o artigo cujas virtudes louvara, enfaticamente, apenas um minuto atrás.



Assim como seu confrade mineiro, Rachel de Queiroz, num momento ao menos teve um pé-atrás com o pessoal por detrás do
balcão das
lojas em geral. Foi no final dos anos 1940, quando lhe pareceu que algo mudara nos usos e costumes do comércio varejista. “Antigamente”
,
rememorou ela, “qualquer freguês, dentro de uma loja, tinha a sensação de que era um rei.” E eis que então, por fatores vários, como “o
aumento dos ordenados” e “as economias de pessoal por parte dos patrões”, o quadro mudou radicalmente: “Razão, quem a tem, hoje e
sempre, é o caixeiro”.



O novo figurino das relações comerciais talvez não se aplicasse ao
armarinho, a julgar pela enorme simpatia com que Rachel, na mesma
época, escreveu sobre as lojas de linhas e agulhas. Tratava-se (e se trata ainda, sete décadas depois) de território feminino, pelo menos na
Ilha do Governador, onde a cronista tinha a sua casa: “Podem os cavalheiros cantar na sua lira as delícias do botequim e da cerveja
gelada”, contrapôs a escritora cearense; “nós, as mulheres da ilha, damos preferência ao armarinho.”



Paulo Mendes Campos haveria com certeza de confirmar o que disse Rachel. Já cinquentão, na década de 1970, ele amava o sossego de
sua casa na serra de Petrópolis, onde passava os fins de semana, simples mas provida “de todos os luxos da quietude rural”. Nem por isso dispensava “um supérfluo essencial”: a alma de “uma venda de beira de estrada”, em especial aquela de que fala em
O homem que
calculava.
A criatura que dá título à crônica vem a ser o dono do estabelecimento, e o fato de que utilize ruidosa modernidade – uma
calculadora – não compromete, aos olhos do cronista e poeta, o encanto do lugar, onde tudo se harmoniza.



Em
Confissões de um jovem editor, quem está do outro lado do balcão, ainda que sem calculadora, é Rubem Braga, que registra na crônica
assim intitulada a sua perplexidade ante o fato de se ver, aos 47 anos, pela primeira vez metido na inesperada pele de empresário, pois vinha de criar a Editora do Autor, em sociedade com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta. “Que fazer”, suspira o Sabiá da Crônica, “se virei homem de negócios?” Por feitio e temperamento, seu lado do balcão é outro, até para que possa, na condição de consumidor,
reclamar das perebas que vê no comportamento de maus negociantes.
Em Camelôs, investe furiosamente contra os vendedores de aves que, no afã de tornar mais atraente a mercadoria que oferecem, não hesitam em cegá-las, para que assim deixem de voar e cantem mais.



O Braga não poupa, igualmente, na mesma crônica, aqueles que chama de “camelôs cívicos”: os políticos que, em tempo de eleição,
atormentam o cidadão com seus alto-falantes e maculam os muros com cartazes, anunciando-se como “produtos de primeira classe”. A dois
dias do Natal, o cronista não chega a tomar as dores do
Menino cujo nascimento será uma vez mais comemorado, mas faz saber o
desconforto que lhe causa o alarido açucarado dos anunciantes em busca de cifrões. “A publicidade faz sua grande farra de fim de ano, e
nós é que devemos pagá-la”, protesta Rubem Braga, e despeja seu justo sarcasmo: “Não é o homem da empresa que nos saúda alegremente, de cristão para cristão, é a própria sociedade anônima que se faz afetuosa, que exprime os bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatuto ou sua alma de balancete.” Na mão oposta, em
Negócio de menino o cronista não esconde a ternura pelo garoto que, num diálogo memorável, esgota seu arsenal de convencimento, na esperança de que o adulto à sua frente lhe venda um passarinho, o coleiro, o melro ou o curió, um dos três, não lhe importa qual, e pinga no final, em desespero, o que pode ser sua melhor cartada.

24/08/2021 Nos dois lados do balcão | Rés do Chão | Portal da Crônica Brasileira
https://cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/15987/nos-dois-lados-do-balcao 2/4
Portal da Crônica Brasileira

Fonte: Crônica Brasileira

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POESIA: MANÉ CABELIM E A INTERNET, POR JESSIER QUIRINO

Toda terça-feira temos a coluna POESIA, aqui no Blog do Saber com os melhores poetas, contadores de causos e cordeleiros do Brasil. Hoje você vai se divertir a valer com mais um dos seus sensacionais causos: “Mané Cabelim e a internet” é mais um causo que compõe a saga desse Mané: um matuto, que, cada vez mais, se afunda na casa-do-sem-jeito, de tanto servir de capacho pra rapariga. Assista e ria até umas horas!

Fonte:

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DICA DE LIVRO: O DIÁRIO DAS FOLHAS MORTAS DE ANTONIO MELO

Hoje quero homenagear um incrível escritor, grande talento potiguar, Antonio Melo, com o seu mais recente livro, “O diário das folhas mortas”. O mesmo autor de “A Vingança”, um dos melhores contos que já li na minha vida. Em o diário das folhas mortas o autor usou da mesma sagacidade para escrever o seguinte: Manoela ficou órfã de mãe muito criança. O pai sumiu no mundo e nunca mais deu notícias. Foi criada por um avô rigoroso, conservador e católico tradicionalista. Após o suicídio do velho patriarca, recebe, como ganho, um dele para que se torne freira e três volumes de um diário que conta bastidores da história do Brasil, da escravidão, das ditaduras latino-americanas. E o que tudo isso tem a ver com ela? Misteriosamente, algumas páginas do último volume foram arrancadas e estão desaparecidas. Num abrigo para idosos, uma das irmãs de caridade lhe entrega um misterioso envelope pardo com a palavra DOCUMENTOS. No convento onde passou a morar e pretende completar sua formação religiosa, a jovem descobre inúmeros e graves pecados acobertados pelo manto do silêncio cúmplice da Madre Superiora. Mas isso não é o pior…Quer saber do resto? Compre esse livro sensacional e divirta-se muito!

Fonte: Acervo particular

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CRÔNICAS: SOBRE HERÓIS, FADINHAS E FANTASMAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos a penúltima das fantásticas histórias de Ana Madalena, fechando uma série de 30 incríveis contos maravilhosos que vão ficar na minha memória. Infelizmente a nossa querida colaboradora vai ter que se dedicar a uma nova empreitada. Uma experiência de vida inédita para ela e não vai mais poder escrever suas belíssimas e cativantes crônicas em nossa coluna. Então aproveite para desfrutar dessa experiência sobre Heróis, fadinhas e fantasmas. Uma singela homenagem aos nossos heróis olímpicos!

Sobre heróis, fadinhas e fantasmas…


Estava ontem no intervalo do trabalho, num daqueles cantinhos do café,  quando escutei um comentário sobre as olimpíadas, o ouro de Rebeca na ginástica olímpica e outros tantos orgulhos, como nosso garoto de Baía Formosa, Ítalo e a menina Rayssa, do skate. Meu comentário foi exatamente sobre ela, que, segundo li, recusou-se a tirar fotos com políticos, por não ter recebido apoio algum.  Rayssa, chamada de fadinha, do alto dos seus 13 anos, não quis desfile em carro de bombeiro, muito menos festa, consciente da pandemia e da carona que queriam pegar no seu nome; Ítalo também seguiu essa linha e, discretamente, desembarcou em Natal, onde seguiu direto para as águas conhecidas de sua praia, onde começou a surfar com uma tampa de isopor.

Já estávamos voltando para nossas salas, quando um colega soltou uma frase que me chocou; o tema era a ginasta Simone Biles, que, “do nada”, desistiu de várias competições, alegando preservar sua saúde mental. Ele sugeriu que ela tinha amarelado por ser coisa de mulher, de estar com Tpm. Alguns riram, o que estranhamente não me impressionou, assim como não me impressionou o nome da ginasta virar chacota, tipo ” não vá dar uma de Biles”! Sim, tenham pena de mim; conviver com algumas pessoas é uma luta diária! Se houve uma coisa “boa” nessa pandemia foi não ter que estar com certos tipos, principalmente Eduardo, a quem eu escrevo essas breves linhas.

“Do nada” não existe. Tire isso da sua cabeça! Basta olhar para você, para sua história; tudo que você é tem um porquê. E se você está nesse lugar, é graças a uma série de fatores. Para o bem ou para o mal ( estou sendo cínica). Dito isso vou tecer algumas considerações, mas adianto que se você não quiser ler algumas coisas, pare por aqui. Hoje não estou para brincadeira, e não é coisa de mulher, de feminista recalcada, como você adora se referir às mulheres. Minha “praia” é um bom debate e nesse esporte, sou faixa preta.

Não sei se você já viveu ou conviveu com alguém que teve depressão, ansiedade ou pânico. Se teve a sorte de passar ileso à isso, que bom pra você porém, com tanta informação, me espanta você não ter lido sobre o assunto. Talvez você não dê a mínima para o tema ou, por outro lado, o excesso de informação lhe provoque repulsa. Sei que lê apenas comentários curtos e não se aprofunda nos assuntos; detesto sua síndrome de Dunning-Kruger, mas isso  é o de menos em se tratando de você. Chego até a rir internamente do tanto de bobagem que você diz!. Qualquer dia, quando você tiver tempo, quem sabe a gente senta para ter uma conversa de homem pra homem, como você mesmo gosta de dizer! Que ridículo!

Com certeza você não faz ideia da rotina de atletas olímpicos, nem eu, mas como gosto de ler, sei que no geral, eles começam muito novinhos, saídos das fraldas. Na folha corrida, eles têm uma vida difícil, pobre, treinando em condições impensáveis, com dezenas de lesões, ossos quebrados, mas muita vontade de vencer. E não tem essa que o importante é competir; vivem a pressão de ter que ganhar mesmo, a qualquer custo.

Então vamos ligar os pontos: depois de viver anos a fio, repetindo movimentos por horas seguidas, sem sábado, domingo ou feriado, não podendo ir à festinhas, tendo que fazer dieta, distante da família e amigos, sem poder ter uma vida dita normal, é claro que uma pessoa pode ficar com muitas questões. E até onde você aguenta que a corda estique?

Simone sofreu de um tudo para se tornar o que é hoje; dê um Google que você vai entender como é a vida das meninas que você resume em “corpos estranhos, cheios de brilhinhos na roupa e fitinhas no cabelo”. O problema dela tem um nome: twisties, que seria uma falta de orientação espacial e por consequência uma inabilidade de fazer giros, o que pode ser muito perigoso, uma vez que o atleta pode cair gravemente. Isso talvez explique o porquê dela somente ter competido na trave, ganhando bronze, que você debochou, dizendo ter sido prêmio consolação.

