A Nossa Própria Odisseia

Uma viagem que não nos devolve ao mesmo lugar

Com o lançamento da nova adaptação de A Odisseia, de Homero, fiquei pensando em algo. Por que uma história escrita há quase três mil anos ainda emociona tanta gente? Talvez porque, no fundo, ela nunca tenha sido apenas sobre mares revoltos, monstros ou deuses. Ela sempre falou de nós. E talvez seja exatamente por isso que a nossa própria Odisseia comece muito antes de percebermos.

Ulisses e a batalha que ele não esperava

Ulisses parte para uma guerra imaginando que a maior dificuldade seria vencer os inimigos. Contudo, ele descobre que voltar para casa pode ser muito mais difícil do que partir.

No caminho, enfrenta tempestades e perde companheiros queridos. É seduzido por atalhos tentadores e quase desiste no meio do percurso. Ademais, permanece anos preso em lugares onde jamais planejou ficar.

Quando a vida muda nossa rota

Quantas vezes isso também acontece conosco? Planejamos uma carreira, um casamento, um negócio, uma aposentadoria, uma viagem. Então, de repente, a vida nos leva para rotas que jamais imaginaríamos percorrer.

Passamos anos tentando voltar ao lugar de onde saímos. Todavia, existe um detalhe que talvez seja o mais importante de toda a história: Ulisses nunca voltou sendo o mesmo homem que partiu.

Nem poderia ter voltado igual. As experiências nos transformam, assim como as perdas. Os encontros também nos transformam, e as despedidas, sobretudo, deixam marcas profundas.

A Nossa própria Odisseia.

O maior sofrimento: insistir em voltar a ser quem éramos

Talvez o maior sofrimento humano seja insistir em voltar exatamente para quem éramos antes. Antes da separação, da doença, da perda, daquela decisão difícil que mudou tudo.

Contudo, a vida não nos convida a retornar; ela nos convida a continuar. Portanto, resistir a essa verdade só prolonga a dor de quem insiste em olhar apenas para trás.

A verdadeira casa não é um lugar

A verdadeira casa não é um ponto geográfico no mapa. É, sobretudo, o momento em que fazemos as pazes com a pessoa que nos tornamos depois da travessia.

Talvez seja por isso que A Odisseia continue tão atual, mesmo depois de tantos séculos. Porque todos nós, em algum momento, navegamos entre medos, tentações, incertezas e tempestades. E seguimos procurando um lugar onde possamos, finalmente, dizer: “cheguei”.

Não porque tudo voltou a ser como era antes. Mas porque aprendemos que o destino nunca foi apenas o lugar de chegada. Era, sobretudo, a pessoa que nos tornaríamos durante o caminho.

Conhecendo uma nova versão de nós mesmos

Talvez a maior sabedoria da vida seja compreender isso: ninguém atravessa uma odisseia para voltar igual. Portanto, as grandes viagens não nos devolvem ao passado; elas nos apresentam uma nova versão de nós mesmos.

E é assim, sobretudo, que a nossa própria Odisseia segue se escrevendo, dia após dia, travessia após travessia.

Sarita Cesana

Psicóloga CRP 17-0978

@saritacesana_                         @implementeconsultoria

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