
Os favoritos nem sempre vencem: uma lição de vida em Monza
Nesse último domingo vivi uma experiência que certamente ficará guardada entre aquelas lembranças que revisitamos de vez em quando. Não apenas pelo que aconteceu, mas principalmente pelo que me fez pensar.
Fui assistir, pela primeira vez, a uma corrida de Fórmula 1 em Monza, durante o Grande Prêmio da Itália. Confesso que fui praticamente às cegas. Não sabia exatamente o que encontraria e não imaginava que o espetáculo fosse muito além da própria corrida.
Antes mesmo de os carros entrarem na pista, Monza já estava em festa.
Houve voo de paraquedas com a bandeira italiana, a esquadrilha desenhou o tricolor nos céus e Laura Pausini, uma das maiores cantoras italianas, também fez parte daquele domingo especial.
Era impossível não se deixar envolver.
Os apaixonados pela Ferrari
Na estação que levava ao autódromo, a multidão já dava uma pequena amostra do que estava por vir.
Centenas de pessoas caminhavam vestidas de vermelho, muitas com a camiseta da Ferrari, a escuderia italiana que desperta uma paixão quase religiosa em seus torcedores.
São os famosos tifosi, palavra italiana usada para designar os torcedores apaixonados.
Ali percebi que Fórmula 1 não é apenas automobilismo. Para muitos, é identidade e tradição. É pertencimento.
Os pilotos da Ferrari naquele momento eram Charles Leclerc, de Mônaco, e Lewis Hamilton, inglês. Durante a volta de apresentação, quando Leclerc passou diante das arquibancadas, o autódromo simplesmente explodiu: gritos, aplausos, bandeiras, celulares erguidos e uma energia difícil de explicar.
Leclerc era, claramente, um dos grandes favoritos daquele público, mas havia também um jovem italiano na pista.
O italiano que não era o favorito
Andrea Kimi Antonelli, nascido em Bolonha, competia pela Mercedes e por ser italiano, imaginei que receberia uma demonstração de carinho semelhante àquela oferecida a Leclerc. Porém, não foi o que aconteceu e aquilo me chamou a atenção.
Pensei imediatamente nos tempos áureos de Ayrton Senna. Nós, brasileiros, torcíamos por ele independentemente da equipe em que estivesse. Senna era brasileiro e, para nós, isso já parecia suficiente para transformar cada corrida em uma questão de coração.
Mas cada povo tem sua maneira de torcer e cada pessoa escolhe seus favoritos. Foi então que a corrida começou.
Quando o favorito sai da pista
Logo nas primeiras voltas, aconteceu o inesperado. Charles Leclerc, um dos grandes ídolos dos tifosi, perdeu o controle do carro e saiu da pista. A corrida foi interrompida pela bandeira vermelha.
Nas arquibancadas, a euforia deu lugar à apreensão. A tristeza era visível no rosto de muitos torcedores. O favorito havia ficado para trás.
Depois de aproximadamente meia hora, a prova foi retomada e foi nesse momento que a história começou a mudar.
De 19º lugar ao primeiro lugar
Kimi Antonelli havia largado em 19º lugar. Se alguém dissesse naquele momento que aquele jovem italiano terminaria no lugar mais alto do pódio, provavelmente seria difícil acreditar.
Mas uma corrida de Fórmula 1 tem uma característica que também encontramos na vida: a posição de largada não determina necessariamente o lugar de chegada.
Antonelli começou a avançar: uma posição. Depois outra e mais uma.
Ao longo da prova, o jovem piloto fez uma recuperação impressionante, superando adversários até chegar à disputa pela vitória.
Nas voltas finais, conseguiu ultrapassar o próprio companheiro de equipe, George Russell.
E venceu.
Kimi Antonelli, italiano de apenas 20 anos, conquistou uma vitória histórica em Monza e devolveu à Itália um triunfo no Grande Prêmio da casa depois de 60 anos.
O último italiano a vencer em Monza havia sido Ludovico Scarfiotti, em 1966. De repente, aquele jovem que não parecia ser o favorito das arquibancadas havia se transformado no dono da festa.
Quando o reconhecimento chega depois da vitória
O que aconteceu depois foi ainda mais bonito. Aquele público que, horas antes, parecia ter escolhido outros favoritos, agora estava completamente rendido ao jovem de Bolonha.
O autódromo virou uma festa e os italianos celebraram Kimi.
As redes sociais passaram a exaltá-lo e começaram até as comparações com grandes nomes do automobilismo, como o nosso querido Airton Senna.
