Jardim de Vasos

O jardim de barro

Em meu último fim de semana em Lajes, passei alguns minutos contemplando o pequeno jardim da minha irmã, Vitória. Com a paciência de quem entende que a beleza nasce do cuidado, ela havia organizado todas as plantas em vasos de barro terracota. Havia crótons de diferentes espécies, espada-de-são-jorge, cactos e tantas outras plantas. Cada uma ocupava o vaso adequado ao seu tamanho: as pequenas, em recipientes delicados; as maiores, em vasos onde pudessem crescer sem limitações.

Todos estavam ocupados. Naturalmente, se novas espécies chegarem, será preciso providenciar outros vasos.

Foi então que me perguntei: será que nossa vida também funciona assim?

Será que possuímos um número limitado de vasos interiores e, ao longo da vida, vamos preenchendo cada um deles, nem sempre com sabedoria?

Somos vasos que transbordam

No Livro dos Livros, a Bíblia, o apóstolo Paulo nos lembra que somos vasos de barro. Sempre gostei dessa imagem. Somos frágeis, mas capazes de carregar tesouros; suscetíveis às rachaduras, mas também capazes de sustentar a vida. E, inevitavelmente, aquilo de que estamos cheios acaba transbordando. Quem cultiva paz costuma espalhar serenidade. Quem alimenta ressentimentos, cedo ou tarde, deixa que eles escorram sobre quem está por perto.

Como anda o nosso jardim?

O que escolhemos cultivar

Vitória escolhe algumas plantas porque as aprecia. Outras chegam como presente. No interior é assim: compartilham-se mudas, sementes, frutas colhidas no quintal, um prato preparado com carinho, dores divididas em silêncio e alegrias comemoradas em conjunto. Há uma generosidade quase espontânea em repartir aquilo que faz florescer.

Com as plantas ornamentais, isso é maravilhoso. Elas enfeitam, multiplicam-se e tornam o jardim mais bonito.

Mas, com as emoções, a lógica precisa ser diferente.

Não precisamos ser profissionais de saúde mental para saber que aquilo que alimentamos cresce. Pensamentos repetidos fortalecem emoções; emoções frequentes moldam comportamentos; comportamentos repetidos acabam construindo quem somos. Se cultivamos medo, raiva ou amargura diariamente, não deveríamos nos surpreender quando essas ervas daninhas ocuparem todo o espaço destinado às flores.

A coragem de podar

Nem tudo merece um vaso dentro de nós.

Algumas experiências precisam apenas ser reconhecidas e deixadas partir. Outras exigem poda. E podar quase sempre dói. É abrir mão do que parecia vivo para permitir que o essencial continue crescendo. Quem cuida de jardins sabe que uma poda feita no tempo certo não mata a planta; ao contrário, fortalece-a.

Também precisamos aprender que nem toda muda merece ser plantada em nosso terreno. Há palavras que recebemos, críticas, culpas e mágoas que não precisam criar raízes. O limite saudável é como um muro baixo ao redor do jardim: não impede a entrada da luz nem da chuva, mas protege o que estamos cultivando.

O jardim que oferecemos ao mundo

Que nossos vasos estejam sempre disponíveis para a esperança, a fé, a coragem, a gratidão, a gentileza e o amor. Que sejam preenchidos por palavras que curam, afetos que fortalecem e lembranças que nos ajudem a seguir em frente depois dos inevitáveis vendavais.

E, de tempos em tempos, façamos uma caminhada pelo nosso jardim interior. Observemos quais plantas já cumpriram seu ciclo, quais precisam de poda, quais necessitam de mais água e quais jamais deveriam ter sido cultivadas.

Porque, no fim das contas, não somos apenas os vasos que carregamos.

Somos, sobretudo, o jardineiro que decide, todos os dias, o que merece florescer dentro de nós.

E, quando nosso jardim floresce, inevitavelmente distribuímos mudas. Uma palavra de incentivo, um gesto de carinho, um abraço, um exemplo de coragem podem criar raízes no coração de outra pessoa. Assim, jardim após jardim, vaso após vaso, descobrimos que a beleza também é contagiante.

Mas e você, se você escolher apenas uma “planta” para cultivar no seu jardim interior neste momento da vida, qual seria?

Volt já para ler.

Beijos da cronista.

9 comentários em “Jardim de Vasos”

  1. Que belas metáforas. Verdadeiras mudas prontas para brotar no vaso (coração) de quem recebe o presente que você oferece, assim como os moradores de Lages fazem tão espontaneamente. Eu recebo de bom grado e espero retribuir pelo menos um pouquinho do que já criou raiz em mim.

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  2. eu tenho no meu jardim um pé de amor uma flor chamada empatia um caja chamado carinho uma rosa chamada va lá e vença voce consegue

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