Os Trapiches da Vida

Os trapiches, os acessos que construímos na vida.

Uma reflexão sobre os caminhos que criamos para alcançar sonhos, pessoas e novos horizontes

Neste fim de semana, fui convidada por uma amiga muito querida para visitar seu chalé em Pirangi, uma famosa praia localizada nos arredores de Natal. Ela, que tem o dom da hospitalidade, reuniu outras amigas e, juntas, passamos uma tarde maravilhosa celebrando a vida e compartilhando histórias.

Ao final da tarde, fomos caminhar pela orla e me deparei com um intrigante trapiche. Lembrei-me imediatamente do escritor Jorge Amado, que gostava de colocar seus personagens do romance Capitães da Areia adormecendo sob o velho trapiche.

Fiquei alvoroçada para subir e explorar algo que antes existia apenas nas páginas que li. Então fomos todas ver o mar e a orla por outro ângulo.

O trapiche como acesso

Em sua composição e função, os trapiches são atracadouros de madeira que servem para o embarque e desembarque de pessoas. São estruturas simples que permitem chegar aos barcos e avançar um pouco mais sobre o mar.

Em outras palavras, o trapiche é um acesso.

Aquele trapiche, em especial, era feito de tábuas irregulares: algumas maiores, outras menores. Percebia-se também a necessidade constante de fortalecer suas bases, corroídas pela força do mar, pela maresia, pelas cracas e pelo tempo. Caso contrário, sempre existiria o risco de que, em algum momento, parte dele cedesse. Algo que também acontece em nossa vida, com as bases que nos norteiam ou que construímos ao longo do tempo. Há sempre a necessidade de uma revisão, de um reforço para que tudo não desmorone, pois, sabemos, o tempo nada perdoa.

O trapiche também servia à pesca. Vimos algumas pessoas ali, com suas linhas lançadas ao mar, aproveitando o fato de que ele avançava sobre as águas.

Os trapiches que construímos na vida

Foi então que comecei a pensar em tudo o que fazemos para criar acessos na vida: acessos às pessoas, aos lugares e aos sonhos.

Quantos trapiches construímos ao longo do caminho, mesmo que imperfeitos, mas necessários.

Aquelas tábuas irregulares falaram comigo. Nem sempre tudo precisa estar perfeitamente alinhado; às vezes, basta cumprir sua função e nos levar um pouco mais adiante.

Há sonhos que não podem ser alcançados da margem. Para eles, precisamos construir trapiches — pequenos avanços de coragem sobre o desconhecido.

Pequenas estruturas que nos levam mais longe

Ao longo da vida, cada um de nós vai erguendo os seus: trapiches de estudo, de trabalho, de persistência, de afeto. Estruturas simples que avançam alguns metros além da segurança da terra firme, apenas o suficiente para nos aproximar do que buscamos.

E talvez a beleza esteja justamente nisso. Nenhum trapiche atravessa o oceano inteiro — ele apenas avança um pouco sobre as águas, oferecendo um ponto de partida, um lugar onde nossos passos podem ganhar coragem.

Às vezes também paramos neles. Olhamos o horizonte, respiramos fundo, pensamos no caminho já percorrido e naquele que ainda virá.

Porque viver é isso: construir acessos. Nem sempre perfeitos, nem sempre sólidos como gostaríamos, mas suficientes para nos levar adiante. E isso é o que realmente importa.

O trapiche de Pirangi me trouxe a seguinte reflexão: que no fim das contas, talvez seja assim que seguimos pela vida: tábua por tábua, construindo nossos próprios trapiches sobre o mar do desconhecido.

E você, quais trapiches tem construído para alcançar o que deseja ou ainda permanece à margem, esperando o momento certo de começar?

Beijos da cronista.

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