O Mito do Ano Que Só Começa Depois do Carnaval
E se o ano não estiver atrasado? Há quem diga, meio em tom de brincadeira, meio em tom de alívio, que o ano só começa depois do Carnaval. Como se janeiro fosse apenas um ensaio, fevereiro uma espera, e a vida real ficasse para depois da última marcha. Talvez essa frase, tão repetida, diga mais sobre o nosso cansaço do que sobre o calendário.
Janeiro costuma chegar carregado de expectativas: metas, promessas, planos, recomeços. Mas nem sempre o corpo e a mente acompanham essa pressa simbólica. Às vezes, ainda estamos fechando ciclos do ano que passou. Outras vezes, atravessando lutos silenciosos, mudanças internas, rearranjos que não aparecem nas redes sociais — mas pesam por dentro.
E então surge a sensação de atraso. Como se houvesse algo errado conosco por ainda não termos “engrenado”.
A Espera Necessária: Quando o Tempo Interno Não Acompanha o Calendário
Mas e se o ano não estiver atrasado? E se ele estiver apenas esperando que a gente chegue inteiro?
Começar não é um gesto automático. Não acontece só porque o calendário virou. Começar exige presença, alguma clareza emocional, um mínimo de alinhamento interno. Sem isso, qualquer início vira apenas movimento sem sentido.

O Carnaval Como Rito de Passagem Coletivo
Talvez o Carnaval funcione, para muitos, como um rito coletivo de passagem. Não apenas como festa, mas como uma pausa socialmente autorizada para soltar tensões, extravasar excessos, respirar antes da retomada. Depois dele, a cidade muda de ritmo, as rotinas se reorganizam, e algo parece, enfim, se assentar.
Não por acaso, para algumas pessoas, é só então que o ano “começa”. Não porque faltou vontade antes. Mas porque faltava espaço interno.
Cada Ano Pede Seu Próprio Ritmo
Talvez o problema nunca tenha sido quando o ano começa, mas como nos relacionamos com os começos. Há anos que pedem velocidade. Outros pedem gentileza. Alguns exigem ação imediata. Outros pedem escuta, silêncio e tempo.
Tenho aprendido que nem todo começo é barulhento. Alguns são discretos, quase imperceptíveis. Acontecem quando a gente se autoriza a estar presente, sem culpa por não corresponder ao ritmo idealizado.
A Pergunta Mais Honesta
Então, talvez a pergunta mais honesta não seja “por que ainda não comecei?” Mas sim: O que em mim ainda precisa se alinhar para que este ano, de fato, comece?
Sarita Cesana
Psicóloga CRP 17-0979 @saritacesana_ @jornada_da_felicidade