Eu Estou Aqui

Eu estou aqui: um reencontro com quem fomos e com quem ainda somos

O último dia de cruzeiro em Victoria, no Canadá

No último dia do nosso cruzeiro pelo Alasca, paramos em Victoria, no Canadá, uma cidade charmosa e muito bonita, que fica relativamente próxima de Seattle e costuma ser a última parada dos cruzeiros que partem de lá em direção ao Alasca.

Victoria recebeu esse nome em homenagem à Rainha Victoria, da Inglaterra, e ainda preserva uma forte herança cultural e arquitetônica britânica.

Por suas ruas, jardins e construções, é possível perceber essa influência em muitos detalhes. Até hoje, o tradicional chá da tarde é servido no hotel Fairmont, ainda com o mesmo serviço de louça utilizado durante a visita da realeza britânica à cidade.

Mas Victoria não vive apenas de sua história.

Há pequenas lojas para conhecer, uma bela baía onde podemos nos sentar em um banco e observar os barcos, jardins espalhados pela cidade, passeios de bicicleta e excursões marítimas para observar baleias, de acordo com a temporada de cada espécie.

A cidade também é cheia de esculturas. Algumas celebram personagens importantes de sua história e cultura. Outras parecem conversar diretamente com quem passa por elas.

Foi justamente uma delas que ficou comigo.

A escultura que me fez parar

Entre tantas obras espalhadas pela cidade, uma chamou especialmente a minha atenção: “As Mãos do Tempo”, uma escultura em bronze que representa uma mão segurando um espelho.

Nele, uma frase curta:

“Eu estou aqui.”

A obra foi criada em comemoração ao aniversário de 150 anos da cidade de Victoria. Segundo a proposta da escultura, o espelho voltado para o porto interior nos lembra que o presente é resultado de tudo aquilo que veio antes de nós e também de tudo o que ainda está por vir.

Achei essa ideia linda.

Porque, quando pensamos no que veio antes, inevitavelmente pensamos em nossas histórias.

Pensamos em nossas mães, avós, pais, ancestrais. Em tudo aquilo que enfrentaram, venceram, perderam e construíram para que pudéssemos estar aqui hoje.

Pensamos também nas pessoas que lutaram por direitos, abriram caminhos, encurtaram distâncias e transformaram o mundo, muitas vezes sem sequer imaginar quem seriam as pessoas beneficiadas por suas escolhas no futuro.

Eu pensei em tudo isso ali, diante daquela escultura, em Victoria.

E voltei a pensar enquanto escrevia esta crônica, já sentada à minha mesa em Miami.

O presente é feito de muitos passados

Existe algo profundamente bonito na ideia de que não chegamos sozinhos ao lugar onde estamos, pois somos feitos de junções de histórias que começaram antes de nós.

Carregamos gestos, ensinamentos, medos, coragem, sonhos e até algumas batalhas que não foram propriamente nossas, mas que ajudaram a construir quem somos. Ao mesmo tempo, existe aquilo que ainda está por vir.

A vida continua nos empurrando para a frente. Fazemos planos, mudamos, aprendemos, recomeçamos. Tentamos melhorar, experimentar coisas novas, vencer desafios e descobrir quem podemos ser daqui para frente. Estamos sempre entre dois lugares: o que fomos e o que ainda podemos ser.

Talvez seja justamente nesse intervalo que mora o presente.

“Eu estou aqui”

Essa frase falou comigo de uma maneira ainda mais pessoal ao me encarar diante de um espelho, da própria escultura.

Ao olhar para aquela imagem e ler aquelas palavras, tive a sensação de que alguém estava falando comigo. Só que não era exatamente a mulher que eu sou hoje.

Era como se uma versão antiga de mim tivesse atravessado o tempo para me lembrar que ainda estava ali.

A velocidade da vida nos traz muitas coisas bonitas, mas também leva algumas de nossas versões pelo caminho.

Vamos crescendo, amadurecendo, assumindo responsabilidades, mudando hábitos, aprendendo a controlar impulsos e, muitas vezes, deixando para trás partes de nós que um dia foram muito presentes.

Foi então que me lembrei da criança que eu fui: a menina que pegava borboletas pelas asas, colhia as flores que nasciam depois da chuva e gostava de andar descalça. E talvez aquela lembrança tenha sido um chamado, pois saí dali e fui diretamente para um lindo gramado em frente ao Parlamento. Tirei os sapatos e caminhei descalça.

Meu marido me observava com curiosidade, mas eu apenas precisava fazer aquilo. Precisava, por alguns minutos, deixar a adulta de lado e permitir que aquela menina dissesse: “eu ainda estou aqui.”

Quantas versões de nós moram dentro de nós?

Talvez tenhamos esquecido, mas somos feitos de muitas camadas.

Dentro de cada um de nós vivem diferentes versões que apareceram em momentos distintos da vida e que, de alguma maneira, continuam existindo.

Existe a criança que olha o mundo com pureza, a adolescente ousada que enfrentava tudo, a jovem que sabia oferecer uma palavra amiga. Aquela que tinha uma ideia maluca e não pensava duas vezes antes de tentar, a que fazia mesmo com medo, a que gostava de desafios… A que acreditava que quase tudo era possível. Enfim, algumas dessas versões ficam escondidas por anos. Não desaparecem. Apenas esperam.

E talvez seja reconfortante saber que, quando precisarmos de uma delas novamente, ela poderá estar lá.

Aquela coragem que tivemos um dia não morreu. Aquela criatividade não desapareceu. Aquela capacidade de sonhar continua dentro de nós. Às vezes, só precisamos nos lembrar de onde guardamos tudo isso.

Você pode se perder de muita gente, menos de você

Voltei daquele passeio com uma sensação estranha e bonita.

Victoria continuava ali: seus jardins, suas construções, seu porto, suas esculturas e seu movimento tranquilo.

Mas eu havia levado comigo alguma coisa que não estava na cidade.

Um lembrete.

A vida pode nos transformar, mas não precisa nos apagar.

Podemos amadurecer sem abandonar nossa espontaneidade.

Podemos nos tornar responsáveis sem perder a capacidade de brincar.

Podemos aprender a ter medo sem deixar de fazer aquilo que desejamos.

Podemos mudar sem esquecer quem fomos.

E, principalmente, podemos nos perder por algum tempo de tantas pessoas, lugares, sonhos e caminhos…

Mas não podemos nos perder de nós mesmos.

Se um dia isso acontecer, procure um espelho.

Olhe para dentro dos próprios olhos.

E diga, com calma:

“Eu estou aqui.”

Talvez, nesse instante, você reencontre a sua melhor versão.

Ou, quem sabe, descubra que ela nunca foi embora.

E você?

Qual versão de você mesmo ficou pelo caminho e que talvez esteja esperando ser reencontrada?

Conte-me nos comentários. Volto já para responder.

Beijos da cronista.

1 comentário em “Eu Estou Aqui”

  1. É mesmo,tudo muda,as vezes para melhorar o que já somos,com alguns limites,por que, não dá mais para enfrentar,ou fazer coisas que fizemos no passado, bate o medo,a encegurança de não dá certo,mas assim mesmo seguimos enfrente e estamos aqui,com as tecnologias, que não sabemos mexer ou usar,mas estamos aqui.

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