Eu acompanho o esporte à distância; para falar a verdade, gosto muito mais das histórias de vida dos atletas do que mesmo dos seus feitos. Uma coisa que muito me espanta no atletismo é a velocidade com que a tecnologia avança para ajudá-los fisicamente e, inversamente proporcional, é o cuidado com o emocional deles. Se eu fosse atleta de ponta, andaria com um psicólogo comigo. Viver sob pressão 24 horas por dia é insuportável. Talvez por isso eles tenham que arranjar fórmulas para desestressar, e não pode ser comida e álcool. À proposito, Thomas Daley não é um esquisito fazendo tricot; cada um desestressa como pode. O seu modus operandi todos sabemos qual é. Pulemos essa parte!.

Do pouco que vi nas madrugadas olímpicas, me pareceu que esse ano a empatia chegou mais perto desse universo, com gestos dignos de medalha de ouro. Sim, há uma riqueza humana por trás de todo esse show.  Infelizmente para alguns atletas, a Internet todo dia elege um para Cristo; Simone trouxe a discussão para a saúde mental no esporte; talvez essa questão tenha sido mais importante do que se tivesse conquistado medalhas de ouro. O tempo dirá.  A mesma sorte não teve Diego Hipólito, que foi achincalhado como o atleta do solo, que caiu de cara e de bunda. Sim, meu caro Eduardo, os atletas ainda têm que lidar com a frustração de, no próprio país, ser piada recorrente. Barrichelo que o diga!

Mas enfim, era isso que eu tinha para lhe dizer e, se eu pudesse resumir em uma palavra, essa seria LEITURA, um bom começo para você deixar de falar tanta besteira. No mais, saiba que conto as horas para sua transferência!

Só para acrescentar, segue uma listinha de heróis, fadinhas e fantasmas, que como o nome diz, são fantasmas. Estão dentro da cabeça de alguns desses atletas. Com sorte, a maioria consegue conviver bem com eles!

Rebeca Andrade – ouro  e prata na ginástica artística
Italo Ferreira – ouro no surf
Laura e Luisa – bronze no tênis feminino
Rayssa Leal – prata no skate street
Kelvin Hoefler – prata no skate street
Fernando Scheffer – bronze na natação
Bruno Fratus – bronze na natação
Mayra Aguiar – bronze no judô
Daniel  Cargnin – bronze no judô
Martine e Khaena – ouro na vela
Abner Teixeira – bronze no boxe
Alison dos Santos – bronze nos 400 mts com barreiras
Thiago Braz – bronze no salto com vara

Agora, em algum lugar em Tóquio, essa lista já deve ter aumentado! Parabéns aos medalhistas e aos não medalhistas. Vocês são incriveis!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: BEM-ME-QUERO, POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICAS do Blog do Saber desta quarta-feira trás um dos contos mais interessantes já publicado pela nossa talentosíssima Ana Madalena. Nessa história ela relata, com muita perspicácia, bom humor e irreverência o cotidiano de uma personagem hilária e única, qu você não pode deixar de conhecer. Portanto, não perca tempo e comece logo a ler o hilariante conto “Bem-me-quero”.

Bem-me-quero

É  F.O.D.A, Fear of dating again, ou em bom português, medo de um novo relacionamento, disse-me Alice, que chegou revelando alívio por descobrir o nome do que estava sentindo. Eu estava num momento culinário, mexendo uma panela de doce de leite que requer 3 ingredientes: leite, açúcar e parcimônia, coisa que eu não tinha há dias. Entreguei a colher de pau para Alice e escutei o que tinha a dizer.

Alice é minha amiga de infância e somos vizinhas há oito anos.  Nossa convivência é diária, motivo pelo qual os amigos nunca entenderam o porquê de não dividirmos apartamento. A verdade é que gosto do meu cantinho sem interferências; Alice é muito bagunceira e eu sou o oposto.

Ela é dessas de “pegar emprestado”, desde roupas até objetos. Eu já emprestei vários itens para ela fazer “estilo”, para os outros. Muitos de seus namorados foram escolhidos através de matchs em apps, outros por pesquisas em redes sociais, embora nunca tenha emplacado um  relacionamento sério. Muito pelo contrário! Talvez, se ela fosse mais ela mesma, as coisas fluissem. De toda forma, eu nunca me preocupei com esse seu modo de viver, pois estava aparentemente feliz.

De uns tempos para cá, ela mudou totalmente; aquela pessoa solar e divertida, passou a ficar só e introspectiva. O primeiro alerta de que algo não estava bem se deu quando ela me fez a seguinte pergunta:

-Ana, como posso sentir falta de uma coisa que nunca tive? Uma saudade de viver algo, como ter familia, marido e filhos…

Em se tratando de Alice, aquilo soou estranho. Ela sempre falou que casamento era uma roubada e por isso se restringia a duas coisas: beleza e paciência. Se desse certo, beleza; se não, paciência. Também não pretendia ter filhos; dizia que era muito trabalhoso e roubava a melhor época da vida. Lembro de ter comentado que essa mudança fosse devido a virada da idade, dos trinta anos, que mexe um pouco com a cabeça. De toda forma, fiquei de orelhas em pé!

O segundo alerta foi quando ela deixou de pedir coisas emprestadas. Em um mês, inteirinho, ela não me pediu absolutamente nada…  E o terceiro, e mais grave de todos, foi deixar de vir à minha casa. Vivia trancada e passamos a nos comunicar exclusivamente por wa, pois não queria falar ao celular. Até os longos áudios de cinco minutos deixou de me enviar.

Tanto eu quanto Alice já tomamos a primeira dose da vacina. Eu postei minha foto no Instagram, assim como todo mundo faz, mas Alice sequer quis tirar a foto. Comentei que seus “fãs”, sabendo que já estaria parcialmente imune, poderiam, quem sabe, convidá-la para um café. Ela me fuzilou com o olhar e disse que a última coisa que queria era namorar novamente.

Só Freud poderia entender tal mudança de comportamento, pensei. E, muito a contragosto, consegui levá-la a uma psicóloga que diagnosticou um medo do desconfinamento, associado a depressão. Enquanto eu, que nem sou tão sociável quanto Alice, estava louca para sair por aí abraçando os amigos, e até os que não são, Alice tremia só em pensar nessa possibilidade, principalmente em voltar a ter um envolvimento emocional.

Alice está bem melhor; faz terapia duas vezes por semana, agora presencialmente, e já parece disposta a voltar a se relacionar com os amigos e a um certo Pedro, que conheceu na sala de espera do consultório.  Ela também está cuidando de outros aspectos, principalmente da sua auto-estima que era baixíssima. Cansei de vê-la destruindo minhas margaridas, fazendo bem-me-quer, mal-me-quer, cada vez que se interessava por alguém. Hoje, ela finalmente diz bem-me-quero! Minhas plantinhas agradecem! Por falar nisso, vou pedir a Alice que compre alguns jarrinhos de margarida para repor os meus e também um potinho de doce de leite;  o que ela fez ficou pedrado. Também pudera..  Falava mais do que mexia a panela! Muito bom ter Alice de volta!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: FAZ DE CONTA…POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICA desta quarta-feira tem mais um show de talento da nossa colaboradora Ana Madalena. Se normalmente já tem nos presenteado com histórias maravilhosas e inspiradoras, imagine só no dia do niver da sua netinha de dois anos, que por acaso é o dia do seu próprio aniversário. Então sai de baixo, senta ai e comece logo a ler mais um ‘Faz de conta’ da nossa cronista!

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Faz de conta…

Dois anos. Hoje uma menininha levanta dois dedinhos para dizer quantos anos está comemorando. Foi dificil convencê-la da mudança de idade; acostumou-se a responder “um” toda vez que eu fazia a pergunta. Eu também poderia  fazer essa mesma contagem para mim, uma vez que  nascemos no mesmo dia, sete de julho. Sim, poderia, mas não vou. São anos demais e ela só sabe contar, ainda, até vinte e três. Em inglês conta até “ten” e adora dizer as cores “blue” e “green”. Adoro comentar essas coisinhas da minha neta!
Maria Cecília nasceu numa madrugada de domingo, antecipando em algumas semanas a sua chegada. Eu, desde que minha filha ficara grávida e sabendo que nasceria em julho, comecei intimamente a torcer que ela nascesse no mesmo dia da “avó”, mas desisti da idéia; minha torcida iria contra a natureza, e eu não tinha  esse poder. Será?
Era um sábado, quase meia noite da virada do dia seis para o dia sete, quando cheguei à casa dos meus pais. Eles estavam sob minha “responsabilidade”, uma vez que minha irmã, o anjo da guarda deles, estava viajando e só retornaria na data provável para o nascimento da primeira sobrinha neta. Eu estava vindo de um jantar oferecido por amigas, disposta a dormir até tarde. No outro dia almoçaríamos todos juntos para comemorarmos.
À meia noite meu celular começou a tocar, eram meus filhos. Leo, que mora em São Paulo, estava reunido com amigos e, numa vídeo chamada, cantou parabéns. Mariana que chegara há pouco de uma festinha, fez também aquela folia! Aconselhei-a que tentasse descansar; há dias estava sem posição para dormir. A barriga, enorme, já pesava bastante. Nos despedimos, coloquei meu celular no silencioso, uma máscara nos olhos e dormi profundamente até umas duas da manhã quando acordei sem motivo e, por acaso, olhei o celular, que somava várias chamadas não atendidas de Mariana. Nessa hora, o telefone residencial tocou; sim, meus pais ainda têm um telefone fixo!
Meu genro ligou informando que já estavam no hospital e que minha neta estava para nascer. Como assim? A bolsa havia estourado! Por sorte, as malas estavam prontas e o hospital ficava a dois minutos de casa. Meus pais acordaram assustados, temendo algo grave, mas quando souberam da novidade ficaram com aquelas carinhas bobas de “nossa, somos bisavós”! Deixei o mais novo bisavô em casa ( os homens da família são fracos para hospitais) e segui com minha mãe; às 3:37h minha netinha nasceu, saudável, espertinha e linda, claro!
O hospital estava lotado. Sem acomodações, passamos o dia todo na sala de recuperação, com outras mães e seus bebês. Naquela madrugada nasceram seis! Alguém  comentou que a data era cabalística, que o dia sete, de todos os números, é o que mais vibra perfeição e quem nasce nesse dia tem grande espiritualidade, além de…Não escutei o restante da explicação; naquela hora, em meio às parturientes, em um ambiente gelado, foi que me dei conta que era meu aniversário e que eu ganhara de presente uma neta!
Maria Cecília, ou simplesmente Maria, como a chamamos, é uma menina maravilhosa. Como toda canceriana, é bastante emotiva. Adora ouvir música e “ler” seus livros, de longe sua diversão preferida. É vaidosa, ao ponto de, quando gosta de uma roupa, quer vestir sempre. Atualmente está encantada com seu vestido de São João! Há dois anos, quando nasceu, estava havendo um surto de sarampo na cidade e ela passou os primeiros meses em casa. Depois, quando as coisas acalmaram, ela pôde começar a ter uma “vida social”, frequentando escolinhas de natação e musicalização. Infelizmente, pouco depois chegou a pandemia e ela entrou noutro ciclo de isolamento.
Minha netinha ainda estranha o uso de máscara e, muitas vezes, ela puxa a do meu rosto, dizendo:
-Nāo, vovó! Axim não! Tira, tira!
Nossas brincadeiras exigem muitas “caras e bocas” e os olhos não dão conta de expressar tudo.
Estou encantada com a “voternidade”.  É uma delícia voltar a entrar no mundo do faz de conta!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: SENTIMENTOS, POR ANA MADALENA

Uma história comovente e inspiradora, que pode acontecer com qualquer um, mas que nunca achamos que seja possível  conosco e por isso mesmo nem conseguimos imaginar. Mas a nossa cronista, Ana Madalena conseguiu e transcreveu de forma brilhante no texto a seguir que você terá a oportunidade de ler, refletir e se imaginar nessa situação, onde os SENTIMENTOS afloram como nunca. Então comece logo essa viagem!

