Evolução ou alienação?
O Culto ao Corpo em Evidência, uma febre assola a sociedade brasileira nos últimos anos com a abertura de academias a torto e a direito. Pode-se dizer, claro que com um certo exagero, que em cada esquina das grandes cidades existe hoje uma academia. Franquias como Smartfit, Selfit e Skyfit não param de abrir filiais em cada bairro e na maioria dos grandes supermercados.
Os números confirmam a percepção. A Smartfit encerrou 2025 com 984 unidades só no Brasil, atendendo 2,2 milhões de clientes, após crescer 20% em apenas um ano. A Selfit, nascida em Salvador em 2012, ultrapassou 195 unidades e faturou R$ 448 milhões em 2025, um salto de 36% sobre o ano anterior. Já a Skyfit soma cerca de 600 unidades espalhadas pelo país, consolidando-se como uma das redes de maior expansão do Brasil.
Somadas às demais redes regionais e independentes, o Brasil já conta com mais de 56 mil academias ativas — o segundo maior mercado fitness do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O Culto ao Corpo em Evidência é, portanto, um fenômeno real e mensurável. Mas ele representa evolução ou alienação? É o que este artigo pretende investigar.
Atividade física e musculação a serviço da população
Nos anos 1970, a musculação ainda era vista, no Brasil, como atividade de nicho — restrita a atletas, fisiculturistas e a um público majoritariamente masculino. Academias eram poucas, simples e frequentadas por uma parcela mínima da população. Cuidar do corpo não fazia parte da rotina da maioria dos brasileiros.
Hoje o cenário é outro. A atividade física deixou de ser nicho e se tornou parte do imaginário coletivo de saúde e bem-estar. Essa mudança de mentalidade acompanha, e talvez explique em parte, um dado notável: em 1970, a expectativa de vida do brasileiro era de 57,6 anos; em 2024, segundo o IBGE, ela alcançou 76,6 anos — um ganho de 19 anos de vida em pouco mais de cinco décadas.
Os fatores que agregaram valor nessa evolução
É importante não atribuir esse avanço apenas às academias. A medicina teve papel decisivo: vacinas, saneamento básico, redução da mortalidade infantil e avanços no tratamento de doenças crônicas explicam boa parte do salto na longevidade brasileira. A atividade física entra como um fator complementar, e cada vez mais relevante, dentro desse conjunto.
Contudo, essa influência tem dois lados. Do lado positivo, a medicina baseada em evidências comprovou os benefícios do exercício físico na prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes e depressão. Do lado negativo, a mesma modernidade médica, aliada à indústria farmacêutica e do fitness, também abriu espaço para atalhos questionáveis — como veremos mais adiante.

Conscientização ou alienação?
Existe, de fato, uma parcela da população que se tornou saudavelmente consciente sobre os benefícios da atividade física e da musculação. Essas pessoas entendem o exercício como investimento de longo prazo em saúde física e mental, e organizam sua rotina em torno disso, sem excessos ou modismos.
Entretanto, existe também uma outra parcela que aderiu a essa filosofia de vida por pura influência da mídia e das redes sociais — sem reflexão própria, apenas reproduzindo um padrão estético amplamente disseminado. Para esse grupo, a academia não representa um projeto de saúde, mas um símbolo de pertencimento e aparência. É aqui que O Culto ao Corpo em Evidência começa a revelar sua face mais ambígua.
A verdade sobre o ritmo de crescimento
Os números merecem um olhar comparativo cuidadoso. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, apenas 30,1% dos brasileiros adultos praticavam o nível recomendado de atividade física em 2019 — 34,2% dos homens e 26,4% das mulheres — contra 22,7% em 2013. Ou seja: em seis anos, a parcela fisicamente ativa da população cresceu cerca de 33%, um avanço real, mas lento.
Compare-se isso ao ritmo das próprias redes de academia: a Smartfit cresceu 20% em apenas um ano; a Selfit, 36%. Segundo seu próprio CEO, a fatia de brasileiros matriculados em academias passou de cerca de 5%, antes da pandemia, para 7% hoje — ainda assim, mais de 90% da população permanece fora das academias. A conclusão é direta: as academias crescem muito mais rápido do que a população verdadeiramente ativa. O negócio se expande num ritmo que a saúde coletiva ainda não acompanha.
A contribuição dos anabolizantes e canetas emagrecedoras
Parte desse descompasso encontra explicação em atalhos químicos. Estudos científicos brasileiros revisados pela SciELO mostram que a prevalência do uso de esteroides anabolizantes entre frequentadores de academia varia de 2,1% a 25,5%, a depender da região e do perfil pesquisado — números que, mesmo no limite inferior, revelam um problema de saúde pública silencioso.
As canetas emagrecedoras, por sua vez, explodiram em popularidade: pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 33% dos lares brasileiros já têm ou tiveram um morador usuário de Ozempic, Mounjaro ou Wegovy — salto expressivo frente aos 26% de poucos meses antes —, e 24% dos brasileiros já as usaram pessoalmente. Usadas sob prescrição médica e acompanhamento adequado, essas substâncias podem ser ferramentas legítimas de tratamento. Usadas para atalhos estéticos, sem supervisão, tornam-se risco à saúde disfarçado de solução rápida.
Conclusão: a conta fecha?
Comparando o crescimento das academias — na casa dos 20% a 36% ao ano — com o crescimento da população verdadeiramente engajada numa vida saudável — cerca de 33% ao longo de seis anos —, a conta não fecha. As academias crescem como negócio muito mais rápido do que a saúde coletiva avança como resultado.
O Culto ao Corpo em Evidência é, portanto, os dois fenômenos ao mesmo tempo: evolução real para uma parte da população, alienação estética para outra. Uma rotina verdadeiramente saudável não exige academia lotada, anabolizante ou caneta emagrecedora — exige regularidade. De 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, alimentação equilibrada, sono adequado e acompanhamento médico quando necessário bastam para sustentar, sem exageros, o que a ciência já provou funcionar: um corpo mais saudável e uma vida mais longa.
Mantra do EU SOU
Eu Sou consciente de que cuidar do corpo é cuidar da vida inteira.
Eu Sou regularidade, não exagero.
E Eu Sou imune aos atalhos que colocam em risco minha própria saúde.
Eu Sou responsável pela diferença entre evolução e alienação na minha vida.
Wagner Braga