Os “Quases” da Vida

Os “quases” de nosso cotidiano

Se a gente parar para pensar, a vida é feita de quases.
Vivemos cercados deles, como se caminhássemos constantemente entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido.

Eu quase casei.
Eu quase morri.
Eu quase ganhei o prêmio.
Eu quase consegui.

E nesse “quase” mora uma infinidade de destinos interrompidos.

Às vezes foi escolha errada. Outras vezes, livramento. Em muitos casos, apenas medo.
Ninguém sabe ao certo.

Lembrei de uma vez em que meu marido comentou que quase foi a um show de Frank Sinatra. Não foi porque os amigos desistiram e ele não quis ir sozinho. Imagine quantas histórias começam ou terminam assim: por causa de uma companhia que faltou, de uma coragem que não veio, de uma decisão adiada.

Quando o medo decide por nós

Os quases da vida costumam nascer justamente nas esquinas do medo.

“Eu quase viajei, mas fiquei com medo de dar errado.”
“Eu quase abri um negócio.”
“Eu quase pedi demissão.”
“Eu quase disse que amava.”
“Eu quase fiz faculdade.”
“Eu quase fui feliz naquele lugar.”

Uma amiga me disse certa vez:
— Eu quase casei com um português, mas desisti.

Outro dia, ouvi alguém contar:
— Eu quase morri por causa de um peixe que comi.

Os quases podem carregar arrependimentos, mas também proteção. Há portas que não atravessamos e depois entendemos o motivo. Há aviões que perdemos e caminhos que não seguimos que talvez tenham nos poupado de dores maiores.

Os sonhos que ficam no quase

Mas existem também os quases dolorosos: aqueles que nascem do medo de tentar.

Muita gente vive na varanda da própria existência, observando a vida passar sem coragem de entrar nela de verdade. Quase escreve o livro. Quase muda de cidade. Quase começa uma nova história. Quase perdoa. Quase recomeça.

E o tempo, silencioso, vai colecionando oportunidades não vividas.

O medo tem essa capacidade cruel de nos convencer de que permanecer parados é mais seguro. Só que, muitas vezes, o maior risco da vida é justamente não viver.

As oportunidades raras da vida

As oportunidades são raras. São como figurinhas difíceis de álbum ou estrelas cadentes: aparecem sem avisar. E quando surgem, exigem coragem. Nem sempre estaremos totalmente preparados. Quase ninguém está.

Infelizmente, é exatamente nesse momento que aparecem os “quases”: o medo, a insegurança, a falta de preparo, a opinião dos outros, a dúvida sobre o futuro. Tudo isso impede muitas pessoas de deslancharem na vida.

Talvez o destino realmente trabalhe em linhas tortas. Talvez alguns quases sejam necessários para nos ensinar prudência. Mas acredito também que muitos deles existem apenas porque deixamos o medo decidir por nós.

E no fim da vida, talvez o que mais doa não sejam os erros cometidos, mas os sonhos que ficaram eternamente no quase.

E você? Qual foi o “quase” que mais marcou sua vida? Curiosa estou!

Beijos da cronista.

2 comentários em “Os “Quases” da Vida”

  1. Amei a relações construidas para os “quase” da vida.
    Realmente existe uma linha tênue entre ouvir a intuição que nos salvam de muitos “quase” catrastóficos e ser domidados pelo medo que nos faz nos arrepender de muitos “quase” felizes.
    Normalmente prefiro me arrepender do que fiz do que me arrepender do que não fiz. 😉
    Afinal, como disse o grande Guimarães Rosa no célebre livro “Grande Sertão: Veredas”:
    “O correr da vida embrulha tudo,
    a vida é assim: esquenta e esfria,
    aperta e daí afrouxa,
    sossega e depois desinquieta.
    O que ela quer da gente é coragem.”
    É isso. Coragem para termos menos “quases” nas vida.

    Responder

Deixe um comentário