CRÔNICAS: EU ESTOU FODA-SE! POR ANA MADALENA

Hoje você vai ler mais uma maravilhosa e irada crônica da nossa incrível Ana Madalena que tem uma imaginação super fértil. Desta vez ela nos presenteia com um conto fenomenal acerca de uma peça do vestuário feminino chamada “Cropped’. Uma minúscula blusinha que deixa a mostra a metade da barriga e o umbigo. Sua imaginação vai tão longe que retroage na moda dos anos 40 e volta até os nossos dias citando a inesquecível e incrível Marília Mendonça que consegue criar com um cropped a expressão “Eu sou foda-se”!

Marília Mendonça aparece de top cropped e afirma: ''É por que eu estou magra?''

Eu estou foda-se!

Era uma vez uma mocinha chamada Gabriela, que um dia foi convidada para sair com um rapaz. Ela ficou eufórica, mas infelizmente sua futura história de amor chegou ao fim antes mesmo de começar.  Gabriela “levou um bolo” e ficou numa profunda tristeza. Sua irmã resolveu dar uma força e tweetou:
 –  Vai mulher, reage, coloca um cropped!
Em pouco tempo a publicação atingiu altos níveis de compartilhamento e como por encanto, a Internet arranjou uma solução prática e simples para espantar os problemas e desânimo das pessoas. Colocar um cropped virou um grito de liberdade!

E também a peça de roupa do momento, embora tenha surgido na década de 30, usado principalmente nas roupas de banho. Já na década de 80, virou tendência, no estilo DIY,  Do it yourself – faça você mesmo, quando “uma galera” passou a tesoura nas suas blusas longas. A indústria da moda, percebendo esse movimento, caiu em campo; o cropped voltou repaginado, atendendo a todos os corpos, ajudando  mulheres a se desligar das pressões estéticas.

A moda é assunto sério, embora para alguns seja apenas um pedaço de tecido. Dois psicólogos de uma universidade americana cunharam o termo ” cognição indumentária” para explicar como a roupa que usamos tem interferência sistemática nos processos psicológicos de cada um, transmitindo sensações, como auto-estima e poder. Quem nunca “se sentiu” com uma roupa?

A primeira semana de moda do mundo aconteceu em 1943, chamada de “Press Week”; tinha como objetivo apresentar as coleções parisienses para quem não pôde viajar até a capital francesa, depois da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, muito mudou; atualmente a maior revolução da moda  é oferecer aos clientes as roupas que acabaram de “passear” nas passarelas. No ano passado a griffe Burberry instituiu os desfiles “see-now-buy-now”, “veja agora, compre agora”, resultado da popularização das redes sociais e dos tapetes vermelhos, que transmitem ao vivo os desfiles, despertando no consumidor o desejo de adquirir  imediatamente o que foi apresentado.

Um estudo feito sobre o impacto das redes sociais e o consumo  concluiu que o consumidor está cada dia mais imediatista e não tem paciência para esperar que os lançamentos demorem meio ano para chegar às lojas. Esse fenômeno comportamental deve-se ao fato de hoje tudo ser muito rápido e os “looks” serem exibidos à exaustão, tornando o produto praticamente “fora de moda”, seis meses depois, ao chegar nas araras. No Brasil, as próximas semanas de moda terão apenas desfiles com roupas que possam ser comprados imediamente. Alguns fabricantes estão pessimistas,  dizem que é um tiro no escuro, que não sabem se o produto vai ser bem aceito, além do risco de um investimento alto. Realmente não é fácil fabricar algo que agrade multidões, além, óbvio, do fator econômico, que tanto atinge o empresariado, quanto o consumidor. Com a pandemia e o isolamento, o setor sofreu bastante.

A industria da moda é a segunda mais poluente do mundo, perdendo apenas para o setor de petróleo. Essa posição no ranking é creditada ao “fast fashion”, nome dado pela rapidez que as grandes marcas lançam novas coleções, hoje, a cada duas semanas. O “fast fashion” é um conceito no qual a produção, o consumo e o descarte de uma peça de roupa tem um ciclo muito rápido. O lixo têxtil, resíduos oriundos das confecções, não tem valor no mercado de reciclagem e terminam no lixão.

Contrapondo com a rapidez do “fast fashoin”, já existe o movimento “slow living”, que consiste em um estilo de vida mais tranquilo e cuja filosofia pode ser utilizada em vários setores. O “modo slow” nasceu na Itália, em 1986, quando um ativista protestou contra a abertura de um restaurante fast food em Roma. Ele pregava o “slow food”, que consiste numa alimentação sustentável, prestigiando os produtores locais. Vale lembrar que o movimento “slow” não quer dizer moroso, nem muito menos preguiçoso. Ele oferece a possibilidade de vivermos o presente, pois geralmente projetamos o futuro, ou relembramos o passado, enquanto que a correria nos desliga do presente, que é o único tempo que a vida acontece de verdade. Na moda, o “slow fashion” é baseado em reduzir as compras para  um número menor de peças, mas com estilo e qualidade de  produtos. Esse movimento tem por objetivo convidar as pessoas a repensar seus hábitos e estilo de vida, pois a correria do dia a dia, além da quantidade de informações a que somos submetidos, resultou no adoecimento das pessoas e, não por acaso, a ansiedade é a doença do século.

Assisti a um show de Marília Mendonça, onde ela estava vestindo um cropped;. em determinado momento ela disse:

– Eu queria dizer que hoje eu estou inaugurando o uso de um cropped na minha vida. É por que estou magra? Não, não é.  Eu não estou magra. Eu estou foda-se!

A plateia foi ao delírio e esse vídeo viralizou rapidamente, como tudo que Marília fazia. Segundo ela, a decisão de usar a famosa blusinha com acabamento acima do umbigo significava a liberdade de poder vestir o que gosta e não se importar com críticas. E cá pra nós, ela soube, como ninguém, levantar o ânimo da mulherada. Ela e Gabi, que criou o @menibadocroped e desde então a lista para o uso da frase não pára:

-Está infeliz? Reaja e coloque um cropped!
-Está com problemas financeiros? Reaja e coloque um cropped!
-Está preocupada com o futuro da humanidade? Reaja e coloque um cropped!

E eu pergunto: ficou com preguiça de ler essa crônica? Reaja e coloque um cropped! Eu vesti o meu para lhe escrever!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: ANATOMIA DO ÓDIO, POR ANA MADALENA

Toda quarta-feira é dia de CRÔNICAS, aqui no Blog do Saber e hoje temos mais uma inspirada, divertida empolgante crônica da nossa querida, agora free lancer, Ana Madalena, sob o título “Anatomia do Ódio”, que trata das suas experiências e peripécias pelo mundo cinematográfico, aproveitando par comentar o extravagante episódio ocorrido na festa do Oscar em Hollywood nesta segunda-feira. Portanto lhe convido a ler mais essa instigante história.

ANATOMIA DO ÓDIO


O cinema entrou na minha vida muito cedo;  lembro que, quando criança, meu pai comprou um projetor e nos finais de semana assistíamos filmes na parede da sala. De lá para cá muito mudou, menos meu gosto pela sétima arte. Houve um tempo em que fui “resenheira”,  quando, por hobby, escrevia para o jornalzinho de uma locadora de vídeo. Eu recebia, com alguma antecedência, uma fita que ainda levaria um tempo para ser comercializada e a assistia, tendo o cuidado de prestar atenção nos mínimos detalhes, principalmente na fotografia e diálogos. Desde então, aprendi a apurar meu olhar e valorizar muitos profissionais que eu sequer imaginava que eram tão importantes numa película. Por isso eu sou dessas que, quando termina o filme, ainda aguardo um pouco para ler o nome de algumas dessas pessoas. E não perco uma premiação sequer, embora minha torcida nem sempre seja a de quem recebe o Oscar.

Das locadoras de vídeo para cá, muito se transformou, principalmente a forma de consumirmos filmes; os empoeirados DVDs e fitas de vídeo fazem parte de um passado para lá de esquecido. O cinema agora está também dentro de casa, com um catálogo de títulos sem fim, fazendo jus às novas smart TVs, de tamanhos e imagens de cinema; ela voltou repaginada para a sala de estar, reunindo família e amigos, em torno de mais de dez títulos de streaming, nome dado a essa tecnologia, onde podemos ter acesso a filmes e séries num click. Confesso que sou muito apegada às séries e sofro quando termino de maratonar, imaginando se encontrarei outra tão boa quanto…. Por sorte, o algoritmo, assim como eu, é muito carente e está sempre à postos, sugerindo novos títulos. Ele acerta na maioria das vezes!

Há uns vinte anos surgiu o ” Framboesa de Ouro”, prêmio que elege os piores da indústria ( o Oscar já existe há mais de 90 edições). No inicio, dessa premiação, “ganhar” um Framboesa era  insulto e humilhação, mas, estranhamente, de uns anos para cá,  mais precisamente com as redes sociais, o prêmio ganhou certo status, uma vez que é escolhido por críticos de cinema, jornalistas e internautas, esses últimos responsáveis por falar tão mal dos ganhadores, que acabou “catapultando” esses títulos a um novo nicho de mercado. A expressão ” falem bem, falem mal, mas falem de mim” caiu como uma luva para os ganhadores. A indústria observou que quanto mais o filme era “achincalhado”, mais aumentava sua audiência, no estilo “vamos todos odiar juntos”. Já existem até produtos culturais sendo feitos para serem odiados e outros, que foram fracassos no cinema,  redescobertos no streaming, alguns recebendo a classificação de “cult”.

O ódio, acredite,  é o novo pretinho básico! E, em se tratando de engajamento, já foi comprovado que o ódio une mais do que o amor, vide a fama do “hater profissional”, pessoa que se empenha em criticar nas redes sociais de forma sistemática. Alguns o fazem por puro prazer, outros projetam suas frustrações e sentem necessidade em falar mal; como num vício , onde só conseguem  sentir felicidade,  odiando. Infelizmente o número de haters só aumenta.

A “Terra de ninguém”, alcunha do ambiente cibernético, é a garantia do anonimato para a propagação do ódio. Vale lembrar que existe uma lenda sobre a origem do Facebook, que teria sido idealizado por Zuckerberg para ser um lugar de conhecer garotas de forma mais rápida e para denegrir a imagem da sua ex-namorada, corroborando a ideia que, desde o princípio, a rede social teve como um dos objetivos humilhar e difamar as pessoas. Também vale ressaltar que o preconceito  e a xenofobia sempre existiram  mas, com as redes sociais, a intolerância elevou esses preconceitos a  níveis inimagináveis.

O Instagram foi concebido para ser um álbum de fotos, que podiam ser curtidas e comentadas. Anos depois, outros recursos foram criados e, como por encanto,  apareceram os influencers digitais, que, com sua popularidade, transformaram a forma de vender e consumir produtos. O Instagram também virou um comércio e o ódio aumentou! Os “influencers” começaram a ganhar fortunas com a venda de produtos,  elevando o valor do post a patamares nunca vistos; muitos deles viraram milionários, tanto na conta bancária, quanto em seguidores. A relação de trabalho também mudou; hoje um influencer pode conseguir um contrato simplesmente por ter uma legião de pessoas que o segue. As empresas, sabedoras desse poder, têm nas redes sociais uma extensão do currículo do candidato; com um clique podem fazer um raio X, extraindo informações de comportamento, envolvimento político e cultural. Nunca a humanidade se expôs tanto!

Segundo a Bíblia,  a vaidade, um dos sete pecados capitais,,  é algo enganoso, que leva a ostentação e idolatria. Anda de mãos dadas com o exibicionismo, um prato cheio para as redes sociais, ávidas por novos usuários que  publiquem algo e postem fotos, recheadas de filtros. A resposta é imediata, tanto para elogiar, quanto para criticar. Dependendo do conteúdo, o post é viralizado, de tal forma que até em Marte é compartilhado. Se há uma coisa que os haters fazem muito bem, é o linchamento virtual. Mas existe luz no fim do túnel…

As redes sociais se alimentam de notícias e de imediatismo; o linchamento de alguém  é logo esquecido. A rotatividade de odiados e de cancelamentos é enorme; os paparazzi deram início a essa tarefa tempos atrás, principalmente no Reino Unido e em  Hollywood. Hoje, com a facilidade do celular, qualquer pessoa pode contribuir para o círculo do ódio. O lado bom dessa história é que existe um tempo útil para uma notícia permanecer sendo comentada, até porque em qualquer esquina da vida terá sempre alguém dando motivos para ser odiado.

A festa do Oscar foi domingo passado e, como era esperado, homens e mulheres desfilaram no tapete vermelho, vestidos para uma grande festa. O glamour finalmente estava de volta; depois de dois anos sem a celebração presencial! Estava tudo perfeito, até que… Pow! Um Will Smith, enraivecido com uma piada de extremo mau gosto feito pelo comediante Chris Rock, não se conteve e estapeou o apresentador. A plateia, assim como eu, ainda ficou alguns segundos sem saber se o tapa  fazia parte da apresentação… Não, não fazia. As redes sociais e todos os canais de televisão foram à loucura e Will Smith é o mais recente escândalo da vez. Quanto ao apresentador, ele está tranquilo, afinal ficou famoso pelo seriado que escreveu ” Todo mundo odeia Chris”.

Will ganhou o Oscar na categoria de melhor ator, pouco tempo depois do tapa. Fez um discurso emocionado e, sabedor do código de conduta da Academia, pediu desculpas a todos. O teor da piada e o porquê da reação, todos já sabem nos quatro cantos do mundo! O tribunal da Internet imediatamente tomou partido; não há um ser humano na face da Terra que não saiba quem é Will, Chris, Jada e alopecia, portanto encerrarei por aqui, mas voltarei a qualquer momento comentando um novo escândalo!

Até a próxima! Espero que você tenha odiado essa crônica e viralize! É disso que se trata…
Ana Madalena
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POESIA: AS APARÊNCIAS ENGANAM, POR BRÁULIO BESSA

Continuando a nossa homenagem ao icônico Bráulio Bessa, apresentamos nesta terça-feira, aqui na coluna POESIA , mais uma soberba performance desse incrível poeta declamando “As aparências enganam”, de sua autoria. Um show que vale a pena ver e/ou rever.

Publicado em 7 de out de 2018

Fonte: https://www.youtube.com/

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CRÔNICAS: TALVEZ UMA HISTÓRIA DE AMOR, POR ANA MADALENA

Hoje é quarta-feira e quarta-feira é dia de CRÔNICAS com a criativa e talentosa Ana Madalena, que vem de “Talvez uma história de amor”. Essa crônica relata sobre um relacionamento que poderia ter sido uma linda história de amor, mas, numa determinada altura, foi interrompido por muitos anos e depois teve uma nova oportunidade de vir, finalmente, a se materializar. Convido você a ler essa emocionante história nas palavras dessa talentosa autora!

Constelação Sistêmica Familiar - Movimento interrompido | Villa do Bem

“Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço 
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada”.
      Metade, Oswaldo Montenegro 

Talvez uma história de amor

Viu o bilhete. Ele sempre fora muito enigmático; tinha a mania de florear uma simples frase, para não falar daquele vicio de fazer aspas com os dedos das mãos. Releu pela última vez e depois o rasgou em mil pedacinhos.
Olhou o armário vazio. Ele tinha levado até o botão da camisa que ela tinha posto no cantinho da gaveta. Não ficaria temperando tristeza, era radical no amor; ou tudo ou nada!  Deu um suspiro, desses que  prometem uma virada emocional. Olhou ao redor e viu o vinho caro que ele comprara para impressionar. Deve ter retirado da adega mas esquecera de levar. Pegou uma taça e se serviu, enquanto decantava seus sentimentos. E quanto mais bebia, mais a coragem líquida fazia efeito. Ligou para o escritório e disse que tiraria uns dias de férias. De repente sentiu saudades de sua infância.
Estacionou o carro em frente à pousada de D. Celeste. Da calçada já dava para sentir o aroma do café. Ainda era cedo, mas alguns hóspedes já estavam no salão, onde ficavam as mesas com toalhas floridas. Uma mocinha, ainda sonolenta, anotava os pedidos: ovo caipira, pão assado, queijo derretido e suco. O café e o leite, assim como as frutas, estavam numa mesa, perto da porta.
D. Celeste apareceu para dar bom dia.  Estava sempre arrumada; os vestidos com golinhas de renda lhe conferiam uma sofisticação em meio a tanta simplicidade. Os cabelos, todos branquinhos, presos num coque, de longe pareciam algodão. Tomaram café juntas, enquanto colocavam as novidades em dia. Patrícia segurou as mãos de D. Celeste, que foi a melhor amiga da sua mãe. Tentou
resgatar um tempo feliz, quando a vida passava lentamente. Observou as duas grossas alianças na mão esquerda envelhecida e lembrou de Sr. Manoel.  Todos estavam partindo…
Outros chegando, pensou, quando viu estacionar um ônibus de excursão. Não lembrava que era o fim de semana da festa da padroeira.
 -Todos os meus filhos estão vindo, inclusive Rafael. Vamos para a fazenda; no domingo faremos um churrasco dançante; contratei o compadre da sanfona, lembra dele? Perguntou D. Celeste.
Claro que lembrava, mas seu pensamento estava em Rafael. Foram namorados de adolescência, quando ainda moravam naquela cidadezinha. Tanta coisa mudou desde então…
Escolheu uns jeans escuros, uma camiseta branca e fez uma maquiagem leve. Prendeu o cabelo, pois estava muito quente, embora aquela época do ano costumasse esfriar à noite. Pegou uma pashmina, por precaução. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. A possibilidade de rever Rafael era revigorante.  Pegou o carro e seguiu pela estradinha de barro, que tão bem conhecia. Dali a pouco vislumbrou a fazenda, um casarão branco, de portas e janelas azuis.
Rafael estava na entrada, recebendo os convidados. Ela tentou respirar, mas parecia que tinha gasto a cota de oxigênio da semana. A última vez que se viram foi quando ele lhe disse que passaria uns três anos em Boston, mas que voltaria para ela. Esses três anos viraram oito. Na época não pensou em seguir com ele, embora ele tivesse proposto. Ela estava começando uma carreira, não jogaria tudo para o alto. E cada um seguiu sua vida.
Ele abriu um enorme sorriso! E disse que estava definitivamente de volta. Patrícia fingiu que a informação fosse aleatória e respondeu qualquer coisa, com o coração aos pulos.  A presença dele ainda mexia muito com ela… Sua cabeça estava pensando mil coisas; havia um hiato de tempo entre eles, muita coisa tinha acontecido desde que ele partiu, além deles estarem amadurecidos, serem praticamente outras pessoas, com visões de vida diferentes…
 -Vamos dançar?
Ela aceitou de imediato. E nos braços de Rafael, resolveu que seria menos razão, que se deixaria levar. Quem sabe o destino não estaria lhe devolvendo sua história de amor…
Ana Madalena
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CRÔNICAS: EM CONSTRUÇÃO, POR ANA MADALENA

Nossa gente! Ana Madalena está de volta nesta quarta-feira, aqui no Blog do Saber, com mais uma das suas deliciosas e aprazíveis CRÔNICAS para nos encher de entusiasmo pela vida ao longo de uma viagem chamada “Em Construção”. Então, convido você a ler, refletir e curtir esses maravilhosos momentos.

