Uma série, uma sensação estranha — e um reconhecimento incômodo
Quando a ficção nos devolve a História — essa é a sensação que me tomou esta semana, enquanto assistia a uma série que não me saiu da cabeça.
Não foi a violência das cenas que me impactou. Não foi a crueldade dos personagens. Foi algo mais sutil e difícil de explicar: em vários momentos, tive a impressão de já conhecer aquela história.
Imagens que não vivi, mas que me acompanham
Enquanto assistia, me vieram à mente imagens que não vivi — mas que me acompanham desde sempre. Histórias que ouvi, livros que li, documentários que assisti. Histórias de pessoas separadas, classificadas, perseguidas e histórias de medo, de silêncio, de perda da humanidade.
E então me fiz uma pergunta: por que essas narrativas fazem tanto sucesso justamente agora?
Talvez porque elas não falem sobre um futuro distante. Talvez, sobretudo, porque falem sobre nós.
O paradoxo do nosso tempo
Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, parecemos cada vez mais vulneráveis à desinformação. Nunca falamos tanto sobre liberdade e, contudo, vemos crescer a intolerância, a polarização e a dificuldade de conviver com quem pensa diferente.
As grandes tragédias da humanidade não começaram da noite para o dia. Começaram quando algumas pessoas passaram a valer menos do que outras. Quando a indiferença ocupou o lugar da empatia. Quando o medo se tornou mais forte do que o pensamento crítico. E ainda, quando o silêncio pareceu mais seguro do que a coragem.
O melhor e o pior da humanidade
Talvez seja por isso que essas histórias nos perturbem tanto. Elas nos obrigam a reconhecer que a humanidade é capaz do melhor e do pior — e que não existe uma linha tão clara separando “eles” de “nós”.
Gostamos de acreditar que, diante de uma injustiça, estaríamos do lado certo da história. Mas a verdade, todavia, é que ninguém sabe.
É aqui que Quando a ficção nos devolve a História cumpre seu papel mais poderoso: ela não nos deixa confortáveis na certeza de que seríamos os heróis.
As pequenas concessões que mudam tudo
As escolhas morais raramente se apresentam como grandes decisões heroicas. Geralmente chegam disfarçadas em pequenas concessões cotidianas. Um silêncio aqui, uma omissão ali. Uma justificativa conveniente acolá.
E assim, aos poucos, aquilo que parecia impensável começa a parecer normal. Portanto, o perigo não está nos grandes vilões — está na normalização silenciosa do que não deveria ser aceito.
A tarefa mais difícil de todas
Talvez seja por isso que continuo pensando nessas cenas dias depois. Não porque elas falem sobre o passado. Nem porque falem sobre o futuro.
Mas porque quando a ficção nos devolve a História, ela nos lembra da eterna responsabilidade que temos de permanecer humanos. E essa, ao que tudo indica, continua sendo a tarefa mais difícil — e mais urgente — de todas.
Sarita Cesana
Psicóloga CRP 17-0979
@saritacesana_ @implementeconsultoria