Traumas

Quando o Ontem Ainda Interfere no Hoje

Traumas: quando o ontem ainda interfere no hoje é um tema que tenho estudado com bastante dedicação. Quanto mais leio e escuto sobre o assunto, mais uma ideia permanece comigo: algumas coisas passam, mas nem sempre passam completamente dentro de nós.

Durante muito tempo, associei a palavra trauma a acontecimentos extremos, situações muito graves, episódios que claramente dividem uma vida entre um antes e um depois. Eles existem, evidentemente. Todavia, tenho aprendido que a compreensão do trauma é bem mais complexa.

O Que Realmente Define Um Trauma

Nem sempre importa apenas o que aconteceu. Importa também como aquilo foi vivido, os recursos que tínhamos naquele momento, quem estava ao nosso lado e o que conseguimos, ou não, fazer com aquela experiência.

Talvez por isso duas pessoas possam atravessar situações semelhantes e guardá-las de maneiras tão diferentes. Há experiências que terminam no calendário, mas continuam aparecendo nas nossas reações, mesmo quando acreditamos que já superamos tudo.

Sobretudo, essas marcas aparecem de formas variadas: numa necessidade exagerada de controle, no medo de ser abandonado, na dificuldade de confiar, na necessidade constante de agradar. Aparecem também na irritação desproporcional, no silêncio, na fuga, ou na sensação de precisar estar sempre alerta.

Traumas

Uma Pergunta Mais Interessante

Diante disso, comecei a me fazer uma pergunta que considero muito mais interessante do que simplesmente perguntar “por que eu faço isso?”: o que em mim ainda está reagindo a alguma coisa que já passou? Essa pergunta muda completamente o olhar.

Afinal, aquilo que hoje parece uma reação inadequada talvez tenha sido, em algum momento da nossa história, uma maneira possível de nos proteger. O problema surge quando continuamos utilizando antigas estratégias de sobrevivência diante de situações que já não representam o mesmo perigo.

É como se uma parte de nós ainda estivesse respondendo a uma realidade que não existe mais. Portanto, traumas: quando o ontem ainda interfere no hoje nos convida a investigar essa parte que insiste em reagir ao passado.

Compreender Sem Justificar

Talvez seja por isso que autoconhecimento não seja apenas descobrir quem somos, mas também compreender de onde vêm algumas das nossas respostas. E isso vale tanto para nós quanto para o modo como olhamos o outro.

Quantas vezes chamamos alguém de difícil, frio, controlador, inseguro ou distante sem conhecer a história que existe por trás daquele comportamento? Contudo, compreender não significa justificar tudo, muito menos retirar de alguém a responsabilidade pelas próprias escolhas.

Sobretudo, compreender amplia nossa capacidade de olhar para o comportamento humano com menos julgamento e mais profundidade. Essa mudança de perspectiva transforma tanto nossas relações quanto o modo como lidamos com nossas próprias reações.

Impedindo Que o Passado Escolha Por Nós

Também tenho pensado que falar sobre trauma não precisa significar viver voltado para o passado. Ao contrário: talvez conhecer aquilo que ainda nos atravessa seja justamente uma forma de impedir que o passado continue escolhendo por nós.

Não podemos mudar aquilo que aconteceu, mas podemos ampliar a consciência sobre o que fazemos hoje com aquilo que aconteceu. Essa é, talvez, uma das possibilidades mais bonitas do processo terapêutico e do autoconhecimento.

Portanto, perceber que algumas respostas foram necessárias para sobreviver a determinados momentos da nossa história não significa que precisamos carregá-las para sempre. Traumas: quando o ontem ainda interfere no hoje nos ensina, sobretudo, que é possível ressignificar sem apagar.

O Estudo Que Vira Autoconhecimento

Continuo estudando, e, como acontece tantas vezes quando me debruço sobre a Psicologia, comecei querendo compreender melhor um conceito e terminei fazendo perguntas sobre mim mesma. Talvez seja justamente assim que alguns conhecimentos deixam de ser apenas teoria.

Eles começam a nos transformar. Afinal, há experiências que terminam no calendário, mas continuam aparecendo nas nossas reações, e reconhecer isso já é, em si, um ato de coragem e de cuidado consigo mesmo.

Sarita Cesana

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