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Em construção


Algumas pessoas têm uma paz frágil, daquelas que podem ser quebradas a qualquer momento. Elas se irritam facilmente e passam os dias reclamando da vida. E quando não reclamam sobre isso e aquilo,  fazem sobre suas “supostas” inadequações, sempre comparadas às vidas dos instagramáveis, cheias de filtros e momentos felizes. Ah, esses moços….Para eles  o mundo se resume ao peso, altura, cabelo e bens dos outros. Coitados, como sofrem! Eu prefiro ter um olhar de forasteira para a vida, não me apegar a certas coisas, principalmente àquelas que não posso dar jeito. Olho com distanciamento, procuro não me envolver e apenas observo. Poucas coisas me tiram do sério, mas se pudesse elencar, em primeiro lugar seria gente sem senso de humor.  A vida já é tão dificil, imagine ter que compartilhar com pessoas pesadas…

Eu tenho uma visão recorrente; uma menina de uns sete anos, sentada ao lado da minha cama. Algumas vezes ela também aparece enquanto dirijo, mas apenas quando faço  grandes percursos. Acho que ela não gosta de engarrafamentos, nem de sinais de trânsito, principalmente de quatro tempos. As vezes ela faz com que me sinta um nada, do tanto que critica a forma como faço as coisas.  Óbvio que, para aquela criança, muito do que me tornei é motivo de alguma observação. Nessas horas me sinto presa em um espartilho, cada vez mais apertado, tendo que controlar o que digo, o que faço e até como acho graça das coisas. Aqueles olhos não me enganam, são críticos demais. Ela, sou eu ontem. Ainda bem que não segui sua cartilha; eu seria detestável.

Existem muitas concepções de mundo, assim como existem concepções de pessoas. Eu não gostaria de ter sido concebida pelas normas da ABNT;  qual a graça de ser toda certinha e de vez em quando ter uma notinha de rodapé?  Infelizmente, hoje tudo é gourmetizado, até comportamentos. A impressão que tenho é que ninguém é mais só uma pessoa, tem que ter uma definição. Tenho um amigo que é um sujeito chato de nascença, um reclamão. De uns anos para cá, ele brinca que se identificou com uma categoria de nome esquisita,  dessas que justificam comportamentos “complicados”.  Ele surfa nessa onda e morre de rir, tendo até  o displante de justificar seu comportamento ao seu signo, que por óbvio não vou expor aqui. De toda forma, agora ele  virou um neologismo, mas não no bom sentido. O pior é que fui eu quem trouxe para trabalhar na equipe e agora respinga em mim a chatice dele. Vários colegas já chegaram para reclamar e,  só não falam mais, por que ele é muito eficiente no que faz, além de não medir esforços em ajudar. Ninguém é perfeito.

Eu tenho manias, mas nenhuma delas está no catálogo das DSMs, o Vade Mecum da psiquiatria, onde estão catalogados mais de 300 transtornos/síndromes. Talvez eu não as tenha encontrado porque conheço apenas pelo nome genérico, como por exemplo,  mania de arrumação, simetria e limpeza. Adoro quando alguma pessoa me pede para arrumar armários e fazer uma boa faxina. O que para a maioria é um tédio, para mim é a Disney! E quanto a simetria, essa vem do olho crítico daquela menina que me acompanha; impossível me conter quando vejo quadros tortos, mesmo que milimetricamente, ou estantes com livros desarrumados. Já me enquadraram como “portadora” de Toc, denominação  que conheci há muitos anos, quando Roberto Carlos, o rei, recebeu esse diagnóstico. Ao contrário dele, tudo o que faço agiliza minha vida e não me mobiliza, E antes que me julgue, esclareço que, longe de mim desmerecer as doenças sérias, mas, cá pra nós, algumas pessoas são apenas malas sem alça. É muito difícil de engolir quando alguém justifica o comportamento dizendo ser assim ou assado, por descender de família italiana, alemã ou espanhola, mesmo quando, na sua árvore genealógica, essa raiz familiar esteja há anos luz!

De uns tempos para cá, muito se fala sobre a síndrome do impostor. Dessa eu não sofro! O que eu faço bem feito, eu mesma revelo, sou minha propaganda em outdoor. E, como consequência, exerço a auto meritocracia, me presenteando. Nao tenho pudores em me elogiar, nem em receber elogios; aceito na maior felicidade. Fico impressionada em como as pessoas se constrangem quando são elogiadas, acho que sofrem de eclipse da auto imagem, expressão que ouvi dia desses, de uma pessoa que estava numa mesa ao lado da minha, num café. Sim, eu tenho mania de escutar conversas dos vizinhos. É algo que justifico por ter um ouvido sensível, que capta até o voo da borboleta. No geral ouço tudo e guardo para mim, mas tem vezes que é impossível não dar uma opinião. Essa moça, a tal da eclipse da auto imagem, queria mesmo era elogios. O rapaz que estava com ela, passou uma meia hora dizendo como ela era linda, as mãos macias, os cabelos sedosos… Ela, numa fala que mais parecia um gemido de gata, ficava dizendo que não achava nada daquilo que ele dizia, e por fim soltou essa de eclipse. Não me contive e acabei me metendo na história. Perguntei o que significava tal expressão e ela, assombrada, não soube dizer. A pessoa escuta uma coisa e sai reverberando, fazendo charminho, sem sequer pesquisar. Isso eu não admito! Se quer fazer gênero, que o faça com respaldo, com conhecimento. Sinceramente, não tenho paciência para certos tipos!

Saí dali furiosa comigo mesma; não devia ter me metido naquela história. O pior é que o rapaz, em vez de reconhecer o típinho de mulher que ele acompanhava, tomou as dores. Joguei na cara dele um “vocês se merecem” , quando senti alguém me beliscando. Era a menina que eu fui ontem; apareceu para me passar uma descompostura. Irritada, e querendo me ver livre dela, ofereci sorvete. Toda criança gosta!

A fila estava grande, umas dez pessoas na nossa frente, o que permitiu que tivéssemos tempo para trocar algumas farpas. Eu respirei fundo e perguntei qual sabor ela queria.
– Que pergunta boba, Ana. Você está cansada de saber que é morango.
O rapaz, que já estava pegando a casquinha, informou que tinha “acabado de acabar” mas que tinha outros trinta sabores….

A menina deu um chilique! Esperneou, bateu no balcão, fez uma cena. Eu, com meu olhar crítico, disse-lhe irônicamente:
– Que pena! Bem na sua vez!
E confidenciei no seu ouvido que ela tinha muito que aprender. A vida ainda lhe apresentaria desafios, frustrações e muitas raivas, piores, muito piores do que não ter o sabor do sorvete preferido. E combinamos de não nos criticarmos, mas ajudar-nos. Ela, com um olhar menos crítico, mas com lágrimas quase transbordando falou:
-Tá certo, Ana. Vamos ser boazinhas. Eu fico irritada porque as vezes eu não entendo como você virou uma pessoa tão diferente de mim…
– Calma, Aninha. Você tem uma longa jornada pela frente, muito para aprender. Nós somos seres eternamente em construção. Em algumas coisas seremos mais tolerantes, em outras nem tanto. Assim é a vida. E que tal um sorvete de pistache? Hoje é o meu preferido! Até isso muda…
– Eca, essa coisa verde? Vou querer de flocos.

E assim terminamos o dia, cada uma com seu sorvete, trocando ideias sobre a vida. Ela relembrou algumas coisas que eu fazia e eu contei no que me tornei. Rimos bastante! E concordamos que estaremos sempre em construção, um tijolinho por vez! Selamos a paz.

Ana Madalena
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POESIA: INSPIRAÇÃO, MARIO DE ANDRADE, PAULICEIA DESVAIRADA, 1922

O oitavo poema mais importante da literatura brasileira, nessa série dos 10 poemas mais importantes, é Inspiração de Mario de Andrade, Pauliceia Desvairada de 1922, poeta da 1ª geração do nosso modernismo, que é um hino de amor a cidade de São Paulo. No vídeo a seguir é declamado por Paulo Roberto Brito Pimentel. 

Fonte:

 

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POESIA: POR AMOR DE ALLAN DIAS CASTRO

POESIA: POR AMOR DE ALLAN DIAS CASTRO
Allan Dias Castro, como nasce um poema

Nesta sexta-feira você vai ver, ouvir e curtir o dos poemas do grande poeta Allan Dias Castro, recitado por ele, que se chama “Por Amor”, onde ele indaga: por que continuar depois de uma perda? Então comece bem a sua sexta-feira assistindo a essa pérola de POESIA.

Fonte:

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CRÔNICAS: A INAUGURAÇÃO DA COLUNA CAPITOLINA, POR ELZA BEZERRA

Na nossa coluna CRÔNICAS desta sexta-feira uma história super, hiper bem contada pela talentosa escritora norte riograndense, lá de Currais Novos, no nosso querido Seridó, Elza Bezerra, sobre a façanha da esquadrilha de hidroaviões aérea italiana, sob o comando do General Italo Balbo, Ministro italiano da Aeronáutica, que nos idos de 1931 fez a travessia do Atlântico Sul e pousou no Rio Potengi com seus 10 hidroaviões.  A Inauguração da Coluna Capitolina, trazida pelos italianos foi o ápice da comemoração. Leia essa crônica maravilhosa e conheça um pouco mais da nossa história.

A INAUGURAÇÃO DA COLUNA CAPITOLINA

 

Extra, extra! Os hidroaviões foram vistos sobrevoando a ilha de Fernando de Noronha; imediatamente os aparelhos radiotelegráficos fizeram a notícia chegar a Natal.

Quatro horas da tarde do dia 06 de janeiro de 1931, a população natalense correu ansiosa para as margens do rio, aguardando a chegada da esquadrilha aérea italiana, sob comando do General Italo Balbo, Ministro italiano da Aeronáutica, que fazia a travessia do Atlântico Sul.

Dos quatorze hidroaviões S55 que partiram de Bolama (Guiné-Bissau), após dezessete horas de voo, dez aterrissaram sobre o Potengi, próximo ao porto de Natal e seus tripulantes foram saudados efusivamente por prolongadas buzinas de carros, acenos de chapéus e repicar dos sinos da cidade.

Recebido pelo major Nery da Fonseca, representante do Ministério do Exterior, e demais autoridades locais, o General italiano e o Alto Comando foram acomodados na Vila Cincinato (antiga residência dos Governadores na Rua Trairi) e os demais oficiais na Escola Doméstica e no edifício da Alfândega Nova.

A façanha foi comemorada com telegramas de congratulações do Rei italiano, Vittorio Emanuele III; do Presidente do Conselho de Ministros da Itália, Benedito Mussolini; do chefe do governo provisório da República, Getúlio Vargas, e várias autoridades brasileiras e estrangeiras.

Correio da Manhã (RJ) | Edições de 07, 08 e 09 de janeiro de 1931 com detalhes sobre a travessia aérea

Entre 6 e 9 de janeiro, o General Italo Baldo e os demais aviadores cumpriram intensa programação social na capital potiguar, que incluíram recepção oferecida pelo Interventor Irineu Jofilly, jantar no Aero Clube, concerto de piano, coquetéis, missa campal e benção de monumento.

Em 08 de janeiro, após uma missa campal na esplanada do Porto, o General Balbo falou em nome da Itália, oferecendo o monumento em homenagem a Carlo Del Prete. Trata-se da Coluna Capitolina, trazida especialmente para agradecer ao povo do Rio Grande do Norte a hospitalidade oferecida aos italianos Carlo Del Petre e Arturo Ferrarin, após a travessia do Atlântico Sul, realizada em 05 de julho de 1928, quando pousaram na praia de Touros, devido às más condições de visibilidade da pista de Parnamirim.

No dia 09 de janeiro de 1931, a esquadrilha partiu com destino a Bahia e depois ao Rio de Janeiro, onde foi recebida com euforia na então capital federal. Por enquanto, estava selada a boa relação entre a Itália de Mussolini e o Brasil de Getúlio Vargas no novo tabuleiro geopolítico pós Primeira Guerra Mundial e Natal, como ponto estratégico, seria cobiçada pelas potências mundiais.

A Coluna Capitolina foi inaugurada na esplanada do Cais do Porto, com os dizeres em italiano: “Trazida de um só lance sobre asas velozes, além de toda a distância tentada, por Carlo Del Prete e Arturo Ferrarin, a Itália aqui chegou a 5 de julho de 1928. O oceano não mais divide e sim une as gentes latinas do Velho e Novo Mundo”.

Inauguração da Coluna Capitolina no cais do Porto em Natal/RN
General Italo Balbo inaugurando a Coluna Capitolina após missa campal

Em 1935, o movimento comunista de Natal derrubou a coluna alegando tratar-se de um monumento de um governo fascista. A coluna permaneceu em lugar ignorado até ser reencontrada e novamente erguida na praça João Tibúrcio, depois seguiu para a Praça Carlos Gomes, no Baldo. Por fim, foi chantada no largo Vicente de Lemos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, onde hoje se localiza.

Coluna Capitolina no largo Vicente de Lemos no IHGRN

Post Scriptum: Dos quatorze aviões da esquadrilha, dois acidentaram-se na partida de Bolama, vitimando cinco tripulantes. Outro teve problema no radiador próximo aos rochedos São Pedro e São Paulo, amerissou e a tripulação foi resgatada com vida por um dos cruzadores da marinha italiana que acompanhava por mar a travessia dos aviadores. O quarto também teve problema próximo a Fernando de Noronha. Ao final, os dois hidroaviões foram consertados em Fernando de Noronha e chegaram dois dias depois a Natal. Os detalhes estão nas páginas do Correio da Manhã.


Para saber mais sobre o voo histórico de Carlo Del Petre e Arturo Ferrarini, acesse o post do historiador Rostand Medeiros, clicando aqui: O VOO DE ARTURO FERRARIN E CARLO DEL PRETE A NATAL EM 1928 E O NOSSO MAIS IMPORTANTE PRESENTE


Aeronautica Militare – 1930 la “1ª Crociera Atlantica” direzione Brasile con 14 idrivolanti S55Fonte: blog de Elza Bezerra
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POESIA: ANTÍFONA DE CRUZ E SOUZA É O 7º POEMA MAIS IMPORTANTE DA LITERATURA BRASILEIRA

Nesta terça-feira, aqui na coluna POESIA, continuamos exibindo os 10 poemas mais importantes da literatura brasileira e chegamos ao 7º, que é o poema “Antífona” de Cruz e Souza, representante do simbolismo, que se opõe ao parnasianismo. Uma escola que busca a sonoridade das palavras. Então aproveite para conhecer mais e melhor esse poeta maravilhoso.

Fonte:

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CRÔNICAS: O NOVO JARDIM, POR ANA MADALENA

Nesta quinta-feira, excepcionalmente teremos, aqui na coluna CRÔNCAS, mais uma canja da nossa colaboradora Ana Madalena, cujo título é “O Novo Jardim”. O tema gira em torno de como ficou o nosso cotidiano depois da pandemia de Covid-19, convivendo com as constantes  perdas, físicas, materiais e emocionais. Portanto convido você para ler a bem contada Crômica sobre perdas e ganhos em tempos de Covid-19. 

