As Janelas Quebradas de Ponta Delgada

As janelas quebradas – uma teoria urbana

Hoje quero falar sobre as janelas quebradas de Ponta Delgada. Depois de dias no mar, paramos numa ilha portuguesa, os Açores, em Ponta Delgada, Portugal, nossa terra “mãe.”

Havia algo de curioso no ar, para além da maresia. Depois de dias a falar a língua global, o inglês, voltávamos ao português. E eu, como linguista, não pude deixar de observar o que se passava dentro de meu cérebro.

Regressar à língua materna é mais do que trocar palavras. É um reencontro neurológico. Então, o cérebro reconhece padrões antigos, ativa memórias afetivas, reduz o esforço cognitivo. Ainda assim, há um instante curioso, quase imperceptível, em que nos sentimos estrangeiros naquilo que sempre foi nosso.

Felizmente, passa rápido.

O cérebro ajusta-se. Descansa. E, de repente, tudo flui: os sons, os sentidos, os gestos invisíveis da comunicação. E então, sem aviso, estamos em casa.

Ponta Delgada: onde o tempo se acumula

Caminhar por Ponta Delgada pela terceira vez não diminuiu o encanto. As ruas de pedras, carregadas de história, parecem sussurrar que o tempo não abranda, apenas se acumula.

Mesmo isolada no Atlântico, a ilha carrega séculos de história de um dos países mais antigos do mundo. E ali, diante das Portas do Mar, percebe-se algo simbólico: aquele lugar não é apenas chegada é passagem. Uma espécie de portal entre mundos, especialmente para quem vem cruzando o Atlântico.

As janelas quebradas e aquilo que revelam

Pelas ruas, a beleza nos chamou a atenção, mas não foram apenas os monumentos que ficaram em minha mente. Em certo ponto, vi algumas janelas quebradas, de imóveis suntuosos, porém, abandonados.

Foram as falhas que prenderam minha atenção. As benditas janelas quebradas.

Pode parecer detalhe e talvez seja exatamente esse o ponto. Então, não sei se foi meu olhar de dona de casa, de quem gosta das coisas a funcionar, ou meu olhar jurídico, pois lembrei da teoria das janelas quebradas, proposta por James Q. Wilson e George L. Kelling, em 1982, discutidas em sala de aula.

Contudo, a teoria é simples, quase desconcertante: sinais visíveis de desordem como janelas partidas, lixo acumulado ou pequenas infrações ignoradas  comunicam permissividade. E, quando nada é corrigido, algo maior começa a desmoronar.

Não é apenas sobre cidades.

Nunca é. É sobre nós mesmos.

As Janelas Quebradas de Ponta Delgada.

Os pequenos sinais que ensinamos a nós mesmos

A lógica das janelas quebradas se aplica à vida quotidiana.

Quando deixamos “para depois” aquilo que já pede cuidado: a torneira a pingar, a xícara rachada, a gaveta que não fecha, estamos, sem perceber, a treinar o nosso cérebro para tolerar o desalinho.

E o cérebro aprende rápido. Ah, como aprende.

Aprende que não é urgente, que pode esperar, que não vale o esforço.

E assim, pouco a pouco, o adiamento transforma-se em padrão.

A acumulação silenciosa do que não resolvemos

As pequenas negligências acumulam-se como poeira nos cantos da vida. As teias de aranha instalam-se onde antes havia atenção. O nó na garganta deixa de ser passageiro, torna-se um pingente que carregamos sem perceber. E assim, seguimos até ao dia em que já não dá para ignorar.

Porque as janelas quebradas não ficam apenas janelas. Tornam-se portas abertas ao descuido, paredes marcadas, espaços desordenados, beirando à ruina.

Internos e externos.

O momento da virada

Entretanto, há um momento, e ele chega, em que decidimos interromper o ciclo. E não fazemos isso por perfeição, mas por necessidade.

É quando começamos a reparar, a iniciar os pequenos concertos. Vamos comprando as fechaduras novas, as xícaras, os tapetes e jogando o que está defeituoso fora, sem desapego.

Nossa vida cria um fôlego. O Cérebro se ajusta e nos ajuda a prosseguir.

Vamos modificando tudo que está ao nosso alcance. O que depende de nós. O que ainda pode ser salvo.

E, curiosamente, é aí que algo muda.

Responsabilidade e protagonismo

A vida volta a fazer sentido quando assumimos responsabilidade por ela. Quando deixamos de esperar que alguém venha consertar aquilo que fomos adiando. Não há resgate externo para aquilo que exige presença interna. Nunca esqueça: a casa é nossa. A vida também.

Os detalhes nunca são apenas detalhes

Naquele dia, nos Açores, entre ruas antigas e as janelas quebradas de Ponta Delgada esquecidas, ficou uma certeza silenciosa:

os detalhes nunca são apenas detalhes. São eles que transformam nossas vidas para melhor ou não.

Mas e você, tem deixado os pequenos detalhes para depois?

Beijos da cronista.

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1 comentário em “As Janelas Quebradas de Ponta Delgada”

  1. Querida, suas crônicas estão mais profundas a cada viagem.
    Eu sou muito apreciadora dos detalhes, não os suntuosos, mas os pequenos e sutis detalhes.
    Como diz o ditado popular “Deus e o diabo moram nos detalhes”. Eles sempre estarão lá, para o bem ou para o mal.
    Quanto a arrumação, confesso que com criança acabo deixando a bagunça rolar. 🙂
    A prioridade dos detalhes passa a ser outra, mas não menos importante.
    E o motivo é também um detalhe, um dia a bagunça acaba.
    Os brinquedos, hoje espalhados pela casa, são doados por falta de uso e tudo fica mais “vazio”.
    Então, embora reclamando em alguns momentos, acabo relevando.
    Mas os detalhes, que estão nos pequenos gestos e afins, nunca perdem a importância.
    Grata por me levar em suas viagens. 😉

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