Como fazê-la comer?
Aqui estou eu novamente, tentando fazer a minha filha abrir a boca para comer. Desta vez, não tem dente nascendo, não tem resfriado, com certeza, ela está num salto de desenvolvimento! Engatou a primeira para começar a andar e segue sem mudar de marcha. Fico imaginando o gráfico desse salto: uma curva de distribuição gaussiana com f(x) tendendo a infinito. Que baita salto em altura!
Um mês se passou e lá vem a diarista de novo, como que em pacto com a minha mãe: “ela já está andando?”. E emenda “o meu neto, com 7 meses, já fica de pé”. Espera, estou divagando. Não é isso que faz ela deixar de comer, mas o seu desejo por interagir com as coisas, com as pessoas. Sua ânsia por adquirir novos conhecimentos e desenvolver novas habilidades cognitivas. Ela aponta para todos os lados e reclama, soando como uma pessoa surda que tenta falar. Ela quer saber o nome das coisas, como se nunca tivéssemos dito. Na verdade, nós repetimos todo o tempo. Mas pede que repitamos até que ela consiga imitar aquele som.
No entanto, é preciso fazê-la comer e ela não para de criar demandas aleatórias. A comida está esfriando e pedir o som dos bichos para a Alexa já não funciona mais. Chega, acho que eu que preciso criar uma demanda para ela. Mostro o álbum de fotos. Ela se encanta reconhecendo as pessoas, os lugares e os objetos nas fotos. Questiono onde está o papai, a mamãe e ela mesma. Está tão concentrada, que, ao aproximar a colher de seu rosto, a boca se abre automaticamente.
O que ela quer..?
Por alguns dias, a nova estratégia funciona. Mas chega um momento em que ela se entedia. Ela já viu aquelas fotos um milhão de vezes, já respondeu às demandas que criei outras mesmas vezes. Imprimo mais fotos, vamos trazer novidades ao álbum, penso. As novas fotos chamam a sua atenção, mas o encanto dura muito pouco. Logo, ela está com a mastigação lenta e desviando o rosto das colheradas de comida, enquanto aponta para todos os lados, como quem não sabe ao certo o que quer.
Cansada e frustrada por todo o tempo em que me encontro naquela situação, questiono irritada à pequena “afinal, o que você quer?!”. Penso imediatamente “eu só queria que você comesse…”. Mas é mentira. Na verdade, eu queria muitas coisas: eu queria dormir mais, assistir mais filmes e séries, comer melhor, nas horas certas, eu queria ter mais tempo para trabalhar, para encontrar meus amigos, conversar bobagens, ter papos-cabeça, para praticar yoga, para estudar e tantas outras coisas…
Tomar água. Quantas vezes acabo esquecendo de tomar água, na função com a minha filha e com a casa e com as refeições, e só me dou conta da escassez quando vou fazer cocô, que vejo as hemorroidas atacadas?!
Che voglio io?
Repito “o que raios você quer?!”. E como posso esperar uma resposta tão subjetiva de um indivíduo quase não-sujeito, ainda em formação, procurando descobrir tudo o que existe para poder finalmente decidir o que quer..? Afinal, o que eu quero com essa pergunta? Recolho-me, então, à minha insignificância diante de tudo o que minha filha não sabe e que eu esperava que ela soubesse. Mas, antes disso, estou em fúria. É preciso que alguém me socorra dessa situação.
Meu marido percebe que estou à beira do colapso e, com delicadeza, ele assume a minha posição. Que alívio. Agora, o problema é dele. Ou, pelo menos, até eu precisar assumir novamente. Lembro das hemorroidas, bebo um copo d’água. Mas a água não parece ser o suficiente. Minha barriga está vazia, devo estar num jejum de quase oito horas – é que, na era pré-bebê, eu costumava comer a cada três. Como uma fruta, é o que tem de mais acessível.
Normalmente, uma fruta não me satisfaria. Mas estou tão estressada que prefiro ocupar a minha cabeça com os afazeres domésticos. Estou a todo vapor, afinal, quanto mais ocupada, mais tempo de “liberdade” terei. Ouço o meu marido tentando convencê-la a comer. Ele se recusa a entretê-la durante as refeições, acha que comer é hora de comer. Naquele momento, ele tem toda a paciência do mundo. Eu, meia hora depois, também.
S-T-R-A-T-É-G-I-E.
Chego na reunião do meu trabalho e dou um suspiro. Algumas pessoas percebem e perguntam se está tudo bem. Digo que minha filha está dando trabalho para comer. A colega rebate na hora: “meus filhos nunca tiveram problema com isso”. Uma outra complementa com “os meus sempre comeram muito e de tudo”, faz uma pausa e continua “ah, exceto verduras e essas coisas” (como se fossem triviais). Como já estou acostumada a esse tipo de reação, relevo o que foi dito. Afinal, com seus filhos na pré-adolescência, duvido que elas consigam se lembrar de todas as fases da primeira infância.
No dia seguinte, procuro empurrar todas as refeições para o pai de minha filha, alegando que ele tem muito mais paciência do que eu. No almoço, ele começa a alterar a voz, percebo que fica irritado por qualquer coisa. Presumo que seja a minha vez de assumir a pequena. Ele precisa de um tempo e eu já tive o meu. Assim, seguimos, revezando os nossos estresses.
Em sua próxima refeição, observo que ele se entrega a minha estratégia. E vejo também que Mel começa a pedir por seus livros. Bem como por músicas referentes às figuras que aparecem nos livros. Ela dança, diverte-se, enquanto come. Aos poucos, a pequena vai descobrindo o que gosta e vai criando demandas mais consistentes. Mas não é do dia para a noite, é um processo.
Sem tempo…
Uma demanda consistente que substitui a outra. E vão se tornando tão consistentes, que é preciso saber driblar quando não convêm. Saber… Como saber? Não se sabe. Com um bebê, só se vive. Um dia de cada vez. Criando constantemente novas estratégias. Que talvez funcionem. E, quando funcionam, nunca é por muito tempo.
Tempo… Faz um bom tempo que parei de tentar otimiza-lo. Não que tenha deixado de ser frustrante. Afinal, sou totalmente impotente diante desse ser imprevisível. Começamos a refeição, mas sabe-se-lá-deus quando terminaremos. É o livro, é o álbum de fotos, é a música, é o som dos bichos. É um possível sinal de que o cocô está vindo e lá vamos nós pro “sapinho” (o tal do penico). Pode ser que seja, pode ser que não. E lá fica a comida sobre a mesa, esfriando, enquanto nos aventuramos no sapinho. Afinal, o sapinho pode significar apenas uma tentativa de fuga de algo que virou tédio.
Socorro!
Se o cocô sai, comemoramos! É o processo do desfralde acontecendo. E o sapinho é tão mais limpinho, tão mais rapidinho, é tudo de bom! Mas se o cocô não dá as caras, a frustração aumenta. Agora, não sei se ela de fato quis dizer cocô ou outra coisa ou se usou o sapinho pra fugir da comida.
Voltamos à mesa. Lá vamos nós requentar a comida. Pela enésima vez! Bom, se ela fez cocô no sapinho, não importa quantas vezes. Eu posso ficar ali por mais duas horas entretendo a minha filha até ela comer a última colherada. Se não, socorro! E lá vem o meu marido… Assim, seguimos, com a impressão de que estamos dissolvidos no tempo. Um tempo que parece não existir, porque tudo o que temos é para ela ou em função dela. Uma curva gaussiana que estica, encolhe, vira parábola e, talvez, uma reta paralela ao eixo x. E recomeça.