Natureza humana ou animal?
É comum vermos na natureza animais machos lutando, muitas vezes até a morte, disputando uma fêmea. A esses embates podemos chamar, primariamente, de conflitos. No reino animal, isso é comum, corriqueiro e até admissível, dado o nível de cognição dessas criaturas.
Entretanto, quando observamos seres humanos fazendo exatamente a mesma coisa, algo muda. E ainda com requintes impensáveis para qualquer criatura do reino animal — como os inúmeros duelos com armas de fogo ao longo da história, travados para reparar a honra ultrajada por um forasteiro. Tal ação vai além do animalesco; torna-se totalmente selvagem. Afinal, o indivíduo teve tempo para pensar, ponderar e decidir seguir em frente ou não. O animal age única e exclusivamente por instinto.
Portanto, o que leva homens, estados e nações a gerarem tantos conflitos, quando existem inúmeras alternativas antes de se deflagrar uma guerra ou uma briga? É isso que este artigo pretende investigar.
A origem de todo conflito: o egoísmo!
Todo e qualquer conflito começa por um único motivo: um dos lados pensou apenas em si mesmo, em detrimento do outro. Essa é a raiz mais profunda de qualquer disputa, por mais complexa que ela pareça.
Sobretudo, o que está por trás desse egoísmo é a falta de empatia. É a incapacidade — ou a recusa — de se colocar no lugar do outro antes de agir. Quando ninguém se importa em entender a perspectiva alheia, o conflito se torna praticamente inevitável.
Portanto, antes de qualquer guerra, duelo ou discussão, existe sempre um momento anterior. Um momento em que alguém escolheu priorizar seu próprio interesse, ignorando por completo o do outro.

O diálogo como solução
Não há nada que um bom diálogo não consiga resolver. Essa afirmação, embora simples, carrega uma verdade profunda sobre a natureza humana.
Além disso, é exatamente a fala que nos diferencia dos animais. Ela é a forma mais eficiente de comunicação já desenvolvida por qualquer espécie na Terra. Contudo, ironicamente, os conflitos entre humanos não param de existir, mesmo com essa ferramenta poderosa à disposição.
Então, por que o diálogo tantas vezes fracassa? Porque, muitas vezes, ele nem chega a ser tentado de verdade. As pessoas falam, mas não ouvem; argumentam, mas não dialogam. Portanto, o problema raramente está na ferramenta, e sim em quem se recusa a usá-la.
Ademais, existe uma diferença essencial entre escutar e ouvir. Quando apenas escutamos, a informação entra por um ouvido e sai pelo outro, sem ser processada, compilada ou analisada. Todavia, quando realmente ouvimos, essa informação passa por todo esse processo interno, e a probabilidade de haver entendimento aumenta muito.
Portanto, o sucesso do diálogo não está em ambos falarem; está, sobretudo, no momento em que as duas partes verdadeiramente se ouvem.
Quando um não quer, dois não brigam
Existe um ditado popular sabedoria pura: quando um não quer, dois não brigam. Os conflitos, sejam eles pequenos desentendimentos ou grandes guerras, só existem enquanto ambos os lados desejam que existam.
Portanto, basta que um dos lados escolha, conscientemente, não alimentar a disputa, para que ela perca força. Isso não significa fraqueza ou covardia; significa, sobretudo, maturidade emocional e discernimento.
Todavia, colocar essa sabedoria em prática exige humildade. Exige abrir mão do orgulho, da necessidade de “vencer” a qualquer custo. E é justamente essa dificuldade que perpetua tantos conflitos evitáveis ao longo da história.
Implantando a filosofia do Ubuntu
Existe uma filosofia africana, chamada Ubuntu, que resume bem o caminho para o fim dos conflitos. Sua essência pode ser traduzida pela frase: “eu sou porque nós somos”.
Segundo essa visão, popularizada por líderes como Nelson Mandela e Desmond Tutu, nenhuma pessoa existe verdadeiramente isolada. Portanto, a minha humanidade está diretamente ligada à humanidade do outro. Ferir o próximo é, sob essa ótica, ferir a mim mesmo.
Sobretudo, se essa filosofia fosse verdadeiramente implantada nas relações humanas, muitos conflitos sequer nasceriam. Além disso, o egoísmo perderia sentido diante da compreensão de que todos estamos, de alguma forma, interligados. Então, talvez o Ubuntu seja, de fato, o antídoto mais simples e mais profundo contra a natureza conflituosa do ser humano.
A empatia e o Ubuntu
Os conflitos não nascem do acaso; nascem do egoísmo, da falta de diálogo genuíno e da recusa em abrir mão do próprio orgulho. Contudo, existe sempre uma saída, por mais distante que ela pareça em meio à disputa.
Portanto, praticar a empatia, exercitar o diálogo verdadeiro e reconhecer que “eu sou porque nós somos” pode ser, sobretudo, o caminho mais curto entre a natureza animal que ainda carregamos e a humanidade plena que podemos escolher viver.
Wagner Braga