Espelhos

Espelhos: o que realmente enxergamos quando olhamos para nós mesmos?

Estava em casa, tentando organizar a vida em pouco tempo, quando fui ajustar meu lenço da cabeça diante do espelho do banheiro social.

Mexe daqui, ajeita dali, inclina a cabeça para um lado, depois para o outro — esses pequenos movimentos que fazemos quase sem perceber quando queremos ficar bem com nossa imagem.

Foi então que reparei no reflexo de outros três espelhos menores, usados como decoração na parede. E, de repente, meio que me vi de costas, ou melhor, vi uma parte delas, já que aqueles espelhos são pequenos, pouco maiores que a palma da minha mão.

Era outro ângulo. Um ângulo que normalmente não podemos ver.

Fiquei pensando em como um objeto tão simples pode se transformar em uma metáfora tão poderosa para falar de nós mesmos.

O espelho e a nossa autoimagem

Diante do espelho, ajeitamos uma coisa e outra até sairmos, senão satisfeitos, ao menos conformados com nossa imagem, mas existem partes de nós que o espelho não alcança.

Há ângulos que permanecem escondidos. Existem, também, os nossos pontos cegos — aquilo que todos talvez consigam perceber, menos nós.

E então surge uma pergunta “O espelho tem sido nosso amigo ou nosso inimigo?”

É mais comum do que pensamos o hábito de parar diante dele antes de sair de casa.

Lembro-me de mamãe, das minhas irmãs e dos meus irmãos. Papai também tinha suas vaidades. Todos passavam diante do espelho, conferiam se estava tudo em ordem e, então, seguiam para seus compromissos, confiantes ou não.

Talvez aquele breve ritual tivesse uma função maior do que simplesmente verificar a aparência. Era como se parar diante do espelho fosse um pequeno gatilho psicológico para dizer “Agora estou pronto. Posso seguir.

O espelho, nesse sentido, não apenas reflete. Ele marca uma passagem entre o espaço íntimo da casa e o mundo lá fora ou até mesmo um gatilho para sair da segurança do lar para os desafios do dia.

Quando o espelho revela mais do que gostaríamos

Às vezes, o espelho nos revela mais do que gostaríamos de ver. Ele não precisa ser mágico, como nos contos de fadas. Basta que nosso olhar seja demorado. Um olhar que não passe rapidamente pela superfície, mas permaneça.

É possível perceber as marcas do tempo, as linhas que antes não estavam ali, as mudanças que o rosto foi acumulando silenciosamente, mas podemos perceber também o nosso próprio olhar.

E há algo perturbador nisso: quando deixamos de olhar apenas para o rosto e começamos, de alguma maneira, a olhar para quem está olhando.

Por experiência própria, acredito que, se ficarmos diante de nós mesmos por alguns minutos, sem pressa e sem a preocupação de corrigir imediatamente aquilo de que não gostamos, algumas verdades podem aparecer. E talvez não gostemos delas, pois não temos muito o hábito de nos confrontar.

Estamos acostumados a corrigir o cabelo, ajeitar a roupa, disfarçar uma marca, melhorar o que consideramos imperfeito. Somos treinados para modificar a aparência, mas quase nunca paramos para perguntar: o que essa imagem desperta dentro de mim?

Autoestima: quando o olhar muda, a imagem também muda

O espelho é algo tão frágil e, ao mesmo tempo, tão poderoso. Pode ser o melhor amigo do ego, quando confirma aquilo que queremos acreditar sobre nós mesmos, mas também pode ser seu pior inimigo, quando não corresponde à imagem que construímos ou desejamos sustentar.

Talvez por isso nosso estado emocional tenha tanta influência sobre a maneira como nos enxergamos: quando estamos bem, o espelho parece mais generoso. Já quando estamos feridos, cansados ou atravessando um período de baixa autoestima, ele pode se tornar cruel.

Logo, a mesma face que ontem parecia bonita pode hoje nos parecer apagada, envelhecida, sem graça. E o mais curioso é que o rosto mudou muito pouco. Quem mudou foi o olhar.

Nossa percepção de nós mesmos não é completamente objetiva. A autoimagem é atravessada por emoções, memórias, expectativas, experiências e pela maneira como acreditamos que os outros nos veem.

Por isso, convém prestar atenção ao nosso humor quando consultamos o espelho. Nem sempre estamos vendo o rosto que está diante de nós. Às vezes estamos vendo o estado de espírito que carregamos por dentro.

Quando preferimos não nos olhar

Ouvi certa vez a história de uma mulher que, depois de uma grande desilusão amorosa, baniu os espelhos de casa. Ela não queria contemplar o próprio rosto sem o brilho que o amor, antes, parecia lhe emprestar. Talvez tenha sido uma forma de defesa.

Às vezes, quando alguma experiência nos machuca profundamente, evitamos aquilo que pode nos colocar novamente em contato com a dor. Não olhar pode parecer mais suportável do que reconhecer o que mudou em nós.

E há dias em que nos sentimos exatamente assim. Dias em que preferimos não nos olhar muito. Se bem que não precisamos de um espelho para fazer uma autoanálise.

