As mulheres que vieram antes de nós

Notórias e anônimas

Quando penso em As mulheres que vieram antes de nós, não penso apenas naquelas cujos nomes conhecemos. Penso também nas histórias que foram contadas pela metade e, principalmente, naquelas que nunca chegaram a ser reveladas.

Penso na minha mãe.

Filha de imigrantes judeus que carregavam a experiência da perseguição e a necessidade de reconstruir a vida em outro país, ela nasceu em Niterói, em uma família simples. Meu avô era alfaiate. Mais tarde, conheceu meu pai, mudou-se para São Paulo e criou três filhas.

Quem elas eram além dos papéis que desempenharam?

Minha mãe foi uma boa mãe.

Foi uma mulher admirável, generosa e profundamente apaixonada pelo meu pai durante toda a vida.

Contudo, hoje me pego fazendo perguntas que nunca fiz enquanto ela estava aqui.

Quais eram os sonhos dela?

O que desejava conhecer, experimentar ou construir?

Que vida imaginava para si mesma quando ainda era jovem?

Não sei se algum dia fiz essas perguntas.

E, infelizmente, agora já não posso mais fazê-las.

As mulheres que vieram antes de nós.

Os sonhos que não chegaram a ser contados

Quando me lembro dela, não tenho a imagem de uma mulher plenamente realizada. Talvez estivesse satisfeita com a vida que construiu. Talvez carregasse desejos que nunca encontraram espaço para existir.

Nunca saberei.

Todavia, é justamente essa dúvida que me leva a refletir sobre As mulheres que vieram antes de nós.

Quantas tiveram a oportunidade de descobrir quem realmente eram para além dos papéis que lhes foram atribuídos?

Durante muito tempo, ser uma boa mulher significava ser uma boa filha, uma boa esposa e uma boa mãe.

A dedicação à família era esperada. O cuidado com os outros vinha em primeiro lugar. E raramente havia espaço para perguntar quais eram seus próprios desejos.

Entre escolhas e circunstâncias

Isso não significa que essas mulheres não tenham encontrado felicidade.

Muitas encontraram.

Muitas viveram grandes histórias de amor, construíram famílias sólidas e experimentaram momentos de realização genuína.

Porém, existe uma diferença importante entre escolher um caminho e nunca ter conhecido outras possibilidades.

E talvez essa seja a questão mais profunda.

Quanto da vida dessas mulheres foi realmente escolhido?

E quanto foi determinado pelas circunstâncias da época em que viveram?

Ademais, somos profundamente influenciados pelas histórias que herdamos.

Recebemos valores, crenças, medos, forças e até silêncios que atravessam gerações.

O que herdamos delas

Às vezes, herdamos a coragem de uma mãe sem conhecer seus receios.

Recebemos sua força sem imaginar o quanto lhe custou ser forte.

Aprendemos com sua dedicação sem saber quais renúncias precisou fazer ao longo da vida.

Entretanto, há algo muito importante nessa compreensão.

Podemos amar profundamente nossos pais e, ao mesmo tempo, reconhecer que suas vidas também foram marcadas por limitações, contradições e sofrimentos que jamais compreenderemos totalmente.

Talvez essa seja uma das reflexões mais valiosas sobre As mulheres que vieram antes de nós: enxergá-las como seres humanos completos, e não apenas como mães, avós ou esposas.

As possibilidades que temos hoje

Então, felizmente, muita coisa mudou.

Hoje, as mulheres ocupam espaços que muitas de nossas mães e avós sequer puderam imaginar.

Podemos estudar, trabalhar, construir carreiras, viajar, recomeçar e fazer escolhas que antes eram praticamente impossíveis. Isso não significa que todos os obstáculos tenham desaparecido.

Ainda existem desigualdades importantes. Contudo, existem também possibilidades que eram impensáveis para muitas gerações anteriores.

Portanto, talvez uma das formas mais bonitas de honrar As mulheres que vieram antes de nós seja fazer bom uso dessas conquistas.

Não precisamos repetir seus caminhos para reconhecer seu valor.

Mas podemos preservar o que recebemos de melhor e transformar aquilo que já não faz sentido carregar.

As mulheres que virão depois de nós

Também penso nas mulheres que ainda virão.

Nas filhas, netas e bisnetas que observarão nossas escolhas e tentarão compreender quem fomos.

Então, que histórias estaremos deixando para elas?

Que exemplos de liberdade, coragem e autenticidade encontrarão em nossas vidas?

Talvez não possamos recuperar os sonhos que nossas mães não realizaram.

Mas podemos olhar para suas histórias com mais compreensão, menos idealização e uma profunda gratidão. E podemos fazer uma escolha consciente.

Não permitir que o amor pelos outros signifique, necessariamente, o abandono de nós mesmas.

Quando penso na minha mãe, sinto admiração por tudo o que ela foi. Mas sinto também uma imensa ternura por tudo aquilo que talvez não tenha podido ser.

Porque toda mulher carrega uma história que viveu. E, muitas vezes, outra que nunca teve a oportunidade de viver.

Psicóloga CRP 17-0979

@saritacesana_                  @implementeconsultoria

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