O peso do discurso, a realidade dos números e as eleições de 2026
“Chame-os do que você é.” “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.” Essas frases, atribuídas a estrategistas da propaganda política do século XX, tornaram-se, com o tempo, muito mais do que citações de efeito. Transformaram-se em método e deixaram o Brasil na encruzilhada. Ao longo das últimas quatro décadas, a esquerda política aprimorou com notável competência a arte de construir narrativas que, pela repetição sistemática e pelo controle de espaços institucionais e culturais, acabaram sendo absorvidas como verdades por gerações inteiras.
Contudo, não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas aqui ele ganhou contornos especialmente marcantes. A ocupação progressiva das universidades, dos sindicatos, dos movimentos sociais e, mais recentemente, de parcelas significativas da mídia e do aparato estatal, criou um ecossistema em que determinadas ideias circulam protegidas da crítica. Neste contexto, quem as questiona enfrenta não o debate, mas o estigma. O resultado é uma sociedade que, em amplos setores, aprendeu a responder emocionalmente a slogans em vez de avaliar racionalmente resultados.
Portanto, quando a narrativa substitui o diagnóstico e o poder se torna o único projeto, quem paga a conta — sempre — é o cidadão comum. E o calendário eleitoral se aproxima com uma pergunta que não pode ser esquivada: o Brasil quer continuar nesse caminho?
Vinte anos de hegemonia: o que ficou?
O Brasil está, há mais de duas décadas, sob influência predominante da esquerda no poder federal — com uma breve interrupção entre 2019 e 2022. É tempo mais do que suficiente para avaliar resultados concretos, além das promessas. Contudo, os números, quando lidos sem o filtro da narrativa oficial, contam uma história que contrasta fortemente com o discurso do progresso social.
A dívida pública bruta brasileira, que era de aproximadamente 50% do PIB no início dos anos 2000, aproxima-se hoje de níveis que economistas classificam como zona de risco estrutural. Projeções do mercado financeiro e de organismos internacionais indicam que, mantida a trajetória atual de gastos, o Brasil pode atingir a marca de 100% de endividamento em relação ao seu PIB ainda nesta década. Este patamar compromete seriamente a capacidade do Estado de investir, de honrar compromissos sociais e de manter a confiança dos mercados.
Então, o gasto público cresceu consistentemente, mas sua composição revela um problema estrutural. A maior parte do aumento foi absorvida por despesas correntes — salários, benefícios, transferências e custeio da máquina. Quando deveria ter sido por investimento produtivo em infraestrutura, educação de qualidade ou ciência e tecnologia. Em outras palavras, o Estado brasileiro ficou maior, mais caro e menos eficiente ao mesmo tempo.
“Gastar mais não é o mesmo que investir melhor. E uma dívida que cresce sem contrapartida produtiva não é política social — é hipoteca do futuro de quem ainda vai nascer.”
A realidade que os indicadores revelam
O quadro social, apesar dos programas de transferência de renda que sustentam índices de aprovação popular, carrega contradições profundas. A inflação acumulada dos últimos anos corroeu o poder de compra das famílias de renda média e baixa com uma eficiência que nenhum programa assistencial conseguiu neutralizar. O preço dos alimentos, da energia e dos aluguéis subiu em proporções que afetam desproporcionalmente exatamente a população que o discurso governamental diz proteger.
A taxa de juros básica da economia brasileira, a Selic, permanece entre as mais elevadas do mundo em termos reais. Contudo, isso não é um dado técnico abstrato. É a razão pela qual o crédito é caro, o investimento produtivo é desestimulado e o custo de carregar a dívida pública consome uma fatia crescente do orçamento que poderia financiar saúde, educação e segurança. Então, a combinação de juro alto, câmbio volátil e incerteza fiscal afasta o investimento estrangeiro de longo prazo e mantém o Brasil numa armadilha de crescimento medíocre que já dura décadas.
No campo da segurança pública, o avanço do crime organizado que atinge territórios, instituições e sobretudo a economia formal representa um dos mais graves fracassos das últimas gestões. O narcotráfico e as milícias não são apenas um problema policial. São um fenômeno político e econômico que prospera onde o Estado é fraco, corrupto ou omisso. E a omissão, em muitos casos, não é acidental.

Quando o projeto se resume ao cargo vemos o poder pelo poder
Um dos traços mais preocupantes do atual momento político brasileiro é a ausência de um projeto de país que transcenda a manutenção do poder. Reformas estruturais necessárias — tributária em profundidade, administrativa, previdenciária de longo prazo — são adiadas ou esvaziadas quando ameaçam bases políticas ou grupos de interesse aliados ao governo. A agenda real não é o desenvolvimento nacional — é a construção de uma coalizão suficientemente ampla para garantir a continuidade eleitoral. Não é a toa que em 1988, justamente no ano em que a nova Constituição foi promulgada, o cientista político Sérgio Abranches introduziu em um artigo acadêmico o termo “Presidencialismo de Coalizão”, para descrever a nova dinâmica política brasileira.
Essa lógica tem um custo que se paga em câmbio depreciado, em confiança institucional erodida e em jovens que emigram em busca de horizontes que o Brasil, com todo o seu potencial, insiste em não oferecer. Um país com a dimensão territorial, a biodiversidade, a matriz energética e o capital humano do Brasil não deveria estar discutindo como evitar o colapso fiscal. Mas sim estar discutindo como distribuir a prosperidade de uma economia que cresce consistentemente. Algo óbvio e ululante! O fato de estarmos na primeira conversa, e não na segunda, é o diagnóstico mais revelador do que foi feito. Ou melhor, do que não foi, nas últimas décadas. É lamentável!
Uma encruzilhada que não pode ser ignorada: outubro de 2026
As eleições gerais de outubro de 2026 chegam num momento em que o Brasil acumula desequilíbrios que não podem ser indefinidamente postergados. Então, a janela para correções de trajetória se estreita a cada ano que passa sem reforma fiscal séria, sem redução do custo do Estado e sem um ambiente de previsibilidade que atraia investimento produtivo de longo prazo.
O cenário eleitoral ainda está em construção, porém alguns vetores já são visíveis. A insatisfação com o custo de vida, com a insegurança e com a percepção de que o governo governa (como diria Jô Soares no seu bordão dos anos 90: “pros mesmos”) — e não para o cidadão comum — alimenta uma demanda por alternativa que ainda busca forma e liderança. Todavia, o desafio da oposição não é apenas convencer quem já está convencido. Então, ela precisa alcançar os milhões de brasileiros que votam com o estômago, que respondem ao que sentem no cotidiano, e que precisam de uma narrativa tão clara e tão repetida quanto aquela que os moldou nas últimas décadas.
Porque essa é, no fundo, a lição mais amarga do longo ciclo que este artigo analisa. Por isso, o campo que desprezou a batalha das ideias, que achou que bastava ter razão nos números e nos argumentos, perdeu repetidamente para quem entendeu que a política se ganha também — e talvez principalmente — no campo simbólico, emocional e narrativo. Mudar isso exige não apenas bons candidatos e bons programas. Exige uma geração disposta a comunicar, a repetir e a não se envergonhar de dizer, com clareza, o que acredita — e por quê.
“Uma mentira repetida mil vezes vira verdade — dizia a propaganda. A resposta não é o silêncio indignado. É a verdade repetida com a mesma persistência, a mesma convicção e a mesma paciência.”
Wagner Braga