Os Lenhadores

Um show de lenhadores no Alasca

Nesses dias no Alasca, fomos assistir a um show de lumberjacks, os famosos lenhadores que fazem parte da história da região e cuja atividade ajudou a construir comunidades inteiras no norte dos Estados Unidos e do Canadá.

Em Ketchikan, o espetáculo transforma antigas habilidades da atividade madeireira em competição. São provas de força, velocidade, equilíbrio e precisão: serrar troncos, cortar madeira, subir em árvores, correr sobre toras e arremessar machados.

Algumas dessas modalidades nasceram das próprias competições entre trabalhadores das florestas, que, em outros tempos, disputavam entre si quem era mais rápido, mais forte ou mais habilidoso.

Tudo parece muito simples quando estamos sentados na arquibancada.

Até que uma motosserra de alta potência travou.

Quando a ferramenta não funciona

O participante puxava a corda para fazê-la funcionar. Nada. Puxava novamente e nada. Mais uma vez, agora com mais força. E nada acontecia.

Foi quando pensei em como somos parecidos com aquela máquina.

Passamos boa parte da vida acreditando que basta apertar o botão, puxar a corda, insistir um pouco mais e tudo vai funcionar, mas nem sempre funciona.

E talvez seja justamente por isso que precisamos cuidar dos nossos equipamentos.

Não estou falando apenas das ferramentas que usamos para trabalhar. Falo também do nosso corpo, da nossa mente, da nossa capacidade de concentração, dos nossos relacionamentos, dos nossos sonhos e até da nossa disposição para enfrentar um novo dia.

Ferramenta boa também precisa de manutenção.

Uma lâmina precisa estar afiada. Uma máquina precisa ser revisada. Uma bateria precisa de carga.

E nós?

A importância de recarregar nossas próprias energias

Quantas vezes esperamos ficar completamente sem energia para perceber que há muito tempo não nos cuidamos?

Até o pequeno celular que carregamos conosco o dia inteiro nos lembra disso. Dependemos tanto dele que, se acordamos pela manhã com pouca bateria, já sentimos que alguma coisa está errada.

Afinal, é por ele que trabalhamos, conversamos, pesquisamos, fotografamos, pagamos contas, nos orientamos e, muitas vezes, até nos relacionamos com o mundo. Infelizmente, temos sido capazes de lembrar de carregar o telefone e esquecer de carregar a nós mesmos.

Talvez esse seja um dos paradoxos da vida moderna.

Cuidamos dos equipamentos que tornam nossa vida mais eficiente, mas nem sempre cuidamos da pessoa que precisa operá-los. E. é salutar se perguntar de vez em quando: Como está o meu equipamento interno? Estou descansado? Estou motivado? Minha mente está funcionando bem? Tenho energia para aquilo que estou tentando construir? Ou estou simplesmente puxando a corda repetidamente, esperando que alguma coisa aconteça?

Competição também pode ser companheirismo

O show continuou.

A competição era acirrada, mas havia uma coisa que me chamou atenção: apesar de disputarem a vitória, os competidores demonstravam respeito uns pelos outros.

Talvez porque competência individual e capacidade de convivência sejam equipamentos diferentes.

E ambos precisam de manutenção.

A força de uma torcida

Outra coisa me chamou atenção: a torcida.

Em determinadas provas, o entusiasmo da arquibancada fazia parte do espetáculo. Gritávamos, incentivávamos, vibrávamos.

E fiquei pensando em quantas vezes fazemos alguma coisa difícil na vida sem saber quem está verdadeiramente torcendo por nós.

Começamos um projeto novo.

Mudamos de profissão.

Escrevemos um livro.

Abrimos uma empresa.

Voltamos a estudar.

Decidimos viajar sozinhos.

Recomeçamos.

E, de repente, percebemos que as pessoas que imaginávamos que estariam na primeira fila talvez nem estejam.

Às vezes, é um desconhecido que vibra.

Uma pessoa que nunca nos viu antes.

Alguém que cruza nosso caminho por alguns minutos e consegue enxergar aquilo que aqueles que convivem conosco há anos já não conseguem perceber.

Talvez porque quem está perto demais se acostume com a nossa presença.

A torcida me lembrou que nem sempre quem está perto é quem verdadeiramente acredita.

E o machado, pesado nas minhas mãos, me ensinou novamente uma velha lição: antes de julgar a dificuldade do caminho de alguém, talvez seja prudente experimentar caminhar alguns passos com os sapatos dele.

Afinal, quais equipamentos estamos esquecendo de cuidar?

No fundo, talvez seja disso que a vida seja feita: de pequenos acontecimentos que nos apertam alguns parafusos que afiam algumas lâminas, que recarregam algumas baterias e que mostram onde estamos enferrujados.

E que, de vez em quando, nos fazem perceber que o equipamento que mais precisa de cuidado não está na nossa caixa de ferramentas.

Está dentro de nós.

Talvez cuidar dos equipamentos seja, afinal, uma forma silenciosa de cuidar da vida.

E talvez a pergunta que aquele show no Alasca deixou comigo seja muito mais simples do que parece:

Se a vida exigisse de você hoje o máximo da sua força, da sua precisão e da sua resistência, seus equipamentos estariam prontos?

E você, como encara os desafios da vida: uma competição sem fim ou algo normal? Conte aqui nos comentários que volto já para responder.

Beijos de sua cronista.

Tenham uma semana de conquistas.

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