O que um pueblo espanhol ensina sobre pertencimento organizacional
Estou passando 40 dias em um pequeno pueblo na Espanha. E, como psicóloga organizacional, tenho um defeito profissional: dificilmente consigo apenas observar. Eu analiso, comparo, faço conexões. Foi assim que percebi, sem esperar, quando a cultura deixa de ser discurso e passa a ser vivência real.
Um pueblo que respira no mesmo ritmo
Nestes últimos dias, começaram as festas de San Salvador. Durante quatro dias, a cidade inteira parece respirar no mesmo ritmo. Há música, procissões, refeições comunitárias, apresentações e atividades para crianças, jovens e idosos.
Cada detalhe demonstra que houve planejamento cuidadoso por trás de tudo. Contudo, o que mais me impressionou não foi a beleza da festa em si. Foi, sobretudo, a participação genuína de cada morador.
Quando a participação fala mais alto que o discurso
As pessoas não parecem estar ali porque alguém determinou sua presença. Elas estão porque se reconhecem, de fato, como parte daquela história coletiva. Existe um sentimento de pertencimento que dispensa grandes discursos motivacionais.
Portanto, foi impossível não pensar imediatamente nas organizações onde trabalho todos os dias. Muitas empresas investem tempo e recursos consideráveis para definir missão, visão e valores. Produzem apresentações impecáveis, espalham frases inspiradoras pelas paredes e publicam conteúdos sobre cultura organizacional.
Cultura não nasce de um documento
Todavia, cultura não nasce de um documento bem redigido ou de um mural bonito. Ela nasce, sobretudo, da repetição de comportamentos que fazem sentido para quem realmente os vive.
Neste pueblo, ninguém precisa lembrar diariamente da importância da tradição local. Ela está presente nas escolhas cotidianas, nos gestos simples, na dedicação de cada voluntário. Está no cuidado com as crianças, no respeito aos mais velhos e na alegria genuinamente compartilhada. A cultura, sobretudo, simplesmente acontece.

O espelho das organizações
Nas organizações, deveria acontecer exatamente da mesma forma. Uma equipe verdadeiramente engajada não depende apenas de metas bem definidas no papel. Ela precisa compreender, com clareza, por que faz o que faz.
Além disso, essa equipe precisa perceber que sua contribuição individual realmente tem valor. Precisa sentir que existe um propósito maior, que ultrapassa apenas o resultado do mês corrente. Quando isso acontece, o planejamento deixa de ser mera obrigação burocrática. O trabalho em equipe deixa de exigir esforço permanente, e a colaboração passa a surgir espontaneamente.
O aprendizado que fica
Talvez seja esse o grande aprendizado que levo desta viagem para casa. As culturas mais fortes não são, necessariamente, as maiores, as mais modernas ou as mais famosas.
São, sobretudo, aquelas capazes de fazer pessoas diferentes caminharem na mesma direção. São culturas que preservam aquilo que lhes dá identidade própria, construindo juntas algo que continuará existindo muito depois delas. Nas empresas, acontece exatamente o mesmo fenômeno.
Uma cultura vivida diariamente
Os processos organizacionais são importantes, sem dúvida alguma. A tecnologia é indispensável, e as estratégias precisam existir para orientar qualquer negócio. Contudo, nada disso substitui uma cultura verdadeiramente capaz de despertar pertencimento genuíno.
Porque, no fim, pessoas se comprometem muito mais com aquilo em que acreditam do que com aquilo que apenas lhes é cobrado. E talvez essa seja uma das maiores lições que um pequeno pueblo espanhol tem a oferecer às organizações modernas: resultados extraordinários são consequência de uma cultura vivida diariamente, não de um discurso bem elaborado.
Afinal, quando a cultura deixa de ser discurso, ela se torna aquilo que as pessoas realmente escolhem preservar, fortalecer e viver, juntas, todos os dias.
Sarita Cesana
Psicóloga CRP 17-0979
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