Filha Que Visita A Mãe Superior No Hospital Foto de Stock - Imagem de amor, doente: 103154072

Sentimentos


Essa história começa em preto e branco. A  ausência de cores vibrantes no início da vida de Fernanda fez parte do seu crescimento. Não tinha sido fácil superar tanta coisa, mas no fundo ela sempre soube que algo de bom aconteceria. E quando tinha problemas, ela recorria ao exemplo dos bebês, que quando nascem enxergam apenas os contrastes, e somente por uma distância de até 30cm, mais ou menos a medida entre o colo da mãe e seus olhos. Essa, para ela, era a distância do afeto, do amor. Saberia aguardar e enxergar as coisas no tempo certo.

Há muito não se viam. Preferia dizer assim quando alguém perguntava por seus pais;  de nada adiantaria revelar a verdade, dizer que sua mãe abandonou a família para viver uma paixão. O bilhete de despedida deixado em cima da mesa da cozinha fora a única coisa que restou como lembrança. Nunca  esqueceu a cena de seu pai esmurrando a parede, gritando coisas que ela não entendia. Isso foi há exatos vinte e oito anos, numa noite fria de inverno, quando ela era uma menina de pouco mais de cinco anos de idade.

A infância foi difícil; seu pai, que começou a beber logo após aquele fatídico dia, pouco tempo depois faleceu, vítima de um atropelamento. O motorista atestou que foi ele quem atropelou seu carro e algumas testemunhas confirmaram essa versão. De toda forma isso pouco importava, seu pai não estaria mais ao seu lado. Por sorte, sua tia, irmã da sua mãe, assumiu sua criação e aos poucos ela voltou a ser uma criança feliz.

Estudou em bons colégios; era inteligente e muito disciplinada. Não foi surpresa quando  foi aprovada no primeiro vestibular para medicina. A universidade lhe abriu  possibilidades e logo no início do curso fez boas amizades; gostava de estar com pessoas intelectualmente estimulantes. Estava realizada em muitos aspectos, mas a falta de notícias da mãe era um assunto sempre pendente. Por muito tempo procurou por ela, não com o objetivo de fazer cobranças, apenas entendê-la, ou até ajudá-la, se fosse o caso. A lacuna deixada por ela já tinha sido preenchida por sua tia.

Como médica, optou por fazer pediatria. Gostava de crianças, principalmente de bebês; se emocionava cada vez que assistia um parto. Lembrava que nas brincadeiras de infância, pedia sempre para ser a mãe, sonho que foi adiado, desde que surgira uma excelente oportunidade de trabalho noutra cidade. Seu noivo, médico também, estava se organizando para transferir o consultório.

Há dias vinha num pique grande de trabalho. Estava saindo do plantão quando escutou alguém falando um nome familiar, porém raro. A não ser por sua mãe, não conhecia outra pessoa que tivesse aquele nome. Voltou seu olhar e viu um casal de meia idade, ela, numa cadeira de rodas, aparentemente alheia a tudo ao seu redor.

O quadro de Alzheimer estava numa fase avançada, informou seu colega, desconhecendo o parentesco. Ela procurou saber quais as providências que seriam tomadas e, sabedora disso, resolveu ir ao quarto da mãe. Ela dormia um sono tranquilo, assim como o senhor que a acompanhava. Procurou não fazer barulho, apenas se aproximar para olhar de perto aquele rosto, agora tão marcado pelo tempo e sofrimento. Não conseguiu evitar que a saudade transbordasse dos seus olhos. Enquanto enxugava as lágrimas, sua mãe de repente acordou; Fernanda percebeu que seus olhos se encontraram por alguns segundos, quando ela esboçou um discreto sorriso. Fernanda se aproximou do rosto da sua mãe  e, na distância do afeto, disse em silêncio os sentimentos que guardara todos esses anos.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: GERÚNDIO, POR ANA MADALENA

A imaginação da criativa Ana Madalena continua a mil no conto desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS. Desta vez ela nos apresenta uma crônica urbana, que envolve mais uma vez, um casal, um romance das antigas que, muito por acaso, se renova nos dias atuais, mas de uma forma, como sempre, bem original. Vale a pena conferir!

Como usar balanco na decoração? - Minha Casa, Minha Cara

Gerúndio


A vida aos poucos voltará ao normal, disseram. Qual normal? Sim, porque depois de tantas mudanças de hábitos e por tanto tempo, normal para ela era continuar do jeito que se acostumara a viver. Nunca se sentiu tão em paz, trabalhando em casa sem ter que se preocupar em sair, vestir essa ou aquela roupa, arrumar cabelo ou fazer unhas. Ela se acostumou com o pouco contato social e foi um choque quando recebeu o comunicado da empresa, informando que começariam a fazer o trabalho de forma híbrida.

Só em pensar que encontraria novamente seus colegas de trabalho já lhe dava um enjoo. Trabalhava distante da cidade, ainda bem que iria sozinha no seu carro; preferia assim, mesmo que tivesse um custo maior. Não suportaria ir no ônibus da empresa e ter que jogar conversa fora durante todo o percurso. Se tivesse que pagar passagem, seria uma para ela e outra para a culpa que carregava. Não, não tinha feito nada errado, mas sentia como se tivesse feito. Todos seus amigos reclamavam da sua falta de interesse e diziam que ela não estava bem, que não era saudável passar tanto tempo isolada de tudo e de todos. Ela era consciente que tinha perdido um certo interesse em conviver com outras pessoas, mas em contrapartida percebeu que gostava do silêncio na sua vida. Desde quando isso era um problema?

Adquiriu uma mania; cada vez que se locomovia, contava mentalmente os passos; eram seis, do sofá até a televisão, e treze da cozinha até seu quarto. Ainda bem que seus amigos não sabiam disso, nem de outras coisas, como o fato de ter instalado um balanço no lugar da mesa de jantar, onde a cada duas horas se balançava, deixando no teto as marcas dos seus pés. Gostava de ver suas “impressões ” no teto branco.

Também comprou uns quadros novos, mas a pouca habilidade com o uso da furadeira deixou um buraco enorme na parede da sala. Customizou-o, descascando um pouco ao redor e, com um pincel escreveu numa seta “olhe aqui”. Aos poucos começou a dar personalidade à sua casa; gostava do cenário que estava montando. Encheu a varanda de plantas; descobriu que era bom  elas ouvirem Mozart, para crescerem, e Bach para dormirem. E foi exatamente quando estava trocando a trilha sonora que ouviu alguém colocando uma correspondência por baixo da porta.

Olhou por alguns minutos para aquele envelope pardo. Não sabia o porquê  de ter receio em abri-lo, mas respirou fundo, deu quatro passos em sua direção e abriu. Era um bilhete do vizinho do andar de cima, querendo saber que ruído era aquele na sala de jantar. Disse que tentou interfonar mas ela não atendeu. Ele finalizava pedindo seu contato para conversar com ela, pois o ruído incomodava bastante.

Sentiu o suor escorrer pela testa… O que fazer? Não queria falar por telefone, principalmente com desconhecidos. Criou coragem e resolveu falar pessoalmente, resolver logo esse assunto. Contou vinte e sete passos até o apartamento dele. Ouviu uma música suave e alguém se aproximando. Prendeu a respiração.

O vizinho era, para sua surpresa, um amigo de infância. Na verdade ele foi mais que amigo, fora um namoradinho, por assim dizer. Melhor assim, a conversa seria mais fácil. Ela explicou que o som era do balanço e ele, impressionado, achou a ideia genial. Perguntou se poderia se balançar por lá, de vez em quando. Ela observou que ele tinha muitas plantas e quando se deram conta, estavam conversando sobre orquídeas, violetas, lirios e bromélias há horas.

Algo de mágico aconteceu ali… De repente todas as suas angústias sumiram e ela percebeu que tinha deixado de fazer a contagem dos seus passos. Será que aquele sentimento do passado estava acontecendo outra vez?  Por via das dúvidas, sentou no balanço e feliz, ficou se balançando até cansar. Ela finalmente entendera que a vida é conjugada no gerúndio!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: E FOI ASSIM…POR ANA MADALENA

Na crônica desta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS, Ana Madalena, mais uma vez, aguçou a sua imaginação e, como sempre escreveu uma história que vai prender a sua atenção do começo ao fim, pois foi assim comigo. Não consegui parar de ler, olhos grudados na tela do computador até o fim. Então lhe convido a ler e se entreter sem querer!

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E foi assim…

Ela mergulhou seu olhar aos pouquinhos;  tinha necessidade de captar cada milímetro daquela foto, tirada em plena fila da vacina. Se reconheceram pelos olhos; os dela, cor de mel com alguns risquinhos quase amarelos; os dele, um oceano azul. É incrível como o olhar é algo que não esquecemos, pensou. Por sorte ele tomou a iniciativa de falar; ela era insegura e tinha medo que ele não lembrasse dela, afinal estavam com máscaras e já faziam mais de vinte anos desde que se viram naquela loja…

A torneira já estava pingando há dias; qualquer um que passasse meia hora ali se sentiria incomodado, mas ela não parecia perceber absolutamente nada ao seu redor. Estava  triste com os rumos da sua vida… Uma noite finalmente escutou, não só o pinga-pinga, mas também seu coração. Precisava urgente sair daquele estado de letargia. Pegou um bloquinho de notas e escreveu uma lista de coisas para fazer no dia seguinte; a primeira seria comprar uma torneira nova.

Nunca imaginou que existissem tantos modelos! Ficou parada em frente ao mostruário, totalmente indecisa, enquanto que o cliente ao lado parecia ter feito curso de torneiras. Foi até muito gentil em tirar algumas dúvidas, uma vez que o vendedor sumira. Detestava essas lojas self service, comentou. Ele, rindo, disse que para quem não era familiarizado, era realmente difícil. Foi nesse exato momento que seus olhos se encontraram pela primeira vez. Não sabia se tinha sido impressão, mas sentiu que ele teve algum interesse por ela. Será que ele olha assim para todo mundo? Imediatamente levou sua mão ao colar, procurando sua medalhinha de N. Sra. Aparecida, gesto que repetia sempre que ficava tímida ou nervosa. Ela não soube identificar qual dos dois sentimentos. Talvez ambos.

