Quando o silêncio também fala

Reflexões após o Dia Internacional da Mulher

Ontem foi o Dia Internacional da Mulher. As redes sociais se encheram de flores, homenagens, frases inspiradoras e declarações sobre igualdade, força e superação. É bonito ver o reconhecimento da trajetória das mulheres. Durante séculos fomos silenciadas, invisibilizadas ou confinadas a espaços onde nossa voz pouco ecoava. Celebrar avanços é importante, pois é quando o silêncio também fala.

Mas datas simbólicas também servem para algo ainda mais necessário: refletir sobre as incoerências do nosso tempo.

Tenho pensado muito sobre isso

Vivemos uma era em que — felizmente — a violência contra mulheres passou a ser denunciada com mais intensidade. Contudo, movimentos, campanhas e debates trouxeram à tona realidades dolorosas que antes eram escondidas. Hoje sabemos nomear abusos, denunciar agressões e exigir responsabilidade.

E isso é um avanço civilizatório. Mas, ao mesmo tempo, algo me inquieta profundamente. Então, tenho observado que nem todas as mulheres parecem despertar a mesma indignação.

Algumas violências geram mobilização global. Outras parecem desaparecer no silêncio.

No dia 7 de outubro do ano passado, mulheres foram brutalmente estupradas, torturadas e assassinadas em um ataque que chocou o mundo. Corpos foram violados, vidas interrompidas, famílias destruídas. E ainda assim, em muitos espaços que costumam se posicionar firmemente na defesa das mulheres, houve silêncio.

Portanto, não estou falando de divergências políticas, de conflitos históricos ou de interpretações geopolíticas complexas. O mundo é cheio de nuances e conflitos difíceis de compreender. Estou falando de algo anterior a tudo isso: a dignidade humana básica.

Quando o silêncio também fala.

O sentimento é

Quando uma mulher é violentada, não deveria haver dúvida sobre o que sentir.

Indignação.
Empatia.
Solidariedade.

Independentemente de quem ela seja.

Mulheres judias.
Mulheres iranianas que arriscam a vida para retirar um véu.
Ou Mulheres negras que enfrentam violência estrutural.
Mulheres que vivem em regimes autoritários.
E até Mulheres que não se encaixam em determinadas narrativas ideológicas.

O que é a solidariedade feminina

Se a defesa das mulheres depende da identidade da vítima ou da conveniência política do momento, então talvez estejamos diante de algo que não é exatamente solidariedade feminina.

Talvez seja seleção moral.

E isso deveria nos preocupar.

O silêncio também comunica

Ele revela aquilo que escolhemos não ver. Aquilo que preferimos não nomear. Aquilo que não cabe no discurso que queremos sustentar.

Defender mulheres não deveria ser uma escolha seletiva.

A verdadeira defesa da dignidade feminina não tem geografia, não tem religião, não tem ideologia. Ela nasce de um princípio simples: nenhuma mulher deveria ser violentada, em lugar nenhum do mundo.

Ontem celebramos o Dia Internacional da Mulher.

Mas talvez a pergunta mais importante que essa data nos deixa seja esta:

Somos capazes de reconhecer a dor de todas as mulheres?

Ou apenas daquelas cuja história confirma aquilo em que já acreditamos?

A maturidade moral de uma sociedade talvez não esteja apenas nas causas que abraça, mas também nas dores que ela não escolhe ignorar.

E, no fim das contas, a dignidade feminina deveria ser isso:

não uma bandeira, não uma ideologia, mas um compromisso humano inegociável.

“Porque a dignidade das mulheres não pode depender de quem elas são. Ou a defendemos em todas… ou ainda não aprendemos verdadeiramente a defendê-la.”

Sarita Cesana

Psicóloga CRP 17-0979

@saritacesana_                @jornada_da_felicidade

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