Ouvir o mundo sem deixar de se ouvir
Vivemos cercados de vozes. Algumas vêm de quem amamos. Outras chegam do trabalho, da família, dos grupos aos quais pertencemos. Cada vez mais, porém, elas chegam pelas telas: especialistas, influenciadores, notícias, vídeos, podcasts, opiniões, conselhos, tendências. Todos os dias alguém nos diz o que devemos fazer, como devemos viver, o que comprar, o que é saudável ou tóxico, como educar os filhos, conduzir relacionamentos, trabalhar, envelhecer e até ser felizes.
Nunca tivemos acesso a tanta informação. Contudo, talvez justamente por isso corramos um risco curioso: ouvir tantas vozes a ponto de termos dificuldade de reconhecer a nossa própria. Esse é o ponto de partida de A Voz Que É Sua Em Meio A Tantas Outras.
O autoconhecimento que ainda nos falta
Como psicóloga, sempre considerei o autoconhecimento importante. Todavia, talvez ele esteja se tornando ainda mais necessário nos dias de hoje. Não me refiro apenas àquele autoconhecimento que ajuda a identificar qualidades, limitações, medos ou desejos. Penso em algo mais profundo: a capacidade de reconhecer o que verdadeiramente faz sentido para nós.
- Isso é realmente importante para mim ou aprendi que deveria ser?
- Eu penso assim ou estou apenas repetindo algo que ouvi muitas vezes?
- Eu quero isso ou quero corresponder às expectativas que colocaram sobre mim?
- Essa escolha combina comigo ou com a imagem que gostaria que os outros tivessem de mim?
São perguntas desconfortáveis. Afinal, nem sempre é fácil descobrir onde termina a influência do mundo e começa aquilo que reconhecemos como nosso.
Ser influenciado não é o problema
Não há nada de errado em sermos influenciados. Somos seres de relação. Aprendemos uns com os outros, mudamos a partir dos encontros, revemos pensamentos, incorporamos ideias. Eu mesma espero continuar mudando de opinião muitas vezes. Seria preocupante chegar a uma fase da vida acreditando que já não tenho nada a rever.
O problema, portanto, talvez esteja em outra coisa: quando deixamos de perceber que estamos sendo influenciados. Quando uma ideia repetida muitas vezes começa a parecer uma verdade absoluta. Quando passamos a desejar aquilo que todos parecem desejar. Quando nos comparamos tanto que já não sabemos se estamos insatisfeitos com a nossa vida ou apenas olhando demais para a vida dos outros.
Olhar para fora sem se perder
Por isso, talvez o autoconhecimento não seja somente olhar para dentro. É também aprender a olhar para fora sem se perder. É conseguir escutar uma opinião sem precisar adotá-la. É admirar alguém sem querer ser aquela pessoa.
É receber um conselho e ainda assim perguntar: “Isso serve para mim?”. É mudar de ideia sem sentir que perdemos nossa identidade. E também é permanecer em uma escolha mesmo quando ela não recebe aplausos.
A Voz Que É Sua Em Meio A Tantas Outras não nos torna imunes às influências — nem deveria. Sobretudo, ela nos dá algo cada vez mais precioso: discernimento, a capacidade de fazer uma pequena pausa entre aquilo que chega até nós e aquilo que decidimos acolher.
O grande desafio do nosso tempo
Talvez seja esse um dos grandes desafios do nosso tempo. Não precisamos de menos informação; precisamos, sobretudo, de mais consciência sobre o que fazemos com ela. Afinal, há muitas pessoas dispostas a nos dizer quem deveríamos ser.

Existem modelos de sucesso, de beleza, de juventude, de produtividade, de relacionamento, de maternidade, de envelhecimento e de felicidade. Se tentarmos responder a todos eles, talvez construamos uma vida bastante adequada aos olhos dos outros — e estranhamente distante de nós mesmos. A Voz Que É Sua Em Meio A Tantas Outras nos lembra que informação sobra, mas consciência sobre o que fazemos com ela ainda é rara.
Uma conversa permanente consigo
Conhecer-se, portanto, não significa encontrar uma versão definitiva de si mesmo. Continuamos mudando, e ainda bem. Talvez seja justamente o contrário: conhecer-se é manter uma conversa permanente consigo.
É perceber quando algo deixou de fazer sentido. É reconhecer quando um valor continua importante. É admitir quando mudamos, questionar escolhas automáticas e, de vez em quando, ter a coragem de perguntar: “Isso ainda tem a ver comigo?”.
Quanto mais barulho existe do lado de fora, mais importante se torna reconhecer o que acontece do lado de dentro. Não para fechar os ouvidos ao mundo, mas para que, no meio de tantas vozes, a nossa própria não se torne apenas mais uma que deixamos de escutar. Esse é, afinal, o convite de A Voz Que É Sua Em Meio A Tantas Outras.
Mantra do EU SOU
Eu Sou capaz de ouvir o mundo sem perder a minha própria voz.
Eu Sou discernimento entre o que me chega e o que escolho acolher.
E Eu Sou uma conversa permanente comigo mesmo, sempre em construção.
Eu Sou fiel àquilo que realmente faz sentido para mim.
Sarita Cesana