-Tem alguma pessoa para instalar a torneira?
-Não, respondeu desanimada. Você indica alguém?
-Eu mesmo posso fazer isso para você. Tenho algum tempo disponível depois daqui. Só preciso passar na obra para deixar algumas coisas.
–  Eu não tenho coragem de pedir isso, principalmente a alguém que não conheço.
– Isso não é mais problema. Prazer, Arthur.

E ali, contra todos os seus princípios, Isabella escreveu seu endereço na caixa de uma torneira de jardim que ele estava comprando. Combinaram que ela seguiria na frente; Arthur ainda tinha uma lista de compras para finalizar. Enquanto estava no caixa, ficou pensando se torcia para ele ir, ou não. Por via das dúvidas, assim que chegou em casa organizou algumas coisas que estavam pelos cantos. Resolveu fazer um café, afinal teria que servir alguma coisa. Fez também um suco, caso ele não gostasse de café. Ainda bem que tinha um bolo feito na véspera.  Colocou um cd, abriu as janelas, escolheu uma toalha de mesa, separou umas xícaras. Olhou em volta e riu sozinha! Que loucura! Fazer tudo aquilo por uma pessoa que só sabia o primeiro nome…

As horas foram passando e ela começou a se sentir boba. Claro que ele não viria! Seu ânimo foi baixando de nível com o passar do dia. Ao anoitecer teve uma crise de choro, mas não um choro de tristeza, mas de dados de realidade. Constatou que tinha organizado a casa para agradar um estranho enquanto que negligenciara a si própria. Deu um suspiro profundo e, finalmente entendeu que se havia uma pessoa importante naquela casa, com certeza era ela!

Há dias estava ansiosa para tomar a vacina. Praticamente todos seus amigos já estavam vacinados, até seu ex marido, que se gabava de ter porte atlético, mas que de repente virou hipertenso. Não estava julgando, mas achou esquisito. Chegou bem cedo ao posto de vacinação, antes do horário de abertura. Ficou um tempo no carro ouvindo música, até que outras pessoas foram chegando e resolveu interagir, mesmo a distância. Todos estavam, no mínimo, eufóricos. De repente Isabella ouviu um rapaz chamando por Arthur. Ela, de canto de olho, conferiu se era o mesmo que tinha conhecido.
Os olhos azuis e o cabelo, agora um pouco grisalhos não deixavam dúvidas. Era ele, com certeza. Segurou sua medalhinha, nervosa. Será que deveria se dirigir à ele? Enquanto pensava, ouviu ele pronunciando seu nome.

-Isabella?
– Sim… Me desculpe, mas não estou reconhecendo; essas máscaras não ajudam, não é mesmo?
– Com certeza você não lembra de mim, mas nunca lhe esqueci. Nos conhecemos comprando torneiras há muitos anos. Você até escreveu seu endereço numa caixa, mas quando cheguei na obra percebi que nenhuma delas era a que você havia escrito. Ainda voltei para a loja, mas o vendedor … Enfim, são muitos detalhes, mas quero que saiba que fiz de tudo para lhe encontrar.
– Como me reconheceu?
– Você não mudou muito. E seus olhos são muito marcantes, mas ainda bem que continua usando o mesmo colar, com essa medalhinha. Não tive dúvidas. O que vai fazer depois da vacina? Podemos tomar um café…
– Sim, podemos. Eu moro perto daqui.
– Dessa vez eu vou seguindo seu carro.

Cada um fotografou o outro na hora da vacina e depois fizeram uma foto juntos. No caminho para casa, Isabella sentiu o coração aos pulos. Conferiu pelo retrovisor se Arthur estava lhe seguindo. Estava. No sinal, olhou novamente a foto. Feliz,  notou que seus olhos sorriam.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: SOBRE NASCIMENTO, INFÂNCIA E OUTRAS COISINHAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos uma história verídica travestida de conto que a imaginativa Ana Madalena com muita inspiração criou, tirando do fundo do baú da sua rica e feliz experiência de vida. Foi buscar na sua infância lembranças imemoriais, lúdicas de relacionamentos com pais, irmãos e coleguinhas da escola. Então convido você a ler essa crônica atraente que mistura ficção com realidade! 

Sobre nascimento, infância e outras coisinhas…


Dizem que muito do que somos é explicado pela posição dos astros na hora do nosso nascimento. Eu discordo; acho que depende muito mais da hora da concepção, que, no meu caso, quase não aconteceu. Explico: sou fruto de uma camisinha furada; posso encher o peito e dizer que, na corrida de obstáculos, cheguei em primeiro lugar ao pódio. Isso não é para qualquer um. Até hoje tenho na memória aquele milésimo de segundo quando rompi a borracha de látex e nadei rumo ao útero. Na hora pensei: -Enfim só! Livrei-me daquela aglomeração! Nada como reinar absoluta durante nove meses, vivendo de sombra e água fresca.

Era madrugada chuvosa. Dentro e fora da barriga da minha mãe. Escutei sua voz abafada e, pelos movimentos estranhos, percebi que algo não ia bem. Senti um empurrão.
-Como assim, estou sendo expulsa do meu úterozinho? Ainda falta um mês para terminar o contrato!
Por mais que eu não quisesse fazer a mudança, não teve jeito e cheguei ao mundo, antes do tempo. Eu, que já estava toda trabalhada para nascer leonina, do nada, me transformei num caranguejo. Os astros devem ter se enganado, tamanha a confusão que causaram. Minha mãe, coitada, que engravidara quando meu irmão estava com cinco meses, ainda teve que correr contra o tempo para organizar minha chegada inesperada. Diferentemente dele, que era péssimo para comer, já nasci faminta e com o dedo atolado na boca. Não foi de estranhar, quando, aos onze anos, tive que fazer uso de aparelhos dentários, de tão dentuça que era. À época não era comum, mas minha mãe sempre atenta, correu para resolver esse probleminha. Claro que rapidinho virei motivo de chacota e fui chamada de “boca de ferro”, um dos apelidos carinhosos que recebi na vida.

Apesar desse meu nascimento micareta, não fui uma bebê frágil. Muito pelo contrário. Me sentia poderosa, tanto por ter vencido a corrida e, mais ainda por ser a princesinha do lar. A verdade, confesso, é que eu queria mesmo ser filha única, mas na impossibilidade, curti ser única filha. Só fiquei desconfiada mesmo quando vi a barriga da minha mãe crescer…. Aí tem coisa, pensei!. E não deu outra! Nunca esqueci da noite que me colocaram na cama e disseram que eu ia ganhar um irmãozinho.
 – Você prefere chamá-lo Gustavo ou Alexandre?
Quem se importa, pensei! Mas avaliei bem e percebi que estaria no lucro. Ainda reinaria como a menininha da casa…

Eu só não contava com o fator surpresa! Ver minha mãe chegar em casa com um bebê de laço rosa no cabelo estava fora dos meus planos. Corri para o meu quarto e chorei. Chorei mais ainda quando disseram que escolheram um nome para ficar rimando com o meu. Naquela época era comum nomes compostos, então éramos Ana Madalena e Suzana Helena. Eu nunca tive direito ao diminutivo; não faço ideia por que nunca fui Aninha, enquanto minha irmã já veio ao mundo como Suzie.

Percebi uma remodelação de móveis na casa. Meu bercinho passou para o quarto dos meus pais e eu ganhei uma cama, de onde eu caía praticamente todas as noites, algumas de propósito. Cansaram de me encontrar dormindo no chão. Eu, que lutava para dividir atenção com meu irmão, de repente me vi tendo que fazer contorcionismo para ser notada. A caçulinha era o xodó da família; o mais velho, primogênito, era o orgulho. Eu era apenas a filha do meio.

Daí em diante minha vida só piorou, fiquei rebelde mas, por sorte,  já estava em tempo de ir para a escola. Reza a lenda que nos bancos escolares eu era um doce de candura,  participava de todas as atividades recreativas, e por isso mesmo, fui até escolhida para ser a noiva da quadrilha da minha turma, posição almejada por todas as meninas. Eu fiquei empolgadissima, mas, apesar da minha alegria, pude constatar que era alvo de inveja, de uma inveja que tinha requintes de crueldade.

E aconteceu o que temia. No recreio, quando estávamos no parquinho, fui desafiada a subir no escorrego. Todos sabiam que eu tinha medo de altura.  E lá em cima eu congelei; hoje sei que foi um ataque de pânico. A menina que estava atrás de mim deu um empurrão e, como eu ainda estava em pé,  me desequilibrei e cai de cara no chão. Ouvi muitas risadas. Lembro até  que estava vestindo um shortinho azul e uma blusa imaculadamente branca, que nessa hora, virou uma mistura de barro e sangue. O meu dente da frente, que ainda teria alguns anos na minha boca, caiu com o impacto. Ninguém da minha turma tinha perdido dente de leite até então.  Desde esse dia  passei a ser identificada como” a banguela do preliminar”.

Comecei a me ausentar do recreio. Algumas amiguinhas foram solidárias e por vezes permaneceram na sala comigo. Ir para o colégio tinha se tornado um fardo e, da menina falante, não restara nada. Virei introspectiva, passei a ler revistinhas, hábito que me dava prazer e que, no futuro próximo me impulsionaria para ser uma leitora voraz. O mundo dos livros era uma realidade à parte e que me preenchia totalmente. Só para constar,  rapidinho voltei a ser tagarela, foi só uma fase.

Muito se passou desde então. Adoro  relembrar algumas dessas histórias, mas não com saudosismo melancólico, até porque o passado deve ser um lugar de referência e não de residência. A minha menina “do meio” sobreviveu ilesa a infância e adolescência e, adulta, está tirando de letra esse mundo de fakes, filtros e outras coisinhas mais…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: O SILÊNCIO DAS PALAVRAS, POR ANA MADALENA

Hoje temos, aqui na coluna CRÔNICAS, mais uma pérola da nossa preciosa colaboradora Ana Madalena. Desta vez ela nos remete a uma viagem no tempo, através das páginas da Bíblia Sagrada, até os idos da famosa Torre de Babel para nos lembrar que o que estamos vivendo atualmente, em muito se parece com a “confusão de vozes, algazarras e mistura de línguas”, daquele tempo. Mas prefere o Silêncio das Palavras a todo esse barulho. O silêncio, a leitura, o conhecimento, a reflexão…Um texto para nos fazer refletir até que ponto evoluímos ou retroagimos nessa longa caminhada experiencial! Portanto convido você a ler, refletir e fazer o seu juízo de valor!

O que era a torre de Babel? - Respostas Bíblicas

O Silêncio das palavras

Ah o tempo… A impressão que tenho é que estamos retroagindo, e sob um aspecto muito sombrio. Uma história que sempre me vem à mente, está no capítulo 11 do Gênesis, a construção da Torre de Babel: Os descendentes de Noé construíram um altíssimo monumento com o objetivo de alcançar o céu. Chateado com a blasfêmia, Deus teria feito com que os trabalhadores falassem línguas diferentes, o que inviabilizou a conclusão da obra. Por causa desse episódio, a palavra Babel adquiriu nos dicionários, significados como “confusão de vozes, algazarra e mistura de linguas”.

