Talvez a maior riqueza esteja onde menos olhamos
Esses dias resgatei uma história que conheci há muitos anos e que, curiosamente, me pareceu diferente agora. Talvez porque as histórias também mudem conforme muda quem as escuta. É a parábola de Ali Hafed, popularizada por Russell Conwell em Acres of Diamonds ou os diamantes que estavam ali.
A parábola de Ali Hafed
Houve um homem chamado Ali Hafed, que vivia no belo país do Irã. Fazendeiro, estava contente com sua situação: sua fazenda era excelente e rendosa, tinha esposa e filhos, criava carneiros e camelos, e plantava trigo. “Se um homem tem esposa, filhos, camelos, saúde e a paz de Deus”, dizia ele, “é um homem rico!”
Ali Hafed continuou rico até que, certo dia, um sacerdote veio visitá-lo e começou a falar de uma coisa estranha, que chamava de “diamante”. Ali Hafed jamais ouvira falar em diamantes, e o sacerdote comentou: “Eles brilham como um milhão de sóis. Na verdade, são as coisas mais lindas do mundo!”
De repente, Ali Hafed passou a sentir-se muito descontente com o que possuía. Perguntou ao sacerdote onde se podiam encontrar esses diamantes, pois precisava possuí-los. O sacerdote respondeu que era possível achá-los em qualquer parte do mundo: bastava procurar um riacho de águas transparentes correndo sobre areia branca, em região montanhosa.
Ali Hafed, então, tomou uma decisão: vendeu a fazenda, confiou esposa e filhos aos cuidados de um vizinho, e se lançou em sua jornada à procura de diamantes. Viajou pela Palestina, depois ao longo do Vale do Nilo, até que, afinal, foi à Grécia, entrando, a seguir, na Espanha. Procurava areias brancas, montanhas altas. Diamantes, porém, não encontrou nenhum.
O desfecho final
Com o correr dos anos, chegou ele à costa de Barcelona, abatido, sem recursos e sem condições de comunicar-se com a família. Num acesso de desespero, profundamente deprimido, lançou-se ao mar e morreu. Enquanto isso, o homem que adquiriu a fazenda de Ali Hafed achou uma pedra negra, enquanto seu camelo bebia num riacho. Levou-a para casa, colocou-a sobre a estante e esqueceu-se dela. Um dia, o mesmo sacerdote apareceu, olhou para a pedra e notou uma luz colorida brotando de uma lasca. “Um diamante dentro da pedra! Onde achou essa pedra?”, perguntou. O fazendeiro contou que a havia encontrado nas frias areias do riacho onde levava seu camelo para beber. Juntos, correram até o riacho, cavaram e acharam mais diamantes. Esse achado se transformou na Mina de Diamantes Golconda, a maior mina do mundo.

O que a parábola revela sobre nós
Voltei a essa história e fiquei pensando em quantas vezes fazemos algo parecido ao longo da vida. Nem sempre vendemos nossas terras ou atravessamos continentes. Mas olhamos para longe. Imaginamos que seríamos mais felizes se estivéssemos em outro lugar, se tivéssemos outra profissão, outra aparência, outra história, outra relação, outra vida.
Olhamos para aquilo que os outros conquistaram e, distraidamente, deixamos de perceber o que existe em nosso próprio terreno. Talvez esse seja um dos desafios do autoconhecimento: aprender a reconhecer Os Diamantes que Estavam Ali.
Diamantes que nem sempre brilham à primeira vista
Às vezes, eles estão escondidos nas experiências que acumulamos. Em uma habilidade que naturalizamos tanto que já nem reconhecemos como talento. Nas pessoas que permaneceram. Na capacidade de recomeçar. Na história que construímos. Naquilo que aprendemos depois de errar. E até nas marcas que algumas travessias deixaram em nós.
De onde estamos partindo?
Isso não significa que devemos permanecer onde estamos ou deixar de desejar coisas novas. Continuo acreditando profundamente no movimento, na curiosidade, nos projetos e na possibilidade de nos reinventarmos em qualquer fase da vida. A questão talvez seja outra: de onde estamos partindo?
Partimos da curiosidade por aquilo que ainda podemos descobrir, ou da sensação permanente de que aquilo que somos nunca é suficiente? Existe uma diferença enorme entre buscar novos horizontes porque queremos ampliar a vida e passar a vida procurando, do lado de fora, algo que imaginamos não possuir.
Aprender a olhar para o próprio terreno
Talvez amadurecer seja também aprender a fazer uma pausa e olhar para o próprio terreno. Revisitar nossa história com outros olhos. Reconhecer recursos que estavam ali e não víamos. Valorizar conhecimentos que o tempo nos trouxe. Perceber relações que cultivamos. Recuperar sonhos que abandonamos cedo demais. Descobrir capacidades que nunca tiveram oportunidade de aparecer.
E há algo bonito nisso: talvez ainda existam partes de nós que nem nós conhecemos. Depois de tantos anos vivendo, aprendendo, trabalhando, amando, perdendo, acertando e recomeçando, ainda podemos encontrar alguma coisa nova dentro de nós.
Talvez os nossos maiores diamantes não estejam necessariamente em algum lugar distante, esperando que cheguemos até eles. Talvez alguns estejam exatamente onde sempre estiveram. Essa é, afinal, a lição central de Os Diamantes que Estavam Ali: eles esperam apenas que aprendamos a olhar.
Sarita Cesana
@saritacesana @implementeconsultoria
CRP 17-0979