Um gás essencial — e o problema do seu excesso
O dióxido de carbono (CO₂) é um gás natural, indispensável para a vida e decisivo para o clima terrestre. Em quantidades equilibradas, o CO₂ ajuda a manter temperaturas habitáveis na Terra por meio do efeito estufa natural. Sem esse efeito, a Terra seria muito mais fria e dificilmente apta para ecossistemas complexos. Além disso, o CO₂ alimenta a fotosíntese, processo que sustenta cultivos, florestas, oceanos e cadeias alimentares inteiras. O problema contemporâneo não é a sua existência, mas sim sua acumulação acelerada por atividades humanas. Em dezembro de 2025, a média global mensal atingiu 427,35 partes por milhão, um número excepcionalmente alto.
O CO₂ provém de fontes naturais e humanas que interagem dentro do ciclo global do carbono. Os vulcões, a respiração dos seres vivos, a decomposição da matéria orgânica e a queima de qualquer material o liberam continuamente na atmosfera. Os oceanos e os cursos d’água também o emitem quando certos componentes liberam gases dissolvidos para o ar.
No entanto, hoje predominam as emissões humanas ligadas ao carvão, ao petróleo, ao gás, ao cimento e ao desmatamento. Nesse sentido, a industrialização alterou um sistema antes mais equilibrado entre emissões e absorções. Na história antiga, o carbono contido nos combustíveis fósseis permaneceu enterrado por milhões de anos antes de ser liberado. Por isso, o aumento atual reflete uma transferência maciça e rápida de carbono geológico para a atmosfera.
Uma história de 800.000 anos: da estabilidade à anomalia
A concentração atmosférica de CO₂ nem sempre foi a mesma ao longo da história do planeta. Durante os últimos 800.000 anos, ela oscilou aproximadamente entre 180 e 280 partes por milhão. Os níveis mais baixos coincidiram com eras glaciais, e os mais altos com períodos interglaciais mais quentes. Antes da Revolução Industrial, a atmosfera estava próxima de 280 partes por milhão.
Depois disso, o uso intensivo de combustíveis fósseis rompeu essa estabilidade relativa em apenas dois séculos. A velocidade atual do aumento supera amplamente os ritmos naturais observados ao final da última glaciação. Por essa razão, vivemos uma anomalia atmosférica recente em termos geológicos e muito relevante em termos humanos.
Aquecimento global e impactos mensuráveis
A situação atual do O dióxido de carbono (CO₂) está estreitamente vinculada ao aquecimento global e a mudanças físicas mensuráveis. A Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) dos Estados Unidos reportou 427 partes por milhão em dezembro de 2025. Por sua vez, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) informou uma média global mensal de 427,35 e valores semanais superiores em março de 2026.
Esse excesso adicional retém mais calor e modifica chuvas, secas, ondas de calor e extremos marinhos. Além disso, parte do CO₂ extra termina no oceano, onde contribui para a acidificação. Em consequência, corais, moluscos e outras espécies calcificadoras enfrentam condições químicas mais difíceis.
Por que o CO₂ é insubstituível para a vida
Apesar disso, é extremamente importante compreender a relevância do O dióxido de carbono (CO₂). Isso porque, se esse gás desaparecesse por completo, a fotosíntese entraria em colapso e morreriam plantas, algas e muitos microrganismos. Depois disso, cairiam as cadeias alimentares, a produção agrícola e boa parte do oxigênio gerado biologicamente. Além disso, o planeta perderia grande parte de sua proteção térmica natural e esfriaria drasticamente.
O CO₂ se transforma em oxigênio por meio da fotosíntese realizada por plantas, algas e bactérias fotossintéticas. Esses organismos usam luz solar, água e CO₂ para produzir açúcares e liberar oxigênio. As florestas cumprem um papel central, especialmente em ecossistemas tropicais, temperados e boreais bem conservados.
Da mesma forma, o oceano também é decisivo pela ação do fitoplâncton microscópico. A NOAA estima que aproximadamente metade do oxigênio planetário provém do oceano. Já a NASA revelou que o fitoplâncton consome CO₂ em uma escala comparável à das florestas terrestres. Dessa maneira, florestas e mares trabalham juntos como motores biológicos de equilíbrio atmosférico.

Sumidouros naturais e o limite da natureza
A natureza já sequestra carbono sem intervenção humana por meio de solos, florestas, áreas úmidas e oceanos. Segundo o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas, a terra absorveu 31 por cento das emissões recentes. O oceano absorveu outros 23 por cento, o que demonstra a enorme importância dos sumidouros naturais. Ainda assim, esses sumidouros não compensam completamente as emissões humanas anuais atuais.
Diante desse problema, existem medidas para retirar carbono da atmosfera ou evitar sua liberação contínua. O reflorestamento, a restauração de áreas úmidas e o manejo dos solos buscam aumentar o armazenamento biológico. O biochar, ou biocarvão, pode estabilizar carbono nos solos e melhorar certas propriedades agronômicas. Também existem tecnologias industriais de captura, uso e armazenamento geológico de carbono. A captura direta do ar continua sendo muito menor e mal chega a 0,01 milhões anuais. Portanto, as soluções existem, mas sua escala ainda é insuficiente diante do problema.
Resultados mistos e responsabilidades globais
Os resultados obtidos são mistos e exigem uma leitura sóbria, sem triunfalismos nem negacionismos. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura reportou menor desmatamento entre 2001 e 2015. Nesse período, as emissões globais por desmatamento caíram de 3,9 para 2,9 gigatoneladas anuais. No entanto, incêndios, degradação florestal e mudanças de uso reverteram essa situação, a ponto de, desde 2020, o planeta registrar níveis recordes de desmatamento.
Em emissões anuais absolutas, hoje se destacam China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão. No extremo oposto, costumam aparecer microestados com economias pequenas e baixa demanda energética. Entre eles figuram, com emissões muito reduzidas, Tuvalu, Kiribati, Nauru e Dominica. No entanto, as comparações mudam bastante quando se utilizam métricas per capita ou históricas. Historicamente, o Our World in Data indica que os Estados Unidos contribuíram com a maior fração acumulada. China e Rússia aparecem em seguida na responsabilidade acumulada pelas emissões de dióxido de carbono.
Um elemento mal gerido, não um inimigo
A realidade do O dióxido de carbono (CO₂) exige abandonar dois erros comuns: demonizá-lo por completo ou minimizar sua gravidade. Sem CO₂, a biosfera atual não existiria, mas seu excesso crescente aumenta o risco climático. A tarefa racional consiste em reduzir emissões, proteger sumidouros e melhorar tecnologias de remoção durável. Também requer eletrificação limpa, eficiência energética, menor desmatamento e melhores decisões urbanas e industriais. Nesse sentido, o carbono não é um inimigo abstrato, mas sim um elemento mal gerido.
Wagner Braga