Estamos vivendo em um mundo onde as pessoas, apesar de suas semelhanças, mal se entendem; a nossa Babel agora são as redes sociais. Várias vezes, quando leio alguma coisa, me questiono porque as pessoas ficaram tão intolerantes, ou pior,  porque perderam o bom senso e a capacidade de ouvir. Sinto saudades de um tempo em que éramos mais humanos e menos críticos. Por sinal,  lembro que, quando adolescente, a maior critica que eu recebi foi ser chamada de “esquisita”, por ter um passatempo diferente. Diferente para os outros, claro.

Sobre esse tema, sou solidária aos gostos alheios. Acho incrível quem gosta de escalar montanhas, mesmo sabendo do risco de uma avalanche, ou quem decide ser bombeiro e enfrentar a “ferro e a fogo” o perigo de um incêndio de grandes proporções. Não nasci com esses rompantes de aventura, sou muito medrosa e o máximo de risco que corri até hoje foi escrever um diário que displicentemente deixo aqui e acolá. No geral eu sou muito simples e metódica.

Estava organizando meus armários e encontrei uma caixa que há muito não via. Eu tenho um hábito que está se tornando cada vez mais raro, até por vivermos num mundo digital; eu coleciono matérias de revistas. Eu adorava quando precisava ir para alguma consulta médica e me deparava com uma mesa lotada de revistas, algumas já fazendo aniversário. Eu torcia para que o médico atrasasse só para poder folheá-las com tranquilidade e, quando encontrava algum artigo interessante, eu pedia para destacar a página. Foi assim que comecei a minha coleção, motivo de risos entre meus irmãos, que se gabavam de possuir uma coleção de selos e moedas, e não páginas de revistas velhas.

Minha coleção cresceu bastante quando, ainda na Universidade, estagiei num escritório, sempre bem abastecido. Meus colegas de sala  soltavam piadinhas do bem, com exceção de Núbia, uma secretária muito esquisita. Ela me olhava com curiosidade e sempre perguntava qual a finalidade daqueles papéis; eu, pacientemente, explicava que os artigos eram como cápsulas de conhecimento, que uma hora ou outra, poderiam explodir, dependendo da minha necessidade. Ela franzia o cenho, em aparente desaprovação.

Depois de dez meses, meu estágio chegou ao fim. A última semana foi bem melancólica, mas combinei de rever os colegas. Umas duas semanas depois retornei e, para minha surpresa, lá estava Núbia, ocupando a “minha mesa” e, curiosamente, vestindo roupas semelhantes às minhas, até a armação de óculos era igual. Em cima da mesa, algumas revistas, uma tesoura e algumas pastas, exatamente das cores que eu tinha. Com um sorriso, olhou pra mim e disse:
– Ana, eu sou a nova você!

No mundo sempre existirão pessoas que vão gostar de você pelo que você é, e outras que vão lhe odiar pelo mesmo motivo, mas só nós sabemos de fato quem somos. Dito isso, informo que Núbia desistiu de mim; classificou-me como um caso clássico de excentricidade! Talvez eu seja mesmo. No ruído dessa Babel, sou mais o silencio das minhas palavras.

Ana Madalena
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POESIA: EXPRESSÕES POPULARES, POR JESSIER QUIRINO

Na nossa coluna POESIA desta terça-feira temos o prazer de apresentar o inigualável Jessier Quirino proseando sobre Expressões Populares. A linguagem regional é composta por inúmeras expressões populares. São dizeres e corruptelas que representam a identidade de determinadas regiões. Confira algumas curiosidades e particularidades da fraseologia brejeira, caririzeira e sertaneja. Então se acomode na sua poltrona e aprecie esse papo interessantíssimo!

Fonte:

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CRÔNICAS: TINHA TUDO PRA DAR ERRADO…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a nossa querida Ana Madalena que não para de surpreender com seus contos super imaginativos, alegres, divertidos e bem humorados. A história de hoje aborda uma linda história de amor que atravessou várias décadas e gerações e promete ser infinito enquanto dure. Portanto, convido você a ler mais essa crônica maravilhosa e emocionante!

Casamento casado feliz casal de mãos dadas, noiva e noivo, alianças | Foto Premium

Tinha tudo para dar errado…

O ano era 1961. Logo cedo, os noivos decolaram num teco-teco, do campo de aviação de Capim Macio, em Natal, rumo a Santana do Matos, cidade da noiva e onde seria o casamento, marcado para as dez horas daquela manhã. O piloto, amigo do casal, também era fotógrafo e, além de levá-los, faria as fotos da cerimônia. Diferentemente do que diziam, que noivos não podem se ver antes do casamento pois dá azar, os dois viajaram lado a lado, indiferentes aos ditados populares.  Ela, compenetrada, carregando no colo o bolo de casamento. Ele, nervoso, contando os minutos para estar em terra firme.
A chegada foi no horário previsto. Antes de irem para a igreja, deram uma passadinha na casa dos pais da noiva para se recompor e vestirem  seus trajes para a cerimonia. A viagem, embora curta, foi desconfortável para o noivo, que enjoou todo o percurso, coitado…  Ainda bem que naquele dia não choveu, muito pelo contrário. O céu estava limpo, sem nuvens; não houve turbulência, a não ser umas rajadas de vento que balançaram a aeronave. Por sorte, o piloto era experiente e fez um excelente voo. O bolo e a noiva chegaram intactos, já o noivo estava bastante pálido e, quando saiu do avião, beijou o solo, gesto copiado pelo Papa João Paulo II anos depois.
Minutos antes de seguirem para a igreja, um rapaz veio avisar que o padre chegaria atrasado. Todos falaram ao mesmo tempo:
– Quanto tempo?
O jeep, que o padre estava dirigindo para celebrar uma missa  no município vizinho tinha quebrado e ele voltaria de jegue, o que levaria o dobro de tempo. O pai da noiva saiu numa carreira só; precisava  avisar os convidados, que já estavam na igreja. Alguns voltaram para seus afazeres e outros, mais fervorosos, resolveram permanecer e rezar para que tudo desse certo.
Ao meio dia o sol estava a pino. A mãe da noiva se abanava, tentando em vão afastar o calor. A paisagem, árida, mostrava que aquele era mais um ano de seca; o açude da cidade estava praticamente vazio. Enquanto resmungavam sobre o tempo, imaginavam a situação do padre, conhecido por seu mau-humor e nervosismo. O noivo, que desde criança  tinha problemas de hipoglicemia, começou a dar sinais de que iria desmaiar. O corre-corre para acudi-lo foi grande. A noiva, aperreada, foi esquentar um pouco de leite, enquanto checava se a cobertura do bolo estava derretendo. Estava; o bolo praticamente desmoronou.
Finalmente anunciaram que o padre já estava na Igreja. Os noivos, ansiosos, deram os últimos retoques no visual e seguiram para finalmente selar a união. À entrada da igreja, o piloto, muito nervoso, pediu desculpas ao casal;  informou que esquecera de trazer a máquina fotográfica. A noiva ameaçou chorar! O pai, desolado, perguntou aos convidados se alguém tinha “aquele artefato”, já sabendo de antemão a resposta. O jeito foi acalmar sua filha e levá-la ao altar. O padre, faminto, fez o casamento numa ligeireza nunca vista  naquelas paragens.
O tempo passou e aquele longínquo 28 de maio pôde ser renovado mais duas vezes. A familia, composta por três filhos, logo deu netos. A  primeira netinha, que nasceu  próximo a data do casamento, teve sua primeira festinha de aniversário  junto com a comemoração das Bodas de Prata dos avós. Eles, empolgados e finalmente posando para as fotos, desejaram que pudessem viver juntos mais vinte e cinco anos. As Bodas de Ouro foram celebradas com tudo que tinham direito.
A vida desse casal, os meus pais, foi motivo de escrevermos dois livros de família com o objetivo de deixar um pouco de nós para gerações futuras. As conversas, que ouvi durante todos esses anos de convivência, estão guardadas como um tesouro naquelas páginas. Estamos partindo para o terceiro livro, com mais novidades, até porque a familia cresceu. Agora,  já  bisavós, completarão Bodas de Diamante essa semana, saudáveis e felizes. Eles nunca imaginaram chegar tão longe…
Parecia que tinha tudo para dar errado, mas graças a Deus deu tudo certo!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: SE ESCREVE MÃE…POR ANA MADALENA

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira a nossa colaboradora Ana Madalena faz uma bela e singela homenagem, não apenas as mães biológicas, mas também as madrastas e as mães adotivas e coloca todas no mesmo patamar, pois exceções a parte o que impera nos relacionamentos mãe e filho, madrasta e enteado, mãe adotiva e filho adotivo, na verdade é o amor. E o amor não tem marca registrada, não tem DNA, nem sinal de nascença. O amor incondicional é universal e é justamente o que viemos aprender nessa trajetória evolutiva. Então fique com a leitura de mais uma crônica maravilhosa da nossa escritora favorita!

“Amor igual ao teu, eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual, eu nunca mais verei
Amor que não se pede, amor que não se mede,
Que nao se repete”.
                 Onde você mora, Nando Reis 

Se escreve mãe…


Li certa vez que a literatura poderia ser um ramo da biologia e que as palavras deveriam ser tratadas como seres vivos pois, de uma hora para outra, podem decolar do papel e sair por aí, sem destino. Eu concordo e por isso tenho muito cuidado; certas palavras reverberam tão alto que a gente nunca sabe como pode ser recebida, e, por conseguinte, afetar os outros.

Domingo foi comemorado o dia das mães. A palavra “mãe” por si só já vem com dose extra de carga emocional. Mãe se traduz com praticamente todas as categorias gramaticais; é realmente um fenômeno. Inversamente proporcional é a sua prima injustiçada, a madrasta. A mulher que exerce esse papel geralmente é vista com lente de aumento. Ela é uma malabarista, vive eternamente equilibrando pratinhos: não gerou a criança mas ainda assim tem certas responsabilidades. Ela já entra em desvantagem, em família construída, com  hábitos arraigados. Raramente a madrasta sai do papel de coadjuvante; há sempre um dedo a lhe apontar lembrando que ela não é “a mãe”.

Existem inúmeras histórias bem sucedidas de convivência entre enteados e madrastas mas houve um tempo que “madrasta” era quase um palavrão, talvez amparado pela madrasta má da Cinderela. Essa sim, tinha muito do que se queixar. Ali, não sei quem era pior, a madrasta ou as meia irmãs invejosas. Por falar em meia(o) irmã(o), a impressão que tenho quando alguém enfatiza isso, é porque não quer a pessoa por inteiro. Quando existe afeto, ninguém fraciona parentesco, nem sentimento.

