Um campo que redefine o valor da natureza
Finanças para a natureza constituem um campo multissetorial que vincula investimento, biodiversidade, regulação, capital privado e desenvolvimento sustentável. Esse enfoque integra economia, regulação, investimento público, capital privado, biodiversidade, água, clima e desenvolvimento territorial. Contudo, seu propósito não consiste apenas em financiar projetos ambientais isolados, mas também em modificar os incentivos que determinam quais atividades recebem capital. Por isso, sua importância reside no fato de que os ecossistemas não possuem apenas valor ambiental, mas também econômico e social. Então, protegê-los significa proteger produtividade, resiliência e estabilidade social. Isso é fundamental, considerando que quase metade da economia global depende significativamente da natureza como insumo.
Com base nisso, diferentes estudos têm buscado medir se a economia global financia mais conservação ou degradação. O relatório State of Finance for Nature 2026, publicado em janeiro de 2026, demonstrou a magnitude do desequilíbrio financeiro global. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), 7,3 trilhões de dólares financiaram atividades degradantes da natureza em 2023. Em contrapartida, apenas 220 bilhões de dólares financiaram soluções para a degradação ambiental — ou seja, para cada dólar investido em conservação, trinta são investidos em destruição.
O desequilíbrio estrutural dos fluxos financeiros
A comparação mostra que o problema não é apenas arrecadar mais recursos, mas revisar quais atividades recebem crédito, subsídios, investimento e apoio público. Segundo o UNEP, para cumprir as Convenções do Rio, o investimento em natureza precisaria se multiplicar 2,5 vezes, alcançando 571 bilhões de dólares anuais até 2030. Esse valor equivale a apenas 0,5% do produto interno bruto mundial — o que evidencia que os recursos globais existem. O que falta é a decisão política e econômica de redirecioná-los.
As soluções baseadas na natureza são o principal destino positivo dentro do campo das finanças para a natureza. As Nações Unidas as definem como ações para proteger, conservar, restaurar e gerir ecossistemas naturais ou modificados. O objetivo é buscar responder a desafios sociais, econômicos, ambientais e climáticos de forma simultânea. Assim, a natureza deixa de ser vista como gasto ambiental e passa a ser compreendida como infraestrutura estratégica para as sociedades — capaz de oferecer retornos competitivos mediante perdas evitadas por desastres naturais.
Por que a degradação é mais bem financiada
Existe uma lógica perversa no núcleo do desequilíbrio entre degradação e conservação. Atividades danosas geram retornos rápidos e mensuráveis no curto prazo, enquanto os serviços ecossistêmicos costumam permanecer fora dos preços de mercado e carecem de valoração adequada. Uma floresta conservada regula a água, estabiliza os solos, armazena carbono e protege a biodiversidade de maneira contínua e invisível. No entanto, convertê-la em agricultura, pecuária, mineração ou infraestrutura pode gerar receitas imediatas para atores privados. Essa diferença cria uma vantagem financeira para atividades que reduzem o capital natural e transferem seus custos a terceiros.
Os subsídios públicos ambientalmente prejudiciais representam um dos pilares estruturais desse desequilíbrio. Segundo o relatório do UNEP, durante 2023 foram destinados 2,4 trilhões de dólares em subsídios vinculados a combustíveis fósseis, agricultura, água, transporte e construção. Esses subsídios barateiam artificialmente atividades intensivas em emissões e consumo de ecossistemas. O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal aborda diretamente esse problema por meio de sua Meta 18, que exige reduzir incentivos prejudiciais à biodiversidade em pelo menos 500 bilhões de dólares anuais até 2030. Então, reformar esses subsídios não é apenas uma medida ambiental — é uma correção estrutural da arquitetura econômica vigente.
“A rentabilidade privada pode ocultar perdas públicas, ecológicas e econômicas muito maiores, que só aparecem no longo prazo. E é exatamente essa assimetria que o mercado, sozinho, não consegue corrigir.”

O setor privado: entre o risco e a responsabilidade
O setor privado desempenha um papel determinante nos dois lados da equação das finanças para a natureza. Por um lado, contribui com 4,9 trilhões de dólares para fluxos negativos à natureza, concentrados em setores como serviços públicos, indústria, energia e materiais básicos. Por outro, contribuiu com apenas 23,4 bilhões de dólares para soluções baseadas na natureza em 2023 — equivalentes a dez por cento do total investido nessa direção. Portanto, essa assimetria revela que as empresas ainda não investem em natureza em escala, apesar de dependerem dela para suas cadeias produtivas.
Mais de 730 organizações já adotaram o marco do Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza, representando 22,4 trilhões de dólares em ativos sob gestão. No entanto, a crescente consciência sobre riscos relacionados à natureza ainda não se traduz em fluxos financeiros proporcionais para sua proteção. A pergunta relevante não é quanto as empresas investem em projetos verdes — é quanto de seus modelos econômicos ainda depende da degradação ecológica.
A natureza como infraestrutura econômica invisível
A natureza funciona como uma infraestrutura econômica invisível que sustenta atividades produtivas no mundo todo de maneira silenciosa. O Banco Mundial estimou que o colapso de determinados serviços ecossistêmicos poderia reduzir o produto interno bruto global em 2,7 trilhões de dólares anuais até 2030. Contudo, entre os serviços mais vulneráveis estão a polinização silvestre, a provisão alimentar proveniente da pesca marinha e a madeira de florestas nativas. Além disso, a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos apontou que os custos não contabilizados dos enfoques econômicos atuais alcançam entre 10 e 25 trilhões de dólares anuais.
Os obstáculos estruturais que impedem redirecionar os fluxos financeiros são múltiplos e inter-relacionados. A natureza carece de um preço de mercado que reflita o valor real de seus serviços. Muitos benefícios ecossistêmicos são públicos ou coletivos, dificultando sua monetização privada. Bancos e fundos de investimento avaliam riscos financeiros tradicionais sem considerar a dependência ecológica real de seus portfólios. E os ciclos políticos são consideravelmente mais curtos que os ciclos ecológicos, desincentivando reformas de longo prazo. Atrasar a ação necessária poderia duplicar os custos de cumprir as metas globais de biodiversidade.
O verdadeiro desafio: parar de financiar a destruição
Em conclusão, as finanças para a natureza revelam que a crise da biodiversidade não se explica pela falta de recursos para a conservação. Ela se explica por uma arquitetura econômica que continua premiando a degradação por meio de subsídios, crédito e investimentos mal direcionados. Enquanto o investimento em soluções baseadas na natureza cresce lentamente, os fluxos negativos superam em trinta vezes cada dólar destinado a proteger ecossistemas.
O desafio central consiste, portanto, em deixar de financiar a destruição antes de pretender financiar a restauração. Proteger a natureza será viável quando degradá-la deixar de ser a opção mais bem financiada — e esse é um problema de escolha política e econômica, não de escassez de recursos. Os recursos existem. O que precisa mudar é para onde eles apontam.
“Não falta dinheiro para salvar a natureza.
Falta parar de usá-lo para destruí-la.
Essa é, no fundo, toda a equação das finanças para a natureza.”
André Tejerina