Acordados e Ainda Dormindo

Piloto automático, hábito e liberdade interior

Sabemos desde sempre que a repetição é o principal fundamento para a materialização de um projeto ou plano. Ela automatiza qualquer comando dado pela nossa consciência ao nosso subconsciente. Em Acordados e Ainda Dormindo, vamos refletir sobre como o piloto automático da mente pode tanto nos construir quanto nos aprisionar.

Todo atleta que bate um recorde mundial, seja nos 100 metros rasos ou no salto com vara, repetiu aquele procedimento centenas, e até milhares de vezes, antes da conquista. Portanto, o recorde exibido no pódio é apenas o fim visível de uma longa história de repetição silenciosa.

Contudo, o que vale para o atleta vale também para cada um de nós, nas pequenas escolhas do dia a dia. Afinal, também somos moldados por aquilo que repetimos, mesmo sem perceber.

O Piloto Automático Sempre Ligado

Em nossa consciência, o piloto automático está sempre ligado. Ele não pede licença, tampouco distingue o que nos ajuda do que nos prejudica. Consequentemente, qualquer comportamento repetido com frequência tende a ser absorvido pela rotina.

Assim, incorporamos novos hábitos de forma quase imperceptível, sejam eles construtivos ou não. Pense na maneira como consultamos o celular, reagimos a uma crítica ou iniciamos a manhã. Muito disso foi aprendido por repetição, e não por escolha lúcida. Um estudo da psicóloga Wendy Wood e colegas, publicado em 2002, indicou que cerca de 43% das ações cotidianas são hábitos, executados quase sem pensar.

Cientificamente, esse processo ocorre no cérebro. No início, uma nova tarefa exige esforço do córtex pré-frontal, região ligada à atenção e às decisões. Com a repetição, as conexões entre os neurônios se fortalecem. Então, o comando passa a ser conduzido pelos gânglios da base, estruturas profundas ligadas à formação de hábitos. Consequentemente, o cérebro gasta menos energia, e a ação se torna automática. Esse automatismo é útil, todavia o problema surge quando esquecemos que ele está no comando.

A Ciência da Repetição

Há quem diga que exercícios de mentalização não têm credibilidade alguma, pois não seriam ciência, e sim pseudociência. Então eu pergunto: o que é ciência? Trata-se de um conjunto sistemático de conhecimentos obtidos por meio da observação, da experimentação e do método científico.

Portanto, quando repetimos algo com muita frequência, sistematização e observamos os resultados, aplicamos em escala pessoal a lógica do método científico. Sobretudo quando analisamos esses resultados para fazer ajustes. Em essência, formulamos uma hipótese, testamos, observamos e corrigimos o rumo. Assim, Acordados e Ainda Dormindo também é uma questão de método.

Além disso, a própria pesquisa acadêmica já estudou a prática mental. Revisões científicas sobre imagética motora indicam que ensaiar mentalmente um movimento, somado ao treino físico, pode melhorar o desempenho de atletas. Ainda assim, convém observar: a mentalização não substitui a ação, mas a potencializa.

Acordados e ainda dormindo.

A Expansão da Consciência

Cada vez que saímos do piloto automático, passamos de um plano de consciência para outro mais elevado. Ocorre, então, uma expansão da consciência, comparável a um salto quântico, no sentido popular da expressão. Há uma quebra de paradigma, e abandonamos o nível em que vivíamos.

Um exemplo ilustra bem esse movimento. Imagine um fiel cristão, católico ou evangélico, que conhece a doutrina espírita e passa a acreditar na reencarnação. Espiritualmente, esse indivíduo deu um salto quântico. Sua visão sobre vida, morte, justiça e responsabilidade se reorganiza por completo.

Todavia, o salto não apaga o caminho anterior. O plano antigo cumpriu seu papel e foi necessário para chegar até aqui. Consequentemente, expandir a consciência é integrar, e não renegar, aquilo que fomos. Esse é um dos significados de estar Acordados e Ainda Dormindo.

Acordados e Ainda Dormindo

O despertar da consciência é um processo muito lento. Para as tradições que admitem a pluralidade das existências, ele pode levar muitas vidas, muitas experiências diferentes e muitos saltos quânticos. Somente então poderemos estar verdadeiramente acordados.

Daí a expressão Acordados e Ainda Dormindo. Estamos despertos para certos aspectos da vida, todavia permanecemos adormecidos em tantos outros. Podemos ser lúcidos no trabalho e automáticos nos relacionamentos. Afinal, o despertar nunca é total em um único momento, pois é feito de etapas.

Portanto, não há motivo para nos julgarmos com severidade. Reconhecer que ainda dormimos já é sinal de que começamos a acordar. A paciência com o próprio processo faz parte da liberdade interior.

A Sua Melhor Versão

Só estaremos, finalmente, apenas acordados quando alcançarmos nossa melhor versão, a Consciência Plena. Isso pode levar, literalmente, uma eternidade. Contudo, a meta não é chegar depressa, e sim caminhar com lucidez.

Enquanto isso, cada dia oferece uma escolha: deixar o piloto automático conduzir ou assumir o comando. Sobretudo nas pequenas decisões, repetimos aquilo que seremos. Afinal, se a repetição constrói o atleta, também constrói a consciência.

Que possamos repetir aquilo que nos liberta. Assim, ainda que Acordados e Ainda Dormindo, seguiremos rumo à plenitude, um despertar de cada vez.

Mantra do EU SOU

Eu Sou consciência desperta, capaz de escolher em vez de apenas reagir.

Eu Sou o autor dos meus hábitos e responsável por aquilo que repito.

E Eu Sou paciente com o meu processo e firme no propósito de evoluir.

Eu Sou a cada dia mais próximo da minha melhor versão, a Consciência Plena.

Wagner Braga

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