De dentro pra fora ou de fora para dentro?
Tenho pensado muito na palavra gratidão. Gratidão em tempos de guerra. E, confesso, ela tem me parecido pequena demais diante do que o mundo vive.
Guerras novamente.
Discursos inflamados.
Ódios antigos reacendidos.
Crianças crescendo sob o barulho de bombas que não escolheram.
Sou de uma geração que aprendeu sobre guerras pelos livros, pelas histórias dos nossos pais e avós. Auschwitz não era apenas um capítulo da história — era um alerta. Um “nunca mais” que parecia sólido. E, ainda assim, aqui estamos.
Como falar de gratidão quando há tanto luto espalhado pelo planeta?
Eu não consigo agradecer pela guerra, claro!
Também, não romantizo a dor.
E não espiritualizo a violência.
Mas, talvez a gratidão em tempos de guerra, não seja sobre o que acontece lá fora.
Talvez seja sobre o que escolhemos preservar aqui dentro.
Sou mulher. Sou mãe. E avó. Em breve bisavó!
Quando olho para meus netos — com sua energia, suas perguntas sobre o mundo, suas opiniões já tão próprias — sinto um misto de esperança e responsabilidade.

Que mundo estamos deixando para eles?
E, ao mesmo tempo, agradeço por ainda poder ensiná-los sobre respeito, sobre diálogo, sobre humanidade.
Agradeço por poder abraçá-los em segurança.
Por poder falar de paz não como utopia, mas como valor.
Minha gratidão hoje é madura.
Ela não ignora a dor coletiva.
Ela não fecha os olhos para o sofrimento de quem perde casa, filhos, identidade.
A gratidão é quase um compromisso.
Compromisso de não endurecer o coração.
De não transformar indignação em ódio.
De não permitir que a repetição da história nos anestesie.
Então, talvez a verdadeira gratidão, em tempos sombrios, seja essa:
a de continuar escolhendo humanidade quando seria mais fácil escolher indiferença.
Como psicóloga, vejo diariamente como ambientes inseguros adoecem pessoas.
Como a falta de diálogo destrói relações.
E como o medo paralisa.
Na escala macro, guerras nascem dos mesmos afetos desregulados que vemos nos conflitos cotidianos: medo, humilhação, desejo de poder, incapacidade de escuta.
Por isso, minha gratidão também é um posicionamento.
Gratidão por ainda acreditar na educação.
Na construção de culturas mais seguras.
Na liderança que acolhe em vez de esmagar.
E na possibilidade de formar gerações que saibam dialogar antes de atacar.
Não agradeço pelo caos.
Entretanto, agradeço por ainda poder ser parte de algo que constrói.
Se o mundo atravessa um momento histórico de tensão, que eu atravesse com consciência.
Que meus netos herdem de mim não o medo, mas a coragem de permanecer humanos.
E talvez seja isso, afinal, que a gratidão signifique hoje para mim:
não esquecer o horror — mas escolher, apesar dele, continuar sendo ponte.
Ritual simbólico — “Um gesto pela humanidade”
Hoje, antes de dormir, proponho algo simples.
Desligue as notícias por alguns minutos.
Coloque a mão sobre o coração.
Respire fundo três vezes.
E, em silêncio, pergunte a si mesmo:
O que ainda está vivo e merece ser protegido dentro de mim?
Talvez seja a sua capacidade de amar.
Ou talvez seja a sua fé na educação.
Talvez seja a sua indignação diante da injustiça.
Ou talvez seja o abraço que você pode oferecer hoje.
Finalmente, escolha um gesto pequeno — mas concreto — que contribua com a humanidade amanhã.
Quando nos descuidamos a guerra acontece
Pode ser uma conversa mais respeitosa.
Um pedido de desculpas.
Um elogio sincero.
Ou um posicionamento firme contra qualquer forma de desumanização.
Guerras começam quando perdemos o outro de vista.
A paz começa quando alguém decide enxergar.
Que esse alguém seja você.
Que esse alguém seja eu.
E que, mesmo em tempos sombrios,
nossa gratidão seja a escolha diária de continuar humanos.
—
Sarita Cesana CRP 17-0979
Psicologia & Gente e Cultura
@saritacesana_ @fornada_da_felicidade