Crônicas de uma mãe descompensada: e o que ela já sabe fazer?

As coisas que ela já sabe fazer

É dia de falar com a família por chamada de vídeo. E se tem uma coisa que vó gosta é ter o que falar sobre a neta, especialmente se for inédito. Quanto mais quente a notícia, melhor! Imagino as amigas chegando para falar de seus próprios netos “o meu é muito inteligente, começou a falar com dez meses”, “o meu já andava com oito”. Assim, eis a sua primeira pergunta de praxe: “já está andando?”. Na negativa, então, lá ela começa o checklist – das coisas que a pequena já sabe fazer -: “fala vovó!”, “bate palma”, “manda beijo!”, “dá tchau!”.

E lá está a minha filha, um pequeno macaco de circo, quase dando “tilti”, como um robô que entra em parafuso. O mais interessante é que o checklist gera uma satisfação apenas instantânea, como a dopamina que os ultra processados fazem desencadear. Logo, a minha mãe está pedindo para eu colocar a bebê de pé. E, na negativa – porque eu gosto mesmo de contrariar -, começam as orientações de como fazer para ela andar mais rápido.

O comum

Mais rápido… fico pensando que motivos eu teria para acelerar a minha filha. Claro, partindo-se do princípio de que ela está se desenvolvendo dentro do esperado para a sua idade. Talvez, os netos de todas as amigas da minha mãe tenham começado a andar até os doze meses. E ela segue explicando que colocar o bebê para andar faz parte do senso comum. Então, fico me perguntando o quão comum minha mãe pensa que sou, o quão comum, de fato, sou como mãe para a minha filha e o quão comum eu gostaria que ela fosse.

Na verdade, toda mãe deseja que seus filhos sejam um ponto fora da curva, mas, normalmente, esse desejo vem atrelado ao princípio das sociedades capitalistas: ser o primeiro ou o melhor, aquele que detém o mérito, aquele que faz mais e mais rápido. Produzir, produzir, produzir!

Esse desejo costumeiramente diz respeito a uma realização frustrada dos próprios pais: querer que seus filhos sejam o que eles mesmos não conseguiram ser. E é assim que, ano após ano, geração após geração, seguimos formando pessoas coladas ao desejo do outro, muito certas de que estão correndo atrás de seu próprio desejo.

Vamos de uma vez!

Ao observar a pequena brincando, percebo que ela quer levantar, mas tem algo que a impede. Tento ajudar, mas ela reclama. Imagino que este não seja o seu desejo. Talvez, ela queira se levantar sozinha, no momento em que se sentir mais segura. Por outro lado, o meu desejo está ali: eu quero que ela ande e fale de uma vez! Afinal, a meta era coloca-la na escolinha assim que adquirisse essas duas habilidades. Seguro o meu desejo. Respiro, pratico mais um pouco de paciência.

Rolo o meu feed do Instagram pra cima e lá estão eles, os benditos fisioterapeutas de bebês, ensinando como fazer seu filho desenvolver mais rapidamente as habilidades motoras. Sou professora de yoga, conheço os movimentos, é tentador. Mas algo parece não estar certo e logo lembro da minha trajetória e dos meus alunos no yoga. Todos querem fazer perfeitamente os tais asanas, mesmo tendo pouquíssima percepção corporal. Sem noção de corpo, a gente sofre nas posturas, podendo até se lesionar. Yoga deixa de ser yoga. Passamos três, cinco, dez anos praticando e sofrendo, como na academia – no pain, no gain. Tudo porque temos pressa demais, pulamos etapas pra chegar o quanto antes aos finalmentes. Sem curtir o caminho, sem viver o presente.

Oportunidade de compreensão

A nossa pediatra, que escolhemos com tanto cuidado, entra consulta e sai consulta, sempre nos diz que a única coisa que precisamos fazer é deixar Mel no chão, dando a ela oportunidades. Agarramo-nos, então, ao seu conhecimento e proporcionamos as tais oportunidades.

Observo mais um pouco a pequena… Vejo a sua dificuldade de se movimentar usando tanta roupa, tantas meias, em meio ao inverno rigoroso dentro de sua própria casa. Vejo o sapatinho que não firma no chão – pois ela ainda não tem a completa noção de que a sola do pé deve estar totalmente em contato com o piso. Vejo que, ao sair da posição de pé, ela ainda não compreende que é preciso dobrar os joelhos, então, ela estira braços e pernas e desce com toda a cautela do mundo ou chora com receio de não encontrar o chão. Vejo que, dependendo da posição de seu corpo em relação à cerca do chiqueirinho, apesar do esforço de se puxar para cima, nem sempre ela consegue ajustar os pezinhos para ficar enfim de pé.  

Entendo que interferir nos movimentos da minha filha é como apresentar para os meus alunos uma postura difícil, sem mostrar variações para construí-la aos poucos, até que seus corpos compreendam de fato a postura. Ou como dizer a um analisando o que ele deve fazer para resolver os seus problemas, em vez de estar ao seu lado, ajudando-o a construir suas próprias resoluções.

O que eu espero que ela saiba fazer…

A cada dia, percebemos as pequenas evoluções da nossa filha: o sapatinho que firma melhor no chão, o joelho que começa a dobrar, os choros que se reduzem, a frequência do levantar… E, assim, ela já sabe fazer muitas coisas, mas, talvez, nem todas sejam notícias dignas de manchete no jornal.

Da mesma forma que minha mãe cobra o caminhar, já foi com o sustentar de pescoço, o rolar e o engatinhar. Quando Mel finalmente andar, vai surgir uma outra cobrança. Até ela ter idade suficiente para casar e ter filhos… E eu terminaria essa frase com “se ela quiser, claro”. Mas, se não for a minha mãe implorando por seus bisnetos, haverá a sociedade procurando incutir este e muitos outros desejos na mente da minha filha, como se fossem dela mesma. E, nesse momento, eu só vou desejar que ela saiba protestar, como protestou quando ofereci ajuda para acelerar o seu caminhar.

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