Crônicas de uma mãe descompensada: vai e vem

Respira!

Algumas semanas depois e aqui estou eu novamente, recuperando o fôlego. Como uma baleia que passa horas debaixo d’água e, enfim, sobe até a superfície para respirar. Só que, em vez de algumas horas, passaram-se três meses. Três longos meses de turbulência. O que era só um resfriado virou dor de dente, que embolou com um salto de desenvolvimento e tornou tudo muito mais difícil.

Ela queria dormir, mas o nariz trancava e não a deixava. Ela queria dormir, mas os dentes nascendo incomodavam. Ela queria dormir, mas seu corpo em movimento desenfreado, louco para finalmente andar, simplesmente, não permitia.

Ela queria dormir. Eu também queria. Em vez disso, eu a amamentava e dormia ao pé de sua cama, sobre os encostos do sofá – que nunca estão no sofá, mas sempre ao pé da cama a fim de impedir que ela role e caia pra fora. Nas consultas com a pediatra, tinha que ouvir que eu não estava fazendo o certo: que eu não deveria amamentá-la fora de horário e que os pais nunca devem ser separados pelo filho! “Vai mal acostumar a bebê…”.

Respira, Deborah, e não pira! Logo penso, conheço a minha filha o suficiente para saber que ela não acordaria se o motivo não fosse fisiológico…

A bóia

Três meses depois, ela voltou a dormir a noite inteira. Já, eu ainda acordo esperando que ela acorde. Demora um pouco pra gente se readaptar e, quando finalmente a gente relaxa, surge uma outra questão. Um outro dente, um outro salto de desenvolvimento… Quando vê, sua filha é uma jovem adulta e você se pega acordada de madrugada porque ela ainda não retornou da festa. É… eu falei que não melhorava. Mas, agora, em vez de me afogar, estou boiando numa marolinha, lá na praia de Camurupim.

Agora, é mais fácil dizer que não melhora, dá até pra fazer piada disso. Agora, porque, agora, não tem dor de dente, não tem secreção… APENAS, o seu corpo na ânsia por andar. E, quando é SÓ uma coisa, é mais FÁCIL de manejar. Bota a menina no chão, monta uns circuitos, que nem no Funcional, e faz ela cansar! Deu, ela dorme como uma pedra. Talvez, aquelas pedras que se moviam misteriosamente no deserto da Califórnia… E eu aproveito pra imaginar as formas das nuvens, enquanto não vem o tsunami.

Céu azul

Eu aproveito para escrever, para criar. Porque, agora, os ruídos estão reduzidos. Agora, o choro é raro e minha mente não precisa ficar em alerta. Não precisa prever tudo o que não vai dar certo, não precisa ser pessimista. Então, eu não me estresso por antecedência nem por procedência.

De repente, tudo fica mais colorido. De repente, volto a fazer planos e me encho de expectativas. De repente, minha filha parece ainda mais fofinha e estar com ela é ainda mais proveitoso. Nos almoços, quando começa a se entreter com os objetos ao seu redor, posso pedir, numa boa, para Alexa o som de todos os animais do mundo, só para que ela abra a boca e coma.   

O tsunami

Até chegar o próximo tsunami… Ou a próxima lua cheia, quando o mar fica revolto, as ondas se formam com maior amplitude e a sua quebra gera uma força que empurra qualquer coisa que passe direto para o fundo. Quem já levou um caldo em mar revolto sabe que, por mais que nademos em direção à superfície, só conseguimos subir depois que a energia da onda quebrada se dissipa. Antes disso, o empuxo é praticamente nulo.

É nesse momento que o bicho pega. Porque, sem ar pra respirar, o desespero aumenta. Ou, numa “vibe intermediária”, é como andar com um sapato menor que o seu pé. Nos primeiros passos, é suportável, mas, depois de um quilômetro, tudo é motivo pra te deixar irritado. Como os dentes que rasgam a gengiva da pequena… Se permitirmos, entramos numa espécie de luta esquizoparanoide com o bebê, com reações reativas em cadeia. Em outras palavras, a coisa toda vira um shitshow.

Vai e vem

Se permitirmos… é fácil dizer isso, né? Afinal, por que raios permitiríamos? Talvez, a pergunta mais apropriada seja “como não nos afetaríamos?”. Afinal, permitimos porque nos afetamos. E o tanto de “afetamento” é proporcional ao tempo de contato. Por isso se fala tão frequentemente em rede de apoio quando se tem crianças. E também por isso a loucura circunda esses ambientes. É uma multidão de gente tentando colocar a cabeça para fora da água e outro “tantão” andando com o sapato apertado.

Desde que Mel nasceu, ouço as pessoas dizerem “aproveite, porque eles crescem muito rápido”. Isso sempre era difícil de assimilar quando o sapato estava apertado ou quando eu estava me afogando. Mas, talvez, o que as pessoas queiram dizer é “aproveite enquanto estiver descalça ou com a cabeça fora d’água”. Aproveite sempre que puder respirar e descarregar a energia na terra, porque a vida passa num estalar de dedos e os problemas vêm, mas também vão.

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