O tempo não avança igual pra todo mundo

Cada um tem o seu timing

Nos últimos dias, tenho me percebido observando o tempo de um jeito diferente. Talvez porque, ao me tornar bisavó, algo dentro de mim tenha se reorganizado em silêncio. Como se, de repente, o tempo deixasse de ser apenas cronológico — aquele que marca compromissos, agendas e prazos — e passasse a se revelar em camadas mais profundas. Hoje, convivem diante dos meus olhos tempos muito diferentes. Então, conclui-se que o tempo não avança igual pra todo mundo.

O tempo de um bebê, que precisa de presença constante, de cuidado inteiro, de um mundo que ainda é novo em cada detalhe.
O tempo de um jovem, que tem pressa de viver, de escolher, de afirmar sua autonomia. Também o tempo dos adultos, quase sempre atravessado pela urgência — dar conta, resolver, produzir, sustentar.
E ainda, o tempo de quem já viveu muito… onde a pressa começa a perder sentido e o olhar ganha mais profundidade.

A velocidade interna de cada um

E então me dei conta de algo que talvez explique tantos desencontros:

O tempo não avança igual pra todo mundo.

A gente fala muito sobre conflito de gerações, sobre diferenças de valores, de comportamentos, de visão de mundo. Entretanto, olhando mais de perto, talvez o que realmente nos separa — e, muitas vezes, nos machuca — seja algo mais sutil: a velocidade interna de cada um.

Alguns estão prontos. Outros ainda estão tentando entender. Uns querem seguir. Outros ainda estão elaborando. E no meio disso, surgem os conflitos. Nas famílias. Nas relações. No trabalho.

Porque, sem perceber, passamos a exigir que o outro acompanhe o nosso tempo.

O tempo que ainda não chegou

Então, queremos que o jovem tenha maturidade emocional que ainda está sendo construída.
Que os mais velhos acompanhem mudanças que não fizeram parte da sua formação.
Queremos que as equipes respondam com rapidez a processos que ainda estão sendo assimilados.
Que as pessoas mudem… antes de estarem prontas para isso.

E quando isso não acontece, damos nomes duros: resistência, imaturidade, desinteresse, dificuldade.

Mas talvez nem sempre seja isso. Talvez, em muitos casos, seja apenas um tempo que ainda não chegou.

O Tempo não avança igual pra todo mundo.

Uma nova forma de olhar

Então, essa percepção tem me atravessado com força.

Porque, ao mesmo tempo em que vejo a beleza de tantas gerações coexistindo — algo raro, inclusive — também vejo o quanto isso exige de nós uma nova forma de olhar.

Exige menos julgamento. Mais escuta. Menos urgência e mais presença.

Talvez o verdadeiro desafio não seja fazer o outro acelerar, mas aprender a respeitar o tempo dele… sem abandonar o nosso.

E isso não significa concordar com tudo. Nem deixar de orientar, conduzir, educar. Mas significa reconhecer que desenvolvimento não se impõe — se acompanha.

O tempo não é um só

Contudo, isso indica que vínculos não se sustentam na pressão, mas na possibilidade de existir junto, mesmo em ritmos diferentes.

Se tem algo que essa nova fase da minha vida tem me ensinado, é isso: o tempo não é um só. Nunca foi.

E talvez amadurecer seja, justamente, parar de tentar sincronizar todos os relógios…e começar a construir relações onde caibam diferentes tempos.

Porque, no fim, não é a pressa que sustenta os encontros.
É o respeito pelo tempo de cada um.

Sarita Cesana

Psicóloga CRP 17-0979

@saritacesana_                         @jornada_da_felicidade

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