E Se a Gente Pudesse…

O tempo, as mudanças e a liberdade de viver no nosso ritmo

Estes dias em alto-mar, retornando a Miami, têm sido bastante interessantes. E não pensem que são dias monótonos, porque não são!

A equipe de entretenimento do navio preparou uma programação tão extensa que, a todo momento, há alguma coisa acontecendo: shows, bingos, aulas de artesanato, seminários sobre o mar, pintura, jogos de arco e flecha, golfe e uma infinidade de brincadeiras americanas que nunca ouvi falar.

Há também aulas de ioga, zumba, danças típicas, culinária, degustações de vinhos e outras bebidas. Enfim, opções não faltam e, quando percebemos, o dia já passou.

Mas, em meio a tantas atividades, uma coisa tem despertado especialmente minha curiosidade.

À medida que avançamos pelo oceano, o capitão Leo, atual comandante do navio, determina que adiantemos nossos relógios em uma hora, de tempos em tempos, para ajustar gradualmente o horário de bordo ao de Miami, nosso destino final e porto de origem desta embarcação.

Um horário só nosso: a curiosidade de mudar o tempo

Até aí, tudo bem. O curioso é que, ao procurar no celular algum fuso horário correspondente àquele determinado pelo capitão, não encontrei nenhum! Precisei ajustar o relógio manualmente.

Ou seja, naquele momento, estávamos vivendo em um horário particular, estabelecido exclusivamente para nós.

Achei aquilo fascinante!

Como nós, simples mortais, podemos brincar com algo aparentemente tão absoluto quanto o tempo? Claro que, nesse caso, trata-se de uma convenção necessária à navegação, mas não deixa de ser curioso pensar que, com uma simples determinação, alguém possa fazer cinco mil pessoas adiantarem seus relógios e reorganizarem suas rotinas.

O tempo continuava passando exatamente como antes. O que mudou foi a maneira como decidimos vivê-lo.

E foi aí que minha imaginação resolveu navegar por outros mares.

E se pudéssemos inverter a ordem das coisas?

E se tivéssemos o poder de modificar, com um simples clique, algumas das regras que organizam nossa existência? Alterar o tempo, o clima, os dias do ano, as fases da Lua… Como pequenos deuses, capazes de reorganizar o mundo de acordo com nossas vontades?

Imaginem só!

Aqui no navio, essa mudança de horário não interfere no funcionamento do planeta. O sol continua nascendo e se pondo, a terra segue seu movimento e o mundo lá fora permanece indiferente às nossas decisões.

Entretanto, para as pouco mais de cinco mil pessoas entre passageiros e tripulantes, criamos uma pequena realidade particular. Um tempo só nosso, ajustado às necessidades e aos interesses daquela comunidade flutuante.

De certa forma, estamos experimentando algo que parece impossível: viver temporariamente segundo um relógio que não corresponde exatamente ao de nenhum lugar em terra firme.

Mas vamos deixar a imaginação correr um pouco mais: e se pudéssemos inverter completamente a ordem das coisas?

Imaginem acordar à meia-noite, dispostos e animados para começar o dia. Em vez de pão, café e frutas, sentaríamos à mesa para saborear um belo bife com feijão e arroz ou batatas fritas. Afinal, quem determinou que certos alimentos pertencem exclusivamente a determinadas horas?

Depois, sairíamos para cumprir nossos compromissos, trabalhar, estudar, passear, resolver os problemas cotidianos. Ao meio-dia, em vez de almoçar, tomaríamos nosso café da manhã. E, quando o relógio marcasse o início da tarde, seria hora de recolher as coisas, voltar para casa e descansar.

Dormiríamos enquanto o sol ainda estivesse brilhando e despertaríamos novamente à meia-noite, prontos para recomeçar.

Estranho? Sem dúvida, mas tenho a impressão de que, depois de algum tempo, tudo pareceria perfeitamente normal. Afinal, o que chamamos de normal muitas vezes é apenas aquilo a que nos acostumamos.

Somos seres adaptáveis: até onde devemos nos acostumar?

Somos seres extraordinariamente adaptáveis. Aprendemos a conviver com mudanças, reorganizamos hábitos, incorporamos costumes e, sem perceber, transformamos o desconhecido em rotina.

Essa capacidade é uma das nossas grandes virtudes. Embora também desperte uma pergunta inquietante: até onde devemos nos adaptar? Será que, em nome da adaptação, não acabamos aceitando situações que deveriam ser modificadas? Tal reflexão merece outra crônica. Por enquanto, vamos continuar brincando com o tempo.