Tudo havia mudado.
E eu fiquei pensando em como a vida pode ser parecida com uma corrida de Fórmula 1.
Quantas vezes começamos alguma coisa acreditando que precisamos ser os favoritos para vencer?
Quantas vezes esperamos o incentivo daqueles que estão mais próximos e imaginamos que família, amigos ou pessoas que amamos deveriam reconhecer nosso potencial antes de qualquer outra pessoa?
E como dói quando esse reconhecimento não vem.
Nem sempre teremos torcida na primeira fila
A história de Kimi Antonelli me fez pensar que não precisamos ser os favoritos para vencer – Podemos começar atrás, podemos não ser os escolhidos e não receber os aplausos que esperávamos.
Podemos até descobrir que aqueles que imaginávamos estar na primeira fila simplesmente não estavam, mas nada disso precisa determinar o nosso destino.
A Fórmula 1 é um esporte em que milésimos de segundo podem separar o vencedor de quem fica fora do pódio. Tudo é calculado: velocidade, pneus, combustível, estratégia, temperatura e tempo de reação.
Mas existe algo que nenhuma máquina consegue medir com precisão: a capacidade humana de continuar acreditando quando as circunstâncias dizem para parar.
Kimi largou em 19º e chegou ao primeiro lugar.
Mais do que isso, não permitiu que sua posição inicial definisse onde deveria terminar.
E essa talvez seja uma das grandes lições que podemos levar daquela pista para a nossa própria vida.
A vida também tem suas ultrapassagens
Não ser escolhido não significa não ter valor.
Não receber aplausos no começo não significa que não mereçamos ser aplaudidos no final e não ter torcida quando estamos lá atrás não significa que devemos abandonar a corrida.
Algumas pessoas caminham conosco desde a largada. Outras só aparecem quando chegamos ao pódio.
Há ainda aquelas que só percebem o nosso valor depois que vencemos. Não é necessariamente bonito, mas faz parte da vida.
O importante é não transformar a ausência de aplausos em motivo para desistir.
Lembremos sempre que precisamos continuar. Uma volta de cada vez. Uma ultrapassagem de cada vez. Um obstáculo de cada vez.
Quando finalmente chegam os aplausos
Depois da vitória, Kimi recebeu o abraço do seu povo.
Aquele jovem italiano que não havia sido o favorito no início do domingo agora era celebrado por todos.
Foi impossível não pensar em quantas vezes fazemos justamente o caminho contrário.
Esperamos primeiro o reconhecimento para depois acreditarmos em nós mesmos.
Talvez seja preciso inverter essa ordem.
Primeiro, acreditar. Depois, continuar. Em seguida, enfrentar os obstáculos.
E, quando a bandeirada finalmente chegar, quem estiver ao nosso lado para comemorar será muito bem-vindo.
Uma taça que virou prato de macarrão
Na saída do autódromo, ainda levava comigo a sensação de ter testemunhado algo especial.
Mas houve uma imagem de Kimi que me fez sorrir.
Depois de receber o troféu, ele brincou transformando a taça em um prato para comer sua massa com molho, como um bom italiano.
Achei perfeito.
Depois de tanta velocidade, estratégia, pressão e tensão, o campeão simplesmente sentou e comeu seu macarrão.
Talvez exista uma bela sabedoria nisso.
Correr quando é preciso.
Resistir quando parece impossível.
Aceitar que nem sempre seremos os favoritos.
E, quando finalmente chegarmos ao nosso lugar, lembrar de saborear a vitória.
Os favoritos nem sempre vencem
Saí de Monza pensando que a vida não é muito diferente de uma corrida de Fórmula 1.
Há quem largue na frente, há quem tenha uma equipe inteira acreditando em seu potencial e há quem seja o favorito das arquibancadas.
Há ainda quem precise começar muito mais atrás, mas ninguém sabe exatamente o que acontecerá até a bandeirada final.
Por isso, quando a vida colocar você na última fila, não tenha tanta pressa em acreditar que perdeu.
A corrida ainda está acontecendo e talvez você só precise encontrar coragem para acelerar um pouco mais.
Lembrem-se: os favoritos nem sempre vencem. E quem não foi escolhido também pode chegar ao pódio.
E você?
Quantas vezes já pensou em desistir porque acreditou que estava muito atrás dos outros? Será que não estamos, algumas vezes, confundindo a posição de largada com o nosso verdadeiro potencial de chegada?