O incômodo de mudar
Existe um momento silencioso que antecede toda mudança. Ele não aparece nas atas de reunião. Não entra nos relatórios. Não é registrado em indicadores. Mas ele acontece. É a Dissonância Cognitiva.
É aquele pequeno aperto interno quando alguém apresenta uma ideia nova.
Quando uma verdade antiga começa a balançar.
Quando uma pergunta atravessa certezas.
A Psicologia chama isso de dissonância cognitiva
Conceito apresentado por Leon Festinger — mas, antes de ser teoria, é experiência.
É o desconforto de perceber que talvez não saibamos tudo.
Que talvez possamos estar equivocados.
Que talvez o jeito “como sempre foi feito” não seja o melhor jeito.
E o cérebro, tão eficiente para nos proteger, reage.
Ele tenta explicar.
Minimizar.
Justificar.
Desqualificar.
Qualquer coisa que devolva a sensação de estabilidade.
Porque mudar não é apenas alterar processos.
É mexer em identidades.
Quando uma organização fala sobre riscos psicossociais, por exemplo, não está apenas falando de normas.
Está tocando em algo mais profundo:
em lideranças, em relações, em cultura, em histórias construídas ao longo dos anos.
E toda história tem seu orgulho.
Tem seu apego.
Tem sua resistência.
A dissonância nasce quando o novo bate à porta e encontra uma casa organizada com convicções antigas.
Não resistimos porque somos incapazes.
Resistimos porque somos humanos.
Porque mudar exige atravessar o desconforto de não saber.
Exige abrir mão da imagem de que sempre estivemos certos.
Exige coragem para revisar.
Talvez o maior sinal de maturidade — pessoal ou organizacional — não seja ter respostas rápidas.
Mas suportar o incômodo das perguntas.
O novo não chega gritando.
Ele chega inquietando.
E, se tivermos delicadeza suficiente para não expulsa-lo na primeira sensação de desconforto, ele pode nos transformar.
Tenho aprendido que as maiores transformações não começam com convicções, mas com dúvidas honestas. E que, quando escolhemos evoluir em vez de nos defender, abrimos espaço para versões mais conscientes — e mais humanas — de nós mesmos.
🌿 Para refletir nesta semana:
O que, dentro de você, precisa ser defendido com tanta força?
E o que poderia nascer se você permitisse um pouco mais de dúvida?
Sarita Cesana
Psicóloga 17-0979 @saritacesana_ @jornada_da_felicidade