
A neutralidade que nos faz bem
Estamos passando alguns dias em Como, na Itália. Era um sonho antigo nosso conhecer melhor esse lugar tão turístico e, ao mesmo tempo, tão sossegado. Tentamos vir em 2022, mas foi justamente quando a Covid-19 parou o mundo. Estava tudo reservado e pago, mas a viagem não aconteceu.
Sonho adiado não é, necessariamente, sonho perdido. Às vezes, ele apenas espera o momento certo para acontecer.
E o nosso momento chegou.
Agora podemos desfrutar desse pedaço de paraíso, cercado por montanhas, pelo Lago de Como e por pequenas cidades que parecem ter saído de um quadro. Além da beleza, a localização é privilegiada: estamos perto de Milão, Monza e, do outro lado da fronteira, de Lugano, na Suíça.
Foi para lá que fomos na última quinta-feira.
Era minha primeira vez na Suíça, esse pequeno país conhecido mundialmente pela qualidade de vida, pela organização, pela segurança, pelos chocolates — claro! — e, sobretudo, por sua histórica neutralidade.
Um pequeno país, uma grande escolha
Antes de conhecer Lugano, fui pesquisar um pouco mais sobre a história suíça. Descobri que a neutralidade daquele país não nasceu simplesmente de uma postura de indiferença diante do mundo.
Ela foi, em grande medida, uma estratégia de preservação.
Depois de uma derrota dolorosa na Batalha de Marignano, em 1515, os suíços passaram a se afastar progressivamente das grandes disputas militares europeias. Séculos mais tarde, em 1815, durante o Congresso de Viena, a neutralidade permanente da Suíça foi reconhecida internacionalmente.
Ou seja: a neutralidade suíça não surgiu da ausência de força, mas da decisão de não desperdiçá-la em guerras que não diziam respeito à sua própria sobrevivência.
E há algo ainda mais interessante nessa história.
A Suíça possui forças armadas e mantém uma estrutura de defesa para proteger sua soberania e seu território. Existe, inclusive, o serviço militar obrigatório para os homens suíços. O país também não faz parte da OTAN nem da União Europeia.
Isso me fez pensar que neutralidade não é sinônimo de passividade.
A Suíça se prepara para se defender, mas escolhe não entrar em determinados conflitos.
Que grande diferença!
Nem toda batalha precisa ser nossa
Enquanto caminhava por Lugano, entre o lago, as montanhas e aquela paisagem quase cinematográfica, comecei a pensar em como essa postura pode servir de metáfora para nossas próprias vidas.
Quantas vezes somos arrastados para conflitos que sequer começaram conosco?
Quantas vezes entramos em discussões, disputas e problemas alheios simplesmente porque alguém nos convocou para uma batalha?
Mais do que isso: quantas vezes gastamos nossos recursos emocionais, psicológicos e até físicos tentando vencer situações que, no fundo, sabemos que só irão nos desgastar?
Há conflitos que não merecem nossa presença.
Há discussões que não precisam da nossa resposta.
Existem pessoas que parecem precisar de uma guerra permanente para se sentirem vivas — e nós não somos obrigados a participar dela.
Sair do conflito também é coragem
Durante muito tempo, fomos ensinados a acreditar que desistir é sinônimo de fraqueza.
Talvez por isso nosso ego tenha tanta dificuldade em sair de determinadas situações. Queremos provar que estamos certos, queremos ter a última palavra e sempre vencer.
Mas vencer o quê e, principalmente, a que preço?
Com o passar dos anos, vamos percebendo que algumas vitórias custam caro demais. Podemos ganhar uma discussão e perder a tranquilidade ou provar que temos razão e perder uma relação. Podemos permanecer numa disputa apenas para não parecermos fracos e, quando finalmente sairmos dela, perceber que deixamos nossa paz pelo caminho.
Afastar-se, em certas circunstâncias, não é desistir. É preservar-se, reconhecer limites. É escolher a própria paz e ter amor-próprio.
Estar pronta sem estar em guerra
A Suíça me ensinou outra coisa que considero ainda mais interessante: estar preparada não significa estar permanentemente em guerra.
Um país pode possuir forças para defender seu território e, ainda assim, escolher a neutralidade.
Talvez nós também precisemos aprender essa lição.
Precisamos estar prontas para nos defender, para colocar limites, para dizer não, para nos posicionar quando necessário. Mas não precisamos transformar cada discordância em uma guerra.
Existe uma enorme diferença entre ser vulnerável e ser pacífica.
A paz não exige fraqueza.
Às vezes, exige justamente o contrário: força suficiente para não precisar provar força o tempo inteiro.
Neutralidade também pode abrir espaço para o diálogo
Outro aspecto da neutralidade suíça me chamou atenção.
Ao longo da história, a posição de neutralidade ajudou a transformar o país em um importante espaço para a diplomacia e para negociações internacionais. Genebra, por exemplo, tornou-se um dos grandes centros diplomáticos do mundo e abriga importantes organizações internacionais.
A própria história suíça também está profundamente ligada à Cruz Vermelha, criada em Genebra no século XIX.
Isso me faz pensar que, quando nos recusamos a alimentar um conflito, podemos criar algo que parece simples, mas é poderoso: espaço para o diálogo.
Quantos problemas poderiam ser resolvidos se, em vez de levantarmos imediatamente a voz, abríssemos espaço para escutar?
Muita gente foge do diálogo porque acredita que conversar é ceder.
Eu penso diferente.
O diálogo não significa abrir mão dos nossos limites. Significa tentar compreender antes de atacar. Significa trocar a necessidade de vencer pela possibilidade de encontrar uma solução.
E, muitas vezes, é justamente ali que a solução mora.
Nem toda guerra precisa ser vencida
Voltando para Como, fiquei pensando que talvez a beleza da Suíça não esteja apenas em seus lagos, montanhas, cidades organizadas e paisagens impecáveis.
Existe beleza também em uma escolha como a escolha de não entrar em determinadas guerras e, acima de tudo, de se preservar.
E termos sabedoria em compreender que força não é participar de todos os conflitos, mas saber quais deles realmente merecem nossa energia.
Na vida, somos constantemente convidados para batalhas. Algumas chegam pelas palavras dos outros. Outras nascem do nosso próprio ego. Algumas são inevitáveis e precisam ser enfrentadas. Outras poderiam simplesmente ser deixadas para trás.
Talvez uma das maiores sabedorias que adquirimos com o tempo seja justamente essa capacidade de discernir: nem toda provocação merece resposta, nem toda disputa merece nossa presença, nem toda razão precisa ser comprovada e nem toda guerra precisa ser vencida.
Às vezes, sair do campo de batalha é a maior vitória que podemos conquistar.
Porque, no fim, de que adianta vencer uma guerra se, para isso, perdemos aquilo que mais deveríamos proteger que é a nossa paz.
E vocês, meus queridos leitores, acham que é sabedoria ou fraqueza se retirar de certos conflitos? Se quiserem compartilhar algum momento pessoal fiquem à vontade.
Beijos com gostinho de chocolate de Lugano.
De sua cronista.