Blog | 10 Dicas de Jardim Para Sua Casa | São Bento Incorporadora

O novo jardim

Foi como um efeito dominó. Fomos caindo um por um, o que de certa forma não foi tão ruim. Pior seria se caíssemos todos de uma só vez! Quem cuidaria de quem? Melhor assim, com pausa para se acostumar, tanto com os sintomas, quanto com os olhares desconfiados; será que aquele inocente espirro era apenas um espirro inocente?
O primeiro a ficar doente é sempre o que anuncia o porvir e vira uma espécie de espelho para os outros. Como num ballet, faz iniciar uma coreografia de atração e repulsão: penalizados com o doente, os “saudáveis” têm a empatia de querer cuidar mas,  por outro lado, denunciam o medo, legitimo, de não querer se infectar! Isso, claro, quando o inimigo não tem o nome e sobrenome de Covid-19. A impressão que tenho é que o mundo está todo infectado! E assim, depois de dois anos nos escondendo atrás de máscaras e face shields, o vírus entrou na nossa casa, só não sei se pela porta, janela, ou se pelos dois. Meu tio disse categoricamente que o vírus tinha entrado pelo elevador. Do jeito que falava, com riqueza de detalhes, parecia que podia enxergá-lo a olho nu!
A primeira pessoa que tive conhecimento de ter sido infectada pelo Covid foi minha vizinha de rua; adoeceu no começo da pandemia, quando ainda não havia vacina e o medo era uma constante. Me preocupei, pois soube pelos porteiros que ela vivia sozinha; os filhos, já casados, moravam noutra cidade e o marido há muito havia “sumido”, para nunca mais voltar. Do meu apartamento, podia ver sua casa, a única de muro baixo, com portas de vidro e cortinas sempre abertas, o que me permitia ver parte da sua rotina. Todas as manhãs ela acordava bem cedo e se dirigia ao jardim; acho que conversava com suas plantas, principalmente as orquídeas, que ficavam ao lado do conjunto de jardim, uma mesa e quatro cadeiras de ferro, pintadas de branco, com almofadinhas azuis. Ali, ela tomava seu cafezinho e pegava sol, sua vitamina diária. Aos poucos, ela se tornou parte da minha vida, pois era a primeira visão que eu tinha pela manhã.  E, por isso mesmo, estranhei quando passados três dias, não a vi.
Mesmo apreensiva, resolvi me dirigir à sua casa. Abri o portãozinho e percebi que as plantas estavam sofrendo sem água e sem as conversas diárias. Descobri, no canto do muro, uma mangueira e comecei a aguar o jardim. As roseiras, murchas, logo se recuperaram!. A cada dois dias, eu ia cedinho para aquela casa e permanecia meia hora, absorta na tarefa que eu nem sabia que me fazia tão bem!
Até que um dia ela voltou, depois de quase um mês internada. Suas sobrancelhas arquearam quando me viram, no início da manhã, conversando com suas “amigas”. Disse-me que estava feliz,  não imaginava que alguém fosse cuidar de seus tesouros. E a partir daquele dia, combinei de, vez por outra, visitá-la.
-Venha sempre que puder! Vamos tomar um café juntas; eu gosto de conversar, trocar ideias! Voce sabe, quando se tem uma ideia, no mínimo se sai com duas. Pense em alguma coisa e vamos aprender juntas!
No início da semana passada pensei estar gripada, depois a garganta  começou a fechar e uma moleza foi tomando conta de mim.  Foram três dias péssimos, sem conseguir comer, beber, sequer falar. Só me restou ler, olhar minha amiga pela janela e escrever. Confesso que essa foi a primeira vez que pensei, de fato, na finitude da minha vida e como isso afetaria  minha família e amigos. No balanço geral, percebi que eles não estão preparados para me perder. Nem eu a eles.  Esse momento mais introspectivo credito às incertezas que vivemos. Desisti de ouvir tudo que me deixasse triste e resolvi fazer uma imersão nas séries. Coincidentemente, ou não, escolhi uma que trata do luto; apesar do tema, confesso que me rendeu boas risadas. Virei a noite maratonando “After life”, uma das melhores coisas que vi recentemente.
E, para minhas noites, adotei uma prática que Aristóteles fazia uso para permanecer acordado. Não, não eram energéticos, nem café! Vi a foto de uma escultura onde ele está sentado, lendo um livro, com uma bola na mão. Uma bola pequena, como as de tênis, mas com peso, com massa, como dizem os físicos. O objetivo era, quando estivesse lendo e, caso pegasse no sono, a bola cairia, fazendo barulho. Eu comprei umas bolas de gude e presenteei à minha vizinha, que por muitas vezes presenciei  dormindo profundamente, no seu horário de leitura. Na hora que falei  desse “truque”, me perguntou  o porquê de não usarmos essa bolinha para diversas situações da vida, como quando estivéssemos com alguém…. Ficaríamos concentrados somente naquela pessoa, sem nos preocuparmos com o entorno. A bola acordaria o coração!
Aquela observação me fez pensar… Infelizmente as pessoas não se concentram mais em nada, nem nelas próprias. Uma pena, até porque a atenção é a forma mais pura de generosidade. Hoje, as redes sociais vendem atenção e nós, bobos que somos, compramos essa atenção o tempo todo.
Tive um sonho recorrente nesse período de Covid; eu dirigia por uma estrada a beira mar, com os vidros abertos. Um dos meus braços e meu rosto ficavam para fora da janela, como se eu nunca tivesse sentido uma brisa na vida. Já tentei interpretá-lo, mas talvez não signifique nada, a não ser meu desejo que o calor, insuportável, dê lugar para temperaturas mais amenas. Por alguma razão, lembrei de olhar as plantinhas da minha amiga. Levei um susto quando vi as cortinas fechadas e nenhum jarro no jardim. Como que adivinhando meus pensamentos, o porteiro interfonou; disse que tinha uma notícia triste para dar… A minha amiga tinha partido dormindo, uma morte tranquila. E, sem ter noção da minha dor, começou a falar sem parar:
– Ela estava com problemas no coração e a filha veio passar uns dias com ela. Já levaram tudo da casa, acho que venderão para uma construtora. A rua agora vai ter prédio que nem presta! Era tão tranquilo quando vim trabalhar aqui… Agora é um entra e sai de carro nessa rua, uma zoada… Ah, deixaram uma encomenda para a senhora, foi a filha dessa senhorinha que faleceu. São umas plantas, estão no jardim daqui do  prédio. O rapaz da limpeza disse que na sua casa estão todos com Covid e ele tem medo até de recolher o lixo daí … Desculpe, mas foi o que ele disse…
O porteiro ainda falou mais alguma coisa, mas não escutei. Ele é desses que adora uma conversa, acho que por passar o dia numa guarita, isolado, confinado nos seus pensamentos, interrompidos aqui e ali pelo interfone.
Nós estamos saindo do covid. Agora o efeito dominó é ao contrario; todo dia um de nós fica cada vez melhor. Nesse período, refletimos muito sobre a vida e, realisticamente, concluímos que teremos de conviver por muitos anos com os vírus. Vamos redobrar nossos cuidados, tanto físico, quanto emocionalmente. E carregaremos bolinhas imaginárias para aproveitar cada momento das nossas vidas. Não vamos economizar na atenção e no amor!
Dedico essa crônica a uma grande amiga que partiu essa semana e, devido ao meu estado de saúde, não pude dar o último adeus. Ela, que adorava plantas e pessoas, deve agora estar  cuidando de um novo jardim!
Ana Madalena
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CRÔNICAS: O PRÓXIMO, POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira temos mais uma colher de chá da nossa querida Ana Madalena, aqui na coluna CRÔNICAS, que nos presenteou com mais um dos seus incríveis contos. Surpreendendo mais uma vez nos ofertou “O Próximo”, uma crônica que fala sobre uma amizade construída num momento de sufoco em plena chuva torrencial de verão. Convido você a ler, saborear, apreciar e curtir muitoooo!

O próximo

Onde eu estava mesmo? Desculpe, eu tenho perdido um pouco o fio da meada; o sol deve estar muito perto da terra!  Eu, uma pessoa em processo de derretimento, já estou  sonhando com o inverno, muito embora o inverno por aqui signifique apenas chuva. Não gosto de temperaturas extremas, por isso que me identifico com a primavera; infelizmente, com o aquecimento global, tudo está ficando muito esquisito; invernos mais rigorosos, chuvas torrenciais e calor escaldante. Tem lugares que acontece tudo isso num único dia e aí, não há saúde que aguente! Acho até que existe uma relação do tempo com o humor das pessoas e não estou falando da quantidade de luz; as pessoas estão estranhas mesmo!  Só para constar, eu respeito as escolhas e o algoritmo de cada um, até por que eu gosto de ter amizades com grupos totalmente diferentes, um samba do crioulo doido. É tão mais divertido! Acho entediante essa coisa de viver em bolhas, todos com o mesmo “modelinho”. Certo estava Nietzsche, quando disse que existem dois tipos de pessoas, as que correm atrás dos seus desejos e as que seguem o desejo dos outros. Com certeza não faço parte do cardume.

A melhor coisa das férias de verão são as conversas na varanda, o falar sem preocupações de julgamentos, fazer brincadeiras com tudo e com todos, como em um tempo quando os opostos ainda riam juntos. Infelizmente esses tempos estão cada vez mais raros; sinceridade virou polêmica; certa vez comentei qualquer coisa, uma bobagem, que nem lembro ao certo o que foi, e um coro reverberou nos meus ouvidos dizendo que aquilo não me pertencia, que não era meu lugar de fala. Lugar de fala? Era só o que faltava. Quer dizer que não posso mais falar sobre determinados assuntos porque não sou isso ou aquilo? Vou te contar viu, não estranhem se eu ficar muda; estamos criando muitos apartheids…

Ele morava numa casa que eu definiria como  uma arquitetura hostil para os olhos, mas instigante para o cérebro. Eu aplaudo quem sai do padrão estabelecido, padrão esse que é só uma satisfação para os outros. Eu, que tenho uma natureza curiosa, me perguntava o porquê alguém construiria uma casa com os fundos para a rua. Longe de ser uma crítica; era antes  uma necessidade de entendimento, embora eu meio que já sabia a resposta. A mesma que encontrei para minha vida.

Certa vez criticaram uma famosa colunista porque ela tinha uma cama na sala do apartamento, ao que ela ponderou:
– A sala é a melhor vista, o ambiente mais arejado e amplo. Qual o problema de ser o local onde durmo?

Confesso que desde aquele dia repensei a disposição da minha casa. Realmente não faz o menor sentido ter uma sala, onde, no meu caso, é um local de pouco uso,  podendo usufruir de um imenso quarto com janelões, até porque não tenho casa para os outros, nem para postar nas redes sociais.

Algumas vezes eu passava por ali, era meu caminho, quando fazia supermercado. E eu sempre observava  para ver se aparecia alguém. E, caso aparecesse eu, no mínimo,  fingiria estar perdida e pediria ajuda. Com sorte e com meu charme natural, seria convidada para entrar, beber um copo d’água, quem sabe até um cafezinho recém passado. Devaneios à parte, tudo que eu via era alguns caixotes, uns pneus e uma corda enrolada no tronco de um coqueiro anão.

Ah, antes que faça algum juízo de valor, digo logo que não me leve a mal; eu não estava querendo bisbilhotar a vida alheia, muito pelo contrário. Me leve a bem!  Meu propósito era conhecer alguém que não se incomodasse com o que  é estabelecido. Se eu pudesse adjetivar o que eu penso de pessoas como eu, fora de padrões, eu soaria um pouco pedante e cometeria uma irresponsabilidade elogiosa, logo eu, uma pessoa que não lida bem com elogios, embora há tempos não escute nada nem perto disso.

Chovia torrencialmente. Eu estava voltando para casa e, do nada, meu carro parou. Fiquei aflita, liguei o pisca alerta, abri a janela, mostrando o polegar invertido, tentando avisar que o carro estava enguiçado. Confesso que fiquei incomodada em como as pessoas ficam chateadas nesse tipo de situação. Em vez de oferecer ajuda, só recebi gritos de “saia do meio”, “vai colocar gasolina” e o pior de todos, “só podia ser mulher”. Encharcada, liguei para o seguro, quando vi alguém vindo em minha direção, usando capa de chuva e galochas. Disse que eu entrasse no carro e girasse a chave, que empurraria para não atrapalhar o trânsito. Agradeci e fiz exatamente o que me pediu. Conseguimos deixar o carro estacionado em frente…

Meu carro ficou exatamente em frente à casa de quintal para a rua. Apressei em pedir o guincho; não poderia ficar ocupando a entrada da casa. E, enquanto eu dava alguns telefonemas, percebi que a pessoa que me ajudou era um senhor de cabelos branquinhos. Ele abriu o portão e me convidou para entrar; disse que eu esperasse o guincho na sua casa. Eu sorri e entrei.

Uma vez me disseram que a verdadeira amizade não nasce das nossas carências, mas de nossas abundâncias. Abundância de atenção, cuidado, zelo, carinho e uma infinidade de coisas que inesperadamente reconhecemos na figura de um completo estranho. Estranho esse que também é popularmente conhecido como “o próximo”! Não preciso dizer que viramos amigos, mas essa é outra história… E antes que esqueça, uma correção: a citação “samba do crioulo doido” já não pode ser usada. Segue a forma politicamente aceita:
Samba do afrodescendente diferenciado em termos de seu juízo racional perfeito, assim considerado pelo padrão social hegemônico e patriarcal. Ufa!

Ja falei que estou derretendo? Aí quem me dera o verão fosse o apogeu da primavera…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: COXINHA DA ASA, POR ANA MADALENA

Em nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira temos mais uma divertida, inspiradora e original história contada pela sensacional Ana Madalena, que mais uma vez dá um show de criatividade e excelente enredo em “Coxinha da asa”. Então convido você a ler, apreciar e curtir esse belo conto da cena urbana.

Reforma deixa casa na praia mais arejada e clara | CASA.COM.BR

Coxinha da asa

Estávamos em um grupo animado, aproveitando os primeiros dias do ano. Fomos para a casa de praia de uma amiga, que gentilmente nos convidou. A casa, super moderna, tem uma decoração belíssima, em tons alaranjados e verde musgo.
Os funcionários usam uniformes; o do piscineiro, calça cáqui e camisa polo azul marinho; o do motorista,  exatamente o contrário.  Acho que eles combinam com as almofadas da área externa. Tudo é milimetricamente pensado. Em um cantinho do jardim, foi construída uma capelinha, onde toda manhã eu faço minhas orações. No lado oposto, fica a área de lazer, onde o churrasqueiro realça seus músculos numa camisa floral. Se perfilasse todos os funcionários, eu não saberia dizer qual o mais bonito. A  impressão que tenho é que foram escolhidos numa agência de modelos. Cá prá nós, eu estava me sentindo no filme “Comer, rezar e amar”, embora me restringi a comer e rezar, se é que você me entende. O mesmo não posso dizer…
A anfitriã nos convidou para sentarmos no terraço e sugeriu  que ficássemos sem o celular, a não ser que tivéssemos uma urgência. Eu adorei! Detesto conversar e as pessoas ficarem checando mensagens o tempo todo. Sempre fico desconfiada que sou “entediante”,embora o que realmente penso é que as pessoas estão cada vez mais deselegantes. Mas longe de mim levantar polêmicas. Jamais!
O churrasco atrasou um pouco. Confesso que estava morrendo de fome, principalmente porque passei a madrugada lendo, depois fiquei vagando pela casa e quando peguei no sono, era quase de manhã. Acordei as onze horas e, por óbvio, a mesa do café já tinha sido retirada. Comi uma maçã, embora não seja uma das minhas frutas preferidas.  Na verdade, sinto um rói roí no estômago, mas era o que estava à mão. Segui para a área da piscina, onde todos aguardavam o churrasco. No caminho, passei pela mesa de caipifrutas, que estava uma tentação! Não resisti e peguei uma de seriguela! Que sede!
O papo rolava solto, divertido, até que resolveram falar sobre questões mais profundas. Alguém disse que se arrependia de muitas coisas que tinha feito na vida e, para minha surpresa,  todos concordaram. Eu fui a única voz dissonante.
– Sinceramente, eu não me arrependo de nada do que fiz.
Caíram em cima de mim!  Disseram que eu queria ser auto suficiente, além de outras bobagens.
– Gente, o que fizemos no passado foi sob as circunstâncias do que estávamos vivendo; nossas escolhas dependeram do nosso grau de conhecimento à época. Se eu fosse analisar minhas ações com a maturidade que tenho hoje, provavelmente minha vida seria totalmente diferente.
Ainda dei alguns exemplos para justificar e consegui, com esforço, fazer-me entender. Depois dessa quebra de braço, surgiram outras questões:
– Vocês esconderiam um segredo de uma pessoa muito próxima? E bloqueariam amigos ou familiares?
Todos falaram ao mesmo tempo. Eu, dessa vez, preferi escutar, bebendo uma caipifruta de uva. E quando estava tentando “pescar” a fruta no fundo do copo…
– Ana, qual sua opinião?
Eu, que tinha abstraido, fiquei desconfiada do que responder.  Meio relutante, disse:
– Pequenos segredos são gestos de amor, assim como bloquear alguém. Eu evito dizer certas coisas que possam vir a atormentar uma pessoa próxima de mim. Prefiro guardar o segredo, desde que, no contexto, não prejudique a vida daquela pessoa. Por exemplo:  eu não diria a minha tia que o marido dela fuma escondido. A trabalheira que ele deve ter para ela não sentir o cheiro… E quanto a bloquear, diferentemente do que dizem por aí, acho uma benção. Eu até gosto quando me bloqueiam; evitam-se desculpas e explicações desnecessárias. Eu bloqueio sem o menor pudor! Quando vejo que uma pessoa pensa muito diferente de mim e que  não temos raízes para crescer numa amizade, eu peço desculpas e saio dessa relação. Simples assim.
Arrasaram comigo. Ninguém concordou com meu ponto de vista.  Nessa hora, liguei meu “modo sobrevivente” e só não fui embora porque estava morrendo de fome. O jeito foi beber outra caipifruta. Escolhi a de kiwi. Tinha pedaços enormes da fruta!
Resolveram jogar “dicionário”. A brincadeira consiste em escolher uma palavra “desconhecida” e cada jogador inventar um significado. Em cada rodada, todos recebem um papelzinho com a resposta certa, mas apenas um dos jogadores dirá a verdade. O objetivo é  caprichar na explicação e enganar, o mais convincente possível. É previamente sorteado o jogador que terá que apontar quem está dizendo a verdade;  se errar, sai do jogo. A pessoa responsável por escolher as palavras participa apenas como “apresentador”.
Não contei para ninguém que sou perita nesse jogo. Consigo montar um contexto em torno de uma palavra, com riqueza de detalhes. Comento a origem e etmologia da palavra, ao ponto de qualquer um cair na minha lábia!  Algumas das palavras que saíram e enganei direitinho foram: acepipes, eutróficos e néscio, essa última dei uma explicação tão convincente do que “não” era, que quase acreditei na minha versão.
Os jogadores eliminados ficaram irritados. Em vez de elogiar minha performance, meu poder de convencimento, preferiram me tirar do jogo.
– Ana, você mente muito bem. Você é assim só no jogo ou na vida também?
Fingindo distração e bebendo uma caipufruta de morango, respondi:
– A mentira é fundamental para vivermos.  Claro que existem mentiras e mentiras. Na maioria das vezes eu minto amorosamente. Eu jamais diria a minha mãe que encurtei o telefonema porque estava com preguiça de ouvir as mesmas coisas. Prefiro listar uma série de afazeres, pois ela mesma acaba pedindo desculpas por estar atrapalhando. Compenso noutro dia, quando faço uma visita para conversamos longamente. Todos ficam felizes.
-Minha nossa, como você tem coragem de confessar essas coisas? Quem em sã consciência diz que mentir é fundamental para a vida?
-E não é? Mas se você não concorda, tudo bem. Não estou aqui defendendo minha opinião, mas o direito de tê-la! E, digo mais: além de mentir, reconheço um mentiroso de longe. Aliás, sou especialista! Alguns merecem até o selo da Anvisa! Só aqui tem…
Não terminei a frase. A dona da casa me tirou de circulação. Foi melhor assim. Eu não me controlaria e descascaria todo mundo. O álcool também já estava subindo na minha cabeça…
Gentilmente, ela sugeriu que eu fosse embora. Mas como? Não ficaríamos até o feriado? Apelei!  Disse que não poderia dirigir, que tinha bebido, tentando fazer hora para ficar para o almoço. Que fome! Ela disse que mandaria um dos funcionários conduzir meu carro.
– Qual funcionário? O seu amante da noite, o motorista do seu marido? Ou o piscineiro, que entra no seu quarto logo cedinho?
– Como ousa?
– Noite passada vi a movimentação de vocês na casa. Seu quarto é uma festa!  Fico imaginando se seu marido também não apronta nessas viagens a trabalho… Mas não se preocupe; esse segredo é nosso. Lembra que falei que segredos são gestos de amor? Por falar em gesto, você poderia ver se já saiu a coxinha da asa?
Ana Madalena
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CRÔNICAS: RELACIONAMENTO ABERTO, POR ANA MADALENA

É com muito orgulho e prazer que trago mais um texto inédito da nossa ex-colaboradora e fantástica cronista Ana Madalena para publicar, aqui na nossa coluna CRÔNICAS de todas as quartas-feiras do ano. Como sempre, é impossível não ter a curiosidade de ler do começo ao fim, não só pelo prazer, mas principalmente para ver até onde vai a sua imaginação. O título, Relacionamento Aberto não é, como sempre, o que imaginamos antes de começar a ler e sempre me surpreendo com o desenrolar de suas histórias. Por isso convido você a ler mais essa crônica maravilhosa dessa fenomenal escritora.

