Quando a novidade é tudo de velho

A tal da novidade

Cada vez que fala comigo, a minha tia Bebeta questiona “quais são as novidades, Debinha?”. E nós brincamos, quando não há novidade alguma, de responder “tudo de velho!”. Bom, por mais que você queira assim, tudo velho é normalmente uma ilusão. Afinal, a não ser que você esteja isolado de tudo e de todos, a cada dia que se passa, sabemos algo que não sabíamos antes. Seguindo o raciocínio de Heráclito, de que nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes.

Então, a resposta é “tudo de velho” e acabamos não entrando nos pormenores da nossa sabedoria. Porque pressupomos que não é isso que o outro quer ouvir quando pergunta “quais são as novidades?”. Será? Às vezes, as pessoas só querem puxar assunto e não sabem por onde começar, não? E, se você diz “tudo de velho”, pode acabar colocando fim a um possível diálogo. 

E, assim, forçamo-nos à novidade. Afinal, queremos ser interessantes o suficiente para incitar no outro o desejo de conversar conosco. Fruto do primórdio dos desejos: o de reconhecimento. Para ser reconhecido, então, vale tudo. Vale se sujeitar às redes sociais e buscar fofocas, vale repassar informações às quais nos é pedido segredo, vale até mesmo se sujeitar ao desejo dos outros enquanto não sabemos o que queremos. Vale se excitar ou criar dezenas de expectativas sobre algo que até é desejo, mas que não é a única opção aceitável para nós. Vale transformar o aceitável em inaceitável. Ou vice-versa. 

O nada

Tudo por uma novidade! A novidade de um emprego, de uma promoção, de um carro, uma viagem, uma casa, um namoro, um noivado, um casamento, um filho, outro filho, outro… Um neto? E, então, esgotam-se as novidades e lhe dizem que você precisa de um propósito. Precisa? Você sai do emprego ou de um relacionamento e, no outro dia, já estão lhe perguntando “e, então, o que você vai fazer?”. Que tal.. nada?

Que tal não fazer ou não pensar em nada? Inaceitável, né? Mas e quando a filosofia do yoga te apresenta a opção de meditar? Parece uma ideia melhor? É, vinte ou trinta minutos por dia não serão impactantes em sua rotina tão atribulada, não é mesmo? Pois é, mas aí é que está.. se esse tempo de meditação nessa rotina atribulada não é impactante, estará havendo algum efeito da prática em sua vida, afinal de contas?

Pasmem, pois há quem tire um ou dois anos sabáticos para “meditar”! Afinal, se pensarmos em todas as informações que hoje chegam até nós, na velocidade do som (para não sermos tão injustos com a luz), que nos tocam, nos influenciam, nos afetam, é muita coisa para, “de repente”, nos encontrarmos em um lugar ou em uma posição completamente estranha, avessa, indesejada. 

O tempo

Então, sim, às vezes, é preciso parar. Parar para repensar o que estamos fazendo e o que, de fato, queremos fazer. E, às vezes, não é fácil se achar nesse labirinto. Assim, é preciso se permitir se dar o tempo necessário para isso. E, às vezes, para isso, é preciso se permitir retornar para alguma posição da qual você investiu tanto para sair. Mas que, agora, talvez, não tenha mais o mesmo valor que tinha. Porque as coisas mudam. As ideias, os desejos, os preconceitos e as necessidades. 

É engraçado isso… Temos que ter novidades todos os dias, mas não podemos mudar de ideia nem depois de anos! Sendo que a própria mudança de ideia já poderia ser uma grande novidade! Que contradição, não?!

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