
O vaso quebrado: quando é preciso deixar algumas coisas para trás
Esses últimos dias em casa foram de muita praticidade. Organizei tudo o que precisava dentro do tempo que tinha e, inclusive, chamei o encanador.
Meu marido vinha fazendo corpo mole para resolver um problema no mecanismo da descarga, que já gritava mais do que uma hiena. Finalmente, o problema foi resolvido.
Com a nova estação chegando, comecei também a trocar alguns arranjos da casa. Foi então que, mais uma vez, deparei-me imóvel, encarando um vaso de porcelana nas mãos.
E aquele vaso me fez pensar.
A história de um vaso de porcelana
Gosto muito de coisas de antiquário. Claro, dentro daquilo que posso comprar e, principalmente, carregar comigo.
Em Miami, há alguns antiquários e, de vez em quando, gosto de visitá-los. A cidade é um verdadeiro encontro de culturas. Vivemos cercados por pessoas vindas de diferentes partes do mundo e, por isso, é possível encontrar objetos, histórias e pequenas preciosidades nas feiras e lojas de antiguidades.
Foi em uma dessas visitas que encontrei aquele delicado vaso de porcelana Lenox, uma marca americana.
Era todo pintado à mão, com número de série e bordas fenestradas. Imagino o trabalho necessário para produzir uma peça tão delicada.
Não combinava muito com a decoração do apartamento, que é predominantemente bege, mas gostei dele e comprei.
O dia em que o vaso quebrou
Há aproximadamente cinco anos, durante uma temporada de furacões, estávamos prestes a viajar. Como costumamos fazer nesses períodos, colocamos os móveis da varanda para dentro do apartamento.
Ao abrir a porta-janela, uma forte ventania entrou de repente e derrubou o vaso que estava sobre a mesa.
As flores amorteceram a queda, mas um pequeno pedaço da borda se quebrou e eu tentei consertá-lo.
O problema é que a borda era fenestrada e se desfez em pequenos pedaços. Não consegui reconstruí-la de maneira que ficasse “quase igual” ao original.
Ainda era perfeitamente possível usar o vaso. Afinal, havia sido apenas uma pequena parte da borda. As próprias folhagens das flores ajudavam a esconder o defeito.
Mudei-o então para um aparador encostado na parede e posicionei a falha justamente no lado que ficava escondido. Assim, ninguém saberia que ela existia. Apenas eu.
Uma imperfeição que só eu enxergava
Não posso dizer que fiquei feliz por esconder o defeito. Aquilo me deixava desconfortável.
Ao mesmo tempo, parecia exagero me desfazer de um vaso inteiro por causa de uma pequena imperfeição. E assim os anos foram passando.
Troquei as rosas. Troquei os outros objetos decorativos que ficavam ao redor. Mudei a composição do aparador algumas vezes. Ninguém percebia nada, mas eu sabia.
Sempre que arrumava aquele espaço, meus olhos procuravam a pequena falha. Era quase insignificante para qualquer outra pessoa, mas, para mim, estava ali.
Cinco anos se passaram e eu não me acostumei com ela.
Talvez porque algumas imperfeições não incomodem pelo tamanho que têm, mas pelo significado que carregam.
Quando esconder já não basta
O outono estava chegando, e fui comprar flores novas. Queria aquelas cores que combinam com a estação: amarelos, laranjas e tons terrosos.
Ao voltar para casa, fui trocar as flores daquele delicado vaso. Segurei-o nas mãos e olhei novamente para a pequena falha. Lentamente, passei os dedos sobre ela, como se visse uma própria cicatriz. Era tão pequena… Mas me incomodava tanto.
Foi então que tomei uma decisão. Joguei o vaso no chão. Despedacei-o. Por alguns segundos, talvez eu mesma tenha ficado surpresa com o que havia feito. Depois, senti uma enorme sensação de alívio.
Saí depois com uma vassoura catando os cacos, mas muito satisfeita. O vaso já não existia, mas aquela pequena falha também não. Eu não precisaria mais esconder o defeito ou me sentir desconfortável.