Mudar a rotina também é uma forma de liberdade

O que mais me encanta nessa experiência é perceber que, embora não possamos alterar o movimento dos astros nem acrescentar horas ao dia, temos algum poder sobre a maneira como vivemos o tempo que nos é dado.

E isso não é pouca coisa! Não precisamos esperar que um capitão anuncie pelo sistema de som que chegou a hora de mudar nossos relógios. Podemos, nós mesmos, promover pequenas mudanças na dinâmica da nossa vida.

É claro que existem compromissos, responsabilidades e regras necessárias à convivência em sociedade. Não podemos simplesmente decidir que o expediente começará à meia-noite ou que o mundo inteiro deverá acompanhar nossas vontades, mas, dentro do espaço que nos pertence, há uma liberdade que muitas vezes esquecemos de exercer.

Podemos desacelerar, desligar um pouco o barulho do mundo, diminuir a pressa, reorganizar prioridades e reservar mais tempo para aquilo que realmente nos faz bem.

Também podemos transformar nossa casa em um refúgio, onde as notícias ruins não ocupem todos os cômodos, as preocupações não se sentem permanentemente à mesa e as exigências externas não determinem cada minuto da nossa existência.

E, principalmente, podemos aprender a não transportar para dentro de nós toda a agitação que encontramos lá fora, porque uma coisa é viver no mundo; outra, bem diferente, é permitir que o mundo dite integralmente a maneira como vivemos.

Não se trata de ignorar os problemas, fugir das responsabilidades ou fingir que a realidade é sempre bonita. Trata-se de compreender que, mesmo sem controlar tudo o que acontece ao nosso redor, podemos escolher como organizar parte do nosso pequeno universo.

Podemos mudar hábitos, rever prioridades, cultivar relações mais saudáveis e criar espaços de tranquilidade em meio ao caos.

E, quem sabe, até aprender a dizer alguns necessários “nãos” para oferecer mais “sins” àquilo que nos faz felizes.

Penso que a verdadeira liberdade não está em fazer o tempo obedecer à nossa vontade, mas em não permitir que ele seja inteiramente consumido por aquilo que não escolhemos.

Talvez seja essa a grande lição que levo destes dias em alto-mar.

O capitão Leo NÃO mudou o tempo. Mudou apenas os relógios. E, ao fazer isso, alterou a rotina de algumas de pessoas.

Nós também não temos o poder de mudar o curso do planeta, mas podemos modificar o ritmo do nosso pequeno mundo. Podemos reorganizar os dias, transformar ambientes, melhorar relacionamentos e, sobretudo, mudar a maneira como nos relacionamos com a própria vida.

É uma ideia um tanto utópica? Pode ser, mas nem toda utopia precisa permanecer distante. Algumas começam com gestos tão simples quanto desligar o celular, abrir uma janela, preparar um café sem pressa ou decidir que, naquele dia, a paz terá prioridade sobre a correria.

O nosso tempo, as nossas escolhas

No fim das contas, não precisamos ser deuses para transformar nossa realidade. Basta reconhecer que, mesmo dentro dos limites da vida, ainda existe espaço para nossas escolhas.

E pensar que tudo isso começou porque um capitão, em algum lugar do oceano, resolveu adiantar os ponteiros de um relógio!

Agora, enquanto seguimos navegando rumo a Miami, fico pensando que a vida também poderia nos oferecer, de vez em quando, um aviso pelo alto-falante:

“Senhoras e senhores, informamos que, a partir deste momento, cada um está autorizado a ajustar o próprio ritmo para viver um pouco melhor.”

Ah, se fosse assim tão simples!

Bem, pensando cá com meus botões, quem disse que precisamos esperar por essa autorização?

E você, se pudesse modificar o relógio ou outra coisa em sua vida, o que mudaria primeiro?

Comente aqui abaixo que volto para responder.

Beijos do mar.

2 comentários em “E Se a Gente Pudesse…”

  1. Querida, eu “viajei” nesse “roteiro” de filme de ficção que pode surgir da proposta de alterar o relógio no navio.
    Amei.
    Em relação às pequenas mudanças cotidianas, acredito que sejam possíveis e necessárias.
    Mesmo não tendo essa consciência, vamos mudando nossas rotinas com o tempo, pelas mais diversas razões.
    O grande “pulo do gato” é tomar consciência e ter mudanças como escolhas por mais qualidade de vida.

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  2. Assim como as ondas mudam de direção, nossa vida também exige que mudemos: seja de atitude, costumes, comportamentos, rotinas…. A minha vida já mudou bastante desde quando foi preciso mudar, se fosse pra fazer uma mudança no tempo, eu acho que não faria, se possível gostaria de voltar ao tempo de infância, mais precisamente dos meus 8 aos 15 anos.

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