Reflexões sobre feridas, escolhas e liberdade
Quem me conhece sabe que adoro ler. Recentemente, voltei a pensar em A Leste do Éden, de John Steinbeck, e assisti à minissérie. Contudo, algumas histórias não terminam quando fecho o livro ou sobem os créditos. Elas continuam comigo, fazendo perguntas e revelando feridas antigas com roupas novas.
As marcas que carregamos
Todos nós trazemos uma história. Fomos amados de certas maneiras e, por vezes, não como precisávamos. Portanto, experimentamos perdas, comparações, frustrações e injustiças. Ademais, quanto mais observo as pessoas — e a mim mesma —, mais percebo que o passado nem sempre fica no passado.
Quando o passado reaparece
Ele surge na necessidade de aprovação, no medo da rejeição ou na raiva desproporcional. Todavia, também aparece na inveja, no ressentimento e na busca incessante por reconhecimento. Talvez por isso A Leste do Éden me provoque tanto. Steinbeck mostra feridas atravessando gerações — Adam e Charles, Cal e Aron — dois pares de irmãos e o mesmo desejo humano: ser amado.

Compreender não é absolver
Cal me toca especialmente. Deseja o amor do pai e, ao comparar-se com Aron, sente inveja e raiva. Contudo, não o vejo apenas como “mau”. Enxergo sua fragilidade. Compreender não é absolver. Podemos entender a origem de um comportamento e, ainda assim, reconhecer a responsabilidade pelas escolhas.
O amor nem sempre transforma
Cathy me provoca de outro modo. Gostaríamos de acreditar que o amor sempre transforma, mas nem todo sofrimento gera mudança. Portanto, nem toda oportunidade é aproveitada. Nem mesmo o amor recebido garante que alguém conseguirá oferecer empatia ou compaixão.
Timshel: Tu podes
Steinbeck apresenta Timshel, palavra que significa “Tu podes”. Não é promessa nem obrigação. É possibilidade. Tu podes — escolher, mudar, vencer. Não há garantia de superação, mas há liberdade para decidir o que fazer com nossas sombras.
Entre ferida e escolha
Nenhum de nós escolheu tudo o que viveu. Todavia, podemos escolher o que fazemos com isso. Entre a dor e a reação, existe um espaço — e nesse espaço mora a liberdade humana.
Olhar para dentro
Vivemos tempos de polarização. Ademais, estamos rápidos para dividir o mundo entre bons e maus. Contudo, talvez seja mais importante olhar para dentro: o que desperta minha intolerância? Que ferida está sendo tocada?
A escolha que nos liberta
Talvez Caim e Abel não estejam em lados opostos, mas dentro de nós. Portanto, volto a Timshel: Tu podes. Não escolhemos tudo o que nos aconteceu, mas escolhemos o que faremos com isso. Reconhecer nossas feridas sem transformá-las em identidade é um ato de liberdade.
Herança e transformação
Timshel — Tu podes. Não é promessa de facilidade, mas lembrança de que, enquanto pudermos escolher, nossa história ainda está sendo escrita. E aquilo que herdamos não precisa ser o que deixaremos como herança.
Sarita Cesana