COMO FAZER INTERCÂMBIO

Relacionamento aberto


Que saudade das minhas viagens! Me orgulho em dizer que, quando planejo um passeio, sou disputada pelos amigos; dizem que na minha companhia não ficam entediados, nem sentem o tempo passar. Realmente, viajar, mesmo em pequenos grupos não é para qualquer um. Eu mesma me preparo alguns meses antes; estudo temas variados para entreter quem estiver por perto. Óbvio que sigo algumas regras, como não conversar assuntos delicados, muito menos pela manhã. Geralmente essa é a hora de conversar amenidades, contar algum sonho, eu mesma invento vários, embora na vida real não sonhe nunca. Ou se sonho, não lembro. O café da manhã tem que ser festivo, com sorrisos de bom dia. Claro que muitas vezes não são retribuídos; algumas pessoas só acordam depois das dez, mesmo que fisicamente já tenham feito várias coisas, desde as sete.  Não se brinca com o relógio biológico!

Gosto de dirigir,  fazer viagens onde possa conhecer caminhos e, sobretudo, ver paisagens (adoro a palavra “sobretudo”, dá um ar de sofisticação ao vocabulário, cada vez mais empobrecido). Viajar é uma oportunidade de aprender várias coisas e eu realmente me organizo para tirar o melhor proveito dessa experiencia; faço playlist, lanchinhos e meto o pé na estrada! A única coisa que me irrita é ter hora marcada. Geralmente viajo com hotel reservado somente na chegada e no meu destino final. O meio do caminho é sempre uma surpresa!

Não gosto de viajar de avião, principalmente voos longos. Quem gosta? Além de desconfortável, exige um grau de intimidade que me incomoda, principalmente quando meu assento é na fileira do meio, entre estranhos. Por mais que procure fazer as coisas com antecedência, selecionar meu lugar, as vezes acontece de grande parte dos passageiros terem me antecedido. E o percurso vira, no mínimo, um tédio. Geralmente levo um livro, o que me salva por algum tempo, e. rezo para que as pessoas ao meu redor não ronquem, o que invariavelmente acontece.

Nunca fiz um cruzeiro, embora seja um desejo antigo, mas fiquei com um pé atrás depois de ouvir sobre infecções alimentares e, mais recentemente, surtos de covid, etc. Acho que, tirando esses problemas, é uma viagem muito boa. Não ter que fazer e desfazer malas o tempo todo, além de ter uma estrutura que possibilite fazer mil coisas, é o melhor dos mundos.

O único meio de transporte que tenho fobia, ou melhor, claustrofobia, é o elevador. Sempre tive medo de entrar naquela cabine, desde quando, ainda criancinha, me mudei para um prédio, numa época quando ainda não era comum ter geradores residenciais.   Não, não foi na pré-história, se é o que está pensando. A verdade é que a sina de ficar presa em elevadores me acompanha desde então.

Na primeira vez , eu tinha sete anos de idade e vinha com minha irmã mais nova do colégio, no fim da tarde. Nós morávamos no terceiro andar, uma viagem até rápida, mas  mal entramos, faltou energia. Ficou tudo escuro e eu me desesperei. Ela, muito madura, segurou a minha mão e disse que não me preocupasse. Minha irmã sempre foi uma pessoa corajosa; nunca derramou uma lágrima por nervosismo, nem quando precisava  tomar injeção. Já eu, ao contrário, nasci com todos os medos! Dizem que os filhos mais velhos são um poço de insegurança, por causa da inexperiência dos pais, que depois do “estágio” do primeiro filho, tiram de letra os próximos. O primogênito que lute contra seus fantasmas, no meu caso, muitos!

E como exercício contra a timidez e medos bobos, meus pais me colocaram desde cedo para fazer um curso de música. Quer coisa mais aterrorizante do que se apresentar para uma plateia? Minha professora, percebendo que eu gostava de saber sobre a história por trás da música, aos poucos foi quebrando meu nervosismo, me incentivando a, antes da apresentação, comentar um pouco sobre a autoria da música a ser apresentada. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida! Eu discorria sobre tudo, desde a vida do músico, em um grau de intimidade como se fôssemos os melhores amigos, até sobre questões técnicas da partitura. Isso quebrava um pouco minha timidez e dali seguia com menos medo de errar.

Trouxe esse ensinamento para minha vida. No colégio, eu sempre pedia para apresentar trabalhos, mesmo que na véspera não conseguisse dormir e chorasse de nervoso. Sou canceriana e “chorar” é quase como respirar; os sentimentos vêm antes de mim, para o bem e para o mal. E foi assim que me tornei uma pessoa comunicativa, embora tímida. Só eu sei o deserto que tive que atravessar para me tornar quem sou hoje.

Fiz intercâmbio em uma época que não era  comum. Ali eu realmente quebrei barreiras! Ter que conviver com pessoas de uma realidade totalmente adversa da minha foi, em princípio, um susto, mas também uma libertação. Eu não só tive que superar medos, como também superá-los noutra língua. Minha família estrangeira era maravilhosa, conversava bastante comigo e eu, envergonhada e sem saber o que falar, comecei a inventar histórias. O café da manhã era a minha hora da mentira;  eles prestavam atenção a cada detalhe do que eu contava. Lembro que meu “pai americano” sempre perguntava se a história era em cores ( inventei uma vez de dizer que sonhava em preto e branco) e se em inglês. No dia que respondi “yes” para as duas perguntas, ele me deu parabéns e disse que eu estava totalmente adaptada à minha nova vida. Nova vida? Quer dizer que posso ter mais de uma? Que maravilha!

Como já disse antes, sou canceriana. Levo esse signo muito a sério, até porque explica grande parte das minhas ações. Esse ano, pelos astros, vai ser um grande ano para mim! Dizem que Júpiter me atrapalhou nos últimos onze anos e finalmente mercúrio, que aqui comparo com minha professora de música, vem com tudo para abrir meus caminhos. E pelo que li, vai ser uma guinada daquelas! Novas oportunidades, desafios e, sobretudo (olha minha palavrinha preferida), uma nova vida! Há a previsão de eu viajar, para outro país! Um novo intercâmbio se abre para mim, só que dessa vez não ficarei com uma família. Depois do Airbnb, a possibilidade de me hospedar em um lugar onde possa “participar” diretamente da vida de outra pessoa é muito instigante. É quase como um relacionamento, onde inicialmente trocamos algumas informações, depois conversamos um pouco sobre nossos interesses e finalizamos quando ocupamos o espaço daquela pessoa que aluga não só seu imóvel, como parte da sua vida. É o que chamo de  relacionamento aberto! Compartilhar uma casa, manusear objetos de outra pessoa, folhear seus livros, ver fotos de família na estante… O meu primeiro relacionamento aberto foi em um outono distante, quando aluguei um quarto numa casa linda, cercada de pinheiros e esquilos, o famoso “bed and breakfest”. Depois que selecionei o local, que entrei em contato com o proprietário e quando já estávamos quase amigos, ele precisou viajar na véspera da minha chegada. Para minha surpresa, ele deixou um bilhete de boas vindas, em cima do balcão da cozinha, junto com vários cupcakes que devo ter mencionado que gostava nas nossas conversas. A geladeira estava abastecida, e na porta, pregado com um imã, nome de vários mercadinhos e dicas de locais interessantes para conhecer.

E foi assim que vivi outra vida, de tantas que já tive oportunidade de viver. Raramente me hospedo em hotéis, gosto de conhecer novas pessoas e formas de viver. De comum, todos “Airbnbistas” que conheci, têm a cultura do desapego, de uma vida minimalista, além de uma lista de regras para boa convivência, que poderiam perfeitamente existir em todos os lugares, inclusive nas nossas próprias famílias. Sou muito a favor do que é dito, do não deixar  subentendido. Todas essas pessoas com quem pude partilhar um pouco, tornaram-se amigos, principalmente com a ajuda das redes sociais.

Alguém disse, certa vez, que não é a distância que separa as pessoas, mas o “tanto faz”… Tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo, de várias vidas que já vivi, para quem nunca fui “tanto faz” e com quem divido minha “camuflada” timidez. À eles, dedico meu patrimônio emocional.

Ana Madalena
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POESIA: MARÍLIA DE DIRCEU DE TOMAZ ANTÔNIO GONZAGA

Continuando com a série dos 10 melhores poemas da literatura portuguesa hoje vamos ouvir “Marília de Dirceu Soneto II, poema de Tomaz Antônio Gonzaga, poeta da língua portuguesa que nasceu na ilha de Moçambique e viveu de 1744 a 1810.

O nome arcádico é Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político participante da Inconfidência Mineira, movimento pela independência de Minas Gerais, precursor do processo que conduziu à separação do Brasil de Portugal. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades, é ainda hoje estudado em escolas e universidades por seu “Marília de Dirceu”. A poesia de Tomás António Gonzaga apresenta as típicas características árcades e neoclássicas: o pastoril, o bucólico, a Natureza amena, o equilíbrio etc. Paralelamente, possui características pré-românticas (principalmente na segunda parte de Marília de Dirceu, escrita na prisão): confissões de sentimento pessoal, ênfase emotiva estranha aos padrões do neoclassicismo, descrição de paisagens brasileiras, etc. O convívio com o Iluminismo põe em seu estilo a preocupação em atenuar as tensões e racionalizar os conflitos.

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CRÔNICAS: NO ANO NOVO CABE TUDO, INCLUSIVE UM BODE NA SALA, POR ANA MADALENA

Tivemos a sorte grande de receber mais uma das extraordinárias CRÔNICAS de Ana Madalena, que já foi nossa colunista de CRÔNICAS e justamente na virada do ano e sobre ano velho e ano novo. Essa foi, sem dúvida. uma das melhores que já li dessa autora. Por isso convido você a ler o texto completo a seguir, curtir, apreciar e admirar esse grande talento!

O bode na sala da família Mercosul - Autoescola Online - Ronaldo Cardoso

Hibernei os dois primeiros dias do ano. Precisava de descanso, resultado de excessos do ano que passou. Aliás, está difícil equalizar essa conta. Muita coisa vai ter que ser compensada em 2022, um número que acho até  simpático, mas não vou me animar muito; festejei a chegada de 2020 como nunca, me vesti toda de dourado, arrasei no carisma, cheguei em casa com o sol nascendo e…  Deu no que deu! Em 2021 ensaiei um brinde com amigos e família e a coisa também não foi boa. Desisti. Estou com pé atrás em relação a comemorações e começando a ter ranço dessa coisa de ter hora marcada para ser feliz. A impressão que tenho é que a “felicidade”  principalmente nas redes sociais, está virando um bem de consumo, com cursos e livros ensinando como alcançá-la, o que está dando um nó na cabeça de muita gente.
Cansei do jogo do “contente”, principalmente depois que conheci alguns coaches motivacionais; gastam tanta energia com os outros, que quando chegam em casa estão  esgotados! Um coach motivacional deveria ter seu personal coach para quando ele não está animando multidões. Realmente motivar pessoas é muito desgastante; eu poderia facilmente fazer o contrário: ser uma coach desmotivacional;  acho muito mais eficaz. A parábola do bode na sala é perfeita para isso! Reza a lenda que uma família vivia em um cômodo apertado e todos passavam o dia discutindo. O mais velho da família foi procurar o mestre e ele disse que colocasse um bode na sala. O bode rasgou sofá, derrubou cadeiras, foi aquela confusão. O homem voltou ao mestre e ele recomendou que agora tirasse o bode da sala. Como por milagre, a paz se instaurou. Moral da história: precisamos dar mais valor ao que temos.
Peguei no sono pouco antes da virada e deixei meus pedidos para esse ano por conta da minha cabeça. Transferi a responsabilidade para o inconsciente e, para tanto, passei o dia usando a “técnica cotonete”, uma das melhores coisas da vida. Limpo meus ouvidos e só escuto o que quero. Aprendi essa técnica em um curso gratuito na Internet;  estou outra pessoa! Limpei tanto minha mente que consegui  decorar “Faroeste caboclo”, do Legião urbana, um monólogo de oito minutos. Não, não comecei com essa música, mas essa foi meu apogeu! Sim, essa é uma das formas de “cotonetar”; a etapa seguinte é declamar poesia em frente ao espelho. Preferi esse curso ao de “empinar bum-bum” por R$ 29,90 mês; já pensou a fortuna que teria que gastar com cada pedaço do corpo?
Reforcei a terapia; agora serão duas vezes por semana. Minha psicóloga diz que meu fio condutor emocional não é claro; meus personagens internos são cheios de detalhes, o que me causa muita distração. E são muitos personagens antagônicos! Resumindo: há uma eterna briga interna na minha cabeça  e por isso que tem horas que faço uma coisa e no meio da atividade, resolvo fazer outra totalmente diferente. Finalmente alguém conseguiu explicar esse meu comportamento. Passei a vida escutando que sou inconstante, indecisa, além de “Maria vai com as outras”. Não é fácil ser eu.
Decidi que não farei mais bolões para a mega da virada. Cheguei a conclusão que não tenho sorte para jogos; na verdade, acho que gastei toda minha sorte em bingos que participei em hotéis fazenda, quando era criança. Ganhei cestas de palha e um jarro em cerâmica, que quebrou na viagem de volta. Nos jogos de tabuleiro sou expert em “voltar duas casas”. Quer recado melhor do que esse?
Estou entrando numas de assistir filmes em línguas desconhecidas. Sem legenda. Sabe aquela coisa de você cair em um país de costumes e língua totalmente diferente da sua? Pois é. Estou exercitando meu cérebro no sentido de captar a emoção. Tem muita coisa sendo feita extra Hollywood, com enredos fascinantes ( pelo menos do que posso apreender), um mundo de emoções, que dá até angústia. Nesse sentido, lembro que há muitos anos, estava assistindo a peça “Miss Saigon”, em inglês, com um amigo que não sabia mais que duas palavras nessa língua. De repente eu percebi que ele estava chorando e quando terminou o espetáculo ele comentou que tinha sido a coisa mais bonita que tinha visto. Eu, então, perguntei se ele tinha captado os diálogos, ao que ele respondeu, emocionado: -Ana, diálogos para quê?
Tenho visto séries, de virar noites. Para mim existem coisas na vida que daria prêmios aos inventores. Essa, de vermos filmes e séries a qualquer hora, com um cardápio tão variado, é mesmo genial. Coloco no mesmo patamar de quem inventou a colcha de matelasse, fralda descartável e sabonete líquido. Voltando às series, as que mais me pegaram “de jeito” foram “Maid”, uma das melhores coisas que assisti ano passado, e “Cenas de um casamento”, uma catarse com diálogos tão extensos, que ainda me pergunto como os atores decoraram. Acho que fizeram o mesmo curso que eu fiz! E antes que esqueça, as trilhas de abertura de algumas são sensacionais. Nesse aspecto, “The morning show” e  Sucession” estão reverberando nos meus ouvidos! Falando em música estou avançando no documentário sobre os Beatles, Get back. Incrível o processo de criação deles. Já os livros, estão em fila para serem devorados. Ganhei vários de presente de Natal! Mas antes deles, vou reler alguns que possuo de Lya Lyft, uma das escritoras que me deu o entusiasmo pela leitura.
O calor aumentou muito esse ano. Dizem que subiu mais dois graus. Passo os dias olhando para o horizonte na esperança que chova um pouquinho. Os pássaros, coitados, voam com uma asa e se abanam com a outra. Eu procuro me mexer o mínimo possível, mas uma gota de suor insiste em descer pela minha testa. Acho que a cabeça é o lugar mais quente do meu corpo; vive em constante ebulição. Morro de medo de fritar os meus neurônios e por isso estou sempre em busca de novas sinapses. Mas não pense que é fácil! É um exercício tão pesado quanto cross-fit. Dou especial atenção à área da  imaginação; o lúdico é uma das melhores coisas da vida! Pena que algumas pessoas não façam uso.
Hoje é o primeiro dia útil do ano; a responsabilidade bate à porta. No café vou comer as duas rabanadas que sobraram da ceia ( escondi na geladeira) e começar a trabalhar. Confesso que estou na maior preguiça, mas não tenho opção, não é questão de preferir agora ou depois. Diferentemente de mim, se perguntarmos a um pássaro se prefere asas ou gaiola, ele não pensará duas vezes. Acho que vou colocar um bode na sala, quem sabe assim…
Ana Madalena
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POESIA: OS MAIS PERFEITOS VOTOS DE FELIZ ANO NOVO, POR BRÁULIO BESSA

Na nossa primeira edição da coluna POESIA do Blog do Saber você vai ouvir um mix com poemas de Bráulio Bessa que somados, formam a mais linda mensagem de Feliz Ano Novo 2022! Isso porque é tudo que cada um de nós mais precisa e merece para fazer de 2022 um ano memorável, inesquecível e pra lá de perfeito!

