Fortificações

Fortificações: as muralhas que construímos para nos proteger

Mais uma vez, passeando pelas ruas antigas de Funchal, na Ilha da Madeira, Portugal, deparei-me com uma pequena fortaleza estrategicamente posicionada na cidade: o Palácio de São Lourenço.

Sua construção teve início na primeira metade do século XVI e foi concluída durante a dinastia espanhola que reinou em Portugal entre 1580 e 1640. O que começou como uma fortaleza defensiva passou, posteriormente, a ser residência dos governadores do Funchal e, hoje, abriga um comando militar.

De frente para o mar, como deveriam estar as antigas fortalezas, seus muros altos parecem ainda guardar uma certa distância de quem passa. À primeira vista, são inacessíveis. Entretanto, resistem ao tempo não apenas pela solidez de suas pedras, mas também pelas histórias que carregam.

Hoje, essas antigas fortificações fazem parte da paisagem urbana, quase como se as cidades tivessem crescido ao redor delas.

As antigas fortalezas e a necessidade de proteção

Enquanto observava o Palácio de São Lourenço, fiquei pensando em quantas cidades litorâneas já visitei nas quais existe um forte, uma muralha ou alguma construção militar destinada à proteção.

Lembrei-me imediatamente de Natal, capital do meu Rio Grande do Norte, com o Forte dos Reis Magos, e também do Rio de Janeiro, com o Forte de Copacabana, em uma cidade que já foi capital do Brasil.

Durante o período colonial, fortalezas eram erguidas para proteger territórios contra invasões e exércitos inimigos. Serviam também como pontos estratégicos de controle, administração e, em determinadas situações, como refúgio.

Em muitos lugares recém-ocupados, estavam entre as primeiras construções a surgir. Era preciso proteger o território, controlar seus acessos e garantir a permanência daqueles que ali chegavam.

O tempo passou. Os inimigos mudaram. As cidades cresceram, as tecnologias avançaram e os conflitos ganharam outras formas.

As fortalezas, porém, permaneceram.

Suas pedras tornaram-se testemunhas dos primeiros que chegaram e das estratégias utilizadas para conquistar e preservar territórios. Hoje, recebem visitantes e novas gerações, quase como se silenciosamente dissessem:

Houve um tempo em que estas muralhas foram necessárias para que a cidade pudesse existir e sobreviver.

As fortificações que também construímos

Enquanto caminhava ao redor daquela fortaleza em Funchal, comecei a pensar que nós também passamos a vida construindo as nossas próprias fortificações.

Erguemos estruturas para nos proteger, preservar aquilo que conquistamos e manter por perto o que consideramos importante. No fundo, buscamos algumas das mesmas seguranças que os antigos territórios procuravam.

Não estou falando apenas das fortalezas visíveis: muros altos, cercas elétricas, câmeras, guaritas e todos os mecanismos de segurança que fazem parte da vida moderna.

Falo, sobretudo, das fortalezas invisíveis.

Construímos a fortaleza da família, que representa nossa primeira ideia de pertencimento e proteção. Criamos nossa casa, nosso lar, esse espaço que muitas vezes consideramos um território sagrado, nosso pequeno cosmo particular, onde podemos baixar a guarda.

Também estabelecemos nossos lugares seguros, nossas rotinas, os caminhos conhecidos e os espaços onde sabemos exatamente como nos comportar.

Depois vêm os amigos, aquelas pessoas em quem depositamos confiança e diante de quem podemos ser nós mesmos — ou pelo menos acreditamos que podemos.

Existe ainda uma fortaleza maior: a territorialidade.

Meu país. Minha cidade. Minha casa.

Talvez por isso eu goste tanto de viajar, mas também goste tanto de voltar.

Posso passar dias, semanas ou meses conhecendo outros lugares e me encantando com outras culturas. Ainda assim, quando retorno aos meus países-casa, Estados Unidos e Brasil, existe uma sensação difícil de explicar: é como se alguma parte de mim reconhecesse o território e dissesse baixinho:

Aqui eu sei quem sou.

Quando a segurança também pode nos isolar

Os muros têm uma característica curiosa: protegem e isolam ao mesmo tempo.

Uma muralha cumpre sua função justamente porque impede alguma coisa de atravessá-la. O problema começa quando nos esquecemos de que fomos nós que construímos aquele muro e passamos a acreditar que ele precisa permanecer para sempre.

