Assinatura no corpo: Sarita Cesana
Uma proposta que ganha cada vez mais sentido
Conhecer o cérebro para compreender a si mesmo é uma proposta que ganha cada vez mais sentido nos dias de hoje. Durante muito tempo, quando se falava em autoconhecimento, pensava-se quase exclusivamente em olhar para a própria história. Ou seja, a infância, as relações, as escolhas, as dores, os afetos. Tudo isso continua sendo fundamental. Contudo, hoje existe uma possibilidade a mais: compreender um pouco melhor como funciona a mente que interpreta toda essa história. É exatamente aí que a neurociência pode contribuir para conhecer o cérebro para compreender a si mesmo de maneira mais completa.
Não é preciso ser especialista em cérebro, nem conhecer todas as estruturas cerebrais, neurotransmissores ou circuitos neurais. Todavia, compreender alguns processos básicos pode mudar significativamente a maneira como cada pessoa olha para si mesma.
Nem Tudo o Que Pensamos É Verdade
Talvez essa seja uma das descobertas mais importantes de todo o processo de autoconhecimento. Pensamos o tempo inteiro: interpretamos olhares, palavras e silêncios, antecipamos situações, recordamos experiências e fazemos julgamentos sobre os outros e, sobretudo, sobre nós mesmos.
Com frequência, porém, confundimos pensamento com realidade. “Eu não sou capaz.” “Ele não respondeu porque está aborrecido comigo.” “Isso vai dar errado.” “Eu sempre fui assim.” A mente constrói interpretações rapidamente, utilizando experiências anteriores, expectativas, emoções e padrões já aprendidos.
Conhecer esse funcionamento permite fazer uma pergunta poderosa: será que é exatamente assim ou é assim que estou interpretando? Existe uma diferença enorme entre essas duas possibilidades, e reconhecê-la já é um passo importante rumo a conhecer o cérebro para compreender a si mesmo.
O Cérebro Também Aprende a Repetir Caminhos
Somos, antes de tudo, seres de hábitos. Quanto mais repetimos determinadas maneiras de pensar, sentir e agir, mais familiares elas se tornam. Isso ajuda a explicar por que alguns comportamentos parecem tão difíceis de modificar, mesmo quando sabemos racionalmente que não nos fazem bem.
Há, entretanto, uma ideia particularmente esperançosa trazida pelo conhecimento sobre a neuroplasticidade: o cérebro mantém sua capacidade de adaptação e aprendizagem ao longo de toda a vida. Isso não significa que mudar seja simples ou rápido; significa apenas que “eu sempre fui assim” não precisa significar “eu sempre serei assim”. Essa é, talvez, uma das mensagens mais bonitas quando se fala em desenvolvimento humano, e mais um motivo para conhecer o cérebro para compreender a si mesmo com mais profundidade.
Por Que Lembramos Tanto do Que Deu Errado?
Outro fenômeno interessante é a tendência humana de dar grande importância às experiências negativas. É possível receber vários elogios ao longo de um dia e, ao chegar em casa, continuar pensando justamente naquela única crítica que se ouviu. Quem nunca?
Compreender que nossa atenção pode ser capturada com mais facilidade por ameaças, erros ou experiências negativas ajuda a perceber por que também precisamos cultivar, conscientemente, aquilo que nos faz bem. Não se trata de pensamento positivo, tampouco de negar sofrimentos, problemas ou emoções difíceis; trata-se, sobretudo, de ampliar o próprio campo de percepção.
Observar a Própria Mente
Chegamos, assim, à metacognição — um conceito especialmente interessante quando o assunto é conhecer o cérebro para compreender a si mesmo. Metacognição é, de maneira simplificada, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento.
É perceber: “Estou antecipando algo que ainda nem aconteceu.” “Estou interpretando esse silêncio como rejeição.” “Estou imaginando o pior cenário possível.” “Estou repetindo comigo uma crítica que ouvi muitos anos atrás.” Quando conseguimos observar nossos pensamentos, criamos um pequeno espaço entre aquilo que pensamos e aquilo que fazemos com esse pensamento. E, nesse espaço, pode surgir algo precioso: a possibilidade de escolha.
Autoconhecimento Não É Encontrar uma Versão Definitiva de Nós Mesmos
Por muito tempo, tratou-se o autoconhecimento como se existisse um “eu verdadeiro” escondido em algum lugar, e a tarefa fosse apenas encontrá-lo. Hoje, contudo, vale a pena pensar de outra maneira: autoconhecimento é um processo contínuo de observação.
É conhecer a própria história, mas também os próprios padrões; as emoções, mas também a maneira como as regulamos; os pensamentos, mas também a forma como os construímos; os limites, as necessidades, os automatismos e as possibilidades de mudança. É nesse sentido que psicologia e neurociência podem dialogar de maneira tão rica: uma ajuda a compreender a experiência humana, a subjetividade e as relações; a outra amplia a compreensão sobre alguns dos processos que participam dessa experiência. Nenhuma delas oferece uma fórmula pronta sobre quem somos, mas ambas podem ajudar a formular perguntas melhores.
Talvez Conhecer-se Seja Aprender a Observar-se
Quanto mais se compreende o funcionamento da mente, mais se torna possível perceber os próprios automatismos antes de simplesmente reproduzi-los. Podemos aprender a questionar uma interpretação, reconhecer uma emoção, perceber quando estamos sobrecarregados, identificar um padrão que se repete e, então, escolher uma resposta diferente.
É também por isso que a psicoterapia pode ser um espaço tão importante de autoconhecimento: não apenas porque se conta a própria história, mas porque se aprende a perceber como se pensa, se sente e se constroem significados sobre essa história. Depois de tantos anos de observação sobre o tema, permanece a convicção de que conhecer a si mesmo não significa ter todas as respostas. Talvez seja exatamente o contrário: aprender a fazer perguntas que antes nem sequer sabíamos que precisavam ser feitas — e essa é, no fundo, a essência de conhecer o cérebro para compreender a si mesmo.
Fica, portanto, uma pergunta para esta semana, um convite final a quem deseja seguir conhecendo o cérebro para compreender a si mesmo: você observa a sua mente ou apenas acredita em tudo aquilo que ela lhe diz?
Sarita Cesana
Psicóloga CPR 17-0979
@saritacesana_ @implementeconsultoria