A Mente do Amanhã

Preparar-se para o futuro é, antes de tudo, um projeto humano

Tenho pensado muito sobre o futuro do trabalho. Talvez porque, durante tantos anos trabalhando com pessoas e organizações, eu tenha acompanhado mudanças que, em outros tempos, levariam décadas para acontecer. Hoje, elas acontecem diante dos nossos olhos — e, algumas vezes, antes mesmo de compreendermos uma transformação, outra já começou. Inteligência artificial, novas tecnologias, profissões que desaparecem, outras que surgem, relações cada vez mais mediadas por telas. O futuro deixou de ser uma coisa distante; ele chega todos os dias. Foi com esse olhar que me interessei pelo livro A Mente do Amanhã, de Gabriella Rosen Kellerman e Martin Seligman. Os autores partem justamente dessa realidade: não podemos eliminar a incerteza do mundo do trabalho, mas podemos desenvolver recursos psicológicos que nos preparem melhor para viver e trabalhar dentro dela.

Talvez devêssemos começar pelas pessoas

Quando falamos sobre o futuro do trabalho, quase sempre começamos pela tecnologia. Talvez, porém, devêssemos começar pelas pessoas. Durante muito tempo, sucesso profissional esteve associado principalmente ao conhecimento técnico: era preciso saber fazer. E, evidentemente, isso continua importante.

Contudo, o profissional do futuro talvez precise desenvolver, com a mesma atenção, a capacidade de lidar com aquilo que ainda não sabe fazer. Essa diferença é enorme: trabalhar em um ambiente previsível exige competência, mas trabalhar em um ambiente incerto exige competência e, sobretudo, flexibilidade psicológica.

A Mente do amanhã

A resiliência que não é sofrimento

É aqui que entra a resiliência — não aquela ideia simplificada de suportar tudo, permanecer forte e continuar produzindo independentemente das circunstâncias. Resiliência não deveria significar acostumar-se ao sofrimento.

Ser resiliente é conseguir atravessar adversidades, aprender com elas, reorganizar recursos internos e seguir adiante sem perder completamente a capacidade de escolher. Todavia, resiliência sozinha talvez não seja suficiente para enfrentar o mundo que se anuncia.

Criatividade além da arte

Precisaremos também de criatividade. Quando as respostas antigas deixam de funcionar, precisamos construir outras. Criatividade, nesse sentido, não pertence apenas aos artistas ou às profissões consideradas criativas: é, sobretudo, uma competência para resolver problemas, enxergar alternativas, questionar caminhos conhecidos e experimentar possibilidades.

A conexão humana em um mundo tecnológico

Há ainda uma capacidade que considero fundamental: a conexão. Quanto mais tecnológico se torna o trabalho, mais valiosas se tornam algumas habilidades profundamente humanas. Escutar, conversar, cooperar, pedir ajuda, construir confiança, reconhecer o outro, pertencer.

Não deixa de ser curioso: em um futuro marcado pela inteligência artificial, talvez nossa grande diferença esteja justamente na qualidade das nossas relações humanas. A Mente do Amanhã nos lembra, sobretudo, que tecnologia e humanidade não precisam competir entre si.

Prospecção e significado

O livro também fala de prospecção — a capacidade de imaginar futuros possíveis e nos prepararmos para eles — e de significado, a compreensão de por que aquilo que fazemos importa. Esses elementos integram o modelo PRISM apresentado pelos autores.

E aqui encontro uma conexão muito forte com a Psicologia. Afinal, preparar pessoas para o futuro do trabalho não deveria significar apenas ensiná-las a utilizar novas ferramentas. Significa, sobretudo, ajudá-las a desenvolver autoconhecimento, segurança emocional, capacidade de adaptação, relações saudáveis e consciência sobre aquilo que dá sentido ao próprio trabalho.

Uma mente capaz de encontrar o futuro

Talvez por isso eu tenha gostado tanto da expressão “a mente do amanhã“. Ela não significa tentar adivinhar o futuro; significa desenvolver uma mente capaz de encontrá-lo.

Uma mente que consiga mudar sem perder sua identidade. Que aprenda sem sentir vergonha de ainda não saber. E que utilize a tecnologia sem abandonar as relações. Que consiga enfrentar dificuldades sem naturalizar o adoecimento. Que permaneça curiosa quando as antigas certezas já não forem suficientes.

Não sabemos exatamente como será o trabalho daqui a dez anos. Mas podemos começar a decidir como queremos chegar até lá. E talvez a melhor preparação para um futuro cada vez mais tecnológico seja, paradoxalmente, investir naquilo que temos de mais humano: nossa capacidade de aprender, criar, nos adaptar, construir vínculos e encontrar sentido no que fazemos. Essa, afinal, é uma boa definição de A Mente do Amanhã.

Sarita Cesana

Psicóloga CRP 17-0979

@saritacesana_                                    @implementeconsultoria

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