As Aves Marinhas

O que as aves marinhas podem nos ensinar?

A crônica hoje é bem leve, como as aves pescadoras que vejo durante o caminho marítimo para o Caribe. Elas, com grande desenvoltura, passam bem perto do navio em voos rasantes, em direção ao mar, onde mergulham para capturarem seus alimentos.

A mágica de aprendermos com os animais é muito antiga. Remonta dos tempos antes de Cristo, quando os assírios, sumérios e babilônicos, utilizavam fábulas, para que, através das historinhas com os animais, pudéssemos nos compreender melhor.  

Fábulas e aves.

Quem não lembra da “raposa e as uvas, da cigarra e a formiga, o corvo e o jarro,” dentre outras? Recordo que meu pai nos contava fábulas ou “histórias de trancoso”, depois do jantar, como forma de entretenimento. Com muito humor, que lhe era peculiar, ele narrava histórias divertidas sempre com uma lição de vida embutida. Estudiosos, depois, vieram dizer que é uma técnica de aprendizado.

Pois bem, andando por esse mundo fantástico que Deus criou, presencio as fábulas desenrolando-se em minha frente, tais quais as que ouvia, quando criança. Como tenho viajado bastante pelo mar, as aves marinhas são as personagens principais.

Percebi que, sempre que estamos nos aproximamos das Bahamas, centenas de aves, geralmente, martim-pescadores ou andorinhas-do-mar (trinta-réis-escuros) seguem o navio. São aves pequenas, alegres e que adoram uma algazarra. Voam baixo, mergulham ferozmente para apanhar os peixes. Quando não obtém sucesso, preparam novos mergulhos até conseguirem. Umas, mais atrevidas, tomam o peixe da outra, sem nenhuma cerimônia. Deve ser a conhecida “lei do mais forte”.

Não sei se elas têm algum tribunal judicial, para que a queixa de crime de roubo seja processada e julgada. Como boa brasileira, fico imaginando se nesse tribunal também teria algum “arrumadinho”, algo que burlasse a lei e, por conseguinte, a aplicação da pena, como vemos acontecer em nossa sociedade.

Ih, vejo que minha crônica está ficando pesada, vamos respirar e recomeçar.

A importância das aves.

As aves têm sua importância desde os tempos do Antigo Testamento, quando Noé soltou algumas para averiguar se havia terra à vista. Dizem que eram pombas, mas poderiam ter sido gaivotas (quem vai saber).

Como elas não voltaram, deduziu-se que as aves encontraram um local para pousarem, se alimentarem, etc. Eu também teria feito o mesmo depois de 40 dias, presa, ouvindo alarido de todo tipo de animal, incluindo a risada maléfica das hienas, os urros de elefantes, os rugidos dos leões, além de suportar as peripécias dos macacos brincalhões, mexendo com todos.

Bem, quando vejo aves passeando perto do navio, assim como Noé, acredito que estamos perto de algum pedaço de terra, o que me deixa, ao mesmo tempo, feliz e curiosa: será que por lá habita alguém, que tipo de flora e fauna existe, ou se a ilha esconde algum tesouro do tempo dos piratas. (Desde que não seja o tesouro dos gatos). Como estamos constantemente nas imediações do Caribe, há ilhas inexploradas ainda, mesmo tendo sido descobertas e catalogadas nas cartas náuticas.

Pauso minhas divagações e fico observando o comportamento das aves: primeiro, aprendem a voar, algo que é da natureza delas e me questiono que, assim como as aves, temos consciência de tudo que é de nossa natureza? E por que tememos tanto certas coisas, inerentes a nós, seres humanos, como exemplo, a caça, a sobrevivência, a morte…? (Pergunta para os universitários da vida).

Depois que aprendem a voar, as aves deslocam de onde vivem e vão à luta, em busca de alimento. Se arriscam, mergulham com a cara e a coragem à procura de seus objetivos. Não conseguem, se decepcionam e tentam de novo. Não desistem.  São admiráveis. É a vida e disso, depende sua sobrevivência. E não somos todos assim?

As aves de Marselha, França.

Outro dia estava num porto, em Marselha, Le Vieux Port (O Porto Velho), que é um ponto turístico, onde os pescadores ainda trazem suas pescarias, tratam e vendem os peixes. Nesse porto fica uma linda marina, e é todo margeado de restaurantes, cafés-bares, hotéis e a Igreja de Saint-Laurent, do século XII, tida como a paróquia dos pescadores. Tais estabelecimentos, sempre lotados de elegantes franceses e turistas do mundo todo.

Se tem algo que aprecio ver mesmo é a vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues. Então, quando chego em locais de forte apelo turístico, tenho cuidado em identificar o que é real e o que é feito para “pegar turistas,” o que é comum em todo lugar, inclusive, em nosso Estado (RN), basta observar.

A cena dos pescadores, literalmente, tratando e vendendo o peixe em voz alta, os clientes – em sua maioria, os donos de restaurantes e Cafés ou moradores dos arredores – escolhendo os mariscos, polvos e pescados mais vistosos, negociando, saindo satisfeitos, prenderam minha atenção por um bom tempo.

Umas moças de branco, brigando entre si.

De repente, ouvi um barulho peculiar e me virei na direção de onde vinha, ou seja, para o chão, ao lado das bancas de peixes: algumas gaivotas, muito matreiras, aguardavam algo cair para bicarem. Duas delas começaram a brigar como duas moças sem educação, vociferando e se peitando. Eu me aproximei e bati com o pé no chão para apartar aquela briga. Como pode, duas senhoritas, tão bonitas, duelando por causa de um pedaço de peixe, tendo o mar à disposição e até mesmo, os pescadores, que ainda tinham muitos peixes a limpar?

Pelo visto, nenhuma delas era paciente. E por vezes também não agimos assim, com imediatismos, querendo tudo agora, sem sabedoria, sem esperar por algo melhor?

Pouco depois, um pescador, desprezou um monte de peixes menores que não dava para vender e aquelas daminhas de branco (e outras) fizeram a festa. Com certeza ainda levaram para casa para fazer a famosa bouillabaisse, a sopa de peixes sortidos com vegetais e ervas, tradicional em Marselha (já estou criando uma história dentro de uma crônica. Perdoem-me, é coisa de escritor). Como eu disse, são as fábulas acontecendo sob nosso nariz.

Aves, Noé, Fábulas…

E assim, deu a hora de voltar para o navio, e fui inspirada por aquelas gaivotas briguentas. Hoje, da minha cabine, vendo as aves pescadoras mergulhando por entre a espuma do mar, causadas pelo quebrar das ondas no casco desse gigante navio, resolvi escrever sobre as aves e suas lições, tais como nas fábulas.

E falando em Noé, vou passar quase quarenta dias dentro de uma gigante arca, cheia de entretenimentos, tecnologia e da coroa da criação de Deus, que são os seres humanos. Amanhã, ao parar nas Bahamas, vou sair e estirar as pernas, lembrando das aves que estiraram suas asas depois de tantos dias navegando.  

Agora, me falem quais fábulas vocês conhecem:

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