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POESIA: “PRU QUE”, POR ROLANDO BOLDRIN

Na nossa última publicação do ano de 2022, aqui na coluna POESIA do Blog do Saber vamos encerrar o ano com mais uma espetacular interpretação desse incrível apresentador, ator, compositor, cantor, prosador e poeta Rolando Boldrin, onde declama “Pru que”, um poema de Pompílio Diniz, no seu programa Sr. Brasil. Então convido você a assistir, curtir e apreciar essa extraordinária performance!

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CRÔNICAS: EU SEI, MAS NÃO DEVIA, POR MARINA COLASANTI

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira trás um texto cujo título é “Eu sei, mas não devia”. 

A crônica de Marina Colasanti convida o leitor a refletir sobre a sociedade de consumo, sobre como lidamos com as injustiças presentes no mundo e sobre a velocidade do tempo em que vivemos, que nos obriga a avançar sem apreciar o que está ao nosso redor.

Ao longo dos parágrafos vamos nos dando conta de como nos acostumamos com situações adversas e, em determinado momento, passamos a operar no automático. O narrador dá exemplos de pequenas concessões progressivas que vamos fazendo até, afinal, ficarmos numa situação de tristeza e esterilidade sem sequer nos darmos conta.

Eu sei, mas não devia, de Marina Colasanti (texto completo e análise)

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A crônica Eu sei, mas não devia, publicada pela autora Marina Colasanti (1937) no Jornal do Brasil, em 1972, continua nos cativando até os dias de hoje.

Ela nos lembra de como, muitas vezes, deixamos as nossas vidas se esvaziarem acomodados numa rotina repetitiva e estéril que não nos permite admirar a beleza que está a nossa volta.

Eu sei, mas não devia – texto completo

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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POESIA:DURANTE, POR ALLAN DIAS CASTRO

O destaque desta sexta-feira, aqui na coluna POESIA é o texto “Só por hoje”, tirado direto da página 19 do livro de Allan Dias Castro “A Monja e o Poeta”, no capítulo sobre o AGORA. Ele fala que: “O TEXTO QUE ME SALVOU NESSE ANO INTEIRO , UM DIA DE CADA VEZ. A frase final no quadro marcou bastante também, e lembrar dela diariamente será minha busca para 2022”. Então assista o grande poeta declamando essa maravilha de poesia!

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CRÔNICAS: A FOTO, POR LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Apresentamos nesta terça-feira a última crônica da série de seis crônicas do renomado escritor Luis Fernando Veríssimo, intitulada “A foto”. Uma história maravilhosa sobre uma grande família e a pose de todos, desde os bisas até os bisnetos  para o retrato que irá ficar para a posteridade. Por isso convido você a ler essa crônica maravilhosa e apreciar o que há de melhor no estilo! 

6. A foto

Foi numa festa de família, dessas de fim de ano. Já que o bisavô estava morre não morre, decidiram tirar uma fotografia de toda a família reunida, talvez pela última vez.

A bisa e o bisa sentados, filhos, filhas, noras, genros e netos em volta, bisnetos na frente, esparramados pelo chão. Castelo, o dono da câmara, comandou a pose, depois tirou o olho do visor e ofereceu a câmara a quem ia tirar a fotografia. Mas quem ia tirar a fotografia? – Tira você mesmo, ué. – Ah, é? E eu não saio na foto?

O Castelo era o genro mais velho. O primeiro genro. O que sustentava os velhos. Tinha que estar na fotografia. – Tiro eu – disse o marido da Bitinha. – Você fica aqui – comandou a Bitinha. Havia uma certa resistência ao marido da Bitinha na família. A Bitinha, orgulhosa, insistia para que o marido reagisse. “Não deixa eles te humilharem, Mário Cesar”, dizia sempre. O Mário Cesar ficou firme onde estava, do lado da mulher.

A própria Bitinha fez a sugestão maldosa: – Acho que quem deve tirar é o Dudu… O Dudu era o filho mais novo de Andradina, uma das noras, casada com o Luiz Olavo. Havia a suspeita, nunca claramente anunciada, de que não fosse filho do Luiz Olavo. O Dudu se prontificou a tirar a fotografia, mas a Andradina segurou o filho. – Só faltava essa, o Dudu não sair.

E agora? – Pô, Castelo. Você disse que essa câmara só faltava falar. E não tem nem timer! O Castelo impávido. Tinham ciúmes dele. Porque ele tinha um Santana do ano. Porque comprara a câmara num duty free da Europa. Aliás, o apelido dele entre os outros era “Dutifri”, mas ele não sabia.

– Revezamento – sugeriu alguém. – Cada genro bate uma foto em que ele não aparece, e… A ideia foi sepultada em protestos. Tinha que ser toda a família reunida em volta da bisa. Foi quando o próprio bisa se ergueu, caminhou decididamente até o Castelo e arrancou a câmara da sua mão. – Dá aqui. – Mas seu Domício… – Vai pra lá e fica quieto. – Papai, o senhor tem que sair na foto. Senão não tem sentido! – Eu fico implícito – disse o velho, já com o olho no visor. E antes que houvesse mais protestos, acionou a câmara, tirou a foto e foi dormir.

O texto “A foto” exibe uma situação típica de uma família de classe média. Em um simples momento, o cronista consegue revelar diversas facetas de cada personagem, deixando evidente sentimentos como insegurança, inveja, orgulho, sarcasmo e ciúmes, fazendo uma crítica à falsidade nas relações familiares.

O motivo da fotografia na narrativa era claro: fazer um registro com todos em volta do casal idoso, sendo que o patriarca estava prestes a morrer. Portanto, a pessoa mais importante ali era o velho. Entretanto, vendo a confusão entre os parentes para saber quem tiraria a fotografia (e ficaria de fora do registro), o próprio bisavô se levanta e faz a foto.

O caráter humorístico da história se dá na medida em que, enquanto a família discutia e dissimulava suas diferenças, o senhorzinho só queria mesmo acabar com aquele momento desconfortável, não se importando de fato com o registro e dizendo que sua presença ficaria “implícita”, ou seja, ficaria oculta, mas subentendida na foto.

Quem é Luis Fernando Veríssimo?

Retrato de Luis Fernando Veríssimo exibe fotografia do escritor em perfil segurando microfone em fundo preto

Luis Fernando Veríssimo iniciou sua carreira como escritor no final dos anos 60 no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre. Foi quando começou a escrever crônicas curtas, que com o tempo passaram a chamar atenção pelo tom bem-humorado e marcado pela ironia.

Filho do importante romancista Érico Veríssimo, Luis Fernando se tornou um dos mais conhecidos escritores brasileiros, atuando ainda como cartunista e saxofonista.

Trabalhou ainda para vários jornais e revistas, como a “Veja” e o “O Estadão” e tem também algumas obras ficcionais.

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CRÔNICAS: DOIS MAIS DOIS, POR LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Continuando a série de 06 CRÔNICAS engraçadas do sensacional cronista brasileiro Luis Fernando Veríssimo, nesta edição estamos publicando a 5ª crônica “Dois mais dois”, uma história instigante, curiosa e perspicaz. Então convido você a ler esse conto maravilhoso que merece o nosso aplauso!

 

5. Dois mais dois

O Rodrigo não entendia por que precisava aprender matemática, já que a sua minicalculadora faria todas as contas por ele, pelo resto da vida, e então a professora resolveu contar uma história.

Contou a história do Supercomputador. Um dia disse a professora, todos os computadores do mundo serão unificados num único sistema, e o centro do sistema será em alguma cidade do Japão. Todas as casas do mundo, todos os lugares do mundo terão terminais do Supercomputador. As pessoas usarão o Supercomputador para compras, para recados, para reservas de avião, para consultas sentimentais. Para tudo. Ninguém mais precisará de relógios individuais, de livros ou de calculadoras portáteis. Não precisará mais nem estudar. Tudo que alguém quiser saber sobre qualquer coisa estará na memória do Supercomputador, ao alcance de qualquer um. Em milésimos de segundo a resposta à consulta estará na tela mais próxima. E haverá bilhões de telas espalhadas por onde o homem estiver, desde lavatórios públicos até estações espaciais. Bastará ao homem apertar um botão para ter a informação que quiser.

Um dia, um garoto perguntará ao pai:

– Pai, quanto é dois mais dois?
– Não pergunte a mim – dirá o pai -, pergunte a Ele.

E o garoto digitará os botões apropriados e num milésimo de segundo a resposta aparecerá na tela. E então o garoto dirá:

– Como é que sei que a resposta é certa?
– Porque Ele disse que é certa – responderá o pai.
– E se Ele estiver errado?
– Ele nunca erra.
– Mas se estiver?
– Sempre podemos contar nos dedos.
– O quê?
– Contar nos dedos, como faziam os antigos. Levante dois dedos. Agora mais dois. Viu? Um, dois, três, quatro. O computador está certo.
– Mas, pai, e 362 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. A não ser reunindo muita gente e usando os dedos das mãos e dos pés. Como saber se a resposta d’Ele está certa? Aí o pai suspirou e disse:
– Jamais saberemos…

O Rodrigo gostou da história, mas disse que, quando ninguém mais soubesse matemática e não pudesse pôr o Computador à prova, então não faria diferença se o Computador estava certo ou não, já que a sua resposta seria a única disponível e, portanto, a certa, mesmo que estivesse errada, e… Aí foi a vez da professora suspirar.

Nessa crônica curta, Veríssimo explora a inocência e sagacidade infantil.

Aqui, o escritor exibe uma situação na qual há toda uma narrativa imaginada por uma pessoa adulta – a professora, no caso – usada como recurso pedagógico para “convencer” seu aluno da importância de aprender a fazer contas.

Entretanto, a expectativa da professora é frustrada pela fala da criança, que chega a conclusões que fogem do esperado.

Assim, temos um texto com humor leve que nos leva a pensar em como as crianças muitas vezes são imprevisíveis e perspicazes.

Fonte: Cultura Geral

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POESIA: SENHOR DOUTOR, POR PATATIVA DO ASSARÉ

Nesta terça-feira, aqui na coluna POESIA, a nossa homenagem vai para o grande poeta cearense Patativa do Assaré, numa apresentação no Festival Massafeira 1979. “O festival foi responsável pelo lançamento de Patativa no mundo fonográfico, em que fez um enorme sucesso com sua poesia autenticamente popular e de forte crítica social”. Desta feita ele declama “Senhor Doutor”.

Fonte:

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POESIA: OUÇA A VOZ DO CORAÇÃO, POR BRÁULIO BESSA

Nesta sexta-feira você vai começar o dia ouvindo a acolhedora poesia de Bráulio Bessa, que mais uma vez nos faz refletir sobre o óbvio que muitas vezes a gente deixa passar: a importância de ouvir a voz do coração! É importante, claro, considerar a opinião de pessoas que tem autoridade afetiva sobre nós, mas nosso coração tem sabedoria suficiente para nos ajudar a tomar as melhores decisões. Ouça o poema, ouça de novo e de novo até se conscientizar desta verdade que pode facilitar muito a sua vida daqui para frente… Namastê!

Fonte:

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CRÔNICAS: CUIA, POR FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira estamos apresentando a 3ª de uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. O pequeno texto a seguir faz parte do livro O analista de Bagé (1981), no qual o escritor apresenta como protagonista um psicanalista gaúcho que não leva jeito para cuidar da saúde mental das pessoas e se transformou no seu principal e mais famoso personagem. Então vamos curtir e apreciar Cuia, uma das obras primas desse gênio da literatura brasileira.

3. Cuia

Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé ― segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noiva” ―, tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório.

― Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más.
O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou:
― Cuia mais linda.
― Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras banda de Lavras.
― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba.
― Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal.
― Oigalê.
― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa.
― A la putcha.
O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado.
― Curtida barbaridade. ― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor.
― Oigatê.
E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou:
― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho?
― É esta mania que eu tenho, doutor.
― Pos desembuche.
― Gosto de roubar as coisas.
― Sim.
Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais.
Estava de olho na sua cuia.
― Passa ― disse o analista.
― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá.
― Passa a cuia.
― O senhor pode me curar, doutor?
― Primeiro devolve a cuia.

O moço devolveu. Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão.

O pequeno texto faz parte do livro O analista de Bagé (1981), no qual o escritor apresenta como protagonista um psicanalista gaúcho que não leva jeito para cuidar da saúde mental das pessoas.

Isso porque o personagem é bastante rude e grosseiro, expondo em forma de caricatura algumas características e esteriótipos associados ao homem do sul do país. O que dá o tom surpreendente e risível da história é o contraste entre a personalidade e a profissão do homem, pois para ser um terapeuta deve-se ter tato e compreensão, o que definitivamente o analista de Bagé não tem.

No diálogo podemos observar algumas palavras típicas do vocabulário gaúcho, como “piá” (menino), “charlar” (conversar), “oigalê” e “oigatê” (que denotam espanto e surpresa). A “cuia”, que dá o nome ao texto, é o nome do recipiente usado para beber o chá mate, muito comum entre os gaúchos.

Esse personagem é o mais conhecido de Luis Fernando Veríssimo, contribuindo para tornar suas crônicas famosas.

Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: INCIDENTE NA CASA DO FERREIRO DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira estamos apresentando a 2ª de uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, no texto a seguir o autor se utiliza de jargões e ditados populares para construir histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas. Então vamos curtir e apreciar Incidente na casa do ferreiro, uma das obras primas desse gênio da literatura.

Incidente na casa do ferreiro - YouTube

2. Incidente na casa do Ferreiro

Pela janela vê-se uma floresta com macacos. Cada um no seu galho. Dois ou três olham o rabo do vizinho, mas a maioria cuida do seu. Há também um estranho moinho, movido por águas passadas. Pelo mato, aparentemente perdido – não tem cachorro – passa Maomé a caminho da montanha, para evitar um terremoto. Dentro da casa, o filho do enforcado e o ferreiro tomam chá.

Ferreiro – Nem só de pão vive o homem.
Filho do enforcado – Comigo é pão, pão, queijo, queijo.
Ferreiro – Um sanduíche! Você está com a faca e o queijo na mão. Cuidado.
Filho do enforcado – Por quê?
Ferreiro – É uma faca de dois gumes.
(Entra o cego).
Cego – Eu não quero ver! Eu não quero ver!
Ferreiro – Tirem esse cego daqui!
(Entra o guarda com o mentiroso).
Guarda (ofegante) – Peguei o mentiroso, mas o coxo fugiu.
Cego – Eu não quero ver!
(Entra o vendedor de pombas com uma pomba na mão e duas voando).
Filho do enforcado (interessado) – Quanto cada pomba?
Vendedor de pombas – Esta na mão é 50. As duas voando eu faço por 60 o par.
Cego (caminhando na direção do vendedor de pombas) – Não me mostra que eu não quero ver.
(O cego se choca com o vendedor de pombas, que larga a pomba que tinha na mão. Agora são três pombas voando sob o telhado de vidro da casa).
Ferreiro – Esse cego está cada vez pior!
Guarda – Eu vou atrás do coxo. Cuidem do mentiroso por mim. Amarrem com uma corda.
Filho do enforcado (com raiva) – Na minha casa você não diria isso!
(O guarda fica confuso, mas resolve não responder. Sai pela porta e volta em seguida).
Guarda (para o ferreiro) – Tem um pobre aí fora que quer falar com você. Algo sobre uma esmola muito grande. Parece desconfiado.
Ferreiro – É a história. Quem dá aos pobres empresta a Deus, mas acho que exagerei.
(Entra o pobre).
Pobre (para o ferreiro) – Olha aqui, doutor. Essa esmola que o senhor me deu. O que é que o senhor está querendo? Não sei não. Dá para desconfiar…
Ferreiro – Está bem. Deixa a esmola e pega uma pomba.
Cego – Essa eu nem quero ver…
(Entra o mercador).
Ferreiro (para o mercador) – Foi bom você chegar. Me ajuda a amarrar o mentiroso com uma… (Olha para o filho do enforcado). A amarrar o mentiroso.
Mercador (com a mão atrás da orelha) – Hein?
Cego – Eu não quero ver!
Mercador – O quê?
Pobre – Consegui! Peguei uma pomba!
Cego – Não me mostra.
Mercador – Como?
Pobre – Agora é só arranjar um espeto de ferro que eu faço um galeto.
Mercador – Hein?
Ferreiro (perdendo a paciência) – Me dêem uma corda. (O filho do enforcado vai embora, furioso).
Pobre (para o ferreiro) – Me arranja um espeto de ferro?
Ferreiro – Nesta casa só tem espeto de pau.
(Uma pedra fura o telhado de vidro, obviamente atirada pelo filho do enforcado, e pega na perna do mentiroso. O mentiroso sai mancando pela porta enquanto as duas pombas voam pelo buraco no telhado).
Mentiroso (antes de sair) – Agora quero ver aquele guarda me pegar!
(Entra o último, de tapa-olho, pela porta de trás).
Ferreiro – Como é que você entrou aqui?
Último – Arrombei a porta.
Ferreiro – Vou ter que arranjar uma tranca. De pau, claro.
Último – Vim avisar que já é verão. Vi não uma mas duas andorinhas voando aí fora.
Mercador – Hein?
Ferreiro – Não era andorinha, era pomba. E das baratas.
Pobre (para o último) – Ei, você aí de um olho só…
Cego (prostrando-se ao chão por engano na frente do mercador) – Meu rei.
Mercador – O quê?
Ferreiro – Chega! Chega! Todos para fora! A porta da rua é serventia da casa!