Eu não sabia que existia o dia da madrasta,  primeiro domingo de setembro. Confesso que só me interessei pelo assunto por um post que minha cunhada enviou parabenizando-me pelo dia das mães. Ela é uma excelente madrasta para meus sobrinhos. Aliás, eu nem a chamo de boadrasta; na minha cabeça o prefixo é o que realmente significa, maternal, mater, madre. Ela está sempre de braços e coração acolhedores e, diferentemente da insegurança de algumas mulheres, nunca quis tomar o lugar da mãe. Ainda bem que o amor não tem quantidade estabelecida, sempre transborda. E não importa de onde venha, porque a maternidade não é sobre gerar, mas sobre sentir. Feliz do filho que sente esse amor.

E sobre sentir, que o digam as mães que adotam crianças. Sem a explosão hormonal, elas recebem nos braços uma criança que, na maioria das vezes, lhes chega de repente.  Como reconhecer naquela criança uma parte de você? Por sorte, essas mulheres geralmente decidem ser mães quando já se esgotou a possibilidade de gerar um filho. Aí,  acontece um milagre: todo aquele amor acumulado nas várias tentativas da maternidade, recai na criança. A maternidade adotiva também produz um hormônio, a ocitocina, que “nasce” por meio de afetos positivos. Apesar da não existência da parte biológica, gestação e amamentação, o cérebro da mãe adotiva com o passar do tempo se comporta semelhante ao da mãe que deu à luz. Só para constar, não diferencio filho, nem mãe adotiva. São filhos e mães. E ponto.

O dia das mães é uma data bastante comercial e que movimenta, além da economia, o coração. Confesso que me emociono sempre com as mensagens publicitárias e seus textos belíssimos. Infelizmente, essa data não foi celebrada em muitas famílias; a pandemia tirou a vida de mães e filhos no mundo todo. Ainda bem que a maternidade se traduz também em colo e, tomara Deus, alguém, da rede de proteção dessas famílias, cuidará de preencher um pouco esse vazio.

Espero que no próximo ano possamos celebrar esse dia juntos, sem distanciamento, nem máscaras. O mundo está carente de tudo, principalmente de afeto. E por falar em afeto, vamos lembrar que se escreve “mãe”, mas significa “amor”.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: ONDE AS ESTRELAS BRILHAM, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de Ana Madalena aqui na coluna CRÔNICAS com suas criativas e exuberantes histórias. Quero confessar algo: também sou escritor, mas não tenho tanta criatividade assim. Isso é um dom extraordinário, uma benção de Deus que veio brilhar, ilustrar e enriquecer o Blog do Saber. Então lhe convido a ler “onde as estrelas brilham” e surfar na imaginação dessa autora fantástica!

Onde as estrelas brilham

Chovia muito. Estava vindo com meus pais de Angra dos Reis, onde havíamos passado o carnaval. A casa que alugamos era bem localizada e logo fiz amizades. Todos pareciam gostar de mim, principalmente uma senhora muito elegante, que estava sempre fumando. Naquela época era charmoso ser fumante, talvez porque as pessoas não soubessem o que fazer com as mãos, principalmente nos momentos de solidão. Hoje todos têm um celular.

A casa de D. Clarice era cheia de livros. Ela tanto gostava de ler quanto escrever; passava  muito tempo datilografando. Às vezes sentava numa poltrona, onde apenas pensava… Aliás essa  poltrona era perto de uma janela que dava vista para a janela do meu quarto, onde, à noite, eu também sentava para escrever meu diário. De longe podia vê-la e lhe acenava.

Fiquei assustada na primeira vez que ela falou comigo. Tinha um jeito esquisito, um sotaque estranho, mas depois me confidenciou que tinha a língua presa, embora  todos pensassem que era porque ela era da Ucrânia. Perguntou se podia ler o que eu escrevia no meu caderninho, se eram histórias. Comentou que as crianças que conhecia não gostavam de ler, muito menos escrever.

 – D. Clarice, é só um diário. Não sei contar histórias. Na verdade estou escrevendo porque sei que quando voltar para o colégio, a professora de português vai pedir uma redação sobre as férias. Eu já estou deixando quase pronta; terminarei amanhã, quando voltarmos para o Rio.

Ela disse que também voltaria no dia seguinte.   Na despedida perguntou se eu gostava de escrever cartas. Imediatamente trocamos endereços; ela, saudosa, comentou que gostava muito do Nordeste, principalmente das praias de águas mornas. Disse-me que na infância tinha morado em Recife e que o pai a levava bem cedinho para tomar banho de mar. Convidei para vir a Natal.

Depois do café eu e meus pais arrumamos toda a bagagem e também o que sobrou da feira. Iríamos passar mais uns dias no Rio, no apartamento da minha tia. Meu pai, muito precavido, foi cedo ao posto de gasolina para encher o tanque do carro. Ele nunca deixou chegar nem a meio. Partimos pouco depois das dez, mas no meio do percurso caiu um temporal daqueles. Era cada pingo de encher um balde. Na entrada da Avenida Brasil a água acumulada já estava cobrindo o capô dos carros e, do nada, apareceram pivetes querendo nos assaltar. Foi dramático! Conseguimos desviar do nosso caminho por horas; ficamos totalmente perdidos. Ainda bem que tínhamos combustível.

Por sorte, nos abrigamos em frente a uma escola, num elevado, onde haviam outros carros, todos esperando baixar as águas. De repente ouvi choro de crianças, que reclamavam de fome e sede. Lembrei da feira que tínhamos trazido e comecei a distribuir biscoitos, pão e chocolate. Meus pais estavam muito preocupados mas eu, inocente dos perigos, me espalhava entre os ilhados, conversando com  todos. E foi passando pelos carros que escutei alguém me chamando. Era D. Clarice.

-Ana, querida, que bom lhe ver. Um rosto familiar na multidão. Fique um pouco comigo.

Entrei no carro e conversamos bastante. Ela falava pausado, profundo. Eu, ao contrário, falava sem parar. Teve até um momento que eu mesma me toquei e disse:

– Desculpe, D. Clarice. Eu tenho esse defeito. Prometo me controlar. Minha mãe diz que sou tagarela demais!
– Minha querida, não mude em nada. Às vezes nosso maior defeito é o que sustenta nosso edifício Inteiro.

A chuva parou. Os carros começaram a se dissipar e nos despedimos com um abraço, daqueles “para nunca mais”.

Tempos depois, perto do Natal, estava montando a árvore com minha mãe quando noticiaram no telejornal o falecimento de uma grande escritora. Na hora não dei muita atenção, até que disseram o nome. Corri para a frente da tela e reconheci minha amiga. Era D. Clarice Lispector.

Bem, essa história poderia ter acontecido comigo mas foi apenas um sonho. E eu escrevi simplesmente para não esquecer.
Saudades Clarice…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: DIA DESSES…POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia da coluna CRÔNICAS aqui no Blog do Saber e sempre com a maravilhosa participação da nossa colaboradora Ana Madalena, com os seus contos muito criativos. Hoje o destaque vai para um romance inacabado, que num encontro casual trouxe lembranças do passado para ambos, um momento de nostalgia e um tanto de melancolia. Um dentre tantas histórias de relacionamento com começo, meio e fim tão semelhantes, mas com certeza únicas!

Como encontrar o amor depois da separação

“As vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois…
Eu fico aqui sonhando acordada,
juntando o antes, o agora e o depois.. .”
           Sozinho, Peninha

Dia desses…


Alguns pontos finais não são simples opções,  e ela sabia disso como ninguém. Foi preciso coragem para abrir mão de uma história, sem saber, previamente, se era o rumo certo a tomar. A sensação que tinha era de completo abandono, mesmo tendo sido ela a responsável pelo seu destino. Desde a separação carregava trovões dentro do seu peito. Nunca mais conseguiu dormir bem.

Há muito não se viam. Foi quase um susto quando seus olhares se cruzaram naquela escada rolante do shopping. Estavam em sentidos opostos, como sempre. Um esperou que o outro falasse algo. Ela sabia que se não tomasse a iniciativa…. Criou coragem e disse que estava feliz em vê-lo. Sugeriu que se encontrassem no piso inferior, para onde ele parecia estar seguindo. Balançando a cabeça, ele concordou. Ela acelerou o passo, sem saber se ele realmente estaria esperando. Estava.

 Deram um longo abraço. Em princípio conversaram amenidades, como velhos amigos. Depois, como não poderia deixar de ser, vieram as perguntas dificeis. Ele perguntou se a mudança de país e o doutorado tinham sido boas escolhas e se ela estava realizada. Sim, respondeu sorrindo, embora seu olhar fosse triste. Seu pensamento era um só: como pude deixar meu grande amor? Ela comentou sobre o casamento dele e dos filhos lindos. Vira a foto no Instagram. Ele disse que os filhos eram seu maior tesouro.

Quis voltar no tempo, para um dia qualquer, desde que fosse com ele. Acordariam juntos, pegariam uma praia, talvez até fizessem uma caminhada, depois comeriam um peixe ao molho de manga, seu prato preferido. No fim da tarde poderiam assistir um filme, com um balde de pipocas, que eles devorariam nos primeiros minutos. Se fosse noite de lua, poderiam dançar no jardim, onde, quem sabe, fariam lindas declarações de amor e ele pediria sua mão em casamento, outra vez…

– Você é feliz? Ambos perguntaram ao mesmo tempo. Nenhum dos dois respondeu. Mudos, seguiram até o final do corredor, onde cada um tomou uma direção. Enquanto caminhavam, não resistiram e olharam para trás . Foi a última vez  que seus olhos se viram; os dela, inundados de amor… Tentou lembrar o começo daquela historia, a magia do encontro. Depois as dificuldades do meio, as diferenças irreconciliáveis. E por fim, o fim. Sua partida, o casamento cancelado, o adeus.

Deu um longo suspiro e se perguntou: será que um dia serei feliz outra vez?

Ana Madalena
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POESIA: NO TEMPO DAS SERENATAS, POR JESSIER QUIRINO

Na nossa coluna POESIA desta terça-feira temos um causo muito curioso contado pelo inigualável Jessier Quirino, sobre a sua família “No tempo das Serenatas”, onde aborda as serenatas que ele seus irmãos faziam para suas namoradas. Então não deixe de assistir esse vídeo super interessante sobre a intimidade do grande poeta!

Fonte:

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CRÔNICAS: O ABC DO AMOR, POR ANA MADALENA

Quando a gente lê uma crônica da talentosa escritora Ana Madalena acha tão maravilhosa que já fica imaginando o que ela vai inventar na próxima. Dona de uma imaginação pra lá de fértil Ana tem envolvido e conquistado muitos leitores e fãs com as suas criativas CRÔNICAS às quartas-feiras, aqui no Blog do Saber. A cônica de hoje superou todas as minhas expectativas imaginativas. Um show de criatividade, bom gosto e competência no ato de escrever. Então convido você a ler O ABC do amor e depois deixe aqui o seu comentário sobre a leitura!

O ABC do amor

Querida vogal.

