Crise migratória europeia

A conta chegou

Não é possível falar sobre a crise migratória europeia sem antes olhar para trás. Toda crise tem uma origem, e esta, especificamente, carrega raízes históricas profundas, plantadas séculos atrás.

O imperialismo desmedido

Entre os séculos XVI, XVII e XVIII, as potências europeias construíram impérios coloniais em praticamente todos os continentes. Contudo, o continente africano sofreu de forma particularmente brutal com esse processo.

O escravagismo desmedido tratou seres humanos como mercadoria, como animais destituídos de dignidade. Milhões de famílias africanas foram destruídas, separadas à força e enviadas para além-mar, sem qualquer possibilidade de retorno. Ademais, as riquezas naturais do continente foram exploradas sistematicamente, enriquecendo impérios distantes.

Portanto, entender a crise migratória europeia exige, antes de tudo, reconhecer essa ferida histórica. Ela não começou agora; ela apenas está, sobretudo, chegando à sua fatura final.

A África: uma terra devastada

O colonialismo não se limitou ao tráfico de pessoas; ele também drenou sistematicamente as riquezas naturais africanas. Ouro, diamantes, borracha, especiarias e minérios preciosos alimentaram economias europeias por séculos.

Contudo, esse processo deixou pouco ou nada para o desenvolvimento local. Fronteiras artificiais foram traçadas sem respeitar etnias e culturas, e instituições foram moldadas para servir aos interesses coloniais. Ademais, ao se retirarem, os impérios deixaram para trás economias fragilizadas e estruturas políticas instáveis.

Portanto, não é coincidência que tantas nações africanas ainda enfrentem pobreza extrema e instabilidade crônica. Sobretudo, esse cenário de devastação econômica é uma das principais causas do fluxo migratório em direção aos países mais ricos e prósperos.

Os primeiros sinais

Entre 2003 e 2006, Ayaan Hirsi Ali ocupou uma cadeira na Câmara Baixa do Parlamento holandês, eleita pelo Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD). Ela, uma imigrante somaliana, chegou a integrar o legislativo do país que a acolheu.

Sua atuação política e intelectual se concentrou em alertar a sociedade holandesa. Ela via, segundo sua perspectiva, uma complacência perigosa diante da imigração islâmica radical e da falta de integração de novos cidadãos. Contudo, seus alertas não surtiram o efeito esperado.

Nem os holandeses, e sobretudo os alemães, alteraram significativamente suas políticas de permissividade migratória nos anos seguintes. Portanto, os primeiros sinais dessa crise migratória europeia já estavam claramente visíveis, ainda que amplamente ignorados pela classe política da época.

Crise Migratória Europeia

A lei do retorno

Seguindo a linha do autoconhecimento, cabe uma analogia dolorosa. O que o europeu imperialista impôs aos africanos, através da escravidão e da exploração colonial, parece agora encontrar seu reflexo invertido.

Milhares e milhares de imigrantes chegam, muitas vezes a nado, às fronteiras europeias — como em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Portanto, existe algo simbólico nessa imagem: pessoas atravessando o mesmo mar que outrora carregou embarcações de escravos rumo ao sentido oposto.

Sobretudo, essa inversão de fluxo carrega uma mensagem incômoda, quase cármica: a conta chegou, com juros e correção monetária. Ademais, ignorar essa conexão histórica é recusar-se a compreender verdadeiramente a origem da crise migratória europeia.

A redenção europeia

Se a conta chegou, então também existe um caminho possível de redenção. Portanto, a verdadeira solução passa por uma espécie de logística reversa.

Investimentos maciços em infraestrutura, saneamento, educação e saúde nos países africanos poderiam, ao longo do tempo, estancar essa sangria migratória. Ademais, esses investimentos criariam condições reais de desenvolvimento local, reduzindo a necessidade de partir em busca de sobrevivência.

Sobretudo, essa redenção não seria caridade, mas justa reparação histórica. Então, ao invés de apenas conter fronteiras, a Europa poderia investir na origem do problema, revertendo, finalmente, o fluxo que ela mesma ajudou a criar séculos atrás.

Compreendendo a origem do conflito

A crise migratória europeia não nasceu do acaso; ela é consequência direta de um passado colonial que ainda não foi verdadeiramente ajustado. Portanto, compreender essa origem é o primeiro passo para qualquer solução duradoura.

Sobretudo, a verdadeira redenção europeia não estará em muros ou barreiras, mas em reconhecer e reparar aquilo que foi construído sobre séculos de exploração alheia.

Wagner Braga

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