(Todos se precipitam para a porta, menos o cego, que vai de encontro à parede. Mas o último protesta).
Último – Parem! Eu serei o primeiro.
(Todos saem com o último na frente. O cego vai atrás).
Cego – Meu rei! Meu rei!

Incidente na casa do ferreiro traz uma história cheia de referências a ditados populares brasileiros. É por meio dos provérbios que Luis Fernando Veríssimo faz um texto marcado pelo absurdo e pelo cômico.

Logo no início percebemos um narrador-observador que nos descreve o cenário em que se passa a história. O espaço-tempo já nos revela um ambiente ilógico e atemporal, onde águas passadas movem um moinho e macacos cuidam do seu próprio rabo, cada um no seu galho.

Os personagens principais são o “ferreiro” (fazendo alusão à “em casa de ferreiro o espeto é de pau”) e o “filho do enforcado” (referência de “em casa de enforcado não se fala em corda”).

Outros personagens vão surgindo aos poucos, como um cego, um vendedor, um guarda, um mentiroso, um coxo, um pobre, um mercador e o “último”. Todos eles estão relacionados a ditos populares e juntos na mesma narrativa criam uma atmosfera teatral e satírica.

Para melhor compreensão do texto, é esperado que o leitor tenha conhecimento dos provérbios citados. Por isso, a crônica se torna também uma espécie de “piada interna” para o povo brasileiro.

Para conhecer mais sobre provérbios, leia: Ditados populares e seus significados.

Fonte: Cultura genial

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CRÔNICAS: A METAMORFOSE DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira vamos iniciar uma série de 6 crônicas de um dos maiores cronistas brasileiro, Luis Fernando Veríssimo, que é um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas. Então vamos curtir e apreciar A Metamorfose, uma das obras primas desse gênio da literatura.

Sobre a crônica como linguagem, o próprio autor define:

A crônica é um gênero literário indefinido, em que cabe tudo, do universo ao nosso umbigo, e a gente aproveita essa liberdade. Mas escrever alguma coisa que preste sobre o cotidiano é difícil. Aquela história que quem canta o seu quintal está cantando o mundo não se sustenta. Mas depende do quintal, claro.

1. A metamorfose

Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas…

Nessa obra, Veríssimo nos presenteia com uma narrativa envolvente, que associa o humor a um caráter filosófico e questionador.

Ele se referencia na obra Metamorfose de Franz Kafka, na qual um homem se transforma em uma barata.

Entretanto, aqui ocorre a transformação inversa, sendo uma barata que se humaniza, convertendo-se em mulher.

Veríssimo encontrou assim uma forma de trazer questionamentos importantes sobre a sociedade e o comportamento humano. Isso porque a todo momento ele evidencia o contraste entre o instinto versus o raciocínio.

Ele usa a barata como símbolo do irracional, mas ao descrever as complicações presentes na vida cotidiana dos seres humanos, nos faz pensar em como a própria existência e os nossos costumes são complexos. Isso é acentuado através da classe social humilde a que a mulher é inserida.

A barata, depois que vira humana, passa a se chamar Vandirene e encontra trabalho como faxineira, passa por problemas financeiros e cotidianos típicos de mulheres da classe baixa, mas por um golpe de sorte, ganha na loteria e enriquece.

Nessa passagem, o autor deixa subentendido como é improvável que uma pessoa pobre consiga ascender socialmente, colocando por terra a hipótese de que se alguém trabalhar muito conseguirá ficar rico, pois Vandirene havia batalhado, mas só teve dinheiro quando acertou na loteria.

Por fim, a mulher acorda um dia e percebe que havia se transformado novamente em inseto, era apenas impulso, não havia mais problemas, e, por isso a felicidade era completa.

Essa conclusão sugere que ao final da vida todas as pessoas vão igualmente perdendo a consciência, se transmutando em puro instinto, e que o dinheiro que ganharam ou não em vida já não faz o menor sentido.

Laura Aidar

Laura Aidar

Arte-educadora e artista visual
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POESIA: EU, A CAMA E A NOBELINA, POR JESSIER QUIRINO

Hoje temos o inenarrável Jessier Quirino no seu Papel de Bodega, aqui na coluna POESIA declamando “Eu, a cama e a Nobelina, um poema do paraibano Zé Laurentino, um dos primeiros a inspirarem a obra Quiriniana. Sobre o matuto que perdeu a mulher, mas ficou com a cama. É simplesmente imperdível!

Fonte:

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CRÔNICAS: NOTÍCIA DE JORNAL DE FERNANDO SABINO, POR LAURA AIDAR

Hoje estamos finalizando a série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, nesta quarta-feira apresentamos a 8ª crônica da série,  que homenageia o notável e incrível Fernando Sabino, com a crônica “Notícia de Jornal”, de sua autoria. Mais uma crônica que traz um contexto jornalístico e integra o livro A mulher do vizinho, de 1997. Desejo uma boa leitura!

Notícia de jornal – Crônica de Fernando Sabino · Revista Arara Clássicos

8. Notícia de jornal – Fernando Sabino

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome.

Mais uma crônica que traz um contexto jornalístico é Notícia de Jornal, do escritor mineiro Fernando Sabino. O texto integra o livro A mulher do vizinho, de 1997.

Sabino expõe suas ideias e indignação sobre o problema da fome no Brasil. Ele relata de forma pertinente a insensibilidade de boa parte da sociedade frente à miséria e o desamparo das pessoas em situação de rua.

Assim, apresenta o absurdo que é a naturalização da morte em plena cidade movimentada, à luz do dia e diante do público, que não se comove.

Laura Aidar
Laura Aidar

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: FIZERAM A GENTE ACREDITAR DE MARTHA MEDEIROS

Continuado à nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 7ª crônica da série,  uma bela homenagem para a nossa grande escritora Martha Medeiros, com a crônica “Fizeram a gente acreditar”, de sua autoria.  Um dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização no amor romântico. Desejo uma boa leitura!

7. Fizeram a gente acreditar – Martha Medeiros

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, nem contaram que ninguém vai contar. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.

Martha Medeiros é um dos nomes conhecidos na literatura contemporânea brasileira. A escritora produz romances, poemas e crônicas e já teve obras adaptadas para peças de teatro e audiovisual.

Um dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização no amor romântico.

Martha apresenta seus pensamentos sobre o tema de maneira honesta, mostrando que a vida pode diversos caminhos, não existindo uma fórmula para vivenciar o amor. O que fica claro em suas palavras é a necessidade de auto-amor antes de mais nada.

Laura Aidar
Laura Aidar
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CRÔNICAS: O HOMEM TROCADO DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Retornado à nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 6ª crônica da série,  uma bela homenagem para o imortal Luis Fernando Veríssimo, com a crônica “O Homem Trocado”, de sua autoria. Desejo uma boa leitura!

6. O Homem Trocado – Luis Fernando Veríssimo

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo.
– Eu estava com medo desta operação…
– Por quê? Não havia risco nenhum.
– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… E conta que os enganos começaram com seu nascimento.

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.

– E o meu nome? Outro engano.
– Seu nome não é Lírio?
– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam.

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.

– Por quê?
– Ela me enganava.

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.

– Se você diz que a operação foi bem…

A enfermeira parou de sorrir.

– Apendicite? – perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

O homem trocado, de Luis Fernando Veríssimo é um exemplo de crônica de humor, um tipo de texto bem presente na obra do autor. Nela vemos uma situação improvável em que um homem realiza uma cirurgia e fica impaciente para saber se correu tudo bem. O personagem conta que durante toda a sua vida ele foi vítima de muitos enganos.

Assim, à medida que o personagem relata para a enfermeira alguns desses episódios, a curiosidade dos leitores e leitoras é aguçada, ansiosos para saber o final.

E mais uma vez o homem é acometido por um engano médico, já que a operação deveria ter sido para a retirada do apêndice, mas é feita uma troca de sexo.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: DESACONTECIMENTOS, POR ANA MADALENA

É com muita satisfação que publicamos mais um dos criativos e inteligentes contos da nossa querida Ana Madalena, que resolveu nos dar uma canja e me enviou essa pérola com o título de “Desacontecimentos”, aqui na nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira. Uma história mirabolante e futurista, que se passa algumas décadas adiante, que ela relata com muita imaginação. Então aproveite a oportunidade e se delicie com essa crônica maravilhosa.

10 coisas que mães de gêmeos não aguentam mais ouvir | Bebe.com.br

Desacontecimentos


Estava triste e por isso resolveu escrever; dessa forma teria tempo para refletir sobre o que deixar registrado. Cada palavra seria medida e pesada, inventaria até algumas para explicar suas emoções. Depois do apagão, que dizimou uma boa parte do mundo, tudo que restou ficara definitivo, para sempre. O futuro já era realidade, mas ela continuava com os mesmos dilemas de antes.


Lembrava com saudade do ano 2025, o único que pôde escolher para salvar na memória, sem dúvidas, o melhor da sua vida. Finalmente conseguira engravidar, depois de muitas tentativas. Seu sonho se concretizara com as gêmeas, Sara e Sofia. Infelizmente, seu companheiro não suportou cuidar das crianças, nem lidar com seu complicado puerpério, a nova rotina… Ele sumiu, para nunca mais. Se ainda estivesse vivo, deveria estar gostando desse novo modelo de vida, de pessoas com aspecto encerado e sem sentimentos. Um bando de máquinas!


De lá para cá, burlava as regras, escrevendo tudo o que achava importante. Tinha que ter memórias, mas sabia o risco que corria. Sentia falta do velho mundo, das cores, principalmente o amarelo. O mundo cinza era profundamente triste, até o sol sumira do céu, ou o que restou dele, agora mais distante ainda. Não suportava viver numa pré-história high-tech, com pessoas robóticas e para lá de estranhas. Gostaria de ter sumido, como tantos outros.  Não lhe agradava a ideia da não finitude da vida; o “não morrer” era um tédio, mas uma vez ali tinha que ser renovada a cada década. A aplicação do chip, além de dolorosa, era obrigatória. Não sabia se tivera sorte ou azar quando o primeiro, que fora implantado, na base da sua nuca, não funcionou. Por algum motivo, a instalação não foi concluída com sucesso, motivo pelo qual tinha lampejos de outra realidade, outra vida. Vivia unicamente em função de descobrir alguém que também tivesse essa falha, mas não era fácil. Quem em sã consciência se entregaria?


Sua rotina incluía uma busca incessante por sua família, mas tinha que ser cautelosa.  Como os sentimentos e laços familiares tinham sido extintos, as famílias foram separadas de forma aleatória, para garantir que a “experiência” não tivesse falhas. Ser eterno e viver em um mundo sem pragas era o objetivo dos cientistas no poder. Ela sonhava com o fim, porque o fim era a solução; detestava o meio, mas ela estava presa nele para sempre. E o para sempre, era muito assustador. Não suportava viver numa eterna ficção-científica.


Uma ideia fixa tomou conta do seu pensamento.  Se daria mais uns meses para procurar sua família e, depois, se não encontrasse ninguém… Teria que ser cuidadosa, burlar sentimentos, sonhos e o que mais eles pudessem farejar. Ouviu dizer que “eles” sabiam cada emoção, pois o portador exalava um odor apenas detectado pelo grande mestre. Tinha que se manter indiferente para não sentirem seu cheiro de tensão, medo e ansiedade, embora não soubesse que punição maior poderia ultrapassar o castigo de não morrer. As paredes de espelhos pareciam refletir seu olhar de angústia. Precisava urgentemente tirar aquele olhar do seu rosto; qualquer um perceberia que ela não estava bem.


Olhou a rua pela janela, daquilo que chamavam de bloco; o seu, de quatro pavimentos, parecia uma mínima parte de um lego gigantesco. Vivia a dor do cárcere. Não fazia ideia de como era nos andares mais altos. Não era permitida interação com outros subgrupos. Se sentia no fundo do poço, ou melhor, uns cinco metros abaixo dele. Todo dia rezava para ter de volta sua vida de antes; sofria só em pensar que reclamara tanto por coisas tão pequenas, como as calçadas esburacadas que quase a faziam cair quando enganchava seus saltos, ou as rodinhas do carrinho das gêmeas. Queria seu passado, até as coisas que detestava…  A dor de não ver crianças brincando ao sol, casais enamorados, cachorros abanando os rabos, a lua no céu, o vai e vem das ondas do mar, pessoas sorrindo, era um peso muito alto para carregar. Em pensar que todos escolheram o tempo, ou melhor, a falta dele, para ser a principal meta de trabalho do século. E depois, de várias tentativas, finalmente descobriram como fazê-lo parar. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Sentiu algo salgado na boca. Depois de uns segundos se deu conta que era uma lágrima. Abriu os olhos assustada! A luz que invadia seu quarto, também entrava nos seus olhos. Lentamente olhou ao redor, como que não acreditando no que via.  Suas filhas dormiam nos bercinhos ao lado da sua cama. Adorava ouvi-las sugando as chupetas; sabia que quando faziam tão fortemente, era porque estava perto de acordarem para mamar. Sentou na beira da cama, tentando colocar seus pensamentos em ordem. Olhou o calendário; precisava saber se voltara para 2025.  De repente, viu as flores murchas no vaso em cima da mesinha de cabeceira. Abriu um enorme sorriso; finalmente tudo voltara a ser como antes!


Ana Madalena

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CRÔNICAS: PAÍS RICO, POR LIMA BARRETO

Continuando com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, temos nesta quarta-feira a 5ª crônica da série,  uma bela homenagem para o imortal Lima Barreto, com a crônica “País rico”, de sua autoria. Boa leitura!

5. País rico – Lima Barreto

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.
Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?
O governo responde:
– Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E o Brasil é um país rico, muito rico…
As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
– Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?
O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
– — Não há verba; o governo não tem dinheiro
– — E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…

O texto em questão foi escrito por Lima Barreto em 1920 e pode ser lido em Crônicas Escolhidas, publicado em 1995, que reúne parte da produção do célebre escritor.

Lima Barreto foi um autor bastante atento e questionador, contribuindo significativamente para pensar o Brasil de um ponto de vista crítico, trazendo questões como a desigualdade e a pobreza.

O sociólogo e crítico literário Antônio Candido descreve Lima Barreto da seguinte forma:

“Mesmo nas páginas breves, entendia, sentia e amava as criaturas mais insignificantes e comuns, os esquecidos, os lesados e os evitados pelo establishment.”

Assim, nesse texto – infelizmente ainda atual – nos deparamos com uma crítica ácida ao governo brasileiro do início do século XX, em que as prioridades são para coisas superficiais, enquanto os serviços públicos que deveriam funcionar são deixados de lado.

Fonte: Cultura Genial

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POESIA: O CORDEL MAIS ENGRAÇADO QUE, TALVEZ VOCÊ JÁ TENHA VISTO

Esse é sem dúvida um dos melhores e mais engraçados cordéis que já ouvi na vida e tenho a honra e o orgulho de publicar na nossa coluna POESIA desta sexta-feira~, um poema de um cabra macho, talentoso, nordestino raiz, se apresentando para o incrível Rolando Boldrin no programa Sr. Brasil. Então não perca essa nem por cem e uma cocada!

Fonte:

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CRÔNICAS: O FIM DO MUNDO, POR CECÍLIA MEIRELES

Nesta quarta-feira voltamos com a nossa série de 8 crônicas famosas, aqui na coluna CRÔNICAS, comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Cecília Meireles, com a crônica “O fim do mundo”. Boa leitura!

 

4. O fim do mundo – Cecília Meireles

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês…

A crônica Fim do mundo, de Cecília Meireles pode ser lida em Quatro Vozes, obra publicada em 1998. Aqui a autora descreve um acontecimento de sua infância, em que a passagem de um cometa deixou as mulheres de sua família apavoradas.

Cecília, criança, ao testemunhar a passagem do cometa não se assustou, pelo contrário, ela ficou maravilhada. Assim, esse episódio marcou a vida da escritora, que expõe de maneira clara e precisa suas considerações acerca da vida, do tempo e da finitude, fazendo um paralelo com os mistérios do universo.

Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.

Fonte: Cultura Genial

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CRÔNICAS: CAROLINA, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS desta quarta-feira trás mais uma incrível história da nossa ex-colaboradora e competentíssima escritora na Madalena, ainda inédita aqui no Blog do Saber. Trata-se de um triângulo amoroso extraordinariamente bem pensado pela autora difícil de qualquer afegão médio imaginar. Por isso convido você a ler essa crônica maravilhosa e se divertir a valer! 

Triângulos amorosos: quem nunca?

Carolina


Segundo uma lenda japonesa, as pessoas são unidas por um fio vermelho, um fio que nos liga a pessoa que estamos predestinadas, não apenas de forma romântica. Eu não acredito em destino; se assim fosse, nós seríamos passivos e inertes esperando pelo futuro. Nunca me imaginei carregando um fio, procurando a quem me amarrar…

– Eu posso ter dez minutinhos de sua atenção? Sei que o que tenho a dizer não interessa a nenhum de vocês, mas é por isso mesmo que quero sua ajuda. Eu me chamo Júlia, sou uma mulher independente, solteira e com muitas dúvidas. Sou filha única e, talvez por isso, tenha me acostumado com o silêncio da casa dos meus pais. Aos 25 anos resolvi morar  sozinha, ter meu cantinho e detesto que invadam minha privacidade. Já tive alguns relacionamentos, mas não prosperaram. Confesso que sou muito exigente, não dou atenção a qualquer um. O que espero de um homem é que ele tenha, pelo menos,  uma boa interlocução, algo raro nos ambientes que frequento, cheios de pessoas da geração “mimadium”, que, incapazes de passar por alguma rejeição, já ficam cheios de mimimi.  Mas, apesar de todo esse meu discurso, há dois anos eu quebrei a cara!

