Uma tarde de domingo
Era uma tarde de domingo, quando a fúria estremeceu o meu corpo. Estávamos eu, meu marido e minha filha numa padaria à espera do nosso lanche, quando chegou a garçonete. Ao deixar o nosso pedido sobre a mesa, ela se dirigiu à pequena e iniciou um monólogo infantilizado, na tentativa de arrancar-lhe um sorriso (prática testemunhada comumente por pais de crianças).
Carrancuda, a nossa bebê, que tem a quem puxar, insinuou um choro. Era um comunicado: “não estou a fim”. Mas, em vez de pedir licença e sair, a garçonete seguiu a se aproximar de Mel, começando por tocar o seu joelho, a sua mão e, por fim, o seu lábio inferior, movimentando-o para frente e para trás, a fim de escancarar os dois dentinhos que despontavam em sua gengiva.
Observando a cena, era como se eu estivesse em outra dimensão, voltando à realidade ao ouvir a frase que ela proferia com entusiasmo “estão saindo os dentinhos!”. E, puxando o carrinho, para afastar a pequena daquela estranha, repeti secamente “sim, estão nascendo os dentinhos”.
Eu sentia raiva. De mim mesma. Sentia como se eu não tivesse protegido a minha filha. A cena se repetia em minha mente: de uma intrusão, de uma violação, de uma intimidade sem consentimento, de uma possível contaminação patológica…
Outra tarde de domingo
Oito meses depois, aqui estou eu novamente, revisitando uma cena horrenda. Não mais aquela da garçonete, uma outra, uma nova. E sentindo ainda mais culpa.
Era domingo, quase meio dia. Minha filha já poderia estar almoçando, segura, em sua cadeirinha de refeições. Bom, pensando bem, talvez, ela não seja tão segura assim… Mas o que importa é que Mel não estava lá embaixo, na sala de jantar, em vez disso, estava lá em cima. E não bastasse estar no segundo piso da casa, estava num ponto ainda mais alto: na minha cama. Ah, a cama… Aquele lugar que lidera os índices de quedas de bebês, que os pediatras quase suplicam para não colocarmos os nossos bebês e onde, invariavelmente, eles acabam indo parar.
Antes de coloca-la na cama, pensei em deixa-la no chão de seu quarto, enquanto eu dobrava as roupas lavadas. Mas eu já tinha passado a manhã inteira ausente, achei que era justo que ela estivesse perto de mim naqueles momentinhos pré-soneca. Pensei, então, em coloca-la no chão, ao meu lado, sobre um tapete. Mas também pensei que ela jamais ficaria sobre o tapete parada e que acabaria se movimentando no chão sujo e frio e que talvez pegasse um resfriado.
“Ah, são só uns minutinhos e eu vou ficar de olho nela”, foi o que pensei. E o que, de fato, fiz. Não tirei os olhos da pequena. Mas eu estava tão absorta em meus pensamentos – inclusive, sobre se ela cairia da cama -, que não me dei conta que já estava ao lado do “precipício”. Era como se eu estivesse em outra dimensão, em que a cama, inclusive, parecia muito mais alta do que realmente é, e em que eu imaginava as fraturas mais absurdas em sua cabeça.
Merda, merda, merda
Caio em mim ao vê-la se jogando para trás. Só dá tempo de gritar um NÃÃÃÃÃÃÃÃOOO – que, até hoje, não sei se foi só na minha cabeça – e de iniciar o meu deslocamento. É quando ela cai. Meu arrependimento de tê-la deixado em cima da cama é tão grande, que a queda parece acontecer em câmera lenta, enquanto a adrenalina se espalha pelo meu corpo e eu corro até ela, na esperança de conseguir segura-la. Eu a vejo de cabeça para baixo, o corpo torto, caindo sobre a cabeça… Seu corpo mal termina de tocar o chão e eu a pego! Mas já é tarde demais, a gravidade foi muito mais rápida.
Minha filha chora inconsolavelmente. Merda, merda, merda, era o que vinha à minha mente. Ouço o meu marido gritar “ela caiu?!”. Eu digo que sim. Lá vem ele subindo as escadas correndo. “O que aconteceu?!”. Eu explico, querendo chorar. Mas é ele quem começa a chorar! Merda, merda, merda, minha mente se inunda em merda.
Calma!
Não sei como, meu lado racional fala mais alto. Talvez, por ver todo mundo chorando. Alguém precisa fazer alguma coisa! Peço para o meu marido me ajudar: “precisamos nos acalmar para entender se ela tem dor e onde tem dor”. Ele concorda e engole o choro. Conseguimos entretê-la por alguns minutinhos, mas logo ela volta a chorar. Enquanto isso, eu procuro por ferimentos em toda a sua caixa craniana. Passo gelo por toda ela. Até que meu marido diz “está vermelho na testa, foi ali que bateu”. Eu imediatamente penso “não é possível que tenha sido só isso…”.
