Confiança – O Elo Frágil da Humanidade

Confiança – o frágil elo da humanidade

Neste fim de semana, o Brasil assistiu, incrédulo, à tragédia que tirou a vida da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas.

Eduarda tinha apenas 21 anos. Como tantos jovens, carregava sonhos, planos e uma vida inteira diante de si. Confiando, entregou-se a uma equipe de rope jump para experimentar a adrenalina de despencar de uma altura de quarenta metros.

Acostumada ao movimento e aos desafios do corpo, afinal era estudante e profissional da área de educação física e gestão esportiva, talvez enxergasse naquele salto apenas mais uma experiência intensa da juventude.

Mas não foi.

Por razões ainda investigadas, os equipamentos de segurança não estavam devidamente presos. E, em segundos, o que deveria ser diversão transformou-se em tragédia diante de milhões de olhos incapazes de acreditar no que viam.

A humanidade é construída sobre confiança

Ao longo da vida, somos ensinados a confiar.

Primeiro em nossos pais, familiares, cuidadores. Depois, nos amigos, professores, colegas, amores. Crescemos depositando nossa existência nas mãos de outras pessoas.

Confiamos em instituições, em bancos, na Justiça, nos governos. Confiamos em médicos, motoristas, pilotos de avião, eletricistas, bem como em quem prepara nossa comida nas ruas, nos restaurantes, em quem dirige o ônibus que pegamos diariamente, em quem constrói os prédios onde moramos.

Viver é, inevitavelmente, um exercício contínuo de confiança.

E talvez seja justamente por isso que as decepções humanas doam tanto. Porque, no fundo, ninguém consegue viver desconfiando de tudo o tempo inteiro.

O salto para o vazio

Eduarda também confiou.

Confiou na equipe responsável pelo salto, que alguém havia verificado os equipamentos, enfim, que voltaria ao chão em segurança.

E talvez, tomada pela adrenalina do momento, apenas tenha aberto os braços para o vazio sem imaginar que, ali, saltaria para os braços da morte.

Após a tragédia, os envolvidos tentaram fugir, mas foram capturados. Ainda assim, acredito que nenhum deles desejava ou previa esse desfecho.

Muitas vezes, vivendo no automático, cometemos erros capazes de mudar vidas para sempre.

Vivemos distraídos demais

Quem nunca esqueceu uma panela no fogo, saiu sem trancar a porta, deixou a janela aberta em dia de chuva ou percebeu tarde demais o ferro de passar ligado?

Pequenas falhas cotidianas que revelam algo inquietante: somos distraídos, cansados e sobrecarregados.

Especialistas falam constantemente sobre os efeitos do excesso de estímulos, da ansiedade, da privação de sono e da vida multitarefa sobre nossa atenção. Vivemos apressados, divididos entre telas, pensamentos e urgências.

E, aos poucos, passamos a acreditar que conseguimos controlar tudo.

Não conseguimos.

Somos humanos. E humanos falham.

Talvez, com mais presença, mais cuidado e menos automatismo, muitos erros pudessem ser evitados.

A responsabilidade que carregamos nas mãos

Eduarda confiou naqueles rapazes porque eles já haviam realizado outros saltos antes.

Os rapazes, talvez, tenham confiado demais em si mesmos e esquecido, ainda que por um instante, da responsabilidade que carregavam nas mãos.

Portanto, serão responsabilizados e carregarão para sempre a memória daquele dia, como uma lição inesquecível de vida.

Continuaremos confiando

E nós?

Continuaremos confiando e entregando nossas vidas, diariamente, a desconhecidos.

E por isso, continuaremos entrando em carros, aviões, hospitais, elevadores e restaurantes. Porque não existe humanidade sem confiança.

Talvez a única coisa que possamos fazer seja viver com mais atenção. Olhar melhor para o outro. Revisar mais uma vez.

Cuidar mais profundamente daquilo — e daqueles — que colocam a vida em nossas mãos.

E você?
Já parou para pensar quantas vezes, todos os dias, colocamos nossa vida nas mãos de outras pessoas sem sequer perceber? Em algum momento sofreu decepção? Compartilhe sua lição de vida conosco.

Beijos da cronista.

Posts Relacionados:

Compartilhar

2 comentários em “Confiança – O Elo Frágil da Humanidade”

  1. Esse foi mesmo um caso que beira ao inacreditável.
    Vivemos pela confiança, mas quase sempre é “um olho no peixe e outro no gato”. Uma confiança vigiada que nos consome e cansa bastante.
    Nos iludimos em relação ao controle, se algo sai do trilho, perdemos o rumo.
    O caso do equipamento de proteção foi trágico e muito marcante, mas vemos isso também em casos menos impactantes, como os jogos da Copa. Os resultados não mudam a vida (a não ser dos que estão no campo), mas também podem gerar uma quebra de confiança e uma desilusão inesplicável.
    As emoções humanas são assim, por mais racional que alguém diga ser, sempre haverá aquele ponto cego que não conseguimos acessar.
    Seguimos confiando por necessidade e desconfiando pelo mesmo motivo. 😉
    Somos seres complexos.

    Reply
  2. Mais uma crônica que nos leva a reflexão. A confiança, esse elo tão frágil, que muitas vezes damos a quem não merece.

    Reply

Deixe um comentário