Os Refis da Alma

Os refis da alma: sobre cansaço emocional, recomeços e a necessidade de se reabastecer

Esta semana, em casa, eu enchia os refis de sabonete líquido dos banheiros, assim como os aromatizadores. Com cuidado – quase um pequeno ritual – tentava despejar os líquidos nos frascos sem derramar. Quase nunca consigo e acabo sempre com as mãos perfumadas.

Compro embalagens de refil porque são mais baratas e mantenho os frascos. Coisas de dona de casa que aprendeu a fazer caber no orçamento os pequenos luxos do cotidiano, mesmo diante dos preços que insistem em subir.

Foi então que me ocorreu: nós, seres humanos, também somos como frascos.

Também precisamos de refis?

Carregamos dentro de nós aquilo que nos é exigido para viver, como exemplo, a coragem, o amor, a empatia e a esperança. Porém, o cotidiano, com suas pequenas erosões silenciosas, vai nos esvaziando aos poucos. Não de uma vez, não de forma brusca, mas em gotas quase imperceptíveis.

E chega um momento em que é preciso parar e reabastecer.

Nas últimas semanas, acompanhamos a história de uma mãe atípica, que cuida sozinha de duas crianças. Seu cansaço, exposto com uma honestidade rara, viralizou nas redes sociais. Havia ali algo de profundamente humano: não era apenas exaustão, era transbordamento de tudo aquilo que já não cabia mais dentro dela.

Felizmente, muitas pessoas a acolheram. E, de alguma forma, começaram a reabastecê-la com ajuda, com escuta, com presença. Às vezes, o que nos devolve ao eixo não é força, mas amparo.

O que fazer quando nos sentirmos vazios?

Na rotina do dia a dia, vamos nos esvaziando de energia, de paciência, de ânimo. E a exaustão, cedo ou tarde, chega.

Há dias em que uma boa noite de sono é suficiente para nos recompor. Outros, porém, requer mais do que isso. Precisamos de mais compreensão, de uma palavra que nos alcance, de reconhecimento. Precisamos do gesto simples de quem nos vê, do sorriso de quem amamos. Muitas vezes, basta apenas um olhar que diga, sem palavras: “eu sei, e estou aqui”.

Esses pequenos gestos têm o poder de nos reerguer por dentro.

Somos frascos cheios de uma energia que nos permite não apenas cumprir nossos deveres, mas também oferecer algo de bom ao mundo. No entanto, como os refis da minha casa, precisamos ser reabastecidos. Do contrário, vamos nos tornando recipientes vazios e, mais do que inúteis, ausentes de nós mesmos.

E há algo ainda mais delicado.

E quando não conseguimos mais nos reabastecer por falta de estoque?

Já aconteceu com você de procurar um produto no supermercado e descobrir que ele saiu de linha? Que simplesmente não existe mais?

Na vida, isso também acontece.

Há esgotamentos que não são momentâneos — são definitivos. Há sentimentos que, depois de tantas rupturas, não encontram mais caminho de volta.

Conversava com uma amiga que, após sucessivas decepções com seu companheiro, percebeu que já não conseguia mais amá-lo. Não era falta de tentativa. Era ausência de recurso interno. Como se o amor, dentro dela, tivesse sido consumido até o fim e não houvesse mais reposição disponível.

Para ela, o amor havia saído de estoque.

E assim, entre um pensamento e outro, terminei de encher meus frascos. Calculei, quase automaticamente, quando seria preciso repetir o processo. Torcendo para que os preços baixem e para que eu continue encontrando, nas prateleiras da vida, os meus aromas preferidos.

E você como tem cuidado do seu refil por dentro? Já percebeu o que, em sua vida, precisa ser reabastecido… ou o que talvez tenha se esgotado além do retorno?

Conte-me, que volto já para ler!

Beijos de sua cronista.

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