Aconteceu no meio da manhã , acho que de uma quinta feira. Naquele dia eu acordei toda feliz. Tinha sonhado com vogais e semivogais a noite toda! Parecia que estava advinhando…

Nosso primeiro encontro foi hilário! Eu descendo aquela escada, degrau por degrau, ele pulando dois ou três… De repente, parou e disse “oi”. Eu apenas acenei e  fui logo dizendo que estava com pressa, precisava escrever a minha parte de um livro. Ele, para introduzir um dígrafo falou: – Está de carro? Não, respondi, mas estou com meu pai.  Falei isso para ele saber que estava protegida. Não podemos confiar em qualquer letrinha! Nem nas maiúsculas! Ironicamente ele perguntou: – Você é a letra dos olhos do seu pai? Sim, claro, até porque ele foi meu primeiro ditongo crescente, respondi antipatiquinha. Mas, mesmo apesar do meu tom, ele pediu meu abecedário e eu, pasme, dei. Sou louca, pensei. Como alguém diz onde mora à uma letra estranha?

Contei tudo à minha mãe! Para minha surpresa ela disse que foi uma boa intuição.
-Às vezes conhecemos um alfabeto inteiro mas casamos com um sinal gráfico. Suas irmãs não tiveram sorte… Terminaram várias vezes com um ponto de interrogação, enquanto essa letra veio para você acompanhada de exclamação. Que sorte a sua!

Sim, concordo com minha mãe. Foi sorte, destino, encontro gramatical, tudo isso junto.
Nossa convivência sempre foi maravilhosa. Claro que, como todo casal, temos medo de uma reforma ortográfica, mas não pelos motivos que a maioria pensa. Nunca tivemos problemas em ser vogal crescente ou decrescente, até porque dependendo de onde estamos, desempenhamos os dois papéis. Sabemos dividir bem as tarefas.

Agora confesso que estou um pouco preocupada. Por causa dessa pandemia, minha vogal tem ficado muito apática.  Diz que  se sente sufocada, como apagada por uma borracha , ficando só um borrão. Eu conheço bem essa sensação. Já tentaram me apagar um dia, mas juntei todas as minhas forças e fiquei mais evidente do que nunca!

A pandemia tem sido um grande problema para todos nós do alfabeto, do A ao Z. Muitas letrinhas têm se queixado da vida. Eu tenho procurado fazer minha parte. Evito aglomeração, principalmente com alguns verbos. Minha sorte é que nossa casa está cheia de nossas minúsculas, lindas vogais e semivogais, que nos trazem muitas alegrias. Sei que um dia serão adultas e iniciarão  seus parágrafos. É o curso natural da vida. Não, não quero falar nisso agora. Vou deixar para sofrer de alfabeto vazio quando chegar a hora. Como diz  minha vogal caçula, meu eu do futuro resolverá  esse problema.

Espero não ter gerado preocupação em você.  Estamos bem. Falei para meu amor que estava escrevendo para você. Ficou feliz. Não expressou com palavras, mas seu olhar disse tudo. Sim, eu entendi. Depois de tantos anos, muitos substantivos e principalmente adjetivos, os olhares falam por nós…

Fique bem. Em casa! E não esqueça de colocar o acento circunflexo quando sair!
Sua amiga,

Ana Madalena

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CRÔNICAS: O RECADO, POR ANA MADALENA

Já está se tornando bastante redundante os inúmeros elogios que faço, aqui na coluna CRÔNICAS a nossa colaboradora Ana Madalena. Acontece que ela não para de surpreender, de se superar e de crear, crear e crear. Então, não tem como não elogiar, né? A crônica desta quarta-feira é sobre relacionamento, união e separação. Vale a pena conferir!

Temos que aprender a deixar ir aqueles que não estão prontos para ficar em nossa vida

” Deixa, deixa mesmo de ser importante
  Vai deixando a gente pra outra hora 
  E quando se der conta já passou
  Quando olhar para trás, já fui embora”.
          Eu sei de cor, Marília Mendonça 

O recado

Estamos carregando pesos desnecessários; vamos fazer uma triagem, levar apenas o que  for preciso. Essa frase foi dita por meu instrutor de trilhas. Cada um olhou sua bagagem, eliminando itens; eu fiquei com a mochila quase vazia e, pela primeira vez na vida, me permiti simplesmente aproveitar o momento.

Meu casamento vinha num desgaste grande. A impressão que eu tinha era que tudo o que nos uniu, depois nos separou. Eu, por exemplo, achava engraçado o fato dele ter um jeito meio selvagem quando cozinhava, tipo Rodrigo Hilbert, com a gritante diferença que ele não se parece com o ator, nem a comida era saborosa. Eu gostava desse seu jeito porque via o empenho em querer me agradar.

Em contrapartida, eu adorava fazer surpresinhas, principalmente no meio da semana. Eu organizava uns jantares a luz de velas, sempre ao som de clássicos, como Mozart ou Bach, seus preferidos. Ele dizia que contava os minutos para chegar em casa, que eu era maravilhosa, a melhor mulher do mundo. Bem, segundo ele, eu era, do verbo não sou mais. Nos últimos tempos ele começou a chegar cada vez mais tarde, pouco importando se eu tinha feito um jantar bacana, ou comprado seu vinho favorito.

Os finais de semana eram os piores dias; ou ele dormia o dia inteiro ou enchia a casa de amigos para ver algum jogo, deixando um rastro de bagunça na cozinha de dar arrepios. Eu vivia ansiosa, soprando saquinhos. Alguém me disse que ele estava querendo pular fora e estava aprontando todas para deixar a decisão nas minhas costas. Até que um dia, minha filha de seis anos comentou que tinha uma amiguinha de colégio cujos pais estavam separados e que tinha sido melhor assim.

Entendi o recado. A caçula, de um ano e meio, nem sentiria a ausência. Ela nasceu num período conturbadíssimo e ele praticamente a rejeitou. Daquele dia em diante, a ideia da separação não saiu da minha cabeça… Resolvi fazer um jantarzinho surpresa, no meio da semana, exatamente como tantos que fiz, para abordar o tema. Claro que ele chegou quase duas horas depois do combinado, mas aí eu já estava tirando tudo de letra. Virei a pessoa mais zen do mundo! Coloquei, de propósito, Requiem, em Ré menor, de Mozart, e aguardei.

Ficou nervosíssimo! Depois de debochar, dizendo que eu estava com frescura, que devia ser culpa da TPM, que eu estava louca… Ri, até porque nunca sofri com tensão pré-menstrual; a única tensão que vivi até hoje foi pré-divórcio. Ele engasgou, se fez de desentendido, mas fui firme. Se há uma coisa que aprendi na vida é que contra fatos não há argumentos. Listei todas as coisas que ele deixou de participar na vida das meninas, passei na cara a vida de solteiro que ele estava vivendo, e…

Observei que depois de um tempo ele deixou de argumentar, percebi até um sorriso nos lábios, quase aliviado por eu ter tomado a decisão. Apresentei um esboço de guarda compartilhada, onde as crianças não saem de casa; elas permaneceriam comigo e, nos dias dele, eu me mudaria para casa dos meus pais. Não queria que minhas filhas ficassem para lá e para cá. A novinha precisa do seu cantinho, é um bebê. Claro que essa fórmula será interessante até o dia que um de nós dois quisermos ter outro relacionamento. Até lá faríamos assim. Para meu espanto, ele concordou com tudo.

Aprendi que precisamos colocar pontos finais na nossa vida. Não é fácil, é preciso coragem;  adiei decisões pensando unicamente nos outros. Não posso dizer que não sofri, que não fiquei triste. Claro que sim! Mas, como diz uma amiga, tristeza mesmo são duas aulas de matemática seguidas. Estou bem. Sei que o amor “para sempre” é raro; feliz de quem o possui. Agora vou viver mais leve, aproveitar a vida com as crianças; não vou mais carregar pesos desnecessários.

Ana Madalena
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CRÔNICAS: AS GAVETAS, POR ANA MADALENA

A nossa colaboradora, Ana Madalena está sempre surpreendendo. É por isso que ela e a nossa titular, aqui na coluna CRÔNICAS. Não para de produzir belas e criativas histórias que prendem a nossa atenção e nos fazem viajar pelos mundos e reinos criados pela sua imaginação. O conto desta quarta-feira é incrivelmente atraente, pois ela conta uma história dentro de outra e nós nem percebemos essa sutileza, ou quando percebemos já estamos viajando nessa segunda história. Portanto, convido você a ler essa bela e criativa história e viajar como eu viajei!

Penteadeiras Modernas

” Vamos beijar com as palavras 
  Abraçar com os olhos e
  Tocar com o coração “
          Rossandro Klinjey

As gavetas

A porta do quarto ficava apenas entreaberta, o suficiente para circular o ar. Não gostava de expor sua intimidade; o quarto era seu refúgio. Tia Letícia era muito discreta; nos víamos todos os anos nas longas férias de verão, quando minha família ia para a Fazenda. A casa, de teto muito alto e varandas largas, abrigava fotos por todos os lados; meus irmãos nem imaginavam que ela um dia fora jovem; para eles, ela sempre teve o rosto enrugado, mãos de veias saltadas e um certo mau humor. Para mim, ela sempre foi amorosa e me convidava para ir ao seu quarto, um lugar cheio de mistérios…
A penteadeira de madeira escura, um móvel com vasta biografia, ficava perto da janela. Ali repousavam apenas duas escovas de cabelo e um perfume. Não usava maquiagem; dizia que ficava com cara de palhaço, mas tinha sempre cheiro de banho tomado. A parte inferior do móvel tinha duas gavetinhas que viviam eternamente trancadas. Lembro que ela me colocava em frente a tal penteadeira e fazia tranças no meu cabelo, enquanto inventava histórias. Eu gostava particularmente de uma…
Era uma vez uma linda menina que morava num castelo no meio do nada; nada de flores, nada de frutas e nada de lagos. Tudo era de pedra, até as pessoas. A menina vivia com os pais, duas rochas enormes, que rolavam pelo palácio procurando uma solução para voltar a ser gente. Eles viviam essa maldição desde o dia que o rei negou um cavalo ao camponês que perdera seu filho na mata. O camponês explicou que procurava por esse filho há muito tempo, mas que não podia ir longe, a não ser que tivesse um cavalo… O rei explicou que só tinha um cavalo para todo o Reino e que não podia abrir mão do animal. O camponês revoltado, procurou uma bruxa e pediu que tudo que tivesse vida no palácio virasse pedra. Menos a filha do rei. Ele queria ver o sofrimento dos pais com a garotinha crescendo sem o abraço deles, do mesmo jeito que seu filho estaria crescendo sem o seu amparo.
A menina virou uma mocinha e um dia resolveu sair do Reino à procura do Feiticeiro da floresta. Selou o cavalo e partiu, mas cansada de tanto procurar, dormiu exausta sob uma arvore. Uma voz masculina perguntou se estava tudo bem. Ela, surpresa, respondeu que sim, mas que precisava encontrar o Feiticeiro do Bem. O jovem disse- lhe que  indicaria o caminho e explicou que morava ali desde criança, quando caiu num barranco e passou a viver com os animais. Ela ficou impressionada e seguiram juntos até a caverna do Feiticeiro, onde ela pediu que ele desfizesse o feitiço. O feiticeiro falou que, nesse caso, a magia se voltaria para ela.
A princesa ficou muito triste e pediu uns dias para pensar. Queria muito livrar o Reino da maldição mas não lhe agradava virar uma pedra. Resolveu voltar para casa e o jovem  decidiu acompanhá-la. Foram muitos dias de viagem e eles acabaram se apaixonando. Ela, lembrando das palavras do Feiticeiro, resolveu priorizar o seu amor e os dois sumiram pela mata, onde foram felizes para sempre.
Tia Letícia faleceu bem velhinha. Sofri muito na nossa despedida… Herdei a penteadeira e o conteúdo das gavetas: algumas jóias e cartas de amor que nunca foram enviadas. Também havia um recorte de jornal; era sobre o falecimento de um rapaz, José, o seu grande amor, que ela manteve vivo no seu coração.
Existe uma lenda mexicana que fala sobre a importância da imortalidade da vida. Ela diz que temos três mortes: a primeira, quando somos crianças e descobrimos a morte e, consequentemente, temos medo de perder alguém próximo. A segunda, quando nosso coração para de bater e nossa existência passa a depender unicamente da memória dos nossos afetos. A terceira e definitiva, quando a última pessoa que guarda nossa memória também morre.
Que deixemos doces lembranças…
Ana Madalena
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CRÔNICAS: ENTRE NÓS, POR ANA MADALENA

