As Gaivotas de Sunny Isles Beach

As crianças e as migalhas

Passamos nosso último fim de semana em casa, nos Estados Unidos, na pequena cidade de Sunny Isles Beach. Aos domingos, temos quase sempre o mesmo ritual: almoçamos no clube. O pedido raramente muda — salmão grelhado, uma porção de macaxeira frita, que eles chamam de yuca, e uma taça de Chardonnay. O garçom já conhece nossas escolhas antes mesmo de nos sentarmos.

Enquanto o almoço ficava pronto, saí para caminhar até a praia. O verão se aproxima e o sol já ensaia sua força. Como era domingo, muitos moradores aproveitavam o dia ao ar livre. Alguns recebiam seus pedidos diretamente nas espreguiçadeiras, sob os guarda-sóis, de frente para o mar.

As crianças faziam aquela algazarra típica de quem ainda não aprendeu a ter pressa. Algumas jogavam pedaços de batata frita para as gaivotas e riam ao vê-las disputar cada migalha. Era uma cena que parecia saída de um filme americano.

As aves se aglomeravam perto das pessoas, esperando o próximo pedaço cair. Brigavam entre si por algo que sequer haviam conquistado.

Mas, um pouco mais adiante, outras gaivotas chamaram minha atenção.

Elas não estavam olhando para os turistas.

Estavam olhando para o mar.

Permaneciam ali, observando as ondas, até que, de repente, mergulhavam em voos rasantes para pescar o próprio alimento.

Foi impossível não pensar na vida.

O conforto das migalhas

Às vezes, acostumamo-nos tanto às migalhas que passamos a acreditar que elas são um banquete.

Aceitamos relacionamentos pela metade, sonhos adiados, oportunidades pequenas, reconhecimento escasso. Aceitamos afeto insuficiente, respeito condicionado, felicidade parcelada.

E, aos poucos, vamos ajustando nossas expectativas.

Não porque o mundo nos convenceu de que merecemos pouco, mas porque nós mesmos passamos a acreditar nisso.

As migalhas têm um poder perigoso: elas não matam a fome por completo, apenas a mantêm viva o suficiente para que a pessoa não perceba o quanto está faminta.

Talvez seja por isso que tanta gente permaneça onde não é feliz.

O medo do mar aberto

Buscar o próprio peixe exige algo que nem todos estão dispostos a enfrentar: risco.

No mar aberto existe a possibilidade do fracasso. Existe o vento contrário, a onda inesperada, o mergulho que volta vazio.

Mas existe também a possibilidade da abundância.

As gaivotas que pescavam não tinham garantia alguma de sucesso. Ainda assim, escolhiam depender da própria coragem em vez da generosidade ocasional dos turistas.

Nós também fazemos escolhas semelhantes todos os dias.

Escolhemos entre permanecer onde é seguro ou avançar para onde há crescimento.

Entre aceitar o mínimo ou buscar aquilo que realmente desejamos.

Entre viver esperando que alguém nos alimente ou desenvolver a capacidade de buscar nosso próprio sustento emocional, intelectual, profissional e espiritual.

O tamanho dos nossos voos

Durante as viagens de navio, gosto de conversar com a tripulação. São histórias muito diferentes.

Há quem esteja satisfeito com a posição que ocupa, juntando recursos para realizar um objetivo específico e depois voltar para casa. Há também quem veja cada função como um degrau, avançando continuamente. Conheci pessoas que começaram servindo café e hoje ocupam cargos altamente especializados.

Nenhuma dessas trajetórias é melhor ou pior.

O que as diferencia não é o cargo.

É a visão.

Algumas pessoas enxergam um horizonte. Outras enxergam apenas o próximo passo.

E talvez a vida seja, em grande parte, determinada pelo tamanho do horizonte que conseguimos contemplar.

E nós?

Observando aquelas gaivotas, percebi que a questão não é financeira, profissional ou social.

É existencial.

Quantas vezes aceitamos migalhas de amor porque temos medo da solidão?

Ou aceitamos migalhas de reconhecimento porque temos medo de nos expor?

E quantas vezes aceitamos migalhas de felicidade porque já não acreditamos que merecemos mais?

Talvez a maior tragédia não seja viver de migalhas.

Talvez a maior tragédia seja esquecer que existe um oceano inteiro diante de nós.

Não somos gaivotas.

Mas carregamos dentro de nós a mesma escolha.

Continuaremos esperando que alguém deixe cair pequenos pedaços de batata aos nossos pés ou teremos coragem de abrir as asas e descobrir o que existe além da margem?

Será que existe alguma área da minha vida estou me alimentando de migalhas? Se estiver à vontade, comente aqui que venho já responder.

Beijos, de sua cronista.

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4 comentários em “As Gaivotas de Sunny Isles Beach”

  1. Que visão linda e profunda, querida.
    Sou apaixonada por gaivotas. Por muito tempo meu livro de cabeceira foi “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach.
    Encontrar nosso lugar no mundo é como esse voo.
    Dá trabalho.
    A independência e o protagonismo tem seu preço.
    Não é fácil buscar seu próprio alimento (sonho) quando as migalhas ou a sobra dos peixes dos pescadores estão ali à mão.
    A vida é feita de escolhas e as ecolhas de momentos.
    Grata por me lembrar Éque o horizonte nos espera. <3

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