Objetos.

A importância (ou não) dos objetos

Um dos locais que mais gosto nos navios são os cafés. Sempre me dirijo para lá com um livro embaixo do braço, um objeto simples, mas que contém diferentes mundos em suas páginas. Outro dia, fui para o Café e, casualmente, prendi meu cabelo com um prendedor, desses comuns.

Acontece que o objeto que vos falo, era daqueles grandões, que me impedia de encostar, confortavelmente, minha cabeça na poltrona. Sem muita demora, o removi e o deixei ao lado. Entretida, não vi o tempo passar e até esqueci que tinha chegado com o cabelo preso. Quando meu marido veio me chamar para almoçar, levantei e saí.

Horas depois, quando já estava na cabine, dei por falta do prendedor. Lembrei que tinha ido para o Café com ele, mas voltara sem. Como me custara muito pouco, não quis empreender esforços em sair de minha cabine, esperar o elevador, descer e ir procurar ou perguntar às atendentes. Era um objeto tão simples, que deixei-o para lá.

Os objetos mudam sua importância conforme acontecimentos.

Então, lembrei de um episódio, de quando era recepcionista no Hospital de Lajes: houvera um grande acidente envolvendo um ônibus, na BR 304, que passa por Lajes/RN. As vítimas (que não eram poucas) eram estudantes que voltavam para Garanhuns/PE. Lembro que uma delas estava o rosto muito ferido, e os cabelos soltos, tocando as escoriações.

Eu juntei-lhe os cabelos, tirei meu prendedor e coloquei nela, para que os fios não ficassem chicoteando aqueles pequenos cortes, o que devia doer bastante. Um objeto insignificante para mim, naquele momento, foi de grande ajuda para ela, creio eu.

Viena, seus encantos e objetos.

Do mar do Caribe, passando por Lajes, vamos agora pular para Viena, uma das cidades mais lindas que já conheci, não por ser a capital da Áustria, um país que tem uma carga cultural e cientifica gigante, mas pela forma com que a cidade se apresentou a mim.

Fomos no verão (2023), e mesmo com a Europa pegando fogo com o sol causticante e com altas temperaturas, Viena estava fresca e convidativa. Chegamos durante a noite e a cidade, toda iluminada, parecia que nos saudava. O taxista, atencioso, disse que nosso hotel ficava num excelente lugar, que era a praça Helmut-Zilk, onde também fica um museu Albertina, alguns monumentos históricos, o Café Mozart, e na outra quadra, o Café Sacher (famoso pela torta de chocolate).

Do hotel, dava para chegar a outros locais turísticos a pé, algo que gosto muito de fazer – caminhar e analisar o que vejo meticulosamente, pesquisar objetos e curiosidades para criar novas histórias.

Pois bem, no dia seguinte, começamos a explorar Viena e parte de sua beleza. Na mesma praça de nosso hotel havia uma doceria e loja de souvenir bem antiga, cheia de curiosos objetos, disputando clientes com a temida Zara Casa, que ficava perto.

A doceria parecia uma casinha de contos de fada, com toda a mobília antiga em madeira escura, pequenos bibelôs espalhados, souvenires, além do famoso bombom Mozart (um chocolate comum, redondo embrulhado com o papel com a cara do gênio austríaco da música, que encantou o mundo).

Os bombons Mozart, objetos de desejo dos turistas

Do lado externo da loja, havia uma vitrine muito bem arrumada com parte do mostruário dos doces e objetos e, para chamar a atenção do turista, uma enorme caixa de acrílico cheia dos bombons Mozart. Meu marido, então, encheu a mão deles e entramos na lojinha para pagar. Uma senhora, muito simpática com seus cabelos brancos e feições bondosas, reprimiu um risinho dizendo (em inglês) que aqueles “bombons” era apenas decorativos, ou seja, eram bolas “sei-lá-de-quê” embrulhadas e nos mostrou onde estavam os reais bombons, dispostos em caixas, parecendo presentes. Rimos juntos, afinal, nessas situações, o bom humor prevalece.

Além dos bombons, a loja tinha várias delícias, tais como castanhas caramelizadas, balas de gomas caseiras (em formato minúsculos de limões, laranjas, framboesas), caramelos, marzipãs e uma das coisas que mais gosto: cascas de laranja cristalizadas com chocolate. É meu “objeto de desejo.” Como eram guloseimas artesanais, o preço era alto, pois condizia com a qualidade. Quatro pedacinhos de casca de laranja eram quase seis euros, mais ou menos 32 reais.

Mesmo assim, eu comprava e dividia em partes iguais com meu marido, que é pior do que formiga por doces e guardava as minhas para quando estivesse bem desejosa, pois comer algo delicado e saboroso de qualquer jeito, não tem graça.

Danke, obrigada.

Bem, fiquei freguesa dessa lojinha de doces durante nossa estadia em Viena. Adentrava no ambiente sorridente e era recebida da mesma forma. Fiz uma breve amizade com a senhorinha simpática, disse que era brasileira e, para meu espanto, ela pronunciou algumas palavras em português como “boa tarde, boa noite, obrigado.” Oh povo culto, esses austríacos. Eu só sabia dizer “danke” que é obrigado em alemão, a língua oficial da Áustria.

