Afinal, quanto vale uma mulher?

A polêmica da beleza

Em fevereiro deste ano, o presidente Luís Inácio Lula da Silva definiu a deputada federal Gleisi Hoffmann como nova Secretária de Relações Institucionais da Presidência, substituindo Alexandre Padilha, que, por sua vez, assumiria o Ministério da Saúde. Os motivos de Lula para tal escolha acabaram sendo pronunciados em fala polêmica

Durante uma cerimônia no Planalto, o petista disse que havia escalado Gleisi Hoffmann para a articulação política porque ela era, segundo ele, uma “mulher bonita” que ajudaria a aproximar do Planalto os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre.

Bom, a partir daí, multiplicaram-se as críticas e ataques contra o presidente, especialmente por parte da direita. O que parece um tanto quanto contraditório, visto que no final do ano passado essa mesma direita aprovou “PEC que pode acabar com aborto legal no Brasil”.

O que vale mais?

Atualmente, no país, o aborto é permitido nos casos de: anencefalia fetal (malformação do cérebro), gravidez que resulta de estupro e se a gravidez impuser risco de vida para a mãe. A PEC propõe que nada mais justifique um aborto, somando-se à projeto que equipara aborto a homicídio (6 a 20 anos de pena de prisão) proposto pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, em junho de 2024.

Em resposta a isso, a filósofa, escritora e professora Marcia Tiburi escreveu em artigo da Revista Cult desta edição de março:

O levante patriarcal contra o aborto legal no Brasil (cuja lei é de 1942!) implica uma sentença de morte declarada: se meninas estupradas e engravidadas, bem como mulheres que correm risco de vida na gravidez, são impedidas de interromper o processo que as leva à morte, elas estão necessariamente condenadas à morte por aqueles que legislam contra seu direito de interromper a gravidez e, por consequência, o direito de não morrer devido a ela. De fato, no discurso sobre a sacralidade da vida dos embriões e a tentativa de tipificar o aborto como assassinato, há o esforço de sustentar que a vida de um embrião vale mais do que a vida de uma menina ou de uma mulher.

Presentinhos pra quê?

Março é considerado o mês da mulher. No dia 8 de março, o comércio se deleita com mais uma data comemorativa, o Dia Internacional da Mulher. Recebemos flores, chocolates, ofertas especiais, somos parabenizadas. Mas os salários desiguais e os assédios seguem. Recebemos sessões gratuitas de serviços de beleza. Pra que? Para ficarmos mais atraentes e continuarmos sendo alvos de assédio? Para que confundam competência com beleza e sigam, com isso, justificando a baixa remuneração? De fato, presentinhos saem bem mais em conta… Aproveite para ler também Movimentos do feminino: da provável beleza ao mal improvável.

Afinal, são flores que queremos?

Um conhecido, uma vez, questionou-me se eu conhecia uma mulher para indicar a uma vaga que ele oferecia. Eu disse: “mas precisa ser mulher?”. E ele respondeu: “ah, Deborah, só uma mulher para aceitar receber esse salário, né!”. O que mais me chocou não foi nem a ideia, mas a sua obviedade. “Né!”, disse ele. Era algo muito óbvio para um cara que trabalha como gerente há tantos anos. Portanto, não era algo pontual, mas estrutural. Assim, veio a lembrança dos ônibus ocupados majoritariamente e em peso por mulheres nas minhas antigas idas ao trabalho.

Comecei a me questionar, então, quantos gerentes como esse havia por aí, quantas mulheres pensavam daquela forma, quantas se submeteram além de mim? Quantas foram estupradas, expulsas de casa e tiveram que aceitar qualquer coisa para se sustentar? Quantas foram engravidadas, tiveram parceiros fugidios e tiveram que aceitar qualquer coisa para sustentar a criança?

Afinal, quantas delas queriam apenas ser independentes e tiveram que se submeter ao que o mercado oferecia para poderem sair de casa? E quantas seguem se submetendo sem aumento, promoção ou perspectivas de crescimento..? Quantas seguem sem poder adquirir um carro, mesmo depois de anos numa mesma empresa, porque ainda não podem “se dar ao luxo” de terem isso como prioridade..?

Insisto, não são flores que queremos.

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