Conheci André e me encantei!  Ele parecia ser um homem maduro, muito familia, além de extremamente romântico. Nós nos dávamos super bem, ele sempre me elogiou muito, o tipo de homem que valoriza a mulher. Ele, apesar de ter seu apartamento, sempre preferia passar o fim de semana comigo, quando fazíamos programas bem caseiros.  Tudo estava indo bem até que há um ano ele foi dispensado do emprego, onde trabalhava com informática.

Ele me propôs morarmos juntos e eu, apesar de não achar o momento para isso, afinal ele estava desempregado, me iludi achando que ele estava fazendo planos para casarmos e aceitei na hora. Dormi com sonhos de Cinderela e acordei com pesadelos: muito cedo ele chegou com malas e cuias! Fiquei sem graça, mas ele veio com aquele papo de que poderíamos começar nossa vida ali no meu apartamento e depois partiríamos para um lugar maior. Tambem falou que seu contrato de aluguel estava expirando e, morando juntos, dividiríamos as despesas. Achei uma proposta razoável.

Mas, dois meses se passaram e ele não se movimentou para arranjar um emprego. Passamos a discutir por tudo, até porque ele não estava colaborando com despesa alguma. Como uma pessoa que acabou de receber a rescisão e estava no seguro desemprego, não tinha dinheiro nem para o cigarro? Resolvi ter uma conversa e ele, todo chateado e melindroso, disse o óbvio, que colaboraria mas, à partir daquele dia, coisas banais passaram a se tornar maiúsculas. Nessas alturas do campeonato, eu já estava cavando uma boa briga para ele ir embora.

Ele, percebendo algo no ar; disse que estava montando a própria empresa, que não estava inerte, como estava sendo “acusado”. Sugeriu colocar o escritório no segundo quarto do apartamento, onde era uma espécie de   closet. Mais uma vez fiquei sem graça em dizer não, mas diante da possibilidade dele conseguir clientes e resgatar sua auto estima, aceitei a proposta. Dois dias depois ele trouxe uma moça para ser sua secretária, alegando que ela trabalhara com ele e que era uma excelente pessoa e muito eficiente.  Falou também que ela tinha os dados dos clientes da empresa que fora dispensado e que iria propô-los o mesmo serviço, por um preço bem inferior. Tinha certeza que todos aceitariam. Ele faria as visitas aos clientes, abriria mercado e Carolina faria a parte burocrática. Apesar de eu ter várias ressalvas, reconheci, com o passar dos dias, que Carolina era um amor de pessoa,  além de extremamente organizada.

A empresa em pouco tempo começou a dar lucros; André, conseguiu captar uns 80% dos antigos clientes, além de ter aberto uma lista de novos contratos. Ele realmente era muito bom no que fazia. Carolina tambem se revelou uma profissional dedicada, além de ir além de sua funções; a gente quase não se encontrava: a hora que eu saía, ela estava chegando e vice versa. Ela se deixava presente em detalhes, como na louça que ficava na pia e ela sempre lavava ou quando eu chegava à noite e a mesa do jantar estava posta, às vezes com alguns mimos, tipo pães que ela comprava ou biscoitinhos.

Tudo parecia caminhar bem, até que um dia, precisei voltar mais cedo para casa e peguei meu namorado jogando videogame em pleno expediente. Carolina confidenciou  que ele jogava o dia todo e ela que fazia todo o trabalho, mal tirava meia hora para almoçar. Também disse-me que esse foi o motivo dele ter sido dispensado; várias vezes foi pego jogando. Fiquei indignada, mas aguardei um momento propicio para tocar no assunto.

Uma manhã ele veio com um papo que Carlolina tinha sido expulsa da casa dos pais porque estava grávida e que não tinha para onde ir. O namorado dela tinha sumido e ele, solidário ao problema, convidou para ela passar uns dias conosco, até arranjar um lugar para ficar. Na hora me senti duplamente chateada, afinal a casa era minha e eu tinha que ser consultada. Também não me agradava ter minha intimidade dividida com outra pessoa; como já disse, sou filha única e me acostumei a viver só. Mas, minha natureza de canceriana, com ascendente em todos os signos, fez eu aceitá-la como hóspede temporária.

O convívio com Carolina foi, para meu espanto, muito bom. Ela é uma pessoa leve, bem-humorada, que nunca pesa no ambiente. Por termos muito em comum, viramos amigas, tão amigas ao ponto de André ficar incomodado e terminar o nosso namoro. Confesso que estranhei, mas não achei ruim, foi até um alívio. Mas, com isso, ele também tirou a “empresa” e Carolina foi demitida. Achei isso de um mau-caratismo, afinal ela estava grávida… De certa forma, me senti responsável por ela.

Carolina agora está com oito meses de gravidez e decidiu saber o sexo do bebê: uma menina! Disse-me que vai se chamar Júlia, em minha homenagem. Fiquei emocionada! Mas, (sempre tem um mas…) Carolina resolveu ir embora; vai morar no sítio de uma tia, num vilarejo muito pobre. Confessou- me, para meu desespero,  que essa criança é filha de André e que ela não aguentava mais mentir para mim. Ela disse que quando ele soube da gravidez pediu que abortasse, que não queria filhos. Eu, depois de todo o relato, me senti novamente traída.

Confesso que não me agrada saber que Carolina, uma moça tão inteligente, terá que viver em um sítio, sem a menor possibilidade de um crescimento profissional, além de Julinha crescer num ambiente limitado. Por outro lado, meu coração já está tão apegado a Carolina e a essa menininha, que até pensei em considerar delas morarem comigo. Meu receio é que, caso ela aceite o convite, quando a criança nascer, André resolva assumí-la e tirar-me desse convívio. Fico triste só em imaginar…O que faço?  Será que esse é o tal fio vermelho do meu destino? Aguardo respostas!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: CAFEZINHO DE RUBEM BRAGA, POR LAURA AIDAR

Seguindo com a nossa série de 8 crônicas famosas comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Rubem Braga, com a crônica “Cafezinho”. Boa leitura!

2. Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

– Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

– Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

– Ele está?

– alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

– Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.

Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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POESIA: MATUTO NO FUTEBOL, POR JESSIER QUIRINO

Nesta terça-feira, aqui na coluna POESIA você vai assistir o grande poeta, prosador e contador de causos Jessier Quirino declamar “Matuto no Futebol”, uma narrativa humorística do poeta José Laurentino, natural de Puxinanã-PB. Jessier conta que conheceu a história no princípio dos anos 1970 na voz do próprio Zé e passou a declamar com alegria e gosto. Zé Laurentino é considerado pelo poeta um dos grandes influenciadores do seu trabalho e acabaram se tornando amigos de palco. Hoje o poeta descansa no trono eterno. Então, o que está esperando para se divertir até umas horas?

Fonte:

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POESIA: ENTENDIMENTO DO BRASIL, POR JESSIER QUIRINO

A nossa coluna POEMA desta sexta-feira está pra lá de boa com o incrível Jessier Quirino recitando duas poesias. Uma do nosso não menos incrível Patativa do Assaré ´fazendo um paralelo com outro exuberante poema de sua autoria que se chama “Entendimento do Brasil”. Portanto não saia dai e assista ao vídeo completo a seguir!

Fonte:

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CRÔNICAS: FRED, POR ANA MADALENA

Caro(a) leitor(a),

Nesta quarta-feira tenho o enorme prazer de publicar, aqui na coluna CRÔNICAS mais um dos maravilhosos contos da nossa ex-colaboradora Ana Madalena, que se chama simplesmente “Fred”, um personagem que povoa o seu criativo imaginário que mais parece a sua cara metade. Convido você a ler essa incrível e empolgante história!

Como conversar com meu marido sobre problemas financeiros? | Exame Invest

Fred


Dizem que o amanhecer é para padeiros e amantes. Eu não sou nem uma coisa nem outra! O amanhecer para mim é resultado de uma crise de insônia daquelas… A lua é meu sol, se é que me entende. Já fiz de tudo para tentar regularizar meu sono, até simpatias! De nada adiantou. Alguns dizem que agora é  porque o sol entrou em Virgem; outros falaram da Lua, de Saturno. A verdade é que pode ser por qualquer coisa, inclusive nada. Os amigos me presentearam livros de auto-ajuda; já li tudo sobre a higiene do sono e mudança de hábitos, mas nada funcionou. A lembrança que tenho do meu melhor sono, foi quando operei as amidalas, aquele soninho profundo de anestesia. Já cheguei ao ponto de anotar num caderninho meu top 10 do sono, mas nem cheguei ao item 8. Agora resolvi deixar para lá, talvez porque exista Fred na minha vida.

Pois é, Fred é um amigo daqueles para toda hora, principalmente quando a vaca está indo para o brejo. Ele tem uma forma de falar tão calma que dá até quentinho no coração. Com Fred libero as minhas constipações emocionais; ele sempre diz que é péssimo reter alguns sentimentos. Ele é quase meu Freud, do tanto que me ajuda.

Eu e Fred tivemos um breve namoro na adolescência; o fim não foi trágico nem cômico, foi apenas um fim. Percebemos que éramos mais amigos do que um casalzinho apaixonado. Por sorte, continuamos amigos, coisa rara depois de um término.  Eu sou dessas, de manter as amizades, telefonar para ouvir a voz, apesar de hoje em dia ser até invasão de privacidade telefonar para alguém.

Voltando a Fred, ele passou por uma separação há algum tempo: um casamento de vinte e tantos anos, dois filhos, três gatos, um cachorro e duas tartarugas. Ah, e cinco peixinhos. Tudo isso dentro de uma casa linda, com um jardim digno de campeonato inglês. A ex esposa, minha amiga, uma mulher maravilhosa, me ligou certo dia, pedindo para eu ir ao seu consultório. Ela, então, abriu seu coração e disse que eles estavam se separando. Eu fiquei chocada! Eles eram aquele tipo de casal que catalogaria como “perfeito”, mas entendi suas razões. Realmente não faz sentido viver com alguém só por causa dos filhos, principalmente por não serem mais crianças.

Coincidentemente, Fred ligou no mesmo dia. Marcamos um almoço, que emendamos com jantar. Eu dei meu ombro amigo e depois de muito ouvi-lo, concordei com sua explicação. Os dois tinham razões diferentes para não quererem estar mais juntos e entendi que minha presença ao ouví-los foi uma espécie de validação da decisão. É muita inteligência emocional conseguir se separar sem culpas ou remorsos. Eles tinham inteligência de sobra! Ela mudou de cidade; os filhos, já adultos, deram muita força aos pais, um deles seguiu com a mãe e o outro, o mais velho e financeiramente independente, aproveitou o momento para dar seu grito de independência. Fred continuou morando na mesma casa; tinha um apego emocional àquele lugar.

Com a separação, ficamos muito próximos. Sabe a corda e a caçamba? Bem isso. Fred tem uma história de vida linda, mas vou descrever a versão curta: ele sempre foi um “gato”, transbordando testosterona! Hoje, com cabelos grisalhos, está dando de mil a zero no jovenzinho engenheiro que conheci. Ele trabalha coletando dados nos oceanos, tipo salinidade, niveis de carbono, ou qualquer outra coisa que não seja criptonita. O melhor dessa versão de Fred é que agora ele virou notívago como eu, chega até a filosofar dizendo que é melhor lidar com pessoas noturnas do que diurnas. Perguntei certa vez quem eram as pessoas noturnas que ele estava conversando além de mim. Não, não é ciúme, apenas senti uma certa ameaça à minha exclusividade, afinal eu fui quem apresentou a vantagem das altas horas.

Fred gosta de citações, disse que aprendeu comigo, embora ele reescreva em cima da original. Algumas, cá pra nós, ele muda totalmente o sentido, motivo de algumas discussões . Hoje recebi a seguinte mensagem:
– Hoje o dia está maravilhoso. Nunca houve um dia assim!
Perguntei de quem era a citação e ele respondeu que “poderia” ser dele. Rimos! Ele sabe que eu sei que não é,  mas isso não tira o brilho da mensagem, em tão poucas palavras. Admiro quem tem concisão, coisa que jamais, repito, jamais terei.

Falando em dia, hoje ele está tímido, nem sol nem chuva, mas nublado. Para alguns, o melhor dos mundos, eu mesma adoro dias assim. Para outros, uma espera de que algo aconteça, ou que o sol vença as nuvens ou que elas deságuem. Para mim, agradecimento! E para não fugir das citações, ” Se eu não tivesse visto o sol, a sombra eu suportaria. Mas essa luz fez do meu deserto, um deserto que antes não existia”. Adoro Emily Dickinson!
Fred, obrigada por fazer parte do meu deserto…

Ana Madalena
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CRÔNICAS: A LÓGICA DO MALUCO DE LIMA BARRETO, EM CRÔNICAS BRASILEIRAS

Hoje, continuamos com a série CRÔNICAS BRASILEIRAS com uma criativa história do imortal Lima Barreto, “A lógica do maluco”, que você precisa ler e apreciar esta obra prima de um dos maiores ícones da literatura brasileira. 

lima-barreto

A lógica do maluco


Lima Barreto

Estes malucos têm cada ideia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o
chapéu. Contou-me o caso o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em trazê-lo a público, sem o nome do doente – o que farei
sem nenhuma discrepância.
Havia na seção que esse ilustre médico dirige um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples
mania, sem aspectos notáveis; mas pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia
parte até da Academia de Letras da Vitória, estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre cousas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos.
Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, às pressas…
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos
mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.


O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à
Constituição
, do doutor Carlos Maximiliano, enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas tiveram a imprudência de lhe dar, de novo, os tais
Comentários e a
mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e
deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas brando e passageiro. Tinha
pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa cousa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora
própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe
é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – cousa que não era nem da defunta Guarda Nacional, sepultada, como tantas outras cousas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado,
respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para quê? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.

– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é
que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou
militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro?
Logo…
– Mas você…
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas?

Olhe, doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças. Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade, que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.

Fonte: Toda crônica. Apresentação e notas de Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro, Agir, 2004, vol. II, p.450. Publicada, originalmente, na revista Careta, de 8/10/1921 e, posteriormente, no livro Vida urbana, Brasiliense, 1956, p.266.

Fonte: Crônica Brasileira

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CRÔNICAS: NOS DOIS LADOS DO BALCÃO, POR HUMBERTO WERNECK

A partir desta quarta-feira a coluna CRÔNICAS, infelizmente não terá mais os maravilhosos contos da escritora e colaboradora deste Blog, Ana Madalena. Ela agora vai alçar voos bem mais altos e ambiciosos e nós ficamos aqui torcendo para que brilhe muito mais do que brilhou nessa audiência. Mas a vida continua e a coluna CRÔNIOCAS também. Hoje você vai ler a crônica das crônicas. O autor Humberto Werneck faz uma homenagem aos maiores cronistas da literatura brasileira, como: Rubem Braga, Lima Barreto, Raquel de Queiroz e Paulo Mendes Campos. Nos dois lados do Balcão o autor conta passagens inusitadas de crônicas desses ícones da literatura brasileira. Leia e se divirta!

Nos dois lados do balcão

Humberto Werneck

Alfaiataria Americana, de João Antônio Ribeiro, Rua do Bonfim, Diamantina-MG, 1920 década. Foto de Chichico Alkmim/ Acervo Instituto Moreira Salles.


Jamais se saberá se Lima Barreto comprou alguma coisa naquela manhã de 1921 em que saiu de casa, no Méier, rumo a uma feira livre,
novidade que um burocrata do Ministério da Agricultura, Dulfe Pinheiro Machado, futuro ministro de Getúlio Vargas, implantara no Rio de
Janeiro. Cronicamente desmonetizado que era, o mais provável é que nosso escriba não tenha comprado nada – muito menos umas bruxas
de pano, recheadas de serragem, que lhe pareceu destoarem num território supostamente exclusivo de verduras e legumes.



Até então encantado com a “lindeza de moças e senhoras”, relata Lima Barreto em
Feiras livres ficou muito irritado – e bem mais que ele o
Barreto em Feiras livres, ficou muito irritado e, bem mais que ele, o vendedor das tais bruxas, deflagrando um bafafá que requereu a
presença da Lei, na pessoa de um tenente e um capitão. De repente, o que era crônica pode dar a impressão de haver-se convertido em
notícia policial, quando o Lima, brandindo linguagem figurada, conta que o comerciante, de nome Bragalhães, “foi pelos ares”. Curiosamente, também em outro escrito seu,
No “mafuá”dos padres, haverá agentes da ordem – no caso, um soldado e um alferes que, num leilão, brigam por um carneiro. Qualquer que seja o resultado, a disputa terá como ganhadora uma terceira pessoa, a Candinha, que nem está ali – e dois perdedores, adivinhe quem…



Mas voltemos às feiras livres, inspiração também de Rachel de Queiroz, moradora do Rio em visita a São Paulo em 1946 – e, ali, à
feira do
Arouche
, onde o que mais a interessou pode ter sido não exatamente algo à venda, e sim a beleza de vendedoras de origem japonesa e
italiana, tipos pouco encontradiços nas feiras cariocas. Nas quais, aliás, Paulo Mendes Campos haverá de denunciar, no início dos anos 1950, a existência de
um golpe de feira, aplicado por vendedores desonestos, dados a entregar ao comprador, dissimuladamente, algo inferior ao que ele havia escolhido. Panorama bem diverso daquele a que Paulo se acostumara em sua infância belo-horizontina, tema da bela e delicada As horas antigas: o universo de uma gente simples que, do portão da rua, batia palmas ou gritava “ô de casa” (campainha era luxo de umas poucas residências), oferecendo de tudo – de lenha para o fogão, frutas, hortaliças, leite, carne, a uma dobradinha pronta para ir à mesa. Ao time dos feirantes desonestos, o cronista poderia acrescentar o personagem de As duas faces de um caixeiro: um convincente
vendedor de aparelhos de televisão que, quando isso lhe convenha, não hesita em desqualificar, diante do mesmo possível comprador, o artigo cujas virtudes louvara, enfaticamente, apenas um minuto atrás.