Tentamos dar o almoço. Ela come algumas colheradas e começa a chorar de novo. Merda, merda, merda, com aquele choro, o protocolo é leva-la ao hospital. E ficar esperando duas horas para sermos atendidos! Bom, foi o que aconteceu da última que a levamos ao hospital. Mas, pior que isso, se ela ainda está chorando, significa algo maior… será que é algo dentro da sua cabeça, que nós não conseguimos ver?! Hemorragia, sei lá?! Já devíamos tê-la levado ao hospital? Será que ainda temos tempo hábil para salva-la?! Merda, merda, merda!
Quando saio de meus pensamentos, percebo que ela está dormindo no meu colo. Opa… será que ela chorava porque tinha sono? Ufa… Mas, calma, seguimos a observando. Deito no sofá com ela sobre mim e ligo a TV para tentar sair dos pensamentos ruins. UNABOMBER é o nome do filme. Que baita bomba que criei colocando-a na cama..!
O bendito hospital
Ela acorda. Está sorrindo! Opa, está de bom humor, parece um bom sinal. Começo a testar a sua visão e a sua memória. So far, so good. Mas, ao tentar se levantar, ela chora. Ah, não, de novo, não! Ela aceita comer, está com fome. Come todo o almoço. Ótimo. Mas, quando vai brincar, ela chora. Meu marido percebe que ela não consegue segurar a bola com a mão esquerda e quando tenta se levantar, ela desaba. E chora. Opa, parece que o problema não é na cabeça. Ou, talvez, não seja só na cabeça… Mas precisamos ir ao hospital de qualquer forma. Merda, merda, merda!
O hospital, por um milagre divino, está praticamente vazio. E Mel é classificada como urgência. Entramos para ver a pediatra de plantão e ela chora inconsolavelmente. A médica mal a toca, já receita remédio para dor e exame de raio-x. Como assim?! Ela sequer avaliou a cabeça, eu penso. Lá vem a enfermeira enfiando um líquido amarelo goela abaixo na minha filha. Mel imediatamente chama o “hugo”, vomita todo o almoço e chora sem parar. É um pesadelo.
Sonhando acordada…
Cada novo acontecimento é um trauma para a pequena. Uma agulha que enfiam em sua perna com o remédio que ela previamente colocou pra fora, um raio-x que demora pra sair, segurando aquele miúdo braço numa posição desconfortável, um encaminhamento para outro hospital, uma colocação de tala engessada, chegar em casa e não poder usar o bracinho que ela mais usava. Tudo isso de barriga vazia, pois o almoço ficou lá, no chão do primeiro hospital, e já tinha passado da hora de sua janta.
De madrugada, o pesadelo continua. Mas estamos acordados. Todos acordados: Mel não consegue encontrar uma posição pra dormir, meu marido, como todo neurótico obsessivo, segue preocupado, preso em sua cadeia de pensamentos a partir do acidente, e eu não consigo parar de me culpar, nem pensar se a cabeça da minha filha de fato passou ilesa.
Culpa
Eu sentia raiva. De mim mesma. Sentia como se eu não tivesse protegido a minha filha. A cena se repetia em minha mente: de uma irresponsabilidade, de uma incongruência com os meus próprios valores, de uma possível sequela, das tantas possibilidades de algo mais grave que poderia ter acontecido…
Só de pensar em aparecer com a pequena em público, me dava uma angústia. Porque o braço engessado escancarava uma falha minha. Mesmo que a minha filha estivesse se desenvolvendo muito bem, mesmo depois de receber os parabéns da pediatra em nossa última consulta. Parecia que tudo o mais se anulava com aquela queda.
Quando vinham perguntar “o que aconteceu?!”, minha expressão já antecipava o desapontamento que talvez o outro viesse a ter: “ai, gente, caiu da cama…”. Não sei se a “narrativa estratégica” funcionava a meu favor, mas, no fim das contas, não me senti julgada em nenhum momento. Apenas por mim mesma. Parecia até que todos já tinham tido a sua própria experiência com a tal da cama.
Fico a pensar quantas vezes ainda vou passar por isso. Parece-me só o começo. Afinal, a vida é isso: luto e reparação, num ciclo sem fim. É perceber que nunca vamos dar conta de tudo, ou de muito, e se entregar a viver apesar disso. Uma mãe que sente que perde – e que, de fato, perde o chão -, que se culpa, que se arrepende, que se deprime, que se perdoa. E recomeça.
