Cohousing e exôdo urbano: um retorno ao familiar

De ponta-cabeça

Às vezes, tenho a nítida impressão de estar tudo de ponta-cabeça. A sensação de que o fluxo do rio mudou de sentido, fazendo com que passemos novamente por todas as coisas pelas quais já passamos. É como se tivéssemos experimentado, não tivéssemos gostado e, por não conhecermos outras possibilidades, decidimos pelo retorno.

Porque, de repente, parece que o que tínhamos antes era melhor. Mas será que era melhor mesmo ou simplesmente estamos tão aterrorizados com a atualidade que acabamos depositando nossas esperanças numa realidade um pouco mais familiar? Algo que não necessariamente tenhamos vivido, mas que sabemos que nossos pais e avós viveram e, mais importante, que sobreviveram.

Escitalopram ou êxodo?

Na semana passada, falamos sobre a dificuldade de pais e filhos em lidarem com a era digital, no texto Pais e filhos tentam sobreviver à era digital. Cada vez mais assuntos vêm à tona entre os chamados “pais atentos”, pondo à prova o exercício profissional de professores, juristas e representantes do povo. Questões relacionadas à construção de crenças das crianças são polemizadas diariamente. Uma verdadeira confusão, que não deixa de ser interessante por propor de forma oculta uma revisão dos nossos conceitos ou pré-conceitos.

Os “pais atentos”, que, neste momento, estão na fase de cuidar dos filhos bem como dos pais. Numa era alucinante, com um tempo que corre quase à velocidade do som. Como dar conta? Escitalopram. Ou êxodo.

Se você leu “escitalopram” e não compreendeu, parabéns, você é um dos últimos dos moicanos. O que não significa que a espécie moicana tenha sobrevivido. Você poderá ser o próximo. Ou poderá se isolar da civilização em um paraíso azul ou verde, à sua escolha, onde fundará o seu próprio povo e suas leis próprias. Assim, deu-se origem ao cohousing.

Uma nova tendência…

Segundo Rosangela Rachid, arquiteta e urbanista paulistana, em entrevista à Época Negócios, explica que “Cohousing é uma espécie de condomínio pensado para promover a cooperação, o sentimento de pertencer e a troca de experiências.” A ideia ainda engatinha no Brasil, mas é popular na Europa e nos Estados Unidos: “um antídoto para combater a solidão e melhorar a qualidade de vida”.

O combate a uma solidão que se espalha desenfreadamente por entre condomínios cada vez mais populosos, meios de comunicação cada vez mais robustos e pessoas cada vez mais investidas de debate. Porém, um debate, muitas vezes, vazio. Sem proposta de construção ou reflexão. Sem intenções de coletivizar. Um debate que, muitas vezes, se transforma em monólogo. Ou doutrina. Assim, apesar de a era digital prover meios de facilitar a comunicação entre sujeitos, ela acaba provocando um efeito contrário. Talvez, seja muita informação para um HD humano ainda tão primitivo. O resultado é um sistema que “buga” ou que responde lentamente.

Então, quando o concreto já parece opacar em demasia as nossas vidas, tentamos retornar à natureza, ao micro, às pequenas coisas, aos pequenos grupos, como as tribos “pré-civilizatórias”. Assim, pessoas com interesses em comum, hoje, buscam se reunir e, além de outras coisas, conviver em espaços coletivos dentro de uma determinada privacidade. No Brasil, o cohousing começa como um espaço destinado a envelhecer com qualidade, como mostra a reportagem da BBC, Os amigos que se uniram para construir vila no interior de SP para viver juntos na velhice.

Para envelhecer, para viver, para tentar ser feliz

Afinal, a pirâmide etária já se inverteu, estamos vivendo mais e esse é um dos novos desafios enfrentados pelos brasileiros: como ter qualidade de vida na chamada “melhor idade”? E como fazer jus a essa expressão?!

No RN, o historiador Hélio Oliveira deu origem à Vila Feliz, um espaço de tranquilidade, vida em comunidade e simplicidade. A inicialmente pousada e, agora, condomínio fechado está localizado no distrito de Pium, possui 42 unidades habitacionais de 36 m² – inspiradas nos antigos aldeamentos missionários jesuítas -, capela e pátio. Vila Feliz está de pé há quase 30 anos, o lugar que Oliveira escolheu para se aposentar. Mas ele conta em entrevista à Tribuna do Norte que, além dos aposentados, dentre os inquilinos, também estão professores, estudantes, artistas e “gente de passagem pela capital potiguar que compartilha entre si o gosto por uma vida simples”.

Oliveira complementa:

“As pessoas ligadas a filosofias alternativas e grupos exotéricos, de uma espiritualidade diferente, sempre falam que em Pium há um portal de luz. Quando elas entram na Vila Feliz já disseram que é como se entrassem num tempo diferente, conectado com um mundo distante.”

Talvez, um mundo não tão distante, mas que, definitivamente, parece mais acolhedor do que o que vivemos hoje.

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