Assim como seu confrade mineiro, Rachel de Queiroz, num momento ao menos teve um pé-atrás com o pessoal por detrás do
balcão das
lojas em geral. Foi no final dos anos 1940, quando lhe pareceu que algo mudara nos usos e costumes do comércio varejista. “Antigamente”
,
rememorou ela, “qualquer freguês, dentro de uma loja, tinha a sensação de que era um rei.” E eis que então, por fatores vários, como “o
aumento dos ordenados” e “as economias de pessoal por parte dos patrões”, o quadro mudou radicalmente: “Razão, quem a tem, hoje e
sempre, é o caixeiro”.



O novo figurino das relações comerciais talvez não se aplicasse ao
armarinho, a julgar pela enorme simpatia com que Rachel, na mesma
época, escreveu sobre as lojas de linhas e agulhas. Tratava-se (e se trata ainda, sete décadas depois) de território feminino, pelo menos na
Ilha do Governador, onde a cronista tinha a sua casa: “Podem os cavalheiros cantar na sua lira as delícias do botequim e da cerveja
gelada”, contrapôs a escritora cearense; “nós, as mulheres da ilha, damos preferência ao armarinho.”



Paulo Mendes Campos haveria com certeza de confirmar o que disse Rachel. Já cinquentão, na década de 1970, ele amava o sossego de
sua casa na serra de Petrópolis, onde passava os fins de semana, simples mas provida “de todos os luxos da quietude rural”. Nem por isso dispensava “um supérfluo essencial”: a alma de “uma venda de beira de estrada”, em especial aquela de que fala em
O homem que
calculava.
A criatura que dá título à crônica vem a ser o dono do estabelecimento, e o fato de que utilize ruidosa modernidade – uma
calculadora – não compromete, aos olhos do cronista e poeta, o encanto do lugar, onde tudo se harmoniza.



Em
Confissões de um jovem editor, quem está do outro lado do balcão, ainda que sem calculadora, é Rubem Braga, que registra na crônica
assim intitulada a sua perplexidade ante o fato de se ver, aos 47 anos, pela primeira vez metido na inesperada pele de empresário, pois vinha de criar a Editora do Autor, em sociedade com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta. “Que fazer”, suspira o Sabiá da Crônica, “se virei homem de negócios?” Por feitio e temperamento, seu lado do balcão é outro, até para que possa, na condição de consumidor,
reclamar das perebas que vê no comportamento de maus negociantes.
Em Camelôs, investe furiosamente contra os vendedores de aves que, no afã de tornar mais atraente a mercadoria que oferecem, não hesitam em cegá-las, para que assim deixem de voar e cantem mais.



O Braga não poupa, igualmente, na mesma crônica, aqueles que chama de “camelôs cívicos”: os políticos que, em tempo de eleição,
atormentam o cidadão com seus alto-falantes e maculam os muros com cartazes, anunciando-se como “produtos de primeira classe”. A dois
dias do Natal, o cronista não chega a tomar as dores do
Menino cujo nascimento será uma vez mais comemorado, mas faz saber o
desconforto que lhe causa o alarido açucarado dos anunciantes em busca de cifrões. “A publicidade faz sua grande farra de fim de ano, e
nós é que devemos pagá-la”, protesta Rubem Braga, e despeja seu justo sarcasmo: “Não é o homem da empresa que nos saúda alegremente, de cristão para cristão, é a própria sociedade anônima que se faz afetuosa, que exprime os bons sentimentos que empolgam seu espírito de estatuto ou sua alma de balancete.” Na mão oposta, em
Negócio de menino o cronista não esconde a ternura pelo garoto que, num diálogo memorável, esgota seu arsenal de convencimento, na esperança de que o adulto à sua frente lhe venda um passarinho, o coleiro, o melro ou o curió, um dos três, não lhe importa qual, e pinga no final, em desespero, o que pode ser sua melhor cartada.

24/08/2021 Nos dois lados do balcão | Rés do Chão | Portal da Crônica Brasileira
https://cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/15987/nos-dois-lados-do-balcao 2/4
Portal da Crônica Brasileira

Fonte: Crônica Brasileira

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POESIA: MANÉ CABELIM E A INTERNET, POR JESSIER QUIRINO

Toda terça-feira temos a coluna POESIA, aqui no Blog do Saber com os melhores poetas, contadores de causos e cordeleiros do Brasil. Hoje você vai se divertir a valer com mais um dos seus sensacionais causos: “Mané Cabelim e a internet” é mais um causo que compõe a saga desse Mané: um matuto, que, cada vez mais, se afunda na casa-do-sem-jeito, de tanto servir de capacho pra rapariga. Assista e ria até umas horas!

Fonte:

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DICA DE LIVRO: O DIÁRIO DAS FOLHAS MORTAS DE ANTONIO MELO

Hoje quero homenagear um incrível escritor, grande talento potiguar, Antonio Melo, com o seu mais recente livro, “O diário das folhas mortas”. O mesmo autor de “A Vingança”, um dos melhores contos que já li na minha vida. Em o diário das folhas mortas o autor usou da mesma sagacidade para escrever o seguinte: Manoela ficou órfã de mãe muito criança. O pai sumiu no mundo e nunca mais deu notícias. Foi criada por um avô rigoroso, conservador e católico tradicionalista. Após o suicídio do velho patriarca, recebe, como ganho, um dele para que se torne freira e três volumes de um diário que conta bastidores da história do Brasil, da escravidão, das ditaduras latino-americanas. E o que tudo isso tem a ver com ela? Misteriosamente, algumas páginas do último volume foram arrancadas e estão desaparecidas. Num abrigo para idosos, uma das irmãs de caridade lhe entrega um misterioso envelope pardo com a palavra DOCUMENTOS. No convento onde passou a morar e pretende completar sua formação religiosa, a jovem descobre inúmeros e graves pecados acobertados pelo manto do silêncio cúmplice da Madre Superiora. Mas isso não é o pior…Quer saber do resto? Compre esse livro sensacional e divirta-se muito!

Fonte: Acervo particular

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CRÔNICAS: SOBRE HERÓIS, FADINHAS E FANTASMAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos a penúltima das fantásticas histórias de Ana Madalena, fechando uma série de 30 incríveis contos maravilhosos que vão ficar na minha memória. Infelizmente a nossa querida colaboradora vai ter que se dedicar a uma nova empreitada. Uma experiência de vida inédita para ela e não vai mais poder escrever suas belíssimas e cativantes crônicas em nossa coluna. Então aproveite para desfrutar dessa experiência sobre Heróis, fadinhas e fantasmas. Uma singela homenagem aos nossos heróis olímpicos!

Sobre heróis, fadinhas e fantasmas…


Estava ontem no intervalo do trabalho, num daqueles cantinhos do café,  quando escutei um comentário sobre as olimpíadas, o ouro de Rebeca na ginástica olímpica e outros tantos orgulhos, como nosso garoto de Baía Formosa, Ítalo e a menina Rayssa, do skate. Meu comentário foi exatamente sobre ela, que, segundo li, recusou-se a tirar fotos com políticos, por não ter recebido apoio algum.  Rayssa, chamada de fadinha, do alto dos seus 13 anos, não quis desfile em carro de bombeiro, muito menos festa, consciente da pandemia e da carona que queriam pegar no seu nome; Ítalo também seguiu essa linha e, discretamente, desembarcou em Natal, onde seguiu direto para as águas conhecidas de sua praia, onde começou a surfar com uma tampa de isopor.

Já estávamos voltando para nossas salas, quando um colega soltou uma frase que me chocou; o tema era a ginasta Simone Biles, que, “do nada”, desistiu de várias competições, alegando preservar sua saúde mental. Ele sugeriu que ela tinha amarelado por ser coisa de mulher, de estar com Tpm. Alguns riram, o que estranhamente não me impressionou, assim como não me impressionou o nome da ginasta virar chacota, tipo ” não vá dar uma de Biles”! Sim, tenham pena de mim; conviver com algumas pessoas é uma luta diária! Se houve uma coisa “boa” nessa pandemia foi não ter que estar com certos tipos, principalmente Eduardo, a quem eu escrevo essas breves linhas.

“Do nada” não existe. Tire isso da sua cabeça! Basta olhar para você, para sua história; tudo que você é tem um porquê. E se você está nesse lugar, é graças a uma série de fatores. Para o bem ou para o mal ( estou sendo cínica). Dito isso vou tecer algumas considerações, mas adianto que se você não quiser ler algumas coisas, pare por aqui. Hoje não estou para brincadeira, e não é coisa de mulher, de feminista recalcada, como você adora se referir às mulheres. Minha “praia” é um bom debate e nesse esporte, sou faixa preta.

Não sei se você já viveu ou conviveu com alguém que teve depressão, ansiedade ou pânico. Se teve a sorte de passar ileso à isso, que bom pra você porém, com tanta informação, me espanta você não ter lido sobre o assunto. Talvez você não dê a mínima para o tema ou, por outro lado, o excesso de informação lhe provoque repulsa. Sei que lê apenas comentários curtos e não se aprofunda nos assuntos; detesto sua síndrome de Dunning-Kruger, mas isso  é o de menos em se tratando de você. Chego até a rir internamente do tanto de bobagem que você diz!. Qualquer dia, quando você tiver tempo, quem sabe a gente senta para ter uma conversa de homem pra homem, como você mesmo gosta de dizer! Que ridículo!

Com certeza você não faz ideia da rotina de atletas olímpicos, nem eu, mas como gosto de ler, sei que no geral, eles começam muito novinhos, saídos das fraldas. Na folha corrida, eles têm uma vida difícil, pobre, treinando em condições impensáveis, com dezenas de lesões, ossos quebrados, mas muita vontade de vencer. E não tem essa que o importante é competir; vivem a pressão de ter que ganhar mesmo, a qualquer custo.

Então vamos ligar os pontos: depois de viver anos a fio, repetindo movimentos por horas seguidas, sem sábado, domingo ou feriado, não podendo ir à festinhas, tendo que fazer dieta, distante da família e amigos, sem poder ter uma vida dita normal, é claro que uma pessoa pode ficar com muitas questões. E até onde você aguenta que a corda estique?

Simone sofreu de um tudo para se tornar o que é hoje; dê um Google que você vai entender como é a vida das meninas que você resume em “corpos estranhos, cheios de brilhinhos na roupa e fitinhas no cabelo”. O problema dela tem um nome: twisties, que seria uma falta de orientação espacial e por consequência uma inabilidade de fazer giros, o que pode ser muito perigoso, uma vez que o atleta pode cair gravemente. Isso talvez explique o porquê dela somente ter competido na trave, ganhando bronze, que você debochou, dizendo ter sido prêmio consolação.

Eu acompanho o esporte à distância; para falar a verdade, gosto muito mais das histórias de vida dos atletas do que mesmo dos seus feitos. Uma coisa que muito me espanta no atletismo é a velocidade com que a tecnologia avança para ajudá-los fisicamente e, inversamente proporcional, é o cuidado com o emocional deles. Se eu fosse atleta de ponta, andaria com um psicólogo comigo. Viver sob pressão 24 horas por dia é insuportável. Talvez por isso eles tenham que arranjar fórmulas para desestressar, e não pode ser comida e álcool. À proposito, Thomas Daley não é um esquisito fazendo tricot; cada um desestressa como pode. O seu modus operandi todos sabemos qual é. Pulemos essa parte!.

Do pouco que vi nas madrugadas olímpicas, me pareceu que esse ano a empatia chegou mais perto desse universo, com gestos dignos de medalha de ouro. Sim, há uma riqueza humana por trás de todo esse show.  Infelizmente para alguns atletas, a Internet todo dia elege um para Cristo; Simone trouxe a discussão para a saúde mental no esporte; talvez essa questão tenha sido mais importante do que se tivesse conquistado medalhas de ouro. O tempo dirá.  A mesma sorte não teve Diego Hipólito, que foi achincalhado como o atleta do solo, que caiu de cara e de bunda. Sim, meu caro Eduardo, os atletas ainda têm que lidar com a frustração de, no próprio país, ser piada recorrente. Barrichelo que o diga!

Mas enfim, era isso que eu tinha para lhe dizer e, se eu pudesse resumir em uma palavra, essa seria LEITURA, um bom começo para você deixar de falar tanta besteira. No mais, saiba que conto as horas para sua transferência!

Só para acrescentar, segue uma listinha de heróis, fadinhas e fantasmas, que como o nome diz, são fantasmas. Estão dentro da cabeça de alguns desses atletas. Com sorte, a maioria consegue conviver bem com eles!

Rebeca Andrade – ouro  e prata na ginástica artística
Italo Ferreira – ouro no surf
Laura e Luisa – bronze no tênis feminino
Rayssa Leal – prata no skate street
Kelvin Hoefler – prata no skate street
Fernando Scheffer – bronze na natação
Bruno Fratus – bronze na natação
Mayra Aguiar – bronze no judô
Daniel  Cargnin – bronze no judô
Martine e Khaena – ouro na vela
Abner Teixeira – bronze no boxe
Alison dos Santos – bronze nos 400 mts com barreiras
Thiago Braz – bronze no salto com vara

Agora, em algum lugar em Tóquio, essa lista já deve ter aumentado! Parabéns aos medalhistas e aos não medalhistas. Vocês são incriveis!

Ana Madalena
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CRÔNICAS: BEM-ME-QUERO, POR ANA MADALENA

A coluna CRÔNICAS do Blog do Saber desta quarta-feira trás um dos contos mais interessantes já publicado pela nossa talentosíssima Ana Madalena. Nessa história ela relata, com muita perspicácia, bom humor e irreverência o cotidiano de uma personagem hilária e única, qu você não pode deixar de conhecer. Portanto, não perca tempo e comece logo a ler o hilariante conto “Bem-me-quero”.

Bem-me-quero

É  F.O.D.A, Fear of dating again, ou em bom português, medo de um novo relacionamento, disse-me Alice, que chegou revelando alívio por descobrir o nome do que estava sentindo. Eu estava num momento culinário, mexendo uma panela de doce de leite que requer 3 ingredientes: leite, açúcar e parcimônia, coisa que eu não tinha há dias. Entreguei a colher de pau para Alice e escutei o que tinha a dizer.

Alice é minha amiga de infância e somos vizinhas há oito anos.  Nossa convivência é diária, motivo pelo qual os amigos nunca entenderam o porquê de não dividirmos apartamento. A verdade é que gosto do meu cantinho sem interferências; Alice é muito bagunceira e eu sou o oposto.

Ela é dessas de “pegar emprestado”, desde roupas até objetos. Eu já emprestei vários itens para ela fazer “estilo”, para os outros. Muitos de seus namorados foram escolhidos através de matchs em apps, outros por pesquisas em redes sociais, embora nunca tenha emplacado um  relacionamento sério. Muito pelo contrário! Talvez, se ela fosse mais ela mesma, as coisas fluissem. De toda forma, eu nunca me preocupei com esse seu modo de viver, pois estava aparentemente feliz.

De uns tempos para cá, ela mudou totalmente; aquela pessoa solar e divertida, passou a ficar só e introspectiva. O primeiro alerta de que algo não estava bem se deu quando ela me fez a seguinte pergunta:

-Ana, como posso sentir falta de uma coisa que nunca tive? Uma saudade de viver algo, como ter familia, marido e filhos…

Em se tratando de Alice, aquilo soou estranho. Ela sempre falou que casamento era uma roubada e por isso se restringia a duas coisas: beleza e paciência. Se desse certo, beleza; se não, paciência. Também não pretendia ter filhos; dizia que era muito trabalhoso e roubava a melhor época da vida. Lembro de ter comentado que essa mudança fosse devido a virada da idade, dos trinta anos, que mexe um pouco com a cabeça. De toda forma, fiquei de orelhas em pé!

O segundo alerta foi quando ela deixou de pedir coisas emprestadas. Em um mês, inteirinho, ela não me pediu absolutamente nada…  E o terceiro, e mais grave de todos, foi deixar de vir à minha casa. Vivia trancada e passamos a nos comunicar exclusivamente por wa, pois não queria falar ao celular. Até os longos áudios de cinco minutos deixou de me enviar.

Tanto eu quanto Alice já tomamos a primeira dose da vacina. Eu postei minha foto no Instagram, assim como todo mundo faz, mas Alice sequer quis tirar a foto. Comentei que seus “fãs”, sabendo que já estaria parcialmente imune, poderiam, quem sabe, convidá-la para um café. Ela me fuzilou com o olhar e disse que a última coisa que queria era namorar novamente.

Só Freud poderia entender tal mudança de comportamento, pensei. E, muito a contragosto, consegui levá-la a uma psicóloga que diagnosticou um medo do desconfinamento, associado a depressão. Enquanto eu, que nem sou tão sociável quanto Alice, estava louca para sair por aí abraçando os amigos, e até os que não são, Alice tremia só em pensar nessa possibilidade, principalmente em voltar a ter um envolvimento emocional.

Alice está bem melhor; faz terapia duas vezes por semana, agora presencialmente, e já parece disposta a voltar a se relacionar com os amigos e a um certo Pedro, que conheceu na sala de espera do consultório.  Ela também está cuidando de outros aspectos, principalmente da sua auto-estima que era baixíssima. Cansei de vê-la destruindo minhas margaridas, fazendo bem-me-quer, mal-me-quer, cada vez que se interessava por alguém. Hoje, ela finalmente diz bem-me-quero! Minhas plantinhas agradecem! Por falar nisso, vou pedir a Alice que compre alguns jarrinhos de margarida para repor os meus e também um potinho de doce de leite;  o que ela fez ficou pedrado. Também pudera..  Falava mais do que mexia a panela! Muito bom ter Alice de volta!

Ana Madalena
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