Sentir-se seguro é bom. Viver permanentemente protegido, porém, pode nos fechar para o novo.

Aquilo que um dia nos protegeu pode, com o passar do tempo, começar a nos limitar.

Essa talvez seja uma das grandes contradições da vida: a mesma estrutura que nos oferece segurança pode impedir o crescimento que desejamos.

As muralhas que construímos ao longo da vida

Quando somos crianças, as muralhas construídas pelos nossos pais fazem sentido.

Eles determinam horários, escolhem caminhos, estabelecem limites e nos protegem de perigos que ainda não sabemos reconhecer.

Depois crescemos.

A casa dos pais torna-se pequena. As regras que antes nos protegiam começam a parecer excessivas. Queremos experimentar, escolher, errar, acertar e descobrir o mundo por conta própria.

Isso não significa que aquelas muralhas tenham sido inúteis. Muito pelo contrário.

Elas cumpriram sua função.

O problema seria continuar vivendo dentro delas quando já aprendemos a caminhar sozinhos.

Fazemos algo semelhante durante toda a vida.

Construímos nossas próprias fortificações: uma carreira, uma família, amizades, patrimônio, hábitos, reputação e uma determinada maneira de viver.

Tudo isso pode nos oferecer estabilidade e segurança.

Entretanto, aquilo que construímos para nos proteger também pode se transformar em uma espécie de prisão.

Às vezes permanecemos em um trabalho porque ele é seguro, mesmo quando já não nos realiza. Mantemos relações apenas porque são conhecidas. Repetimos comportamentos porque funcionaram no passado. Defendemos certezas antigas porque abandoná-las significaria admitir que mudamos.

E mudar exige coragem.

Algumas muralhas já não precisam permanecer

Talvez o amadurecimento esteja justamente nessa capacidade de olhar para nossas próprias fortificações e perguntar se elas ainda são necessárias.

Algumas muralhas precisam continuar de pé.

Precisamos de vínculos, referências, uma casa, pessoas em quem confiar e algum lugar onde possamos descansar a alma.

O que precisamos aprender é a revisar nossas muralhas.

Esta proteção ainda é necessária?

Este limite ainda me protege ou já me impede de avançar?

Esta certeza me dá segurança ou simplesmente alimenta o medo de experimentar algo diferente?

São perguntas que não precisam ser respondidas de uma única vez. A vida muda, nós mudamos e aquilo que precisamos hoje pode não ser o que precisaremos amanhã.

Ressignificar nossas fortificações

Foi isso que pensei diante do Palácio de São Lourenço.

Aquela construção nasceu para um mundo em que era preciso estar preparado para ataques, invasões e disputas territoriais. Hoje, seus muros continuam de pé, mas sua função e seu significado mudaram.

A fortaleza não precisou desaparecer para que a vida pudesse mudar e o mesmo acontece conosco.

Não precisamos apagar o passado, negar nossas experiências ou derrubar todas as muralhas que construímos ao longo da vida. Algumas merecem continuar de pé. Outras precisam ganhar portas. Algumas talvez precisem de janelas.

Existem ainda aquelas que, silenciosamente, já cumpriram sua missão e podem finalmente deixar de ser barreiras.

Porque amadurecer passa por isso: não viver sem muralhas, mas aprender quando abrir os portões.

As pedras permanecem. A história permanece. Mas nós mudamos.

Uma fortaleza que um dia significou apenas proteção pode, com o tempo, transformar-se em memória, aprendizado e liberdade.

E, refletindo, talvez a verdadeira segurança não esteja em viver cercado por muros intransponíveis, mas em saber que podemos atravessá-los quando chegar a hora de seguir adiante.

Agora me responda com sinceridade:

Que muralha você construiu para se proteger no passado e que, hoje, talvez esteja impedindo você de viver algo novo?

Escreva aqui abaixo que volto já para ler?

1 comentário em “Fortificações”

  1. Que reflexão interessante, querida.
    É sempre uma questão de equilíbrio da balança. Entre a proteção e a prisão existe a vida que escolhemos ter.
    Uma muralha psíquica pode representar um mecanismo de defesa para nossa sobrevivência.
    Acredito que a saúde mental esteja na transformação dos muros em portas que se abrem ou fecham quando necessário.
    Amei, como sempre.

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