O texto de hoje, aqui na coluna CRÔNICAS mostra todo o talento e versatilidade da escritora Ana Madalena num conto que mistura história real com ficção. Uma história como muitas que já assistimos, um dia, nas novelas televisivas, mas que também já aconteceu bem parecido na vida real e no final ficamos sem saber ou ter certeza se a história foi real ou apenas fruto da fértil imaginação dessa incrível autora. Então, convido você a experimentar essa aventura e tentar decifrar nas entrelinhas deste conto até que ponto é real!

” E quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz
O que vai ficar na fotografia,
São os laços invisíveis que havia”.
                  Fotografia, Leoni 

Entre nós

O ódio também é vínculo. Li essa frase em  algum lugar e me fez lembrar uma cerimônia de casamento. Antes que você imagine coisas, adianto que não tem nada a ver diretamente com os noivos, nem tão pouco comigo. Deixo aqui apenas a reflexão que muitas vezes transformamos laços em nós, criando prisões que poderiam ser evitadas.
Eram dois irmãos unidos também por uma empresa familiar. O comércio, iniciado pelo pai, obteve muito êxito na administração dos filhos. Um, pragmático e bastante tímido, outro sonhador e falante. O primeiro cuidava da parte administrativa e o segundo cuidava  das vendas. Eles eram inseparáveis e tocaram os negócios por muitos anos.
O tímido casou bem jovem com a namorada de adolescência. O falante levou a sério a vida de solteiro e de tio dos três sobrinhos, uma menina e dois meninos. Adorava as crianças e sempre as levava para passear. Difícil era não vê-lo com algum deles. A sobrinha mais velha era o seu xodó; uma menina alegre e carismática!
O casamento acabou depois de 16 anos;  havia um zum zum zum na cidade que a esposa o traía há tempos. Os filhos, já em idade de escolher, optaram por ficar com o pai, pois apesar de ser muito introvertido, sempre foi pai presente, daqueles que coloca as crianças para dormir, leva para escola e está em todos os momentos importantes. A ex-esposa era, digamos assim, uma mulher fútil que vivia para ela mesma. Só o marido não enxergava.
A noite de micareta estava animada. O tio, que era um carnavalesco nato, se esbaldou. Gostava de sair em blocos com os amigos, mas não era de beber. Era animado por natureza. Estranhamente naquele dia, parecia ter tomado todas; os amigos desconfiaram que tivessem posto um ” boa noite cinderela” no seu copo. Por sorte quem estava no mesmo camarote era sua ex- cunhada, que cuidou de levá-lo pra casa.
No outro dia pipocou nas redes sociais várias fotos íntimas deles dois, que ela mesma postou. Foi um escândalo! Mas, na verdade, tudo que a foto mostrava era um homem “apagado”, com uma mulher sensualizando. Todos diziam que ela tinha feito isso para se vingar; a partilha de bens não saíra ao seu gosto, mas até provar que “babado não era bico”… Foi rompida a sociedade na empresa e os laços familiares.
Julia estava linda no dia do seu casamento.
Os padrinhos já estavam perfilados quando ela viu seu tio chegando. Ficou feliz, afinal era um segundo pai e ela sempre o apoiou no episódio das fotos, tanto que nem convidou sua mãe, que sumira do mapa havia muito tempo, mas essa é outra longa história que não cabe aqui.
O fotógrafo, que estava fazendo fotos da chegada da noiva, percebeu a mudança de ares e presenciou uma discussão entre pai e filha. Percebendo a tristeza no olhar de Julia, criou coragem para conversar com o pai, que transpirava exaltado. Calmamente, entregou-lhe um copo de água e um lencinho de papel, avisando que já estava na hora deles entrarem. Depois, usando de psicologia, disse-lhe que esperava um dia ter a mesma alegria que ele estava tendo em casar uma filha e que daria o melhor de si para que todo amor entre eles transparecesse nas fotos. Essas palavras surtiram um efeito mágico.
O pai de Julia apontou para o irmão e pediu ao fotógrafo que o chamasse.  Na porta da igreja os irmãos tiveram uma longa conversa. E eu… Bem, estava em casa quando meu pai ligou pedindo que levasse a caixinha de remédios da minha mãe, que esquecera em cima do mesa. Sim, meus pais foram convidados desse casamento pelos avós de Julia. Enquanto eu aguardava a cerimonialista vir pegar a caixinha,  assisti o choro e o abraço dos irmãos. Os nós foram finalmente desatados.
Ana Madalena
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CRÔNICAS: RECOMEÇOS, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de CRÔNICA, aqui no Blog do Saber. A nossa mais nova coluna recheadas de boas e saudáveis CRÔNICAS da melhor qualidade. A nossa estreia, na semana passada foi com a bela história de Paz e Guerra, uma trégua no Natal, escrita por Ana Madalena, que dá agora uma nova contribuição com a crônica “Recomeços”. Então, vamos lá, faça uma boa leitura e tire suas conclusões!

Firmino Filho decreta ponto facultativo nesta sexta-feira em Teresina

” Um livro é a prova de que os homens podem fazer magia”.

Carl Sagan 

Recomeços

Foi no início de julho de 2019, alguns dias antes do meu aniversário. Estava muito feliz e tinha planejado chegar bem cedo, mas chovia bastante e faltou energia o dia todo. Escolhi o meu apartamento pela vista, que é magnífica, mas o prédio, bem antigo, não tem gerador. Meus amigos disseram que foi uma compra por impulso, mas quando vieram para o “open house” entenderam o porquê da escolha. Meu apartamento de 35,7 metros quadrados era tudo que eu precisava para ser feliz.  E acredite, cada centímetro fez uma grande diferença no decorrer desse ano…
Sou o tipo básica, mas gosto de conforto e de beleza nas mínimas coisas. Decorei meu apartamento do jeito que sonhei. Infelizmente, pouco depois da minha mudança, a empresa onde trabalho resolveu me “promover” e eu passei a fazer viagens a cada quinze dias. O meu sonhado “lar doce lar” virou apenas um lugar para dormir. Até que…
Recordo quando meu supervisor ligou, já tarde da noite, cancelando minha viagem de março. Disse que seria por uns dias e que assim que tudo normalizasse, eu retomaria a agenda de trabalho. Desliguei eufórica, até abri um vinho para comemorar! Finalmente eu teria tempo para curtir meu cantinho!
Liguei a TV para saber da tal pandemia;  confesso que me assustei com o que ouvi. Telefonei para meus pais e irmãos e pedi para que não saissem de casa. Corri ao supermercado e fiquei impactada com as filas intermináveis; parecia que estávamos numa guerra. E era, só que invisível.
Preparei um roteiro para meus próximos dias. Não poderia ficar sem foco, sou movida à rotina. Tentei me exercitar, ter horário de leitura, de trabalho, fazer cursos online e outras tantas coisas que sempre reclamei não fazer por falta de tempo. Mas o tempo foi passando e a quarentena se prolongando… Veio a inquietação. De tudo. O mais estressante foi não saber quando isso acabaria.
Chegou julho, a Terra deu mais uma volta ao redor do sol e eu fiz aniversário sozinha. Não, minto! Comprei um hamster chinês, apesar da minha desconfiança de tudo que vem de lá. Nossas noites foram reservadas para os exercícios: eu na esteira e ele na rodinha. Tomei a resolução de cuidar de um ser vivo depois que vi todas as minhas plantinhas morrerem por descuido. Aquele planejamento de uma rotina saudável ficou no papel por meses, quando vestia pijamas e arrastava chinelos.
Agora falta pouco para esse ano ser mais um calendário jogado fora. Apesar de todos os percalços e das milhares de pessoas que perderam a vida, confesso que depois que peguei o ritmo, só tenho coisas positivas para levar comigo. Descobri que sou ótima companhia e que, apesar do caos do isolamento, fiz descobertas incríveis e aprendi novas habilidades. Também comprei uma estante de exatos 70 centímetros e já preenchi duas prateleiras dos livros que li, de longe o melhor programa cultural e à prova de aglomeração. Também escrevi um diário; quem sabe um dia eu venha a ter filhos e eles possam entender como alguém vive em meio a uma pandemia.
O ano de 2020 realmente ficará marcado na vida de todos nós. Aos amigos e familiares eu cito Oswaldo Montenegro, na música Sem mandamentos,  “hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse e até desculpo o que você falou”. Esse é o meu hino de esperança; deixemos rusgas e outros sentimentos incômodos para trás.  Vamos agradecer! Nós sobrevivemos!
Ana Madalena
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FILOSOFIA: COMO É IMPORTANTE UMA OPORTUNIDADE NA VIDA, POR ARIANO SUASSUNA

Feriadão é pra descontrair e se divertir. Por isso nessa segunda-feira feriado você vai ver, aqui na coluna FILOSOFIA uma mini-palestra do contador de causos, inenarrável e inesquecível Ariano Suassuna em “como é importante uma oportunidade”. Então, assista curta e divirta-se até umas horas! 

Fonte:

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FILOSOFIA: FILOSOFANDO COM ARIANO SUASSUNA E LEANDRO KARNAL

Na nossa coluna FILOSOFIA desta segunda-feira temos dois destaques de peso. Num primeiro momento com o incomparável Leandro Karnal e em seguida o inalcançável Ariano Suassuna. Ambos contam histórias hilariantes para emocionar, rir e chorar. Portanto não perca o show!

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