Algumas coisas não precisam ser consertadas
O curioso é que eu poderia ter continuado com aquele vaso por muitos outros anos. Poderia ter escondido a falha atrás das flores, ter tentado mais uma vez consertá-lo. Ou, quem sabe, ter simplesmente aprendido a conviver com ele, mas percebi que não queria mais. Não me faria falta.
Comprarei outro vaso ou simplesmente deixarei o aparador sem nada.
O que importa é que aquela pequena falha, que somente eu conhecia, não me incomodaria mais. E talvez seja justamente aí que esteja a grande reflexão.
Quantas vezes fazemos isso com a nossa própria vida?
Tentamos consertar pessoas, relações, projetos, sonhos e situações que já não têm a mesma forma de antes. Assim, vamos escondemos as rachaduras, colocamos flores sobre elas. Mudamos os objetos de lugar. Fingimos que ninguém percebe (o que de fato, acontece), mas nós sabemos.
O que você está carregando há tempo demais?
Talvez existam vasos quebrados dentro de cada um de nós. Podem ser amizades que perderam o sentido, relacionamentos que deixaram de florescer, projetos que insistimos em terminar, lugares onde já não cabemos ou até versões de nós mesmos que precisamos deixar para trás.
Nem tudo precisa ser recuperado. Nem tudo precisa voltar a ser como era. Evidentemente que há coisas que merecem uma segunda chance. Outras, porém, precisam apenas de um último olhar, um agradecimento pelo que foram e a coragem de deixá-las ir.
Às vezes, libertar-se não significa perder e sim, parar de gastar energia tentando esconder uma rachadura que já ocupa espaço demais dentro de nós.
Naquele dia, não joguei apenas um vaso quebrado no chão. Talvez eu tenha espatifado uma pequena obrigação de continuar carregando aquilo que já não me fazia bem.
E, depois de cinco anos, finalmente descobri que algumas coisas não precisam ou não devem ser consertadas.
Precisam ser deixadas para trás.
E você, querido leitor?
Por acaso existe um “vaso quebrado” na sua casa?
Algo que você já tentou consertar, esconder ou simplesmente ignorar, mas cuja pequena falha continua ocupando um espaço enorme dentro de você?
Pode ser um amigo, um companheiro, um colega, um projeto inacabado, uma relação ou até um sonho.
Você acha que é possível aprender a conviver com algumas rachaduras ou, às vezes, está na hora de simplesmente espatifá-las e seguir em frente?
Escreva nos comentários que volto já para ler e responder.
Beijos, de sua cronista.
Muito interessante, querida.
Na vida vamos ganhando algumas cicatrizes que, de certa forma, contam nossa história.
Algumas bem escondidas, outras bem expostas.
Algumas param de doer rapidamente, outras são difíceis de estancar o sangue.
As mais complexas são aquelas que insistem em reabrir e aí precisamos de apoio para o curativo.
São marcas da vida, sinais que vivemos mais ou menos intensamente.
A metáfora do vaso quebrado me remeteu aqueles sentimentos que nos corroem e que, por mais que doa, é melhor sofrer tudo de uma vez do que aos pouquinhos.
Ficamos, literalmente, aos pedaços, e se não temos mais como juntar os caquinhos, podemos jogar fora e construir um novo vaso para as flores que virão.
Embora aquele vaso quebrado nunca deixe de fazer parte da nossa história, já não incomoda mais.
E assim seguimos em frente.
Sua crônica foi uma viagem interna. Amei.
Essa crônica me fez refletir muito. Às vezes, passamos anos tentando esconder rachaduras e consertar pessoas, relações ou situações que já não nos fazem bem. Deixar para trás não apaga a história nem significa ingratidão; significa escolher a própria paz e abrir espaço para o novo. Algumas marcas podem ser acolhidas, mas outras precisam apenas de um último olhar e da coragem de seguir em frente. Linda e necessária reflexão! 👏❤️