A doceria, que era pequena, estava quase sempre cheia e eu esperava todos saírem para comprar minhas laranjas, e conversar com a senhora, ao mesmo tempo em que passeava os olhos pelos objetos e souvenires. Já havia comprado alguns pelos locais que visitara, principalmente, cartões de Gustav Klimt, meu pintor favorito.

Foi então que coloquei os olhos num dedal com o desenho de Sissi, a famosa imperatriz austríaca que seduziu toda a Europa, por sua beleza e encantos. Há muitas histórias dizendo que a coitada era feiticeira, mas nada que prove tais alegações, mas vocês sabem: quando certas anedotas caem no imaginário popular, depois que se espalham, não tem jeito.

Sissi, a Imperatriz.

Sissi é adorada pelo povo austríaco. https://rainhastragicas.com/2021/05/12/imperatriz-da-moda-o-esplendoroso-estilo-de-elisabeth-sissi-da-austria/

Tinha a popularidade da Princesa Diana, em nossa época. Por isso, é possível visitar um museu totalmente dedicado à ela, com suas roupas (lindos vestidos luxuosos), joias, mobiliário, louças, pratarias e coisas que ela usava. Em todas as lojinhas se encontram souvenires com sua linda face, como cartões, caixinhas de chá, porta-joias, louças, lenços, blocos de anotações, bolsas de moedas, chocolates, enfim, o que você puder imaginar de objetos com a figura da idolatrada Sissi.

Ao ver o dedal, imediatamente, lembrei de minha tia Isabel, que mora em Natal e é costureira. Não tinha outro souvenir mais perfeito para ela. Pois bem, comprei e embrulhei bem direitinho, afinal, ainda íamos passar uns dias em Budapeste, Hungria, voltar para Miami e depois de uma semana, viajar para o Brasil. Um objeto pequeno e delicado desses poderia quebrar a qualquer momento.

Lembro que cheguei a Natal com ele, em meio a outras coisinhas, como imãs de geladeira, bloquinhos de escrever, marcadores de páginas e etc.

Souvenires ou lembrancinhas, em nosso bom português, são objetos simples, mas de grande significado, pois lhe remetem a um lugar em que você esteve, em determinado momento de sua vida. Nossa memória, um dia, irá falhar (a minha, já me prega peças), e serão essas pequenas lembranças, materializadas, que vão lhe ajudar a recordar.

O objeto perdido

Para encurtar a conversa, esse dedal desapareceu. Procurei no apartamento inteiro, em Natal. Quando cheguei a Miami, também revirei tudo e não o encontrei.

O pior de tudo era que eu tinha mandado as fotos para titia, que adorou a lembrança e criou expectativas. Que sensação desagradável é não cumprir uma promessa. É melhor não fazê-la.

Sinceramente, não sei qual o propósito do misterioso desaparecimento desse objeto (uma lição?). Eu me considero uma pessoa cuidadosa demais para tê-lo perdido. Talvez, algum dia, quando eu tiver esquecido de procurar, ele apareça.

Por fim, era um simples objeto, poderíamos pensar, mas foi escolhido com muito carinho para uma pessoa que eu sabia que iria gostar. Por esse prisma, o objeto ganha valor e deixa de ser “mero.”

Agora quero saber se vocês possuem algum objeto, que por mais simples que pareça, tem um significado especial. Contem para mim!

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12 comentários em “Objetos.”

  1. Eu guardo, uma aliança de compromisso, que meu avô, deu a minha vó, e ela usava, quando ela tava, bem debilitada no hospital, minha tia, tirou e eu guardo até hj, as vezes, procuro e não acho tmb kkkk, ai do nada encontro

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      • Bom dia minha querida. Primeiramente , quero lhe parabenizar pela linda crônica- amo crônicas – a forma simples e com graça que descreve os acontecimentos, objeto da crônica é louvável. O fato de ter contado o “mico” na doceria foi fantástico, revelo seu bom humor e a sintonia do casal. Eu simplicidade amei a crônica.
        Quanto ao objeto eu posso te dizer gosto de brincos. Não só de um especial mesmo não tendo valor econômico, pois a maioria são bijouterias, eu amos os meus brincos, e quando vou usá-los, gosto de combinar com a ocasião. E há um mistério engraçado, se perco um brinco, guado o outro, pois o desaparecido acaba aparecendo, por isso que o dedal, presente para sua tia vai aparecer.

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        • Minha querida amiga Veralúcia, poetisa de Assu, a terra dos poetas, local que também amo, muito obrigada pela leitura. Deus te ouça e que esse dedal apareça, se não, levo uns cascudos de titia! (risos). Pois bem, bom saber de sua paixão por brincos, vou levar um par bem diferente para sua coleção! Em breve nos veremos, se Deus quiser! Beijos!

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  2. Realmente, são pequenas peças de grande significado!
    Também amo comprar souvenirs. Quando damos de presente um souvenir, é porque carregamos conosco, em pensamento, a pessoa para a qual compramos a lembrancinha.

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  3. Que legal! Quando trabalhava na Nick em uma época de natal uma cliente me deu um menino Jesus em uma almofadinha, era tão pequenino, tipo 3cm mais eu fiquei encantada que até hj tenho faz uns 13anos. almofadinha tem mais nem cor kkkk

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  4. Eu coleciono quadros, já são 6 pendurados no meio da casa. E todos de valor inestimável, pois são obras de arte feitas pelo meu filho, João. Nenhum quadro teria maior valor para essa mãe.

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