Às vezes, o silêncio de uma manhã, uma lembrança inesperada, uma conversa ou até uma reação desproporcional a alguma coisa podem funcionar como espelhos muito mais reveladores.

Talvez o problema nunca tenha sido o espelho. Talvez seja a nossa expectativa de que ele nos mostre a verdade.

O espelho não conta toda a história

O espelho mostra apenas uma parte: mostra o rosto, mas não mostra a história que aquele rosto carrega, mostra as marcas, mas não explica de onde vieram e também mostra uma expressão, mas não conhece a emoção que a produziu.

E, sobretudo, o espelho mostra como estamos naquele momento. Por isso, não é cem por cento confiável. Há dias em que ele pode exagerar nossos defeitos. Em outros, pode confirmar nossas vaidades.

Às vezes, mostra exatamente o que está diante dele. Outras vezes, somos nós que colocamos sobre aquela imagem aquilo que desejamos — ou tememos — enxergar.

O que os nossos pontos cegos dizem sobre nós?

Talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto de me ver de costas naquele pequeno espelho. Ele me mostrou uma parte que normalmente não vejo.

Será que essa seja justamente essa a função mais interessante dos espelhos: não nos oferecer uma imagem perfeita de quem somos, mas nos lembrar de que sempre existe um ângulo que desconhecemos.

Em nós, há partes visíveis e invisíveis. Há o que sabemos sobre nós mesmos e aquilo que ainda precisamos descobrir. Há o que aceitamos e o que escondemos e ainda há o que o mundo vê e aquilo que só nós sabemos.

E há, sobretudo, os nossos pontos cegos.

Talvez amadurecer seja isso também: aprender a trocar de espelho, olhar para o rosto com carinho e, de vez em quando, ter coragem de olhar para dentro.

Afinal, o que vemos quando nos olhamos?

E se o espelho nunca tenha sido exatamente um retrato de quem somos, mas apenas um convite? Um convite para observar como estamos, o que estamos sentindo e o que estamos projetando sobre aquela imagem.

Porque existe uma diferença enorme entre olhar para si e enxergar-se. Podemos passar anos diante do espelho sem realmente nos encontrarmos. E podemos, em um instante inesperado, diante de um pequeno reflexo, descobrir uma parte de nós que sempre esteve ali — apenas fora do nosso campo de visão.

Talvez o verdadeiro espelho não seja aquele que mostra o nosso rosto, mas aquele que nos ajuda a perceber quem somos quando ninguém está olhando.

E você?

Quando se olha no espelho, você realmente enxerga a pessoa que está diante dele ou enxerga aquilo que, naquele dia, sente sobre si mesma?

Escrevam nos comentários, meus amores (ou no Instagram) que volto já para responder.

Beijos da cronista.

8 comentários em “Espelhos”

  1. Excelente análise sobre espelhos, (na grande maioria na perspectiva feminina), mas pessoalmente não sou muito de ficar em frente ao espelho, como pra homens a vida é mais simples.

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    • Oi, meu querido amigo e poeta, Pablo.
      É bem verdade que adoramos um espelho e talvez, mais por cobrança de outrem que de nós mesmas. Infelizmente, fomos ensinadas a sermos lindas e maravilhosas para arrumar um casamento. Isso tem mudado, sim, mas ainda há raízes dessa mentalidade em toda parte. Tem sido difícil se livrar disso e encararmos o espelho e sermos felizes com o que vemos, com o que somos.
      Um dia, conseguiremos.
      Obrigada por sua leitura e partipação, meu querido.
      Beijinhos.

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  2. São tantas camadas em sua bela crônica que daria um verdadeiro tratado que, como em um espelho, reflete a alma humana e seus muitos mistérios.
    Como os quatro “eus” da Janela de Johari (instrumento de autoconhecimento): o Eu Aberto, o Eu Cego e o Eu Oculto.
    Ou mesmo em outros aspectos da autoimgem como o narcisismo, tão bem retratado na música Sampa de Caetano, “Narciso acha feio o que não é espelho”.
    Muita vezes o espelho que melhor nos revela não é o objeto físico, mas sim o retorno que vem de nossas relações.
    Então, seguimos na busca de nos conhecer.

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    • Obrigada, minha querida amiga e escritora, Helenita. É bem verdade, o que o espelho nos revela pode nos alegrar ou não. Será que somos um pouco como Narciso?
      Eu adoro seus apontamentos que me fazem refletir um pouco mais.
      Beijinhos no coração.

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  3. Eita, que reflexão,um dia de reunião de pais na escola,eu fiz uma reflexão do espelho, coloquei uma grande caixa com porta e dentro da caixa um espelho, fora da caixa,estava escrito,entre e veja a pessoa que Deus ama do jeitinho que é,que vê?As pessoas que entraram, ficaram mais um pouco lá dentro,e quando sai,vinham chorando, só Deus eles sabia o se passava no coração de cada um,e melhor ainda, ninguém dizia nada do que tinha lá.

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