Prazos de Validade

Prazos de validade: as datas que não vêm impressas na vida

Hoje, véspera de mais uma viagem, cumpri um ritual que já se tornou parte da despedida. Organizei nosso pequeno apartamento em Natal, que permanecerá fechado por algum tempo. Lavei as roupas que haviam ficado, fechei os ralos, limpei a casa e espalhei produtos antimofo. Afinal, estamos falando de Natal, onde a maresia insiste em deixar sua marca até nas paredes.

Mas é sempre na despensa que passo mais tempo.

As datas impressas nas embalagens

Ali, examino cuidadosamente os prazos de validade dos alimentos, dos produtos de limpeza e de tudo aquilo que pode vencer antes do nosso retorno. O que sei que não será consumido a tempo, separo para doação. É um gesto simples, mas que evita desperdícios e, quem sabe, ainda pode ser útil para alguém.

Enquanto verificava datas e embalagens, percebi que, curiosamente, as tarefas domésticas costumam ser terreno fértil para os meus pensamentos.

Os prazos de validade existem por uma razão. Eles nos protegem, orientam e nos lembram que algumas coisas deixam de ser seguras com o passar do tempo. Consumir um alimento vencido pode trazer consequências para a saúde. Embora, confesso, certa vez tenha bebido uma Coca-Cola fora da validade e absolutamente nada tenha acontecido. Mistérios que talvez só a própria Coca-Cola explique.

Os prazos invisíveis da vida

Mas, entre uma lata e outra, uma pergunta me atravessou: e se a vida também viesse com prazos de validade claramente impressos?

E se soubéssemos exatamente até quando duraria uma amizade? Um casamento? Um emprego? Um sonho?

Talvez fosse mais fácil. Talvez nos preparássemos melhor para as despedidas e sofrêssemos menos quando chegasse a hora de partir. Não carregaríamos tantas sequelas emocionais, nem a sensação de termos investido tempo demais em algo que já havia acabado muito antes de admitirmos.

Vivemos uma época em que muitos relacionamentos parecem nascer já com data para terminar. São laços rápidos, descartáveis, frágeis como embalagens de uso único. Duram enquanto são convenientes e, ao menor sinal de desgaste, são substituídos por outros.

O tempo que o corpo também conhece

Mas nem todos os prazos são definidos por escolhas.

Neste mês, durante algumas consultas médicas, descobri que o meu tempo biológico para uma gravidez praticamente chegou ao fim. Não foi uma notícia dolorosa, porque nunca alimentei o sonho da maternidade. Ainda assim, a constatação me fez refletir. E se eu quisesse agora? A natureza, silenciosamente, também estabelece seus limites.

Foi impossível não pensar que nós também carregamos prazos invisíveis.

O que nunca deveria vencer

Há, porém, aquilo que escapa a qualquer calendário.

Uma amizade verdadeira não vence. Um amor construído com respeito também não. É claro que ambos mudam com o tempo. Perdem o frescor dos primeiros dias, ganham outras cores, outros ritmos. Como um bom vinho, amadurecem. E é justamente essa maturidade que lhes dá ainda mais valor.

O amor entre pais e filhos também desconhece vencimento. Os filhos crescem, seguem seus próprios caminhos, constroem novas vidas. A rotina muda, as distâncias aumentam, mas o vínculo permanece intacto, atravessando o tempo.

Quando terminei de organizar a despensa, fechei a porta e percebi que, no fundo, eu não havia passado a manhã apenas conferindo datas impressas nas embalagens.

A única validade que desconhecemos

Eu estava, sem perceber, refletindo sobre o tempo.

Porque a única validade que realmente desconhecemos é a nossa. Ela existe, inevitavelmente, mas ninguém sabe onde está impressa.

Talvez seja justamente esse mistério que nos convide a viver com mais gentileza, mais presença e menos adiamentos.

Que saibamos cuidar das pessoas antes que elas se tornem lembrança, agradecer enquanto ainda há tempo, pedir perdão quando for necessário e cultivar tudo aquilo que não pode ser comprado nem substituído.

No fim das contas, mais importante do que saber quanto tempo algo dura é fazer com que, enquanto existir, valha a pena.

Agora, me contem vocês, depois dessa reflexão: “o que estamos fazendo com o tempo que nos resta?” e ainda, opinem “seria interessante que os acontecimentos da vida viessem com prazo de validade ou isso tiraria a graça de tudo?”

Beijos e assim que parar em uma salinha de aeroporto, lerei os comentários.

2 comentários em “Prazos de Validade”

  1. Você acertou quando disse que eu iria gostar desta crônica. Na verdade, eu amei.
    Penso que não saber nossos “prazos de validade” na vida seja uma benção.
    Ao mesmo tempo, gosto de pensar que estamos vivendo uma despedida de algo todos os dias e isso torna a vida mais poética.
    Algumas despedidas são momentâneas, mas outras são definitivas.
    Como dito pelo nosso poeta Vinicius de Moraes “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. <3

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  2. Eita,uma reflexão e tanto,na vida de cada humano existe o mistério da morte,sabemos quantos meses precisamos para nascer,mas só sabemos que um dia deixaremos de viver, mas é um mistério,por que não sabemos quando e nem como,nas coisas ou objetos quando tem o seu fim,podemos substituir por outro do mesmo jeitinho e novo,os humanos já fazem besteiras sem saber o dia da sua validade imagine se sobe o dia a hora de deixar servir,aí é que as coisas ficavam mais horríveis do que está acontecendo.

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